Porque pode

 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 24/06/2016)

Autor

                 Daniel Oliveira

 

 

Aconteceu. Foi-se julgando que cada ameaço acabava em bem. Foi-se achando que o medo do desconhecido impediria tudo. E se nada chegasse repetia-se o referendo. Bastava colar qualquer tentativa de secessão à extrema-direita xenófoba e o povo civilizado desmobilizava. Não percebiam que com isto apenas legitimavam a extrema-direita xenófoba, transformada em representante da vontade popular.

Na campanha em defesa do “remain” não houve argumentos positivos. Porque qualquer argumento para contrariar o egoísmo seria risível. Seria risível falar de conquistas sociais quando é de Bruxelas que vêm as maiores pressões para reduzir prestações sociais e privatizar serviços públicos. Seria risível falar de prosperidade partilhada quando se assumiu a divergência económica entre Estados como inevitável e se assinou com Cameron um estatuto de exceção. Seria risível falar de direitos humanos depois do acordo celebrado com a Turquia. Seria risível falar de democracia quando Viktor Orbán, que pagou um anúncio no “Daily Mail” em defesa do “remain”, nos prova que os desvios orçamentas são muito mais relevantes do que desvios ditatoriais.

Mal ou bem, havia, do lado do “leave”, uma narrativa compreensível para o futuro: recuperar “o controlo do país”. Do lado do “remain” sobrou a ameaça de cortes orçamentais e aumentos de impostos caso o ‘Brexit’ ganhasse. Sobrava, como sempre, a chantagem. Só que desta vez não resultou. Pelo contrário, estou convencido que teve o efeito oposto.

O Reino Unido não sai porque as doenças da União perturbem mais a sua vida do que a de outros. Pelo contrário, os britânicos já estavam com o corpo quase todo de fora. O Reino Unido sai porque pode. E numa União onde só sobra o medo como discurso, cheira-me que é apenas o primeiro. Irão saindo os que não correrem demasiados riscos.

Bruxelas não vai aprender. A Europa vai olhar para os sintomas, fechar fronteiras, enxotar refugiados. Reforçará o egoísmo das nações mais fortes e dos mais fortes nas nações e o medo das nações mais fracas e dos mais fracos nas nações. E continuará a ignorar a razão da sua falência: deixou de querer garantir mais direitos, mais democracia e mais prosperidade. Sem isto, resta um mercado aberto sem proteção social, a receita perfeita para uma catástrofe política. Olhem para os números deste referendo, ouçam mais quem votou do que quem falou na campanha. Não foram só os mais velhos que votaram no ‘Brexit’. Foram os mais pobres. Foram os mais vulneráveis. Porque será? O medo dos imigrantes é só a reação primária.

Claro que a esquerda poderia ter canalizado o debate do ‘Brexit’ para a defesa da soberania democrática, que recusa a alienação de poderes para instâncias que não dependem do voto popular, e de uma agenda socialista e social-democrata, ilegalizada pelos interesses que capturaram Bruxelas. Mas, entalada entre a xenofobia do “leave” e a chantagem do “remain”, preferiu defender uma União Europeia que já não existe e que nas circunstâncias políticas, institucionais e até jurídicas que foram criadas não voltará a existir.

A esquerda perdeu na Europa e tem medo da Nação, apesar de ter sido no espaço nacional que nasceu e floresceu a democracia. E se a única Europa que lhe resta é a do mercado e a única Nação que imagina é a da raça, a derrota estará sempre garantida.

A saída do Reino Unido terá, para a União Europeia, o efeito psicológico da queda do muro. Quebrou-se o tabu. A partir daqui, as saídas do euro e da União passarão a ser temas banais no debate político. Mais do que salvar esta União, uma tarefa que me parece inviável nas atuais circunstâncias, o debate com futuro é como preparar um retorno pacífico às democracias nacionais, com relações entre Estados realmente voluntárias e de geometria variável. A questão é saber quem liderará este processo. Se continuarmos a deixar que seja a extrema-direita, estamos feitos.

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3 pensamentos sobre “Porque pode

  1. “Não foram só os mais velhos que votaram no ‘Brexit’. Foram os mais pobres. Foram os mais vulneráveis. Porque será?”
    Porque a social-democracia \ socialismo democrático falhou em TODA A LINHA quando permitiu a “3ª via”, quando deixou de cuidar das pessoas e passou a preocupar-se com a saúde dos mercados.
    Os mais velhos de hoje, os que passaram as agruras do pós guerra que sacrificou os pais, seguiram Lideres que tinham um projecto politico de solidariedade e paz para a Europa. Hoje, muito dos mais velhos vive pior do que há 16 anos mas, pior do que isso, antevê na vida dos filhos um futuro incerto, provavelmente mais dificil e talvez mais pobre, já que todos os dias paga mais e recebe menos do “edificio” que ajudou a construir e que a subjugação aos mercado tem ajudado a destruir.
    Enquanto a esquerda progressista, e a direita conservadora, não rejeitarem a supremacia dos mercados sobre o bem estar das pessoas, os extremos politicos, saberão como manipular este sentimento de frustração que envolve aqueles que não foram tocados por midas.
    comecei por projectar castelos, hoje empenho-me na concepção de uma mochila onde levar a vida

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  2. Há duas horas, e em menos de 48, uma petição para a realização de um novo referendo sobre a permanencia do Ru na UE atingiu 1.500.000 assinaturas, 15 vezes mais do que as necessárias para que obrigatóriamente tivesse de ser debatida no Parlamento. A adesão é tanta que levou ao crash do site.
    Neste instante são 1.973.227 !!! (https://petition.parliament.uk/petitions/131215)
    Nicola Sturgeon, a First-Minister da Escócia, declara que vão ser imediatamente iniciadas conversações com Bruxelas para a permanencia do país na UE.
    Na Irlanda do Norte debate-se ao mais alto nivel a unificação com a Republica da Irlanda.

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