Há mais mentira para além do déficit

(Estátua de Sal, 29/09/2015)

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Este governo chegou ao poder com base nas falsas promessas, que sabia falsas, e com base na crítica aos supostos desvarios do governo anterior na gestão das contas públicas, pretendendo vender uma imagem de probidade e rigor na gestão do Estado.

Pois bem, hoje veio a saber-se que afinal, manipula as contas públicas de forma a que o deficit tenha melhor aspeto, de forma a enganar os portugueses, e a própria Comissão Europeia, podendo assim vangloriar-se de louros que não tem e de méritos que as políticas de desastre que seguiu manifestamente não possuem. Afinal, contrariamente ao que Passos badala por aí, nesse aspeto, Portugal é como a Grécia.

Parece que não é só Ricardo Salgado que falsifica contabilidades, e a Volkswagen que falseia testes aos motores. Passos e Maria Luís, também falseiam dados das empresas públicas para embelezarem os efeitos das suas políticas de devastação.

Vem isto a propósito de se ter hoje sabido que existiram indicações da Ministra das Finanças à Parvalorem – empresa que gere o ativos tóxicos do defunto BPN -, para que não transparecessem nas suas contas, em 2012, o real nível de tal toxicidade, continuando a contabilizar como ativos saudáveis, créditos sobre terceiros que nunca irá ter possibilidade de receber. Ou seja, desviando do deficit e ocultando do país a real dimensão dos prejuízos que o BPN trouxe aos contribuintes.

Mas, o mais cínico e caricato, é Passos Coelho e comandita, continuarem a usar o caso da intervenção do Estado no BPN como arma de arremesso contra o governo de Sócrates, quando é mais que sabido que o BPN era o “Banco do PSD” e para o PSD, tendo beneficiado as luminárias do PSD da maior parte dos créditos agora dados como incobráveis e por isso tóxicos. Antigos ministros e secretários de estado do PSD enxameavam as cúpulas e a lista dos beneficiários do BPN: Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Arlindo de Carvalho, e Duarte Lima – só para citar os mais mediáticos. E tal disseminação laranja ocorreu sempre com a cobertura dessa eminência parda que é Cavaco Silva, a quem o BPN também “deu esmola” em negócios de ações nunca cabalmente explicados. Se Sócrates é criticado por ter um amigo que lhe emprestava dinheiro, o que não dizer de Cavaco cuja amizade com Oliveira e Costa lhe rendeu milhares de euros, não emprestados, mas dados limpinhos e sem osso?

Também se soube hoje que a taxa de desemprego subiu em Agosto, relativamente ao mês de Julho. Ora, sendo Agosto um mês em que se criam empregos de caráter sazonal, mormente no setor do turismo, mais uma vez a narrativa do país pintado a cor de rosa que a coligação quer vender, começa a abrir brechas.

Esta coligação da direita é perita na mentira e na manipulação. Ele são os números do desemprego, artificialmente reduzidos com falsos estágios e cursos de formação. Ele são os números da dívida, ele são os números do deficit, ele são os números das sondagens que compram e distribuem por aí para manipular os eleitores, ele é tudo o mais que ainda hoje não sabemos e que é escondido com todo o zelo e afinco por baixo do tapete.

Compreende-se agora, a convicção de Passos e Maria Luís, quando continuam a dizer, contra todas as previsões das organizações estatísticas nacionais e internacionais que Portugal irá atingir em 2015 o deficit de 2,7%. Já devem ter pago a uma qualquer multinacional de consultoria o dossier que lhes vai permitir ocultar dívida pública, de forma a atingir o objetivo.

Perante este cenário, eu continuo só a ter uma esperança. É que os portugueses, em 4 de Outubro, para lá dos programas políticos, para lá dos casos de campanha, para lá da intoxicação que toda a comunicação social amestrada que temos vai disseminando com insídia, para lá das clivagens direita/esquerda, votem na seriedade.

E um cidadão que vote na seriedade, e com seriedade, jamais poderá votar PAF. Porque, seriedade, e palavra honrada é tudo aquilo que a coligação de direita não tem.

Estátua de Sal, 29/09/2015

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É mau, mas quem é que quer saber?

(José Pacheco Pereira, in Público, 26/09/2015)

Pacheco Pereira

           Pacheco Pereira

Portas, que desonra o honesto capacete de aço dos trabalhadores dos estaleiros, fez, antes de sair de Viana, uma prece a Santa Luzia para que ilumine os eleitores para que votem no PaF.


Eu acho que a comunicação social devia mostrar muito mais Portas e Passos e a coligação colocá-los no centro de todos os cartazes. Mais Portas até do que Passos. Mas parece que não o vai fazer, com medo que as caras assustem os eleitores e lhes lembrem que é o PSD e o CDS que estão por detrás da coligação.

Os símbolos dos partidos também estão envergonhadamente escondidos, como se o PaF fosse uma coisa nova e lustral. Mas, quem é que quer saber?

Na rua, é o engano habitual, de pessoas que não podem aparecer em público sob pena de serem insultadas. Admito que outros partidos façam o mesmo, para disfarçar fraquezas, embora a CDU seja o único que não o faz de todo. Tem gente suficiente para enquadrar os candidatos e não é recebida com hostilidade em lado nenhum. O logro, aliás mais uma mentira numa política de mentiras tão habitual como o ar que se respira, é tão evidente que não percebo que os órgãos de comunicação social, em particular a televisão, aceitem enganar objectivamente os seus espectadores apresentando-lhes “passeios de rua eleitorais” completamente artificiais, em que Passos e Portas aparecem rodeados por guarda-costas e “jotas” (que no PSD são habitualmente pagos para acompanharem as caravanas). Aliás, a campanha do PaF nada em dinheiro e muito tempo depois iremos saber que os custos de campanha, foram “por acaso” ultrapassados para o dobro. Mas, quem é que quer saber?

Porém, dos actos eleitorais da coligação aquele que mais suscita do meu ponto de vista uma reacção mais dura foi a visita de Paulo Portas aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Como está tudo adormecido e ninguém reage a nada, aceitou-se este acto como mais um acto normal de campanha, quando ele na realidade devia infundir muita e muita preocupação e indignação. Mas quem é que quer saber?

Preocupação, porque revela uma arrogância desenvolta de quem acha que pode tudo e pode fazer tudo. Mesmo humilhar os outros, que é a essência do que aconteceu nos Estaleiros, onde muitos trabalhadores foram usados para servir de paisagem ao “sucesso” do governo, sem poderem, sob pena de perderem o seu emprego, exprimir-se livremente. Portas visitou-os com os patrões ao lado e grande cópia de jornalistas e câmaras, com o habitual chapéu de função, desta vez um capacete, batendo com os pés no chão de metal, como se fosse um general dum exército de ocupação. Mas quem é que quer saber?

Portas repetiu os mesmos números que Passos Coelho referiu numa outra visita aos mesmos Estaleiros, quando falou do “erro do passado” que “acabou em bem”. Os patrões da Martifer, por seu lado, acham que o governo pode usar as instalações de que são concessionários para a propaganda política da coligação, sem um átomo de hesitação. Por muito que se possa criticar homens como Belmiro de Azevedo ou Alexandre Soares dos Santos, duvido que aceitassem patrocinar uma sessão de propaganda do governo nos seus supermercados.

E, no entanto, nada há de mais revelador, não só dos interesses que apoiam este governo, como das suas ideias sobre a sociedade e o papel dos trabalhadores, do que esta visita imperial num dos raros sítios onde ainda há trabalhadores. Na realidade não são os mesmos trabalhadores de antes, não tem os mesmos direitos e não ganhem os mesmos salários. Mas quem é que quer saber?

É natural que a empresa que ficou com a subconcessão dos Estaleiros, a West Sea da Martifer, não perca oportunidades em receber os governantes a quem muito deve. Seja Aguiar Branco, seja Passos Coelho, seja agora Paulo Portas. Em Maio deste ano, Passos Coelho visitou os Estaleiros e anunciou “que vai entregar à West Sea a construção de dois Navios Patrulha Oceânicos”, por ajuste directo, ou seja, sem concurso. A encomenda por ajuste directo no valor de 77 milhões, foi justificada pela “urgência”, depois da Marinha ter sido impedida de os contratar aos Estaleiros quando estes eram públicos. Mas quem é que quer saber?

Portas passa por cima destas minudências e atira os números do “sucesso” sem hesitar, como se espera de um propagandista, Passos pelo contrário, entaramelou-se. Quando da sua visita aos Estaleiros, seguiu-se uma complicada, como é costume, explicação sobre o que é que tinha acontecido aos trabalhadores dos Estaleiros: havia 520 a trabalhar, 200 contratados, 320 subcontratados. Dos contratados, aqueles pelos quais a Martifer tinha responsabilidades, apenas 160 tinham vindo dos antigos estaleiros (que tinham 609 trabalhadores à data da privatização). Claro que, muito naturalmente, porque a vida é difícil, houve trabalhadores que pediram a rescisão do contrato e o estado pagou as respectivas indemnizações, subsídios de desemprego e reformas. Em inícios de 2014, a empresa pública em vésperas de privatização, previa para “limpar” estes trabalhadores cerca de 30 milhões de euros. À data da concessão, a Martifer prometia contratar 400 dos 609, coisa que não fez. Agora promete dobrar o número de trabalhadores, dos 200 para os 400, “nos próximos tempos, tendo em conta que o Primeiro-Ministro acaba de anunciar que vai entregar à West Sea a construção de dois Navios Patrulha Oceânicos”. O Almirante Melo Gomes, que foi Chefe do Estado-maior da Armada, não deixou de comentar, com ironia, a “superioridade da gestão privada quando esta é financiada pelo erário público”. Mas quem é que quer saber?

Onde Portas se gaba de ter “salvo” os Estaleiros, na realidade ele quer dizer que os domou, como Pires de Lima falava das empresas de transporte quando há greves, para prometer que quando as privatizar ou concessionar, “acabam” as greves. O discurso sobre o “público” e o “privado” não é apenas sobre a eventual superioridade da gestão privada sobre a pública, é sobre como, em períodos de elevado desemprego, a privatização ajuda não só a baixar os salários como em por na ordem trabalhadores e sindicatos. Mas quem é que quer saber?

Claro que é melhor haver estaleiros a funcionar em Viana do Castelo, haver trabalhadores empregados, haver empresas a crescer com a ajuda do estado e mérito próprio, claro que tudo isso é melhor do que o seu contrário. Mas o seu contrário está longe de ser provado que iria acontecer ou poderia acontecer. Escolhas diferentes dariam resultados diferentes e, em muitos casos, bastante melhores.

Ficar desarmado porque as coisas aconteceram assim e daí inferir que não poderiam ser de outra maneira, é hoje uma maneira de pensar muito comum, mas mostra apenas interiorização e subjugação pelo poder. Depois quando correm mal, já é tarde. E há muitas destas coisas a correr mal, o melhor exemplo das quais é o Novo Banco, sobre o qual se tem seguido todo este tipo de raciocínio pela “realidade”. Mas quem é que quer saber?

O argumento é o de que foi assim, porque tinha que ser assim. Mas na verdade, não tinha que ser assim, foi assim porque se foi negligente (no Citius), se perdeu o controlo (no Novo Banco) e se fizeram asneiras (no “ir para além da troika”) ou, como no caso dos Estaleiros, porque se quis que fosse assim. Os prejuízos enormes a montante a jusante de muitas das decisões negligentes, impreparadas, imponderadas deste governo, para servir interesses e amigos, por ideologia, ou pior ainda, não podem ser justificadas pelas situações de facto que foram criadas. Algumas foram travadas pelo Tribunal Constitucional ou por outros Tribunais, outras porque o protesto teve força, outras porque estavam tão mal feitas que não passaram do papel. Mas, para mal de Portugal e dos portugueses passaram coisas demais. Mas quem é que quer saber?

Não há-de ser por mim, como aliás por muitos social-democratas que ainda sabem o que designa essa classificação política, que o PaF vai ganhar. Contrariamente à pequena intriga de muitos gnomos dedicados ao dedo twitteiro e facebookiano da coligação, uns amadores, outros profissionais, todos a mostrar serviço, que se saiba ninguém mudou de partido, ninguém faz parte das listas de deputados do PS e ninguém espera cargos e lugares caso o PS ganhe as eleições. Mas são sensíveis à vergonha interior que muitos trabalhadores dos Estaleiros de Viana devem ter tido, ao ver Portas a usá-los.

Portas, que desonra o honesto capacete de aço dos trabalhadores dos estaleiros, fez, antes de sair de Viana, uma prece a Santa Luzia para que ilumine os eleitores para que votem no PaF. Pobre Santa Luzia que nunca deve ter sido invocada para causa tão ruim!

A ESTÁTUA DE SAL, UM ANO DEPOIS

Estátua de Sal

       Estátua de Sal

Faz hoje um ano que este blog foi criada e que, pela primeira vez, tive contacto com a blogosfera, aceitando a sugestão e o simultâneo desafio de uma pessoa amiga.

Confesso que, apesar da minha proximidade profissional com as tecnologias da informação e da informática, me senti, no início um pouco estrangeiro neste país, afinal só aparentemente virtual.

Mas fui aprendendo, e como dizia o grande poeta António Machado, “o caminho faz-se caminhando”.

Revi há pouco algumas das publicações que aqui fiz há alguns meses e tal fez-me sorrir. Alcançavam apenas algumas dezenas de pessoas. Hoje, é rara a publicação neste blog que não alcance o milhar de pessoas e algumas chegaram mesmo às 50000 visualizações e milhares de partilhas noutros blogs e nas redes sociais.

O posicionamento do blog está definido e fixado. Prevalência às temáticas da política e da economia, quer no âmbito nacional quer internacional, não descurando outros temas que possam povoar a atualidade, debatendo-os e dissecando-os, quer seja numa ótica opinativa, quer seja pela ironia da imagem satírica.

A literatura e o pensamento crítico, de quando em quando, mas sempre presentes.

No campo da política, não escondemos interesses nem opções.

Acreditamos que os homens não são todos iguais mas que a coletividade tem obrigação de ser estar organizada de forma a não deixar ninguém para trás e lutar por esse objetivo. E se isso é ser de esquerda, nos tempos que correm, então somos de esquerda.

E por isso somos contra todas as forças políticas cujo ideário aponta para a divisão dos cidadãos entre eleitos e deserdados, aceitando isso como inelutável. E por isso somos contra todos aqueles que pretendem destruir o Estado Social, uma das maiores e mais nobres construções do capitalismo, apesar de não ter sido erigida em nome da nobreza e dos princípios, mas mais, talvez em nome da necessidade e do interesse, na defesa da sua sobrevivência e continuidade.

E é esse percurso que nos tem norteado e todos os contributos e publicações, próprias ou de outrem, que aqui trago inserem-se nessa matriz de pensamento.

Vamos continuar. O mundo, esse lugar perigoso em que vivemos, está a tornar-se cada vez mais incerto e perigoso. Portugal, a Europa, e Portugal dentro da Europa, enfrentam hoje desafios de enorme amplitude e de desfecho imprevisível. As clivagens entre os que querem um mundo diferente e melhor para a maioria e os que querem apenas a salvação de uma minoria e de um escol de predestinados são cada vez mais evidentes.

O combate é desigual, bem sabemos. Mas os combates que mudaram o Mundo e que alteraram de alguma forma o curso da História, nunca foram fáceis. Vamos continuar a combater, dando o nosso contributo com o que escrevemos e com o que publicamos. Em nome do futuro que queremos melhor, e dos princípios em que acreditamos e defendemos.

E por isso, aqui quero deixar o meu agradecimento a todos aqueles que me vão lendo e visitando este blog, e trazendo os amigos dos seus amigos e dos seus amigos. Continuem por aqui, que eu também irei continuar.

Republico o texto definidor desta página, que baliza o seu ideário.

Entre as fendas dos dias e os sons feéricos dos vídeos dos novos tempos.

Entre as palmas digitais dos novos mensageiros.

Entre os rumos caóticos dos espelhos quebrados.

Entre os gumes azuis do sentido perdido entre a bruma de pestes antigas.

Aqui estarei, aqui direi.

A mágoa por entre o guizo das teclas que me dizem.

E elas dizem que me retém o tempo que me resta.

Estátua de Sal, 27/09/2015