Quem é esta gente?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/07/2015)

Miguel Sousa Tavares

              Miguel Sousa Tavares

(Nota: Não subscrevo este texto nalguns dos seus tópicos, talvez porque aborda demasiadas temáticas e é difícil uma unanimidade tão abrangente. Mas nunca iria fazer “censura seletiva”. Estátua de Sal.)

1 Faço minha a pergunta de Martin Wolf, no “Financial Times”: se eu fosse grego, como votaria amanhã? A pergunta não tem uma resposta boa porque ninguém sabe o que se seguirá, quer ganhe o sim quer ganhe o não. Ninguém sabe o que fará o errático Governo grego, que tão depressa faz discursos inflamados contra os credores, como logo a seguir aceita todas as suas exigências. E ninguém sabe até onde irá a vontade punitiva dos credores, pois só isso os move: do ponto de vista negocial, eles já colocaram a Grécia de joelhos, com excepção de uns míseros pontos de diferença no IVA para as ilhas e mais uns cortes em algumas pensões de reforma. Mas, pior ainda, ninguém sabe ao certo o que esta gente quer fazer da Europa. Ou mesmo se a querem.

A Europa que eu vi formar-se e abrir as portas a Portugal era dirigida por gente como Willy Brandt, Helmut Schmidt, François Mitterrand, Olof Palme, Harold Wilson, James Callaghan, Bettino Craxi, Felipe González, Mário Soares. Todos eles tinham uma ideia de Europa onde se espelhavam os melhores valores da civilização europeia, como um todo, e na qual se reviam os povos europeus, do norte ao sul, do leste ao oeste. Depois veio a Europa dos burocratas sem ideologia, os longos dez anos de Durão Barroso, em que o grande exercício político consistiu em nada decidir e ficar de braços cruzados a ver tudo acontecer: os progressos feitos pelos outros na ciência, na inovação, na energia, e os retrocessos próprios na integração, na moeda única, numa política diplomática e de defesa comum, no combate ao fundamentalismo islâmico. Um longo sono fatal.

Mas agora há outra gente movida por um sentimento de superioridade em relação aos “PIGS”, um desejo de os castigar porque são irresponsáveis, porque têm ilhas ou mar a mais, porque têm sol quando eles têm chuva, porque conseguem rir quando deveriam chorar apenas.

Nada do que eles propõem para a Grécia tem a menor sustentabilidade económica: é apenas a continuação de uma receita garantida para o desastre e a miséria. Impede o crescimento, estimula o desemprego, arruína o sector financeiro e empresarial e, no fim, só agravará a dimensão da dívida. Há quem acredite numa conspiração oculta da grande finança para expulsar do euro os que só enfraquecem a moeda; há quem pense que se trata antes de uma vendetta histórica da direita sobre décadas de predomínio intelectual e político da esquerda e uma oportunidade imperdível de aplicar a sua agenda em termos irreversíveis. Mas provavelmente é tudo menos grandioso do que isso: apenas uma terrível combinação entre ignorância e insensibilidade. Fixemos os seus nomes para memória futura: Merkel, Schäuble, Dijsselbloem, Lagarde, Juncker, Rajoy, Passos Coelho e alguns outros personagens menores.

2 Se eu fosse advogado de José Sócrates, mandava-o parar agora com as entrevistas. Sobretudo, sob a forma escrita, em termos que não admitem réplicas nem tréplicas e com selecção prévia das perguntas a que aceita responder e das que rejeita. Para toda a gente de boa-fé, o seu caso jurídico já não oferece grandes dúvidas: a prisão preventiva não tem nenhuma justificação aceitável, a investigação anda aos papéis e os abusos e violações do segredo de justiça são feitos diariamente num jornal perto de si, com tão grande e tão impune desaforo que já nem é preciso dizer mais nada: a justiça tratou de se desacreditar a si própria. Mas se as entrevistas servem para expor a defesa e atacar a acusação (o que é mais do que legítimo), Sócrates não pode passar tranquilamente ao lado de outras perguntas que têm que ver com um julgamento ético-político: como, porquê e com que justificação passou a viver à custa de um amigo? Até quando e até quanto estaria disposto a fazê-lo? Como pensava pagar-lhe um dia e como pensava que essa situação seria legítima aos olhos da opinião pública?

3 O dr. Francisco Balsemão descobriu “milhões de portugueses” que estarão entusiasmados com a putativa candidatura presidencial de Rui Rio. Pessoalmente, ainda não descobri nenhum, mas admito que os haja. De Rui Rio só sei que terá sido um bom presidente da Câmara do Porto, como outros antes dele e como Rui Moreira está a ser, depois dele. Não sei, porém, se tal será qualificação suficiente, tanto mais que outras quaisquer ideias jamais lhe registei — apenas alguns vagos estados de alma e declarações suficientemente dúbias para poderem encaixar em quaisquer circunstâncias e geografias. Mas conheço-lhe uma ideia e essa não é recomendável: Rio detesta a imprensa e os jornalistas e esse é meio caminho andado para também não gostar da liberdade de imprensa. E disso já estamos servidos em Belém, por um Presidente que não lê jornais, nunca se engana e raramente tem dúvidas. Mais do mesmo, não, obrigado.

Também à esquerda andarão por aí alguns a meditar, e com razão, em candidaturas alternativas ao dr. Sampaio da Nóvoa — demasiado MDP/CDE, demasiado cantautor, demasiado bucólico para ser levado a sério. (Quanto mais para ser decifrado nas boticas onde os velhotes curtem as suas minis e dizem mal do mundo da política). Assim se chegou agora ao improvável nome da drª Maria de Belém, que terá a vantagem acrescida de ser mulher. Porém, imagino-a a passar revista às tropas ou a fazer discursos de Estado com aquela vozinha especial, e também me parece que o caminho não é por aí. Até agora, a esquerda, e o painel por inteiro, só dispõem de um candidato, não direi entusiasmante, mas respeitável: Henrique Neto.

4 Um dia, talvez tivesse interesse fazer o contradiscurso sobre a responsabilidade dos arquitectos na paisagem urbana portuguesa. E não me refiro apenas aos arquitectos portugueses, mas, por exemplo, ao autor da horrenda Fundação Champalimaud — um desperdício de espaço, de localização e de excepção legal, aberta expressamente para ela. Ou ao brasileiro que nos doou para a eternidade o mastodonte de betão que é o novo Museu dos Coches. Aquilo é feio demais, enorme demais, agressivo demais, sem qualquer respeito pela zona histórica em que está, pelo público que esmaga e pela luz que desdenha. Parece um terminal de autocarros da Roménia de Ceausescu. Pergunto-me, além de mais, se, havendo de facto necessidade de um novo museu de coches, por que razão não o instalaram ali ao lado, num espaço já existente, lindo na sua simplicidade, e com capacidade para todos os coches e mais alguns, com a disposição ideal para tal, e que, last but not least, é público e grátis, está pronto e ao abandono: a Cordoaria Nacional. Eu sei que a pergunta é tão mais estúpida quanto a resposta é evidente: como poderia alguém ganhar uma fortuna com essa solução?

5 Juízes que “cortam relações” com a ministra e prometem não se ficar por aí. Militares que se reúnem em jantares de desagravo a si mesmos ou devolvem as condecorações ganhas a “defender a pátria”. Oficiais da polícia que ameaçam fazer greve. Bombeiros que ameaçam parar em plena época de incêndios. O que têm em comum todas estas corporações? a) Todas exercem funções públicas em regime de monopólio, dada a sua importância; b) todas gozam de um sistema especial de saúde, extensivo às famílias e que é bem melhor do que o da generalidade dos cidadãos; c) todas reclamam o “especial desgaste” das funções para exigirem, e terem, idade antecipada de reforma; d) todas dispõem de mecanismos automáticos de progressão profissional e aumentos salariais que não existem no sector privado; e) todas têm emprego garantido para a vida.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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