A redacção da vaca a bombar

(José Pacheco Pereira, in Revista Sábado, 03/07/2015)

Pacheco Pereira

              Pacheco Pereira

Para não estar sempre a dizer mal, aqui fica a redacção da vaca, actualizada para os dados deste País sempre a “bombar”.

A vaca, perdão Portugal, é um bonito país. Tem sol e mar, areias, velhos monumentos, bons costumes, eucaliptos, pastéis de Belém, e tuk tuks. Em Portugal, as plantas crescem para cima, mas se for preciso, com a força de vontade dos portugueses, também crescem para baixo. Nós podemos sempre fazer o que queremos, diz o ministro do “bombar”. É só força de vontade, que para os portugueses não há dificuldades. Não somos gregos. Mas eu queria isto… Não pode ser, temos de ser prudentes. Sábio Governo. Mas eu tenho direito a isto… Não pode ser. Isso dos direitos já não se usa. Tinha, mas já não tem. Isto é que é um Governo moderno despachado, desenvolto, atirado para a frente, que deu bom nome à lei da selva. Obrigado, vaca, digo, Governo.

Para o sol chegar a mais lados, deixou de haver árvores a não ser eucaliptos, que cheiram bem. Na parte de trás do País, aquilo que se chama interior, há uma doença, a interioridade, mas não afecta as costas, por isso podem ir à praia à vontade. Também não vive lá muita gente. A sábia política do nosso Governo tem sido despovoá-lo, acabando com a política retrógrada dos arcaicos e velhos Reis portugueses. Antes ser “povoador” era uma honra, hoje é ser “despovoador”. A vaca, digo, o Governo, tem feito uma política muito competente para despovoar. Acabaram as estações dos correios e o correio só aparece uma ou duas vezes por semana. Acabaram os postos de saúde. Acabaram os tribunais. Acabaram muitos serviços públicos, existem umas lojas de cidadãos a 30, 50, 100 quilómetros. Reanimou-se a oferta de táxis para estas deslocações, e, além disso, vir de Guadramil para Bragança, dá muito cosmopolitismo, os velhos sempre saem de casa para ver o mundo. Isto é que são preocupações sociais. Nenhum louco abre uma empresa nestes sítios. Não há problemas pode vir para um “ninho de empresas” num centro comercial em Lisboa, recebe uns subsídios do Impulso Jovem e, depois, é só mostrar o seu “empreendedorismo” e inventar o moto -contínuo. As leis da Física dizem que é impossível, mas desde quando é que a entropia foi um problema para os portugueses?

Depois, é um gosto passear pelas cidades de Portugal, a começar por Lisboa. Tantos cartazes de “vendido”, na Assembleia, nas paragens de autocarro, nas estações de Metro, nas caixas da EDP! Isto é que é reanimação da economia para acabar com as profecias dos Velhos do Restelo. Tudo se vende e é bom seguir o exemplo da Remax. Sempre podiam colocar a fotografia do vendedor, que tanto prédio, comboio, autocarro, linha eléctrica, barragem, aeroporto, porto, vende! Lá teríamos de novo a vaca, corrijo, os senhores ministros a sorrir babados de sucesso.

Essa banda de maus portugueses, a chamada “oposição”, anda para aí a distribuir fotografias caluniosas da vaca, em que apenas um mamilo de uma teta escorre para o balde colectivo do povo e o resto vai em tubinhos da ordenhadora não se sabe bem para onde. Eles dizem que sabem, mas é calúnia de certeza. A vaca é boa, a vaca é úbere, a vaca tem as cores nacionais na lapela, a vaca ri, como diz o nosso Presidente da República, e uma marca francesa de queijos, de tanta felicidade. Ser portuguesa!

Mas está tudo tão bem que até dói. Pleno emprego em 2300, não está mau. IRS a 4%, em 2500, e só não se acaba com ele por prudência. Sábio Governo, de novo, que não quer prescindir de nenhum “instrumento”, para poder continuar a fazer da nossa vida “um exercício”. Bebés já há muitos desde que o nosso preclaro Governo, seguindo as mais modernas tendências do “admirável mundo novo”, cultiva embriões in vitro e faz nascer as crianças numa proveta com líquido amniótico. As quotas são correctas: em cada 10, seis são brancas, três pretas, meia criança amarela e outra meia para o resto das raças. Os ciganos protestam porque só há 1% de criança cigana, ou seja não nasce nenhuma, mas isso é povo do RSI, não deviam ter direito à palavra. A vaca é que sabe. São excelentes notícias para a emancipação feminina, acabamos com a maldição de Eva. Depois de saírem da proveta as crianças vão ser educadas por hipnopedia, para não terem trabalho a estudar e poderem ser “jotas” mais cedo sem terem a preocupação de disfarçarem uns diplomas manhosos. Agora o diploma tira-se a dormir em 60 noites e não há mais “casos” nem Sócrates, nem Relvas. Os velhos vão ser reeducados para morrer mais cedo e não pesarem nas gerações futuras.

Na Europa já se diz que o século XXI é o “século português” tão admirada é a vaca, digo, o nosso belo país. Os turistas chegam cá e gritam de excitação “what a beautiful cow, I’m sorry, what a beautiful country“. Os mais letrados acrescentam “Is this Utopia?” Não tenham dúvidas. A água é sempre cristalina. O céu sem nuvens. As ruas limpas. A segurança alimentar impecável, ou seja, não lhe vão dar a comer um qualquer ciclóstomo pré -histórico. Os animais são respeitados religiosamente, com excepção dos gatos pretos que representam o demónio e os demónios, como se sabe, governam a Grécia. Pode andar nas ruas sossegado às 3h da manhã que a nossa vaca, mais um engano, as nossas autoridades, colocam um batalhão de comandos à volta. E só não há trabalho porque não é preciso trabalhar para nos dedicarmos à cultura gastronómica muito em moda nestes dias. Ou ser costureiros, o que dá uma comenda rapidamente.

Tudo é bom, tudo é deles e nada é nosso. É uma forma de comunismo dos cidadãos esclarecidos que acreditam nas virtudes purgantes da pobreza. Razão tinha esse percursor do nosso futuro, António de Oliveira Salazar. Pobres mas honrados. E muito limpinhos, na casa dos pobres. Sem bens somos mais felizes, desprovidos das tentações do mundo, vemos a vaca como ela deve ser vista, radiosa, cheia, opulenta, pujante, brilhando no escuro de tanta felicidade que dela emana, sempre a bombar.

Vejam lá se eu não sou capaz de dizer bem da vaca. Vá lá convidem-me para o Governo, bem mereço.

4 pensamentos sobre “A redacção da vaca a bombar

  1. Não há empregos nem vau haver se em vez de narrativas olharmos para os que mais clamam pelos empregos que factos podem apresentar da sua contribuição na criação de empregos: sindicatos? partidos politicos ? analistas e tudologos muito bem falantes? governo?. aqui interessa referir quanto nos custa pagar as dividas que a criação artificial de empregos é feita pelo governo. Dos que criam emprego na realidade nem ouvi-los, ninguem escuta nem menciona os empresarios. Claro com narrativas faz de conta a unica coisa que vende bem são as cronicas.

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    • Amigo Cristo, quando é que você sobe ao Céu? Com tanta fé nos empresários não sei o que anda aqui a fazer. Merece a paz dos anjos e vinte mil virgens a embalar-lhe a asa. Mude a agulha que o disco já está riscado. A sério, ou então pregue aos peixes porque você vê um mundo que ninguém consegue ver. Se calhar saiu-lhe o Euromilhões. Mande algum para o criador do blog e demais leitores que ficamos logo santificados.

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  2. CHEGA!
    Chega da conversa mesquinha, redutora e neo liberal da glorificação dos empresários como os herois da criação do emprego.
    A merda dos empresários não cria emprego. A procura dos produtos que vendem, FOR PROFIT, cria emprego. Um empresário não é um benemérito que passa a vida a criar emprego porque acordou para aí virado. Se não há quem tenha dinheiro para lhe comprar a merda que vende, não há empregos para criar. Enquanto continuarem a reduzir salários, enquanto continuarem a delapidar a classe média, os empregos não vão existir, os empregos só vão diminuir. E um dia chega a vez do cristof9.
    Vamos começar a puxar pelos dois neurónios que temos ou vamos continuar a fazer gala em mostrar o quão estupidos somos na pequenez das nossas ideiazinhas feitas e pela boca abaixo empurradas pela elite do sistema ?

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    • Maria, a bicha dos desempregados vai engrossar seguramente. Mas há sempre umas almas crentes que acham que ficarão sempre no fim da fila e que nunca serão atingidos. A espécie humana é assim. Nunca cuida da desgraça do vizinho. E quando lhe toca em sorte já é tarde.

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