Entre o medo e o cansaço

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/07/2015, diretamente de Atenas)

         Daniel Oliveira

                        Daniel Oliveira

Nas ruas de Atenas há duas campanhas. A do “não” vê-se em cartazes, distribuições de folhetos, manifestações mais ou menos espontâneas, sobretudo de jovens, todos os dias. A do “sim”, tirando alguns painéis de publicidade pagos pela Nova Democracia e o PASOK e a manifestação de terça-feira, não dá a cara fora de portas. E não precisa. Tem as filas nas caixas multibanco a fazer o trabalho quase todo.

As sondagens começaram por dar, no início da semana, uma vitória ao “não”. Hoje já davam uma ligeira vantagem ao “sim”. Na sede do Syriza, onde fui para mais uma entrevista da série que estou a fazer na preparação de uma reportagem, tentam passar confiança: se votar muita gente ganha o “não”. Não são os únicos a achar isto. Andreas Barkas, um taxista ex-eleitor do PASOK, ex-eleitor da Nova Democracia e eleitor não arrependido do Syriza, porque o Tsipras “tem tomates”, também garante, interrompendo a audição atenta da maratona ininterrupta de debates na rádio, que o “não” vai ganhar. 70 por cento dos clientes dizem que vão votar “não”. Porquê? Estão cansados.

Eleni Manika, jornalista de temas culinários, explica-me de que está ela cansada: “cinco anos depois, trabalho cada vez mais, recebo cada vez menos, pago cada vez mais impostos e nada se resolveu por causa disso”. A saída do euro, coisa que não deseja, não lhe mete medo. Pior não pode ser. Nem a Eleni, nem a Andreas: “se não tenho dinheiro, tanto me faz não ter euros como não ter dracmas”. Ele sabe que pode correr tudo mal, mas “talvez a Europa acorde”. Na rádio, Kostas Karamanlis, o homem da Nova Democracia, representante do sistema partidário em que os gregos não confiam, que foi primeiro-ministro entre 2004 e 2009 e que é sobrinho de Konstantinos Karamanlis, duas vezes presidente, quatro primeiro-ministro, a figura histórica da direita que colocou a Grécia na CEE, responde-lhe, no transístor do seu táxi: “o mundo verá uma vitória do ‘não’ como um distanciamento da Europa”. O cansaço e o medo.

Explica-me Yannis Bournous, membro do secretariado do Syriza: “As filas dos bancos não são as primeiras que conhecemos nestes cinco anos. Houve as filas de pobres para receber comida, as filas nos centros de emprego, as filas em consulados para autorizações de emigrações. Veremos se tudo o que vivemos nos últimos cinco anos vale mais do que a frustração dos últimos dias.” Kostas Niryanakis, quadro superior de um banco, tem a resposta: “os gregos estão a ter um pequeno cheiro do que será a saída da Grécia do euro”.

Sim, o referendo está simplificado. A austeridade ou a saída do euro? Não é isso que se está a perguntar. O Syriza insiste que procura força para negociar com Berlim e Bruxelas. Mas com uma pergunta longa e o país fraturado a meio – entre amigos, nos cafés, dentro de famílias, as paixões dividem-se e as discussões azedam num país que vive a política com intensidade nos últimos cinco anos –, as respostas acabam por ser simples. E resumem-se no que foi escrito em cima de uma máquina multibanco por anarquistas: “Melhor com dracma sem dinheiro do que com euro como escravos”.

A eficácia das filas, que de dia para dia se tornam mais longas, a que se vieram juntar os reformados que, sem cartão multibanco, podem entrar nos bancos para levantar parte das suas reformas, é brutal. O Banco Central Europeu sabia disso quando decidiu não prolongar a Assistência Líquida de Emergência depois de terça-feira. O governo tinha mesmo de escolher entre uma fuga de capitais que colapsaria a banca nacional ou a limitação seletiva de acesso aos bancos, que permite levantar 60 euros por dia. Na realidade, como as notas de 10 e 20 já acabaram, permite levantar 50. Assim como sabia quando decidiu não devolver os lucros que fez com a dívida grega, como se tinha comprometido. Permitiria pagar de uma vez a dívida ao FMI. Sobre esta matéria, não vale a pena ter muitas leituras. As instituições europeias organizaram um cerco ao governo grego e usaram instrumentos financeiros para objetivos políticos. O inevitável encerramento dos bancos para os proteger da falta de cobertura europeia, num momento tão sensível, fez parte dessa estratégia. Não sei se, como me diz Yannis Bournous, é uma “campanha de terror”. Mas é seguramente uma campanha.

SE SE TRATASSE DA VONTADE PURA E SIMPLES, O “NÃO” GANHARIA SEM DIFICULDADE. SOBRETUDO SE A ABSTENÇÃO FOR BAIXA. MAS A CADA DIA QUE PASSA MAIS ESSA VITÓRIA SE TORNA IMPROVÁVEL

Não é a única que o “não” tem utilizado. O canal privado Skai não se limita a passar os anúncios pagos do “sim”, que o “não” nunca conseguirá pagar. Os seus telejornais são muito diretos nos apelos ao voto. Não é desprezível, para o seu empenhamento, uma das medidas propostas pelo Syriza à troika renascida: que as televisões comecem a pagar ao Estado a taxa de concessão que lhe é devida por lei e de que não vê um cêntimo desde 1989. Mas é mais do que isso: o poder, dos representantes dos industriais aos barões dos media, está totalmente envolvido na campanha pelo “sim”. Traduzem-me os jornais nas bancas. E é por causa dos bancos fechados e das televisões empenhadas que Kostas Kurakis, fisioterapeuta, voluntário numa clinica comunitária de Helliniko e partidário do “não”, acha que o “sim” vai mesmo ganhar. E que a vingança da Europa e dos poderes instituídos na Grécia pela ousadia será pesada.

Mas também há a pressão no terreno. Eleni conta-me que foi dispensada de ir ao trabalho por estes dias. E não sabe se vai receber por eles. Diz-me que os seus patrões são claros na mensagem: se o “não” ganhar o mais provável é que percam o emprego. Não tenho como confirmar se é um caso isolado, mas várias pessoas com quem falei garantem-me que isto está a acontecer em muitas empresas.

Na simplificação de uma campanha, dá para perceber duas coisas. A primeira é que o voto está claramente dividido, do ponto de vista social. Claro que quando Eleni me diz que o voto “sim” é o dos ricos e endinheirados, quem ainda têm alguma coisa a perder, está a simplificar. Se assim fosse, o “não” tinha vitória garantida. E a segunda é que as coisas vão depender de quantos votam e dos estado de espírito em que votam.

Brandy Kiesling, ex-deiplomata norte-americano casado com uma brasileira e a viver na Grécia desde os anos 90, diz que o referendo é, como muitas coisas na Grécia e na sua política, um ato teatral: “Tspiras foi posto numa situação em que não há boa resposta e escolhe a resposta teatral”. Os gregos estão sempre no palco. Certo é que querem ver ação. São vários os votantes no “não” que me dizem que só querem que aconteça qualquer coisa. Não estão certos do que será, mas sempre será diferente da lenta agonia dos últimos cinco anos. Pelo contrário, os dos “sim” respondem que têm medo do que aconteça. Apesar de não acreditarem, na maioria dos que conheci, que a continuação do mesmo seja boa para a Grécia. O desespero do “não” tem esperança numa mudança sem rumo certo, o medo do “sim” escolhe não ter esperança e aceitar o que se conhece.

Se se tratasse da vontade pura e simples, o “não” ganharia sem dificuldade. Sobretudo se abstenção for baixa. Mas cada dia que passa, quanto mais crescem as filas, quanto mais a Skai pressiona, quanto mais a oligarquia grega se mobiliza, mais essa vitória se torna improvável. O cerco europeu à Grécia está, lentamente, a produzir resultados. Apenas uma enorme dose de teimosia e cansaço por cinco anos de tragédia lhe podem resistir. Se conseguirem, será um feito.

3 pensamentos sobre “Entre o medo e o cansaço

  1. OXI
    No dia 28 de Outubro de 1940 o embaixador Italiano em Atenas entregou ao Primeiro-Ministro Grego Ioannis Metaxas um ultimato de Benito Mussolini em que este exigia a entrada sem oposição do exército Italiano em território Grego, assim como a ocupação sem resistência de posições estratégicas na Grécia.
    Posto perante a ameaça a resposta de Metaxas foi curta e imediata: “Oxi”, ou seja “Não” em Grego.
    Poucas horas antes do prazo do ultimato expirar, a Itália invadia a Grécia tendo porém enfrentado uma feroz e inesperada resistência.
    Os chefes militares Italianos tinham assegurado a Mussolini que a conquista da Grécia estaria concluída no máximo em duas semanas, tempo que levaria a derrotar o pequeno exército daquele pequeno país.
    Mas o que aconteceu foi o oposto tendo levado apenas três semanas para que o exército Italiano fosse expulso do solo Grego, e uma poderosa contra ofensiva perseguisse o que dele restava até à Albânia ocupada por este.
    A humilhação de Mussolini foi total e teve de recorrer à ajuda das tropas alemãs para poder subjugar os Gregos.
    A resistência aos Alemães durou seis meses de uma luta desesperada e heróica, seis meses em que a Wehrmacht esteve ocupada, o que levou ao adiamento da planeada invasão da União Soviética com consequências catastróficas para os planos de guerra Alemães.

    Disse Churchill sobre a coragem dos Gregos : “Até agora dizíamos que os Gregos lutavam como heróis. Doravante teremos de dizer que os heróis lutam como os Gregos.”

    Em cada 28 de Outubro os Gregos celebram o “Dia Oxi”.

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