Afinal, em que pé estamos?

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 29/04/2016)

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Baptista Bastos

Há muito tempo que não tínhamos um Presidente da República com este estofo e estilo. Lembra os primeiros Presidentes republicanos, que se misturavam com o povo para o sentir e ouvir.


As comemorações do 25 de Abril tiveram, este ano, uma enorme dimensão de afecto e de participação. As condições políticas e sociais são outras. E o próprio Presidente da República, com a presença e palavras estimulantes, “descrispou” o sufocante ambiente em que vivíamos. “A Direita terá de encontrar outro caminho”, disse, depois de apelar a consensos no que considera fundamental. Marcelo Rebelo de Sousa percebe, e disse-o, que não podemos andar em campanhas eleitorais permanentes, pois os ideais democráticos desgastam-se. Não esqueçamos de que Marcelo, há anos, disse que “a Direita é a mais estúpida da Europa.” E não parece ter alterado a opinião. Não sei se é a “mais estúpida”; é, certamente, detentora de uma arrogância e de uma soberba insuportáveis, pois julga-se senhora do poder por direito irretorquível e, acaso, divino. Entretanto, o Presidente granjeia cada vez mais simpatias. Manuel Alegre, ao receber um prémio literário, afirmou que certamente irá votar num eventual novo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa.
Estamos a milhas da contractura criada pelo dr. Cavaco e dos apertos morais e políticos continuados pelo dr. Passos Coelho. Com estes dois, a atmosfera tornou-se extremamente pesada: tinham-nos furtado a esperança, imposto normas e comportamentos que calafetaram a respiração social e política do país. As sondagens valem o que cada um de nós lhes quiser atribuir; no entanto, estão a corresponder ao que a generalidade dos portugueses aspira.

A nossa responsabilidade individual e colectiva não é de somenos importância, num tempo em que as imposições da União Europeia atingem níveis insuportáveis. Os governos submetem-se a essa nova tirania, porque o Banco Central, a Comissão Europeia e o FMI administram as decisões com total impunidade e desconhecimento histórico e cultural das características de cada nação. Nenhum país é igual ao outro, e a aplicação de regras gerais, como se desenhadas com régua e esquadro, apenas tem levado a miséria e o sofrimento aos povos.

Esta situação anómala porque unilateral não pode continuar. Marcelo Rebelo de Sousa já compreendeu a enormidade da anomalia. E, parece, não estar disposto a colaborar numa ideologia que tripudia nos princípios com que a União Europeia foi fundada. Os avisos ao consenso, e as advertências à Direita são significativos, assim como a reiteração pessoal de que é um europeísta convicto podem querer apelar a uma resistência, por parte dos governos europeus, às absurdas e impiedosas decisões desta troika indiscriminada e sem vigilância. Claro que o Governo português não agrada à actual direcção da União Europeia, e que as nações que lhes não são simpáticas têm de demonstrar dignidade e decência de modo a enfrentá-la.

Há muito tempo que não tínhamos um Presidente da República com este estofo e estilo. Lembra os primeiros Presidentes republicanos, que se misturavam com o povo para o sentir e ouvir. O Palácio de Belém deixou de ser uma fortaleza guardada com armas na mão: simboliza, de novo, uma presença afectuosa de vigília e de atenção aos outros. E é bom que assim seja.

Nas cerimónias parlamentares do 25 de Abril, lá estava o dr. Cavaco, hirto e desconfortável, contrastando com a simpatia e afabilidadade do casal Eanes, e que, num tempo bem difícil da sociedade portuguesa, esteve à altura, com grandiosidade e grande coragem, das funções que desempenhava.

É bom que estes factos não entrem nos domínios do esquecimento e que a honra da nação seja defendida e preservada, sem a subserviência humilhante a que nos querem habituar.

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