Qual é o problema com o que disse Paulo Rangel?

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 05/09/2015)

Pacheco Pereira

           Pacheco Pereira

O que Paulo Rangel disse é muito fácil de compreender e faz parte do vale-tudo que os que ainda não perceberam no que estão metidos, continuam a não perceber. Saliente -se que não é novidade nenhuma. Quem leia o Observador e os comentadores pró-governamentais já encontrou o mesmo tipo de argumentação. Começa-se pelo tema muitas vezes subliminar das mudanças: Portugal mudou muito. Depois, passa-se para as pessoas, para definir amigos e inimigos, quem está connosco e quem esta contra nós. É uma prática habitual nas guerras civis e, de novo, os que ainda não perceberam no que estão metidos, também não perceberam. As pessoas separam-se entre os “velhos do Restelo” e os jovens “empreendedores”. Separam-se entre os que não perceberam que “o País é outro”, em primeiro lugar porque não o desejavam – o innuendo é porque ou tem interesses ou beneficiavam do Portugal pré-Passos e Portas – e os que não só perceberam o que se está a passar, como amam o que se está a passar, e sabem usar as “oportunidades” do que se está a passar.

Com excepção de ser hoje mais pobre, frágil, desigual e injusto, Portugal mudou em quê? Silêncio, há aqui um problema. Mas o pensamento lampeiro resolve-o. Como quando se fala de mudanças, e fora os efeitos do “ajustamento” não há muitas mudanças que se possam mostrar, vai-se para um elemento intangível: mudou o “clima”, o “ambiente”. E um dos sinais disso mesmo é que (como dizia a ministra) “acabou a impunidade para os “poderosos”.

Basta virar ao contrário
Percebe-se muito bem o que disse Rangel se virarmos as coisas ao contrário, porque argumentos a preto e branco funcionam dos dois lados. Rangel disse que Sócrates só estava na prisão e que Ricardo Salgado só tinha caído do seu pedestal, porque temos “este governo”. E se agora eu disser, usando o mesmo tipo de raciocínio, que a razão pela qual os homens dos submarinos ou do BPN ou o dos fundos para formação do pessoal dos aeroportos que não existem, ou os que falcatruaram cursos superiores, não estarem na cadeia ou terem caído do seu poder (a começar partidário), se deve a ser “este” o governo que está? Qual é a diferença? Nenhuma.

As declarações de Rangel foram o melhor presente para Sócrates porque repetiram o seu argumento: eu estou preso porque é este o governo que “está” e se fosse outro, não estava. Rangel dixit.

Os novos “donos disto tudo”
A questão é que mudaram alguns, só alguns, dos poderosos, e a nova versão dos “poderosos” nacionais é menos poderosa do que a anterior. A razão é simples: o “poder” nacional na economia, na indústria, na banca, na política é hoje muito menor, porque também Portugal está menor. Tudo o que é nacional está mais pequeno e só os estrangeiros e os portugueses que trabalham para eles, é que contam como poderosos. Uma verdadeira lista de poderosos em Portugal, daquelas que faz hoje a imprensa económica, devia ser quase só constituída por chineses, angolanos e alemães, alguns franceses e brasileiros.

Por isso, os nossos “poderosos” mandam menos, não porque o Governo os tenha posto na ordem, mas porque há menos poder disponível, menos dinheiro, menos recursos, menos bens e menos autonomia. A Bolsa de Xangai é mais importante para Portugal do que o PSI-20, a sorte do petróleo de Angola, mais do que a melhor indústria sobrante, e o bem ou mal-estar da economia alemã mais do que é nacional na Autoeuropa, ou seja os trabalhadores. E com estes novos “donos disto tudo” o Governo comporta-se com a mesma subserviência com que hoje acusa os governos do passado “antes da mudança”.

E como os políticos portugueses, esses sim, nada mandam a não ser como mandatários dos poderes europeus, para onde transferimos sem qualquer consulta popular a soberania, o voto dos portugueses tem um papel cada vez mais residual, ou seja, também não dá poder. O que dá poder é o serviço dos poderes alheios e não a força dos poderes próprios.

Sócrates e Salgado eram poderosos? Comparados com o que acontece hoje, sim. Usaram e abusaram do poder que tinham? Certo, e enquanto o tiveram ninguém lhes tocou. Agora, como estão na mó de baixo, toda a gente vai lá deitar a sua pedra.

Morte de Manuel Dias da Fonseca
Manuel Dias da Fonseca é um nome conhecido por muito pouca gente. No Porto e sobretudo em Matosinhos já mais gente o conhece, mais como vereador da Cultura nos tempos em que o foi, do que pela sua obra poética, aliás escassa e discreta. Mas eu conheci-o como uma coisa que já quase não existe, um amante da música, um melómano. Muitas vezes nos turbulentos anos 60, um grupo de amigos, que me incluía a mim, o Óscar Lopes, o Eugénio de Andrade, o Jorge Peixinho, a Ilse e o Arménio Losa, iam nas tardes de domingo a sua casa em Matosinhos ouvir os discos que só ele tinha e só ele trazia de fora de Portugal. Eu era o mais novo, o que me faz ser o último sobrevivente.

A meio da tarde, havia um bolo feito por sua mãe e chá, ou seja um ambiente que já na altura era do passado, burguês, antigo, culto e ilustrado. Ele sabia muito de música e gostava de pôr discos para os presentes adivinharem quem eram os seus autores. Uma vez, com alguma ironia, tendo em conta parte da composição da sala – “do you know what I mean”, como diziam os Monty Python –, a pergunta era se era um homem ou uma mulher que cantava. Parecia uma mulher, mas era um homem, Alfred Deller, contratenor, a cantar Purcell.

Boa música tenhas tu Manuel. Bach pelo menos anda por lá de certeza.

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