Tsipras no dia seguinte

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 03/07/2015, diretamente de Atenas)

         Daniel Oliveira

                         Daniel Oliveira

Atenas está incrivelmente calma para o caos habitual das ruas. “É a calma antes da tempestade”, diz uma amiga. Houve alguns pequenos confrontos, ontem. O Partido Comunista Grego fez a sua manifestação pelo voto nulo, muito menos participada do que é habitual para o mais militante dos partidos gregos. Os suicídios políticos não costumam ser muito populares. Mas hoje será a grande noite. O “sim” vai juntar os seus apoiantes no Estádio Panatenaico. O “não” tem um comício com concerto, onde Alexis Tsipras falará, na Praça Syntagma. São os últimos cartuxos. O futuro ficará decidido no domingo à noite. Ficará? Muito provavelmente não. Nem a demissão de Tsipras, caso ganhe o “sim”, nem a saído do euro, caso ganhe o “não”, são totalmente certas.

Os media internacionais interpretaram as declarações de Tsipras, que disse que respeitaria a decisão dos gregos e não cumpriria um mandato diferente daquele que o elegeu, como a promessa de uma demissão em caso de vitória do “sim”. Ele não o disse, na realidade, com tanta clareza. E quando, em política, uma coisa simples não é dita com clareza temos de nos perguntar porquê. Foi isso que andei a fazer em Atenas e, sobretudo, no Syriza. A razão pela qual não o disse é porque há vitórias que podem ser derrotas e há derrotas que podem ser meias-vitórias. É isso que joga dentro do próprio Syriza, uma confluência da sempre complexa esquerda radical, que vai de marxistas-leninistas puros e duros, trotsquistas de várias colorações, ecologias e social-democratas históricos.

Vejamos os três cenários possíveis: o “sim” ganha com grande margem, o “sim” ganha com uma margem pequena, o “não” ganha (a margem é indiferente).

O futuro ficará decidido no domingo à noite. Ficá? Muito provavelmente não. Nem a demissão de Tsipras, caso ganhe o “sim”, nem a saído do euro, caso ganhe o “não”

Se o “sim” ganhar com uma enorme diferença de votos, Alexis Tsipras não tem outro remédio se não demitir-se. Só que a sua demissão não muda o fundamental. A direita não tem ninguém para competir com Tsipras. Tem Antonis Samaras, que, como me explicou um antigo dirigente da Nova Democracia, “é esforçado, tem uma cara apresentável e só se mantém no lugar porque ninguém teve, depois da sua derrota, coragem para pedir que se demitisse”. E pode, quem sabe, voltar a ter Kostas Karamanlis, primeiro-ministro eleito pela Nova Democracia, entre 2004 e 2009, sobrinho de Konstantinos Karamanlis, figura histórica da direita grega. Esta semana quebrou seis anos de total silêncio para apelar ao voto no “sim”, permitindo que se falasse sobre o seu regresso. Ele que é uma figura moderada de uma Nova Democracia em deriva desesperada para a direita, tentando, sem sucesso, segurar os eleitores que lhe fugiram para a Aurora Dourada e o Anel.

Por agora, a Nova Democracia continua a afundar-se nas sondagens, o PASOK é uma ruína irrelevante, os restantes partidos são demasiado pequenos e a Aurora Dourada, que pode subir ainda mais numas próximas eleições, não conta para qualquer solução de governo. Toda a gente aposta, mesmo com uma pesada derrota no referendo, que o carismático Tsipras, visto até por muitos adversários como um patriota, garante, se quiser, uma nova vitória ao Syriza. Mesmo que desça (e as sondagens chegaram a dar-lhe, em abril, quase 45 por cento), ficará, graças ao estado em que está a Nova Democracia, em primeiro. Isso vale os 50 deputados extra garantidos pela lei eleitoral, que tornam o Syriza incontornável. A não ser que haja um enorme cataclismo (sempre possível na Grécia), mesmo que o Syriza fique ainda mais longe de uma maioria, não há como os partidos que defenderam o “sim” terem deputados suficientes para governar.

Segundo as sondagens, parece não parece haver uma ligação perfeita entre o voto nos partidos e no referendo. Na sondagem do empate técnico, 65% dos eleitores do Syriza vão votar pelo “não”. Os restantes estão indecisos. Entre os eleitores do centrista Potami, o mais europeísta dos partidos gregos, 25% dizem votar “não”. O mesmo acontece com 30% da Nova Democracia. E muitos destes eleitores desalinhados não pretendem mudar o seu sentido de voto partidário.

Se o “não” vence, Tsipras vê a sua posição negocial reforçada e começa tudo de novo. Se conseguir arrancar um acordo satisfatório à Europa, o governo grego abrirá uma caixa de Pandora com efeitos políticos noutros países.

Se o Syriza for a votos de novo, apresentará, muito provavelmente, um novo mandato. Deixando claro, como não deixou nas últimas eleições, que levará até às últimas consequências a promessa de Varoufakis: prefere cortar um braço a assinar um acordo onde não esteja uma renegociação da dívida. As últimas consequências não passam por decepar o braço do ministro, mas por não assinar qualquer acordo, o que resultará no fim do financiamento e na inevitável saída do euro. Recorde-se que a Grécia tem até 20 de julho para resolver os problemas com o BCE. Se a Europa quiser criar um caos sem remédio, basta ter essa data como limite. E aí estará a decidir que a Grécia sai do euro.

Um cenário muito mais complexo é se o “sim” ganhar por pouco. Aí, nem todos estão de acordo com a demissão e isso explica a forma pouco clara como Tsipras se comprometeu a lidar com este resultado. Há quem pense que a demissão não é indispensável, até porque, como já expliquei, é bem possível que ela não mude grande coisa. Que mais valeria tentar, apesar de tudo, assinar o acordo que foi proposto antes – isto partido do princípio que a Europa ainda o quer – e tentar continuar a aprovar algumas medidas de esquerda, em especial na lei laboral e no aumento do salário mínimo. Segundo me explicam, não parece que esta posição tenha grande futuro dentro do partido. Mas é possível que seja a de algumas das pessoas mais próximas de Tsipras.

Por fim, o “não” vence, Tsipras vê a sua posição negocial reforçada e começa tudo de novo. O que estará em causa será, para Varoufakis , mais do que as medidas concretas, uma substancial renegociação da dívida que não torne a austeridade eterna. Para a maioria do Syriza será um pouco mais do que isso. Se conseguir arrancar um acordo satisfatório à Europa, o governo grego abrirá uma caixa de Pandora com efeitos políticos noutros países. Coisa que Merkel e, mais do que ela, Rajoy sabem.

Se tudo regressar ao mesmo impasse, o problema posto na possibilidade da vitória do “sim” repete-se. A diferença é que Tsipras não precisa de eleições e de um novo mandato para optar por ir até às últimas consequências. A vitória do “não” dar-lhe-á liberdade de escolha. Mais uma vez, pode decidir entre um acordo um pouco melhor do que tinha e ou a ruptura com Bruxelas e Berlim.

Se o “sim” ganhar com uma enorme diferença de votos, Alexis Tsipras não tem outro remédio se não demitir-se

Ganhe o “sim” ou o “não” é preciso olhar para o mosaico interno que é o Syriza. É ele que pode vir a determinar o caminho desta crise.

O partido está dividido em duas grande fações. A Plataforma de Esquerda, oposição interna, mais radical, é liderada por Panagiotis Lafazanis, ministro do ambiente e da energia. É o maior defensor do “grexit”, junta os sectores mais esquerdistas do partido e tem 30 por cento dos membros do Comité Central do Syriza. Com ele não contarão para qualquer acordo.

Na maioria “presidencial”, metade do partido está com o seu secretário-geral, Tasos Koronakis. Este grupo de apoio condicionado a Tsipras, conhecido como “iniciativa dos 53” e que acabará por decidir o futuro do Syriza, tem uma posição intermédia. Não partilha do antieuropeísmo bastante agressivo de Lafazanis, mas, perante um novo acordo que não corresponda a uma mudança de rumo, preferirá a saída do euro. Desta ala política que, por enquanto, tem apoiado Tsipras, faz parte o economista Eucleides Tsakalotos. Estudou em Sussex e Oxford, fez investigação em Kent e é ministro adjunto dos Negócios Estrangeiros para as relações Económicas. Este marxista mais discreto do que o social-democrata Yanis Varoufakis tem encabeçado as negociações na Europa. Os jornais, sempre pouco informados destas coisas, até o deram como substituto para moderar os excessos do impetuoso ministro das Finanças. Dizem-me no Syriza que se ele disser que assina um acordo, o grupo de Koronakis segue-o e haverá maioria no Syriza, deixando os mais radicais sozinhos.

Restam os dois grupos que se mantêm fiéis ao moderado Alexis Tsipras: um, mais pequeno, da governadora de Attica Rena Dourou e do eurodeputado Dimitrios Papadimoulis; outro, do próprio Alexis Tsipras, que não terá mais do que 20 por cento do partido. Nas recentes eleições internas, na secção de Atenas, esta divisão política ficou clara: 30 por cento para os mais radicais, 40 por cento para o grupo que realmente domina o partido e 30 por cento para os dois grupos que apoiam Tsipras.

Desculpem esta exposição sobre as idiossincrasias do Syriza. Mas sem as compreender andará tudo a chutar ao lado da baliza. É verdade que sem o carisma e a popularidade de Alexis Tsipras o Syriza não teria grandes hipóteses com um eleitorado vindo do PASOK e muito mais moderado do que esta complicada coligação. E os vários grupos mais ou menos radicais regressariam à sua influência política anterior. Mas é impossível prever o comportamento do governo grego depois referendo sem perceber duas coisas. A primeira: por agora, o Syriza não tem grandes razões para temer eleições, já que a direita ainda não conseguiu construir uma alternativa que não faça os gregos recordar o passado. Mesmo na campanha do “sim” sucedem-se, na televisão, ex-ministros, quase tão eficazes a dar votos ao “não” como as filas nos bancos ajudam aos votos no “sim”. A segunda: juntando os mais claros opositores internos a Tsipras com os seus aliados internos mais radicais, que preferem romper com a Europa a assinar um acordo que não seja muito diferente do que foi proposto, o líder do Syriza fica com pouco espaço de manobra negocial. É a situação da direita grega e a correlação de forças internas do Syriza que determinarão muito do que acontecerá depois de domingo.

Um pensamento sobre “Tsipras no dia seguinte

  1. O que talvez sobre de ensinamentos para nós é o resultado de votar em gente que nem entre eles se conseguem unir. São e ainda bem senhores dum pensamento forte e estruturado a nivel teorico, mas quando se trata de por em pratica sacrificam todo um povo com garotadas liricas.

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