PASSOS COELHO E OS TREINADORES DE BANCADA

(Estátua de Sal, 15/07/2015)

treinador

O Primeiro-Ministro, Passos Coelho, esse desbloqueador de casos difíceis, esse facilitador de imbróglios (talvez devido à sua irmandade quase de sangue, com o seu amigo Relvas, o rei dos “facilitadores”), deu hoje uma entrevista à SIC, que segui com atenção.
Nada disse de importante que tivesse a ver com o País. Foi uma sessão de propaganda em que tentou apenas contrariar os “mitos urbanos” que circulam sobre a sua pessoa. Foi apenas um puro exercício de narcisismo. Uma tentativa de contrariar os efeitos negativos que a sua postura e políticas, durante quatro anos, geraram na opinião pública. De tal forma que, interrompeu as perguntas da entrevistadora, várias vezes, sempre que as perguntas lhe vinham contrariar a narrativa e obriga-lo quebrar o guião. Clara de Sousa bem tentou, mas não teve coragem para lhe bater o pé de forma consequente, pelo que, Coelho lá foi discorrendo numa espécie de monólogo presunçoso.
Dizem que eu minto? Não, eu não menti. Fiz promessas, sempre de boa fé, mas os números que me deram é que estavam errados.
Dizem que eu quis dificultar as negociações com a Grécia, e alinhei sempre com a Alemanha? Não, eu sempre apoiei o povo grego, e até desbloqueei o acordo final.
Dizem que eu quero cortar 600 milhões de euros nas pensões?
Não, eu não quero nada, apenas temos que encontrar uma solução conjuntamente com o partido socialista.
Ou seja, Passos continua no seu mundo autista e esquizofrénico. Continua igual a si próprio, mentiroso, e desprezando a inteligência dos portugueses, e nesse sentido, eu até concordo, que ele é obstinadamente previsível.
Mas, que Passos faça propaganda é legítimo, e expetável.
Contudo, o mais risível, foi a análise da entrevista feita nas televisões pelos comentadores de serviço.
Na SIC, o painel estava montado para que eventuais farpas a Coelho viessem embrulhadas em papel celofane: José Miguel Júdice, Joaquim Aguiar, e Ricardo Costa. Júdice, dos três o único com capacidade para pensar fora dos guiões, foi o único que terá merecido alguma atenção. O Ricardo está cada vez mais a voz do patrão e o Aguiar é tão erudito que diz coisas que nem ele deve entender. Contudo, todos eles deram a tática. O PSD não pode jogar apenas na campanha do medo. Dizer que Portugal não é a Grécia não chega. O mano Costa anda preocupado. O Coelho tem que fazer propostas políticas para o futuro, e estas nunca mais chegam. Ou o programa do PSD sai, e depressa, com propostas, ou o mano de meio sangue, o António, ganha as eleições, para grande desgosto dele, já que lhe é conhecido um enorme e fraternal ciúme. Coisas mal resolvidas de um infante tardio.
Na RTP Informação foi o delírio. André Macedo e José Manuel Fernandes fizeram um trabalho digno de grandes propagandistas: Coelho muito bem. O País deve-lhe muito. Vejam a Grécia. Cá não há filas no Multibanco. Coelho não mente, é firme como a espada do D. Afonso Henriques, O Costa, não. Está aflito com o Sócrates preso. E era apoiante do Syriza, não se lembram? Pois é, o Costa é um syrizista disfarçado de Hollande à moda do Terreiro do Paço. Contudo, também eles deram o recado: são precisas mais propostas porque ainda não dá para ganhar.
Na TVI24, salvou-se, ainda assim a noite. Ângelo Correia e João Cravinho. A entrevista de Coelho foi o mote inicial apenas. Falaram do País, da Grécia, da Europa, do Euro, do presente e do futuro. E aqui, não houve propaganda mas apenas a opinião de dois homens inteligentes que confrontaram ideias, e que, curiosamente, estiveram de acordo em muitos tópicos. Ângelo mais alinhado à narrativa do governo mas sem a poupar nas críticas, sem lhe tornear as fraquezas e contradições, com o provável objetivo de ser ouvido e tal levar a mudanças de rumo. Cravinho, sagaz e contundente, quer na crítica à narrativa do governo, quer e sobretudo, às soluções que a UE está a impor aos países em termos de políticas económicas.
Resumo final. O discurso de Passos não passa de um conjunto de soundbites, que vão ser repetidos atá à exaustão para ver se os portugueses os decoram, porque ele acha que os portugueses não passam de uma manada de bois estúpidos e assim devem ser tratados. É como se tivéssemos que aprender a tabuada, de novo, e tivéssemos que repetir em voz alta: dois vezes um dois, dois vezes três, seis, dois vezes quatro, oito…etc.
Os comentadores, ao serviço da maioria, estão preocupados. Já estão fartos de repetir a história do Coelho que salvou a coelheira e estão a sentir-se ridículos, porque estão a ficar sem assunto. Querem propostas políticas, obras, inaugurações, promessas, para poderem ocupar o tempo de antena com eruditos e sábios comentários, loas ao futuro da governação PAF.
E mais que isso: quais treinadores de bancada, já dão a derrota como certa, se a tática é só esta, assim tão raquítica e pobrezinha.
Cá para mim, bem podem esperar sentados. Passos e esta maioria nada mais tem para apresentar. Limitaram-se pôr em prática o programa que a troika lhes deu para executar.
A troika saiu, pelo menos oficialmente, e deu-lhes um ano de folga na austeridade, para poderem continuar a levar por diante o capítulo seguinte do programa e que é tentarem ganhar as eleições. É por isso que não tem propostas para apresentar.

Se ganharem as eleições, a troika é que lhes vai dar o programa outra vez. E o programa só pode ser mais do mesmo: austeridade, miséria, e venda do país em saldos aos chineses.
É que eu dou-lhes razão: nós não somos, de facto, a Grécia. Ainda temos muito para vender, e ainda não nos mandaram colocar os Jerónimos e a Torre de Belém num fundo com sede no Luxemburgo administrado pelo (m)sinistro Schauble.

Estátua de Sal, 15-07-2015.

O medo de sair do Euro

(Carlos Reis, in Facebook, 14/07/2015)

Carlos Reis

Carlos Reis

Nunca se esqueçam de uma coisa: tudo o que está a acontecer na Grécia, tudo o que aconteceu nestes últimos anos em Portugal e em Espanha, o mal estar em França, a angústia em Itália, é fruto do medo. O fruto maduro do medo de se sair do Euro.

Imaginem um preso numa prisão há muitos anos: sonha com a liberdade mas tem medo. Na prisão conhece todos os amigos, lá fora já não tem ninguém, na prisão tem o seu lugar, a sua posição, o seu estatuto entre os outros, uma cama, comida, cuidados. Não é livre mas está habituado. E fica aterrorizado não com a ideia de continuar preso mas com a possibilidade de sair. Assim também somos todos.

Temos um medo de morte de sair do Euro. Já todos sabemos, no Sul e nas margens da Europa, do Mar da Irlanda e do Atlântico até ao Mar Egeu, latinos, celtas e helénicos, católicos e cristãos ortodoxos, tudo o que nos chegará nos próximos 20 ou 30 anos. Está tudo escrito nos Tratados, tal como antigamente a verdade dos antigos estava anunciada nas Escrituras.

A verdade é que seremos sempre obrigados a empobrecer. Teremos de ser alemães à força mas com o mesmo nível de vida dos moldavos. Poderemos sempre votar mas nunca poderemos decidir nem escolher. O nosso destino será sempre o do empobrecimento e o da política única. Nós, nunca mais poderemos fazer Política: a democracia-cristã e a social-democracia estão proibidos. Inconstitucionais. Uns são piegas e uns moles. Outros uns radicais de esquerda. Esqueçam as nossas Constituições: a Constituição que interessa é a do Tratado Orçamental e a do six pack e a ditada pelo Dr. Scäuble. Esqueçam as veleidades. Nunca mais seremos donos dos nossos destinos.

Sabemos agora isto tudo. No fundo já vinhamos sabendo isto tudo. Mas temos todos medo. É o medo que nos mantém a todos unidos uns contra os outros. Os de cima contra os de baixo, os do Sul contra os do Norte, os perdedores contra os ganhadores, os credores contra os devedores. Mas é o medo que vai manter estes ressentimentos, estas humilhações, estas injustiças, cosidas e cerzidas pela amarra do Euro abrilhantada com as estrelas que nos ficam cravadas nos sonhos vãos de criar países e sociedades justas e decentes.

Vamos caminhando pois todos juntos, como servos acorrentados às grilhetas do Euro, empobrecendo, decaindo, recuando.

Chorem pois portugueses, espanhóis, italianos, franceses, irlandeses, pela Europa prometida dos sonhos de paz e de prosperidade. Vocês afinal têm aquilo que querem. Têm o vosso Euro não têm?

O Acordo da Grécia com a UE: uma outra perspetiva.

(Carlos Reis, in Facebook, 14/07/2015)

Carlos Reis

Carlos Reis

Desculpem lá remar uma vez mais contra a maré e desculpem-me estar outra vez a dizer o contrário do que diz a maioria ou ser talvez um excêntrico em relação ao pensamento dominante.

E desculpem o meu cinismo ou o meu realismo burkeano mas eu acho este acordo muito positivo.

Este acordo saído de Bruxelas, se confirmado estes dias em Atenas, será um acordo útil. E arrisco-me mesmo a dizer que constituirá uma importante base sólida para o futuro.

É óbvio que a Grécia saiu momentaneamente pisada, rebaixada, diminuída. Mas já o estava antes. E que isto não irá resolver o problema económico de fundo, nem irá, para já, aliviar os gregos, à excepção de recolocar os bancos a funcionar e colocar o Estado a respirar. Dá no entanto o bem mais precioso: tempo.

Uma pausa, tréguas. Aguenta a Grécia na Zona Euro enquanto esta se não desmantelar consensualmente no futuro (cada vez mais próximo).

Este é um acordo em estado de emergência: os bancos estão à beira do colapso, e daqui a pouco tempo não poderão garantir sequer os levantamentos autorizados de 60 € nos ATMs, nem os 120 € semanais aos pensionistas. As importações de produtos estão suspensas. as empresas estão a esgotar os últimos stocks. Materiais e produtos essenciais para o funcionamento de fábricas e instalações estão sem chegar. As reservas turísticas caíram em flecha. Poderá existir uma quebra de abastecimento de combustíveis, comida e alimentos.

Podemos todos olhar para este acordo como uma capitulação. Mas eu encaro-o como uma necessária retirada estratégica.

E, caso se consigam reunir na Grécia as condições de unidade nacional, tão arduamente criadas nestes meses, eu vejo-o como uma importante vitória táctica do governo grego.

Se no fim de contas a Grécia for salva e o governo não cair, e este governo puder aproveitar algumas das exigências que lhe fazem para fazer as reformas institucionais que de outra forma não conseguiria fazer sozinho, então os conservadores do PPE apenas terão para se vangloriar o sofrimento inconfessável que vingativamente causaram à população grega.

Nervos de aço agora!

Além de que é preciso vermos a floresta europeia em vez de só olharmos para a árvore grega: a Grécia estava sozinha e agora já não está.

Pelo contrário quem antes tinha todos dissimuladamente do seu lado e não era temida nem estava desprestigiada aos olhos dos europeus e dos seus governos era a Alemanha. A Alemanha punha e dispunha e não pagava nenhum preço por isso. Agora é precisamente o contrário.

Este acordo é verdadeiramente péssimo, horrível e desastroso para a Alemanha. E consequentemente, também o é para o seu modelo de Eurolândia.

Reparem: a Alemanha foi tão longe, assumiu com uma clareza tão evidente as suas intenções, que estes dias talvez tenham sido os dias mais negros e desastrados para a diplomacia alemã desde o Telegrama Zimmermann de 1917 que precipitou a sua derrota final na I Guerra Mundial.

Mais uma vez a Alemanha não soube quando parar. Pela terceira vez em 100 anos!

A partir de ontem ninguém, nenhum governo, nenhuma opinião pública irá mais confiar num país que colocou por ESCRITO a intenção de voltar a fazer com um país soberano da Europa, em pleno Século XXI, aquilo que as antigas potências coloniais imperiais fizeram no Século XIX desde o Egipto ao México, desde a China à Indochina.

A França, a Itália, a própria Espanha, têm um limite. E esse limite foi ontem atingido.

A partir de ontem o Euro é agora visto por todos como uma armadilha. E a sua face horripilante é a do Dr. Schäuble. Para toda uma geração de europeus o alemão será sempre o perigo. Será sempre o problema a evitar. E agora a grande questão não será a de reformar as instituições europeias mas sim como nos livrarmos do Eurogrupo, do Euro, de todas estas cimeiras e suspenses, de nos libertarmos de um jugo de tal maneira opressivo que determina quantos feriados cada país pode observar, se pode não cortar mais x milhões nas reformas dos seus velhos, qual a percentagem que cada país pode cobrar no IVA por cada litro de leite, ou se deve ou não obrigar as mercearias a estarem abertas aos Domingos. De uma moeda que nos obriga a ser todos alemães à força mas com o mesmo nível de vida dos moldavos ou dos arménios.

O que é que a Alemanha conseguiu com este acordo? Nada! Antes pelo contrário: arrisca-se a perder o seu dinheiro, e muito pior, arruinou completamente a sua reputação.

O valor reputacional de cada país, sendo intangível, é no entanto um bem precioso. Leva décadas a construir. E bastam poucos dias para o destruir.

Infelizmente Angela Merkel já tinha ascendido à liderança alemã dando uma traiçoeira facada nas costas de Helmut Khol, a quem tudo deve. Agora ficará nos livros de história, pela sua incompetência e falta de autoridade, como a mulher que destruiu o legado e a obra de Konrad Adenauer, de Willy Brandt, de Helmut Schmidt ou de Helmut Khol. Não admira pois que este último gigante esteja agora a morrer!

Este acordo vai resolver os problemas futuros da Grécia? Não vai. Vai aliviar a população? Também não vai.

Mas vai permitir salvar para já a Grécia. E a prazo, com tempo, salvar também toda a Europa desta loucura. A Alemanha destruiu a Europa 3 vezes. Cabe agora à Grécia saber resistir outra vez, pela 3ª vez. Dói? Mas é imperioso.

Por vezes só temos a certeza quando vemos. Chegou pois a hora: estes dias vimos todos. Já ninguém pode mais dizer que não sabia de nada.

Agora, tudo o que a Esquerda grega (e a portuguesa e a espanhola) têm é de deixar de ser estúpidas. Sei que é quase uma contradição nos termos. Mas por uma vez na História, por favor, chegados aqui, deixem de ser estúpidos!

Nós, todos os outros, precisamos também de vocês!