As fronteiras que ficam

(Daniel Oliveira, in Expresso, 05/09/2015)

         Daniel Oliveira

                      Daniel Oliveira

Acreditávamos que a globalização nos aproximaria de um mundo sem fronteiras. O comércio livre e a internet fariam de todo o mundo a nossa pátria. Só que a globalização económica é um processo desigual, onde quem tem força protege os seus pontos fracos e quem é fraco apenas aceita as consequências. E basta ver um telejornal de uma cadeia local americana para perceber que a esmagadora maioria dos cidadãos do mundo, incluindo os dos países mais desenvolvidos, pouco sabem do que se passa a mais de mil quilómetros de sua casa. Da alimentação aos produtos culturais, assistimos mais a uma uniformização por imposição dos modelos dos países dominantes do que a um encontro e cruzamento de culturas. Se este mundo se transformou numa só pátria, a maioria dos que nele vive é estrangeira. Também esse velho sonho de dar a todos os humanos o direito de viverem onde queiram está muitíssimo distante. 25 anos depois, voltam a erguer-se muros no meio da Europa. E os húngaros apenas se inspiraram em Ceuta e Melilla.

Mais de 200 ataques a centros de acolhimento reavivaram uma memória que, sejamos justos, os alemães, ao contrário de franceses e italianos, preservam. E Merkel é neste momento a única líder europeia em busca de uma solução para a pior tragédia humanitária a que a Europa assistiu desde a guerra dos Balcãs. Mas a vontade política que criou uma estúpida regra de ouro para o défice não existe para criar uma regra de ouro para a decência: que cada Estado receba o correspondente aos refugiados que a Alemanha se comprometeu a aceitar. Dava cem mil para Portugal. Sem a seleção religiosa que países como a Eslováquia e a Polónia querem impor. Sem o sinistro espetáculo de marcar os refugiados com números na pele, como se está a fazer na República Checa. Sem tudo o que de abjeto se está a fazer na Hungria.

Não é por acaso que, apesar do incómodo retórico, as intuições europeias são mais tolerantes com Viktor Orbán do que foram com Yanis Varoufakis. A única globalização inquestionável é a globalização financeira. Porque mercados calmos valem mais do que consciências tranquilas, é mais fácil resgatar bancos do que sírios.

Vivemos num mercado global. Os otimistas concentraram-se no ‘global’ quando a chave estava no ‘mercado’. Os refugiados serão bem-vindos onde haja necessidade de mão de obra barata. Caso contrário resta-lhes um muro de medo. Quem ponha em causa as fronteiras escancaradas para o sistema financeiro e para as grandes multinacionais é um reacionário que vive fora deste tempo. Quem as queira abrir para os que morrem na ombreira da nossa porta é um irresponsável que vive fora deste mundo. Mas enquanto uma imagem de uma criança morta estiver nos alinhamentos dos telejornais todos serão solidários. Até Passos Coelho, que dos 45 sírios e eritreus que devia ter acolhido em Portugal, em 2014, nem um recebeu. Até o tabloide “Daily Mail”, que fez uma pausa na campanha contra os refugiados para chorar uma morte enquanto pede aos britânicos que ignorem milhares de tragédias. Pelo menos por este espetáculo devemos agradecer à globalização: graças a ela todos podemos ver as imagens chocantes que obrigam a tanta hipocrisia.

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