Sociedade doente

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 04/03/2016)

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Baptista Bastos

Perdeu-se noção da responsabilidade numa época que se devora a si mesma, sem nada oferecer em troca.

Um procurador da República está detido por suspeita de corrupção. Até ser acusado, se o for, é inocente. No entanto, a situação assume extrema gravidade, e enodoa um alto funcionário do Estado, ao mesmo tempo que alarga a mancha de dúvidas sobre as instituições, já atingidas, moral e juridicamente, por inúmeros casos sórdidos.

A mentira, a aldrabice, o cambalacho constituem a carta de alforria de uma sociedade que este ‘sistema’ corroeu até à medula. Anteontem, o Dr. Passos, com a desfaçatez que se lhe reconhece, disse, numa escola da Amadora, nunca “ter convidado os portugueses a emigrar”. E acrescentou: “Mas a emigração pode ser a última alternativa ao desemprego.” Mentir é ultrajante; mentir aos miúdos é pecado venial. Atribuam, os meus dilectos, ao Dr. Passos a classificação por ele merecida. Para mim não passa de um tipo instável, em zaragata sem tréguas com a verdade.

O facilitismo alimenta a ganância, a ganância é produto de um tempo que estimula a ‘competitividade’, e esta origina a liquidação dos valores e dos padrões, ao contrário do que se propaga. Perdeu-se a noção da responsabilidade numa época que se devora a si mesma, sem nada oferecer em troca. Quando os exemplos que vêm de ‘cima’ podem sugerir que tudo é permitido, então, navegamos num mar de múltiplas incertezas. A desconfiança enredou-se em todos nós. No trabalho, nas relações sociais, no amor e, até, na futilidade maldosa de que as nossas televisões constituem a imagem mais nítida.

 A detenção de um procurador da República, como, aliás, a de um ex-primeiro-ministro, são de molde a fazer-nos reflectir que tipo de país desejamos. Pertenço a uma grande geração que se bateu, com abnegada coragem, para que Portugal fosse outro, melhor, de todos e para todos.

Chegados a isto, talvez sejamos responsáveis por um mundo que, na realidade, nunca quisemos.

4 pensamentos sobre “Sociedade doente

  1. Revejo-me e releio-me no ultimo periodo. Tenho 62 anos. Tive lutas conquistas e em 1974 esperança. Tambem foi obra minha. Hoje porem pergunto-me: – Valeu a pena? – E calo-me pois que a resposta me embaraça. Passados 48 anos, digo, ” nao, nao valeu a pena pois o que tenho hoje como classe politica e empresarial no pais é bem pior do que aquela contra quem abnegadamente lutei. Os meus filhos e netos nao tem bandeiras, objectivos, valores porque lutar. Eu sou o responsavel. Herdaram tudo feito (mal feito) habiuaram-se a ver e a conviver com a corrupçao, com a mentira desbragada e despudorada dos mais altos dignatarios da naçao. Mentir, ser-se irresponsavel, sair impunemente dos actos de gestao sao os valores que os meus filhos aprederam infelizmente como comportamento social aceitavel e de progressao licita. E eu… olho com olhos tristes e penso. “O que é que eu fiz” Como pude deixar que o meu sonho seja agora o pesadelo da minha prole. E calo-me envergonhado asfixiando a minha culpa.

  2. Um bem haja a Batista Bastos;
    Um lamento à Comunicação Social que destaca e tenta reverter e repor o LIXO de Políticos do anterior Governo;
    Um desejo que a DIREITA seja menos porca/mal-cheirosa e nos atinge:
    –> Que os “neo-nazis” Paulo Rangel, Paulo Portas, Pedro P. Coelho, Nuno Melo e outros (Comentadores, “Analistas”, etc) se comportem como Portugueses responsáveis, dentro e, sobretudo, fora do País.

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