Já não há Banco de Portugal

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 27/05/2016)

nicolau

Cada vez é mais evidente que o Banco de Portugal já não é o Banco de Portugal, mas uma agência do Banco Central Europeu, que atua por ordens de Frankfurt e que, quando decide pela sua cabeça, desculpa-se depois com as ordens que supostamente vêm de fora. Os exemplos já são muitos mas hoje surgiu mais um.

Pelo seu estatuto orgânico, o Banco de Portugal apenas obedece ao BCE. O governador é inamovível e não pode ser demitido pelo Governo, a não ser no caso de falha grave (mas até agora nunca tal aconteceu em nenhum país da União Europeia). E quando o país foi obrigado a cortar duramente em salários e reformas, os funcionários do Banco de Portugal mantiveram-se olimpicamente “a latere” desse esforço.

A primeira grande confusão veio, contudo, com a resolução do BES. Supostamente, o BCE decidiu exigir num fim-de-semana uma linha de crédito de três mil milhões concedida ao banco e impedir o seu acesso para se refinanciar junto do Eurosistema. O Governo PSD/CDS não lutou contra esta imposição, o Banco de Portugal também não e o terceiro maior banco do sistema, na altura já liderado por uma pessoa escolhida e convidada pelo próprio governador, Vítor Bento, foi mesmo riscado do mapa, com prejuízos enormes para milhares de depositantes e acionistas e para a economia nacional.

Não contente com isto o Banco de Portugal voltou a ter uma atuação perfeitamente opaca no caso do Banif, cuja resolução impôs em Dezembro de 2015, depois de ter assistido de forma passiva à aparente degradação da situação, tanto mais que tinha um homem nomeado por si na administração do banco, que depois passou a ser o responsável pela supervisão do banco central. Para além do custo para acionistas e clientes, desta vez os contribuintes também receberam uma fatura de três mil milhões para pagar. E o governador atirou responsabilidades para cima de todos (o presidente do Banif, o anterior e o atual Governo, a Comissão e o BCE), menos para si próprio.

Não contente com isso, o Banco de Portugal decidiu de repente passar cinco emissões obrigacionistas que estavam no Novo Banco para o banco mau, o que atraiu as atenções dos investidores internacionais para a situação do país e pressionou as taxas de juro da dívida pública para a alta, além de criar uma desconfiança acrescida na atração de investimento estrangeiro e novas pressões das agências de rating.

Agora, pelos vistos, o Banco de Portugal quebrou uma regra que se repetia anualmente: entregar os seus dividendos ao Estado em Abril, já que fecha as suas contas em Março. Pois bem, este ano passou essa entrega para Maio, o que está a ser um motivo adicional para em Bruxelas se pedir que o país seja alvo de sanções (pelos resultados de 2015) e que ponha em prática novas medidas (porque a evolução orçamental não está em linha com o previsto).

Disse o primeiro-ministro que, se o Banco de Portugal tivesse entregue as verbas em causa em Abril, a evolução orçamental estaria em linha com o previsto e seria mesmo mais favorável. Mais: explicou que bastaria isso para que o défice estivesse com uma evolução melhor, mesmo que o Banco de Portugal, justificando-se com uma alteração de regras, vá entregar este ano ao Estado apenas um terço do que entregou em anos anteriores.

Ora mesmo sem uma pessoa ser adepto das teorias da conspiração, começam a ser casos demais contra os interesses do país. Ou se levarmos a teoria ainda um pouco mais longe, começam a ser casos demais contra o atual Governo, com que obviamente o governador não compartilha as mesmas opções económicas e ideológicas.

Convenhamos, por isso, que Carlos Costa começa a estar a mais na liderança do Banco de Portugal. Mas como manifestamente não se vai demitir, então talvez seja boa ideia começar a chamar-lhe funcionário superior do BCE e não governador do Banco de Portugal – que, como digo, já não existe. O que há é uma casta de funcionários, que não estão sujeitos às leis do país, liderados por um senhor que está sempre do lado de Bruxelas e Frankfurt – e não de Portugal.

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6 pensamentos sobre “Já não há Banco de Portugal

  1. O PSD ja levou a falência quatro bancos, BPN,BPP, BES e BANIF. Carlos Costa esteve nos ultimos dois BES e BANIF. Se tivesse so que fosse um pouquinho de vergonha ja se teria demitido. Como tal não acontece fica para rebentar com os que faltam e a CGD ja se fala numa injeção de quatro mil milhões, mas parece que não vai chegar. Dos outros nem vale a pena falar, mas ate quando vamos ter de aguentar. Algo vai mal no Reino de Sua Majestade, a banca a falir, os jovens a emigrar e os velhos a esticar o pernil nas urgências dos hospitais.http://viriatoapedrada.blogspot.pt/2016/02/crise-bancaria-na-europa-deustche-bank.html

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  2. A atitude do Banco de Portugal roçar a provocação ao Governo e à atual maioria: retém verbas; adia a sua entrega; pede reservas maiores aos bancos, dificultando à atividade económica; divulga, sistematicamente, o nível da dívida, quando antes não o fazia; nos meses em que a divida baixa, o Banco de Portugal não divulga. Em suma, o Banco de Portugal, entidade que sempre mereceu o respeito dos portugueses, transformou-se, sob o comando de Carlos Costa numa instituição alarmistas, que prejudica, objetivamente, o País. Parece que, sabendo as dificuldades formais a que, segundo as regras europeias, implica demitir a autoridade máxima de um banco central de um país, o Carlos Costa quer esticar a corda para deixar o Governo entre a espada e a parede. Está na altura de os patriotas se mobilizarem nas ruas contra esta ameaça viva e agente provocador ao interesse nacional.

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  3. A atitude do Banco de Portugal roça a provocação ao Governo e à atual maioria: retém verbas; adia a sua entrega; pede reservas maiores aos bancos, dificultando à atividade económica; divulga, sistematicamente, o nível da dívida, quando antes não o fazia; nos meses em que a divida baixa, o Banco de Portugal não divulga. Em suma, o Banco de Portugal, entidade que sempre mereceu o respeito dos portugueses, transformou-se, sob o comando de Carlos Costa numa instituição alarmistas, que prejudica, objetivamente, o País. Parece que, sabendo as dificuldades formais a que, segundo as regras europeias, implica demitir a autoridade máxima de um banco central de um país, o Carlos Costa quer esticar a corda para deixar o Governo entre a espada e a parede. Está na altura de os patriotas se mobilizarem nas ruas contra esta ameaça viva e agente provocador ao interesse nacional.

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