(Daniel Oliveira, in Expresso, 26/06/2015)
Em 2009, os grupos financeiros iam ser postos na ordem. Depois de anos de bebedeira em Wall Street, o mundo tinha aprendido a lição. Mas o efeito Lehman Brothers não foi ignorado. Em pânico, os Estados atiraram milhares de milhões para salvar bancos em falência. Os homens de mão dos grupos financeiros reforçaram as suas posições nas instituições europeias e nos Ministérios das Finanças de vários países europeus. Pouco a pouco, o discurso foi-se refazendo. Já ninguém queria saber da desregulação financeira. A consequência passou a ser a causa. O problema era a dívida pública que a crise financeira engordara. Agora, era preciso ajudar aqueles que estariam atrasados nas “reformas estruturais” a emagrecer o Estado, responsável por todas as nossas tragédias.
Perante o risco de a banca francesa e alemã sofrer mais perdas, agora por via de reestruturações de dívidas soberanas, os poderes fácticos da União Europeia, acompanhados pelo FMI, trataram de organizar o cerco aos países periféricos, que enfrentaram a crise fragilizados pela integração insensata numa moeda disfuncional. Inventou-se mais uma aberração política: a troika.
Com poderes absolutos, assumia o papel de credor no lugar da banca privada e usava o seu poder institucional para cobrar tudo. Banqueiros feitos oráculos das nações, jornalistas papagaios da verdade de cada momento e políticos sem espinha elogiaram o solidário ‘resgate’ aos Estados que, aparentemente depenados por anos de um Estado social incomportável, pediam ajuda aos seus aliados. A troika tinha a receita: aumentar impostos, cortar despesa social e vender tudo ao desbarato. O dinheiro era para pagar uma dívida que nunca parou de crescer. Passados mais de seis anos, os aliados já são credores. O que era ajuda passou a ser chantagem. E os oráculos, jornalistas e políticos da situação substituíram o moralismo pelo fatalismo. O que era apresentado como a salvação dos povos passou a ser apenas inevitável.
Recordo tudo isto para não perdermos o fio à meada. Só olhando para trás podemos perceber o que se passou esta semana em Bruxelas. Não foi uma negociação. Foi um ultimato ao único resistente. Talvez pior: um golpe de Estado para fazer cair um Governo eleito e dar o exemplo a possíveis insurrectos. A dívida é, como aconteceu muitas vezes na história, apenas uma arma. A novidade é que é usada por quem tem o poder de determinar todas as políticas do devedor, incluindo a monetária, e de asfixiar o seu sistema financeiro. É por isso que não é possível construir alternativas ignorando que, através desta perversa combinação, somos todos reféns de poderes que não elegemos. A Grécia prova que há um elefante na sala. Quem não quiser enfrentar as reais opções que temos — reestruturar a dívida, mudar a União ou romper com ela — deve, desde já, aceitar que, da política fiscal às privatizações, das leis laborais às políticas sociais, vai governar sob visto prévio de eternos credores. Estes, ao contrário da banca privada, não querem apenas o dinheiro. Querem as rédeas das nossas democracias. Têm um programa político para ser aplicado. Ser ‘razoável’ é aceitá-lo sem discussão.


