O Acordo da Grécia com a UE: uma outra perspetiva.

(Carlos Reis, in Facebook, 14/07/2015)

Carlos Reis

              Carlos Reis

Desculpem lá remar uma vez mais contra a maré e desculpem-me estar outra vez a dizer o contrário do que diz a maioria ou ser talvez um excêntrico em relação ao pensamento dominante.

E desculpem o meu cinismo ou o meu realismo burkeano mas eu acho este acordo muito positivo.

Este acordo saído de Bruxelas, se confirmado estes dias em Atenas, será um acordo útil. E arrisco-me mesmo a dizer que constituirá uma importante base sólida para o futuro.

É óbvio que a Grécia saiu momentaneamente pisada, rebaixada, diminuída. Mas já o estava antes. E que isto não irá resolver o problema económico de fundo, nem irá, para já, aliviar os gregos, à excepção de recolocar os bancos a funcionar e colocar o Estado a respirar. Dá no entanto o bem mais precioso: tempo.

Uma pausa, tréguas. Aguenta a Grécia na Zona Euro enquanto esta se não desmantelar consensualmente no futuro (cada vez mais próximo).

Este é um acordo em estado de emergência: os bancos estão à beira do colapso, e daqui a pouco tempo não poderão garantir sequer os levantamentos autorizados de 60 € nos ATMs, nem os 120 € semanais aos pensionistas. As importações de produtos estão suspensas. as empresas estão a esgotar os últimos stocks. Materiais e produtos essenciais para o funcionamento de fábricas e instalações estão sem chegar. As reservas turísticas caíram em flecha. Poderá existir uma quebra de abastecimento de combustíveis, comida e alimentos.

Podemos todos olhar para este acordo como uma capitulação. Mas eu encaro-o como uma necessária retirada estratégica.

E, caso se consigam reunir na Grécia as condições de unidade nacional, tão arduamente criadas nestes meses, eu vejo-o como uma importante vitória táctica do governo grego.

Se no fim de contas a Grécia for salva e o governo não cair, e este governo puder aproveitar algumas das exigências que lhe fazem para fazer as reformas institucionais que de outra forma não conseguiria fazer sozinho, então os conservadores do PPE apenas terão para se vangloriar o sofrimento inconfessável que vingativamente causaram à população grega.

Nervos de aço agora!

Além de que é preciso vermos a floresta europeia em vez de só olharmos para a árvore grega: a Grécia estava sozinha e agora já não está.

Pelo contrário quem antes tinha todos dissimuladamente do seu lado e não era temida nem estava desprestigiada aos olhos dos europeus e dos seus governos era a Alemanha. A Alemanha punha e dispunha e não pagava nenhum preço por isso. Agora é precisamente o contrário.

Este acordo é verdadeiramente péssimo, horrível e desastroso para a Alemanha. E consequentemente, também o é para o seu modelo de Eurolândia.

Reparem: a Alemanha foi tão longe, assumiu com uma clareza tão evidente as suas intenções, que estes dias talvez tenham sido os dias mais negros e desastrados para a diplomacia alemã desde o Telegrama Zimmermann de 1917 que precipitou a sua derrota final na I Guerra Mundial.

Mais uma vez a Alemanha não soube quando parar. Pela terceira vez em 100 anos!

A partir de ontem ninguém, nenhum governo, nenhuma opinião pública irá mais confiar num país que colocou por ESCRITO a intenção de voltar a fazer com um país soberano da Europa, em pleno Século XXI, aquilo que as antigas potências coloniais imperiais fizeram no Século XIX desde o Egipto ao México, desde a China à Indochina.

A França, a Itália, a própria Espanha, têm um limite. E esse limite foi ontem atingido.

A partir de ontem o Euro é agora visto por todos como uma armadilha. E a sua face horripilante é a do Dr. Schäuble. Para toda uma geração de europeus o alemão será sempre o perigo. Será sempre o problema a evitar. E agora a grande questão não será a de reformar as instituições europeias mas sim como nos livrarmos do Eurogrupo, do Euro, de todas estas cimeiras e suspenses, de nos libertarmos de um jugo de tal maneira opressivo que determina quantos feriados cada país pode observar, se pode não cortar mais x milhões nas reformas dos seus velhos, qual a percentagem que cada país pode cobrar no IVA por cada litro de leite, ou se deve ou não obrigar as mercearias a estarem abertas aos Domingos. De uma moeda que nos obriga a ser todos alemães à força mas com o mesmo nível de vida dos moldavos ou dos arménios.

O que é que a Alemanha conseguiu com este acordo? Nada! Antes pelo contrário: arrisca-se a perder o seu dinheiro, e muito pior, arruinou completamente a sua reputação.

O valor reputacional de cada país, sendo intangível, é no entanto um bem precioso. Leva décadas a construir. E bastam poucos dias para o destruir.

Infelizmente Angela Merkel já tinha ascendido à liderança alemã dando uma traiçoeira facada nas costas de Helmut Khol, a quem tudo deve. Agora ficará nos livros de história, pela sua incompetência e falta de autoridade, como a mulher que destruiu o legado e a obra de Konrad Adenauer, de Willy Brandt, de Helmut Schmidt ou de Helmut Khol. Não admira pois que este último gigante esteja agora a morrer!

Este acordo vai resolver os problemas futuros da Grécia? Não vai. Vai aliviar a população? Também não vai.

Mas vai permitir salvar para já a Grécia. E a prazo, com tempo, salvar também toda a Europa desta loucura. A Alemanha destruiu a Europa 3 vezes. Cabe agora à Grécia saber resistir outra vez, pela 3ª vez. Dói? Mas é imperioso.

Por vezes só temos a certeza quando vemos. Chegou pois a hora: estes dias vimos todos. Já ninguém pode mais dizer que não sabia de nada.

Agora, tudo o que a Esquerda grega (e a portuguesa e a espanhola) têm é de deixar de ser estúpidas. Sei que é quase uma contradição nos termos. Mas por uma vez na História, por favor, chegados aqui, deixem de ser estúpidos!

Nós, todos os outros, precisamos também de vocês!

11 pensamentos sobre “O Acordo da Grécia com a UE: uma outra perspetiva.

  1. Excelente análise. Um pouco assustadora porque estamos quase ao nível da estratégia militar.
    E é um pouco nesse registo que penso que uma campanha contra a compra de produtos alemães , principalmente o automóvel , usando o lema ” acima das minhas possibilidades ” seria uma excelente operação de guerrilha. Infelizmente vivendo eu na China, posso compreender ao andar nas ruas e de elevador, porque é que a Alemanha se está tanto nas tintas para os seus parceiros europeus e para a Europa de uma forma geral
    No futuro haverá uma cimeira para estudar a suspensão temporaria da Alemanha do Euro ?

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  2. gostei do artigo, e isso mesmo finalmente a oligarquia alema deixou cair a mascra. cabe a esquerda portuguesa e europeia agarrar o momento historico.

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  3. Tem toda a razão. Os projectos da EFTA e do Mercado Comum tinham como objectivo o desenvolvimento económico, financeiro e social dos países em causa. O que aconteceu com a União Europeia, foi o inverso, diminuiram as pescas, a agricultura e a indústria, perderam-se postos de trabalho e diminuíu o crescimento económico a troco de “apoios” a algumas empresas e seus administradores, políticos profissionais, que trataram de enriquecer, enquanto se verificava o empobrecimento, o endividamento, e, para cúmulo, o “roubo descarado” de fundos de pensões e de pensionistas. Há que por ordem moral e cívica nos governantes e nos grupos organizados, desde os sindicatos que tornam empresas inviáveis e as levam à falência, aos liberais que estão ao serviço do capital estrangeiro e procuram vender património nacional.

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  4. A cambada de políticos, quase todos, de toda a Europa, que estão sempre a pedir sacrifícios financeiros aos seus concidadãos para o/s país/es se endireitar quando eles próprios têm vencimentos que se podem considerar milionários, comparados com o que o comum empregado ganha, é que são os grandes culpados de toda esta tragédia na Europa, porque só pensam neles e no que ganham. Todos eles sabem que a Alemanha está ocupada com a sua 3-a guerra mundial, desta vez sem tiros, até agora, mas não querem saber. Só pensam nas suas carreiras e nos seus interesses pessoais “financeiros”. Traidores são o que são. São eleitos, os que são, com o recurso a mentiras sem se importarem com os perigos em que estão a meter, presentemente, toda a Europa. ACORDEM !!!….

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  5. Começando pelo fim – pedir à ” esquerda ” que deixe de ser estúpida é pedir ao escorpião que deixe de picar. Não pode. Está na sua natureza. Idem para quem pensar que a situação grega se resolve continuando a deitar dinheiro para o buraco. Não resolve. Está na natureza dos gregos a instabilidade politica e económica. Há três mil anos.

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  6. Como é possível alguém acreditar nesta conversa então um Governo que leva o país ao colapso é que tem razão. Com conversa fiada a Alemanha é má e temos que ter nervos de aco. Mas o que dizer de um Governo que tem uma cartilha irresponsável e ganha eleições e depois só faz merda da grossa e nada consegue negociar de vantajoso. E esta comentadores de merda já vão no Antigo Egipto para justificar o injustificável.

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  7. A frase como termina, sintetiza toda a patetice contida no longo texto que a antecede… Precisamos tanto desta esquerda como do Estaline, do Mao, do Castro, do Grande Líder, e por aí fora.
    Em 7 meses de Governo – ao qual chegou por dizer mal dos seus antecessores – quantos inquéritos estão em curso na Grécia? Quantos políticos gregos estão em apuros com a Justiça grega?
    E não estão porquê? O que é que impediu o Tsipras e o Varoufakis de criarem as condições para que essa gente fosse investigada e o seu património confiscado pelo Estado Grego?… É um autêntico paradoxo não expressar esta dúvida, uma vez que em última análise até seria uma medida para reduzir a dívida…
    O que já não é um paradoxo é perguntar: porque raio de carga de água tenho de suportar com o dinheiro que me extorquido pelo Estado Português, a continuação daquela perfeita ópera bufa em curso há muitos anos na Grécia? Ops! perdão (!) devia ter escrito: que é obtido através dos impostos sobre o meu trabalho (e actualmente mais de 70% do que um trabalhador por conta de outrem ganha, vai direitinho em impostos para o Estado Português).
    Por isto, a que se podia acrescentar muito, mas muito mais, Carlos Reis sugiro-lhe que crie um fundo dos indignados meta lá o seu dinheiro e o dos que partilham os seus pensamentos, e paguem vocês a festa. Isso é que seria defender a Liberdade: cada um faz o que quer, sem impor ao parceiro do lado as consequências pseudo-altruístas das suas decisões. Por mim dou como seguro, que o que já me obrigaram a meter lá, nunca há-de voltar (chama-se a isto custos afundados em economia). E é justamente por ser este o único ponto em que estamos de acordo sobre a Grécia (embora o Carlos Reis não tenha admitido explicitamente que a dívida é impagável), que estou tão disponível para ajudar os gregos como para fazer hara kiri. E estou-me igualmente nas tintas para todos os que se queiram suicidar – com ou sem cerimónia ritual a anteceder o dito… E pelos vistos, para isso, nem os «indignados» que meteram dinheiro aqui:
    https://www.indiegogo.com/projects/greek-bailout-fund#/story
    estavam disponíveis – o reembolso vai a caminho.
    🙂

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