Fraudolentonomia

(Sandro Mendonça, in Expresso, 26/09/2015)

Sandro Mendonça

       Sandro Mendonça

Mais um megaescândalo empresarial. Desta vez foi o grupo VW que instalou uma tecnologia mentirosa para iludir a inspeção de 11 milhões de veículos diesel em todo o mundo. A empresa aparenta ter feito com os supervisores sectoriais aquilo que a Grécia foi acusada de fazer com o Eurostat. A diferença é que esta fraude ocorreu utilizando competências internas e com consequências graves, pois as emissões excessivas de óxido de azoto matam.

O vice-chanceler alemão e ministro da Economia, Sigmar Gabriel, apressou-se a dizer que se tratou de “um mau episódio”. No entanto, perante a evaporação imediata de €13 mil milhões de euros de valor bolsista e a perspetiva de uns €20 mil milhões em indemnizações o chefe da VW demitiu-se.

Não, Sr. Sigmar. O que tivemos aqui foi a mobilização direta, deliberada e determinada de ciência e tecnologia para iludir os testes de um regulador. Sim, desde a manipulação massiva das taxas de juro interbancárias e a má conduta das grandes instituições financeiras já sabíamos que a sofisticação impera onde não deveria. Note-se ademais que o caso em questão foi detetado pelas autoridades norte-americanas, pois por cá parece que os polícias da casa não fazem milagres.

Há então uma epidemia de engano, extorsão, corrupção e redistribuição criminosa em curso. Neste e noutros sectores. Nestes e noutros países. Como sabemos.

Descobre-se uma epidemia de ilusão e engodo de proporções épicas

Um construtor como a VW, o maior fabricante europeu, é sempre olhado como referência no sector e uma fonte de “melhores práticas”. Todo o sector automóvel está, portanto, sob suspeita. Por exemplo, o peso da motorização a gasóleo nas vendas de marcas como a BMW e a Daimler é cerca de 80% e 70% respetivamente. O impacto não é modesto: as vendas diesel são 19,8% do mercado automóvel mundial, 53% do mercado europeu. No Reino Unido são associadas 60 mil mortes por ano a este tipo de poluição e é-lhe atribuída a névoa tóxica permanente (smog) em cidades como Paris, precisamente onde vai decorrer a conferência das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas.

Ou seja, a economia real também precisa de ser reformada. A produção precisa de ser limpa. Não são só os consumidores que costumam ser as vítimas. Os trabalhadores também. Mesmo em unidades eficientes como a Autoeuropa, onde agora é preciso estar alerta.

Sabemos que sobra sempre para quem não tem culpa nenhuma. E sobra para Portugal. Uma das marcas do ainda atual Governo português é ter sido responsável por boicotar o programa de mobilidade elétrica. Tão oportunamente estratégico que seria agora, como se irá ver. Tamanha falta de visão não foi episódica, é épica. Basta.

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