Os factos. Consumados

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 16/05/2015)

Miguel Sousa Tavares

                  Miguel Sousa Tavares

1 Afinal, parece que este meu texto ainda pode ser escrito apenas por mim próprio, sem a douta colaboração do prof. Malaca Casteleiro e demais conjurados do Acordo Ortográfico. Em tudo o que se refere ao AO, a confusão é tamanha que ninguém sabe ao certo também quando entra em vigor, com obrigatoriedade para todos. Agradeço a continuação das provisórias tréguas, permitindo-me continuar a escrever nessa língua luminosa que é o português herdado dos meus antepassados e não nessa língua de trapos, nessa caricatura de português, congeminada pelos sábios linguistas que se autodeclararam donos da língua e que, por facto consumado e demissão colectiva dos responsáveis políticos, a impuseram à força a todos nós. Um dia, espero bem, alguém fará a história desta congeminada traição ao nosso património, da arrogante incompetência que a promoveu e da estarrecedora inércia que a consentiu, por mera ignorância e terror de enfrentar os “mestres”.

Até lá, eu continuarei a lamentar a demissão do último dos responsáveis — o Presidente da República (este e os anteriores) — cuja função primeira é defender a independência nacional, de que a língua é parte essencial e inalienável. E, pensando nisso, sugiro ao candidato presidencial Sampaio da Nóvoa, que afanosamente procura um passado de ideias que não se conhecem e um presente de ideias que se entendam (qualquer mais concreta do que declarar-se, por exemplo, “um transportador de desassossegos”), que abrace esta causa, jurando-nos que, se eleito, tudo fará para pôr fim a este pesadelo. Já terá valido a pena a candidatura.

2 Se esta outra agenda não tiver falhado, a venda da TAP terá ontem dado o passo decisivo, com o conhecimento do vencedor do concurso. É mais uma causa “patriótica” perdida, mas tornada inevitável pela oportuna convergência entre a vontade governamental de se livrar da TAP a mata-cavalos e a qualquer preço e a suspeitíssima greve dos pilotos do SPAC. Um dia, também, talvez venhamos a conhecer as razões ocultas desta greve — porque a simples estupidez suicidária ou o prazer de se gabar de ter causado 30 milhões de prejuízos à empresa, não chegam para convencer. Para quem e para que interesses trabalham os pilotos grevistas da TAP? Para já, sabemos que trabalham contra a empresa que lhes paga, os seus colegas de trabalho, os contribuintes, a economia e o interesse nacional — e a favor das intenções do Governo, a que deram uma ajuda preciosa, no momento certo.

Mas era de evitar, todavia, ver o primeiro-ministro vendedor louvar-se da greve dos pilotos para dizer que ela certamente se iria reflectir nas propostas de compra e que, depois dela, tudo o que o Governo esperava era não ter de pagar pela privatização. Qualquer vendedor de tupperwares ao domicílio seria capaz de um pouco mais de sagacidade.

3 Um dos problemas do PM Passos Coelho é, aliás, a sua omnipresença e a sua incontinência verbal. Todos os dias, ao longo destes quatro anos e muito antes do actual período de “pré-campanha”, Passos é-nos servido nos telejornais sempre a visitar uma qualquer chafarica e sempre a debitar opiniões — ou melhor, a mesma opinião de sempre, num discurso repetitivo, circular, nauseante e perturbadoramente vazio. Pergunto-me se algum dia ele fará aquilo para que foi eleito, que é governar o país, ficando no seu gabinete a ler, a estudar, a analisar, a ouvir, a discutir problemas e soluções. Presumo que multiplicar as spoken oportunities do PM em todo o lado e a todo o momento (até na inauguração de queijarias dos amigos!), seja o resultado de uma brilhante estratégia de marketing congeminada por esses cérebros de imagem sem os quais nenhum político de topo hoje existe por si só. Mas, francamente, não distingo a diferença entre esta forma de fazer política e a do camarada Kim Jong-un, da Coreia do Norte.

Pergunto-me se algum dia Passos Coelho fará aquilo para que foi eleito, que é governar o país, ficando no seu gabinete a ler, a estudar, a analisar, a ouvir, a discutir problemas e soluções

4 A última dos cérebros de marketing que dão vida a Passos Coelho é a de o fazer correr o país, daqui até às eleições, a propagandear o “maior e mais ambicioso programa de reformas para o país da última década”. São, sem tirar nem pôr, as mesmas “reformas da década” que, há vinte anos, outro PM do PSD, Cavaco Silva, jurou ter feito de “forma definitiva”. E findas as quais, as de um e as de outro, o que me interessa é a resposta a estas questões: o Estado tornou-se mais pequeno, mais racional, menos centralizador, menos gastador? As autarquias desenvolveram competências próprias, tornaram-se capazes de atrair investimento, de criar inteligência local e de evitar a fuga das populações? A burocracia inútil desapareceu, as relações dos cidadãos com o Estado tornaram-se mais simples, práticas, fundadas na confiança? A educação tornou-se um exemplo de meritocracia, entre alunos e professores, criou uma relação íntima entre empresas, ensino, qualificação profissional e criação de emprego? A justiça é hoje acessível, rápida, eficiente, transparente? A sustentabilidade financeira da Segurança Social está assegurada? A competitividade das empresas é um dado adquirido e faz de nós um mercado de investimento atractivo, fora do imobiliário e dos vistos gold? As privatizações em sectores determinantes, como a energia, as comunicações, o aeroportuário, tornaram-nos menos dependentes de empresas monopolistas? A política de ordenamento do território, de defesa da paisagem e recursos naturais e da protecção do ambiente existe, funciona e é um modelo louvável? A apregoada “reforma fiscal” diminuiu o peso esmagador dos impostos nas poupanças das famílias e na libertação de recursos para o investimento e tornou as relações com o fisco mais fáceis e desburocratizadas? Se a resposta a todas estas perguntas é não, importam-se de nos explicar em que consistiram e para que serviram as tais sucessivas “reformas” da década?

5 Deve-se à perspicácia de um brilhante deputado do PSD, que o citou como mestre, e à atenção posterior de Francisco Louçã, ficarmos a conhecer a existência de um professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto que orgulhosamente se intitula racista e defende que os imigrantes africanos no Mediterrâneo sejam atropelados por navios de guerra, fuzilando-se à metralha os sobreviventes. Assim embaraçada, a Universidade lá anunciou que iria submeter o caso à sua Comissão de Ética, salvaguardando, porém, que se trata de “opiniões pessoais”. Faltou-lhe acrescentar “legítimas opiniões pessoais, que integram o exercício da liberdade de expressão”. Ora, é verdade que já todos tivemos de engolir muitos sapos, mas há um limite para tudo — um simples limite de decência. A Universidade é pública, o que faz deste professor um funcionário público — e isso, tanto quanto sei, obriga à aceitação dos princípios constitucionais vigentes, para já não referir os princípios éticos que nos distinguem dos animais e da simples barbárie de outras épocas. Este professor é indigno de ensinar alunos e indigno de servir um Estado de direito democrático. Ponto final. Pode ir pregar as suas ideias para onde quiser — para o Estado Islâmico, para a Coreia do Norte ou para casa do sr. Le Pen. Mas aqui está a mais. Aliás, que garantias de isenção dá um professor assumidamente racista quando tem de avaliar alunos de raça negra ou amarela? E se, em nome da liberdade de expressão, tal é consentido a um professor de uma Universidade, será que o mesmo se aplica a um médico num hospital, a um juiz num tribunal ou a um polícia na esquadra?

6 Graças a uma reportagem da SIC, fiquei a saber que as contas da água, em Lisboa e não só, estão divididas em escalões, conforme o consumo — o que é normal. O que já não é normal é que, subindo-se de escalão, não apenas esse seja tarifado mais caro, mas todos os outros. E que, por arrasto, se suba também de escalão na tarifa do saneamento e do tratamento de resíduos. A isto chama-se roubar.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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3 pensamentos sobre “Os factos. Consumados

  1. Grande e irrevogável perspicácia política tem mst; há 4 anos 4 apenas viu, claro e limpinho, passos coelho “arrasar” Sócrates no debate eleitoral e perguntava-se “onde tinha estado este passos coelho que ele não conhecia ?”.
    O nobre fidalgote, outro modelo exibicionista à eixo-do-mal ou governo-sombra com outro estilo, continua na mesma sem se perceber a si próprio quanto mais passos, portas e as motivações-sombras que movem este governo.
    O pacheco ainda teve a foiteza de tentar ser político mas este menino-fidalgo nem para isso teve coragem; com o rabo de fora, erra, repete, erra, repete e nunca se compromete.

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