VIDA DE POLÍTICO

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 26/09/2015)

Clara Ferreira Alves

                         Clara Ferreira Alves

O político a tempo inteiro não age, reage. Reage aos media, reage aos rumores, reage às notícias, reage às frases, reage às definições e, por grosso, reage à realidade

Não sei muito bem qual a vida de um político. Um político de um grande partido. Sei que não é fácil estar num palco 24 em 24 horas. Faz perder de vista a realidade. Um político vive rodeado de uma corte, que serve simultaneamente de barreira contra o mundo real e de filtro da realidade. Os cortesãos e conselheiros vão mediando a relação com os outros e com os factos e vão-lhe dizendo como se comportar perante este ou aquele acontecimento ou pessoa. O político a tempo inteiro não age, reage. Reage aos media, reage aos rumores, reage às notícias, reage às frases, reage às definições e, por grosso, reage à realidade. A reação é o resultado da ação, não a sua, a que os cortesãos lhe aconselharam. Além dos cortesãos existem os corpos políticos nacionais e internacionais que rodeiam o político. No caso do político no governo, os ministros e os secretários e subsecretários e a legião de burocratas que os acompanham mais os respetivos cortesãos e conselheiros. Toda esta massa, que podia ser massa crítica, silenciosa ou não, reage entre si como substâncias químicas. Dadas as relações de interdependência, tendem a reagir corporativamente. A lealdade ao partido sobrepõe-se a todas as lealdades, e a lealdade ao primeiro-ministro sobrepõe-se às veleidades de um pensamento próprio. O acesso aos cargos de topo é condicionado pelo exercício desta lealdade. Os irreverentes, rebeldes e independentes são mal tolerados na hierarquia e perdem acesso.

No caso do político na oposição, a vida não é muito diferente, com a diferença de que os gabinetes substituem os ministérios e a vida partidária sobrepõe-se, com a sua estratificação de lealdades, à vida governamental. O acesso é novamente condicionado, embora mais aberto do que no caso do governo. Apesar de o acesso ser mais livre, a querela intrapartidária obriga à formação de grupos de ação e reação que tendem a anular-se uns aos outros em segredo e aos quais os jornalistas gostam de chamar nomes terminados em istas. Costistas, seguristas, socratistas, soaristas, guterristas, etc. Os istas do contra vão-se diluindo com o tempo no poder.

A tarefa principal do político na oposição é reagir ao político no governo, que tem o privilégio e a desvantagem da ação política. O político do governo fez, o da oposição diz que vai fazer. Exige crença suplementar. A de que fará melhor do que o adversário. A articulação deste futuro indicativo, torpedeado pelos adversários e pelos comentadores, é hoje decidida pelos tecnocratas. Mais do que a crença, que está fora de uso, o que beneficia o político da oposição é a oposição popular. Aqui se encontra a única margem de manipulação política. Hoje ganham-se eleições porque outros as perdem. O que quer dizer que a ação e a reação devem ser voltadas para o discurso negativo e não para o positivo. Não é tanto o que vou fazer como aquilo que o outro não fez ou fez mal. Os articulados exigiriam subtilezas que, novamente, são abolidas ou filtradas pelas legiões de profissionais e políticos que rodeiam o político e pelos media ávidos de título e soundbite. No news is bad news para a informação. As legiões substituem a convicção pelo efeito. Não diga o que ele faz mal, diga o que as pessoas acham que ele faz mal mesmo que ache que faz bem.

O político do governo está manietado pela continuação da ação. Se mudar de ação, será acusado de fraqueza. Se não mudar de ação, pode ser punido com a derrota. Introduzir neste círculo vicioso da política mediada um elemento de verdade é impossível. Todo o sistema de ação e reação assenta na previsibilidade. Tanto mais que o jornalismo, que se tornou perito em prever e aconselhar em vez de noticiar, é tão previsível como a política. Os segredos e as verdades são para serem camuflados pela diplomacia e a hipocrisia de interesses e cumplicidades. Eu sei que tu sabes que eu sei.

Não admira que a campanha eleitoral pareça — e não passa de aparência — uma abertura, uma brecha no muro. Os pássaros saem da gaiola. Não podem dizer o que querem, mas podem sair do carro oficial, do círculo de cortesãos e conselheiros, sair da rota entre a casa e a sede, entre o gabinete e o gabinete, entre o avião e a reunião. Podem comer um pastel de bacalhau com o povo. Não são as inaugurações e as feiras, as Ovibejas e as fábricas, são instantes de vida quase normal. Tomam uma bica no café da vila, cumprimentam os velhos, ouvem as queixas das mulheres, pisam a rua. São vaiados e ovacionados com alguma sinceridade, apesar da camioneta que o partido manda “para compor a coisa, senhor doutor”. Podem dizer uma graça da sua cabeça, podem engasgar-se, podem chorar, podem rir. E podem divertir-se se fizerem parte do grupo de políticos que aprecia o banho de multidão e as imperiais ao balcão.

As campanhas eleitorais são dias de folga. Tirando isto, não sei para que servem.

Fraudolentonomia

(Sandro Mendonça, in Expresso, 26/09/2015)

Sandro Mendonça

       Sandro Mendonça

Mais um megaescândalo empresarial. Desta vez foi o grupo VW que instalou uma tecnologia mentirosa para iludir a inspeção de 11 milhões de veículos diesel em todo o mundo. A empresa aparenta ter feito com os supervisores sectoriais aquilo que a Grécia foi acusada de fazer com o Eurostat. A diferença é que esta fraude ocorreu utilizando competências internas e com consequências graves, pois as emissões excessivas de óxido de azoto matam.

O vice-chanceler alemão e ministro da Economia, Sigmar Gabriel, apressou-se a dizer que se tratou de “um mau episódio”. No entanto, perante a evaporação imediata de €13 mil milhões de euros de valor bolsista e a perspetiva de uns €20 mil milhões em indemnizações o chefe da VW demitiu-se.

Não, Sr. Sigmar. O que tivemos aqui foi a mobilização direta, deliberada e determinada de ciência e tecnologia para iludir os testes de um regulador. Sim, desde a manipulação massiva das taxas de juro interbancárias e a má conduta das grandes instituições financeiras já sabíamos que a sofisticação impera onde não deveria. Note-se ademais que o caso em questão foi detetado pelas autoridades norte-americanas, pois por cá parece que os polícias da casa não fazem milagres.

Há então uma epidemia de engano, extorsão, corrupção e redistribuição criminosa em curso. Neste e noutros sectores. Nestes e noutros países. Como sabemos.

Descobre-se uma epidemia de ilusão e engodo de proporções épicas

Um construtor como a VW, o maior fabricante europeu, é sempre olhado como referência no sector e uma fonte de “melhores práticas”. Todo o sector automóvel está, portanto, sob suspeita. Por exemplo, o peso da motorização a gasóleo nas vendas de marcas como a BMW e a Daimler é cerca de 80% e 70% respetivamente. O impacto não é modesto: as vendas diesel são 19,8% do mercado automóvel mundial, 53% do mercado europeu. No Reino Unido são associadas 60 mil mortes por ano a este tipo de poluição e é-lhe atribuída a névoa tóxica permanente (smog) em cidades como Paris, precisamente onde vai decorrer a conferência das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas.

Ou seja, a economia real também precisa de ser reformada. A produção precisa de ser limpa. Não são só os consumidores que costumam ser as vítimas. Os trabalhadores também. Mesmo em unidades eficientes como a Autoeuropa, onde agora é preciso estar alerta.

Sabemos que sobra sempre para quem não tem culpa nenhuma. E sobra para Portugal. Uma das marcas do ainda atual Governo português é ter sido responsável por boicotar o programa de mobilidade elétrica. Tão oportunamente estratégico que seria agora, como se irá ver. Tamanha falta de visão não foi episódica, é épica. Basta.

De medo em medo

(Daniel Oliveira, in Expresso, 26/09/2015)

         Daniel Oliveira

                     Daniel Oliveira

A comunicação social tende a sobrevalorizar a sua própria importância nas escolhas dos eleitores. É natural que assim seja. Todos gostamos de nos sentir importantes. Mas a verdade é que a maioria decide o seu voto com base na sua experiência pessoal: o desemprego, a perda de rendimentos, os filhos que emigraram, os apoios sociais perdidos. Ou nas expectativas que têm sobre o futuro. Aquilo a que normalmente chamamos de indecisos são, na realidade, uma minoria. Uma minoria que acaba, muitas vezes, na abstenção. Mas pode ser ela, geralmente menos informada, a decidir eleições. Muitas vezes, o que determina o resultado são os abstencionistas intermitentes. Por isso, a campanha serve sobretudo para desmoralizar ou moralizar o eleitorado de um determinado espaço político e que é potencialmente abstencionista.

Naquilo em que a comunicação social conta muito é na construção da narrativa dominante sobre uma campanha e no processo de dramatização de que ela própria depende para vender o seu peixe. E o que marca a narrativa dos media são sobretudo as sondagens — algumas delas, como a da RTP, são tracking polls com base nessa cada vez mais rara arqueologia que são os eleitores que usam telefone fixo. Mesmo depois dos monumentais falhanços no Reino Unido, na Grécia e nas eleições legislativas de 2011, em que um empate técnico era afinal uma diferença de 10%. Esta dramatização beneficia a bipolarização e trava, eleição após eleição, a renovação do sistema político. Sobretudo quando a comunicação social cumpre o papel de guardiã do que existe e, com a ajuda de sondagens inúteis na aferição dos votos potenciais em pequenas candidaturas, relega para a obscuridade o que é novo e tem reais possibilidades de mudar o panorama partidário. Como se viu nas europeias, com o MPT e o Livre, ou nas eleições regionais da Madeira, com o JPP, os jornalistas são incapazes de reagir à novidade antes dela se ter consumado. Chegam à notícia quando já não é notícia.

A bipolarização, forçada pela dramatização e pela ocultação do que é novo, reduz drasticamente a escolha dos eleitores. E, com isso, a sua própria exigência. Saltam de voto útil em voto útil até, por nunca terem votado em quem realmente os pudesse representar, passarem do voto útil para voto nenhum. Votaram em Sócrates porque tinham medo que Santana ganhasse. Votaram em Passos porque tinham medo que Sócrates ganhasse. O ambiente de medo, que chantageia os eleitores para não votarem em quem concordam ou confiam, penaliza sobretudo os que estão, porque são recentes ou porque não querem governar, fora da alternância: PCP, BE e Livre/Tempo de Avançar. Aliás, a crónica indisponibilidade dos dois primeiros para soluções de governo é uma das maiores aliadas do discurso do voto útil.

Mas este tempo de crise tem sido, como sabemos, repleto de surpresas políticas. A 4 de outubro veremos se a memória do que foi o PS a governar com rédea solta e do que foi a tragédia social dos últimos quatro anos pesa mais do que a dramatização de última hora. Como temos visto noutros países europeus, há um momento em que, para muita gente, se quebra a rotina. É nessa altura que os sistemas políticos mudam e com eles muda realmente alguma coisa.