Honra ao jornalismo digno

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 04/03/2016)

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Baptista Bastos

A ascensão da economia a lugar de importância, mesmo relativa, transformou o jornalismo numa mácula desavergonhada. O “economês” destruiu a reportagem e a pesquisa, e reduziu a notícia a uma mascarada.


Nicolau Santos, um dos dois ou três jornalistas (não mais) que merecem ser lidos porque recusam o “pensamento único” e escrevem segundo a sua consciência moral, assinou um texto no qual assinala a subserviência da comunicação social portuguesa. Li-o no “sítio” da Associação 25 de Abril, que costuma reproduzir aqueles comentários fugidos à rede do “sistema.” Como, há muitos anos, deixei de frequentar o Expresso, que publica as opiniões de Nicolau Santos, nem sempre acompanho os seus comentários. Este, a que me refiro, verbera a Imprensa, em geral, por ser tão pressurosa em noticiar tudo o que critica Costa e o seu Governo, e omissa quando o sinal é contrário. E refere o caso de uma importante agência internacional que elogia o facto de estarmos no caminho certo. Nicolau Santos serve-se de uma ironia que lhe é peculiar, sem nunca deixar de exercer a pedagogia cívica e ética que é seu timbre e deveria ser a marca d’água de um jornalismo desejadamente livre. E que o não é. Nicolau Santos sabe do que fala; e eu também. Ele que se acautele, pois actua em terreno armadilhado e pleno de perigos.

Quando um autor não segue as instruções subtilmente impostas, já se sabe: rua com ele. Anda por aí um advogado que faz o trabalho sujo. E a Imprensa portuguesa, por míngua de carácter, de honra e de dignidade, é o que é. As excepções são poucas. A ascensão da economia a lugar de importância, mesmo relativa, transformou o jornalismo numa mácula desavergonhada. O “economês” destruiu a reportagem e a pesquisa, e reduziu a notícia a uma mascarada. Tudo é esmagado pela lógica dos “mercados”. Numa destas televisões, um indivíduo de grave cariz segue o que diz o Financial Times, a bíblia do capitalismo, e nem sequer o oculta. Os convidados que escolhe, para lhe preencher os programas, são de “confiança.” Não há crítica, nem debate, nem afrontamento, a não ser que, no Governo, esteja quem não agrade ou não seja da cor do “apresentador.”

Tenho muitos amigos em todos os meios de comunicação, e sei de histórias e façanhas que deixariam no lugar do morto os antigos jornalistas do Diário da Manhã, das Novidades e de A Voz. Nada do que se diz agora se fixa, se constitui como exemplo ou como indicador de uma espécie de moral em acção. O que Nicolau Santos diz, no artigo que li, corresponde a uma verdade dolorosa, ao mesmo tempo que adverte os manipuladores dos factos de que as coisas nunca são para sempre.

Claro que há sempre factótuns propensos às maiores indignidades e infâmias. A ordens de outrem esvaziam os jornais e as televisões e as rádios de conteúdo sólido e impõem a futilidade como norma. Não é a era do vazio; é a era do ultraje. Sei muito bem do que falo, até por experiência pessoal. Um dia, a um saneador que me mandara embora, porque escapava às regras, escrevi: “O senhor julga que me amordaça, mas pode crer que até escreverei nas paredes, seja caso disso.” Na carta, acrescentei outras coisas, que o pudor me impede de reproduzir.

Não há valentia nenhuma em defender a dignidade de uma nobre profissão. É um dever. Com essa convicção, aqui saúdo o meu camarada Nicolau Santos, por aquele e por outros artigos de que é autor, e me dão aprazimento e ensino.

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