O desfecho das eleições nos EUA não irá alterar a colisão das nações do Atlântico Norte com a dureza do destino esculpido pelos seus próprios erros. Em 30 anos, Washington protagonizou todos os pesadelos que as suas maiores figuras históricas consideravam fundamental evitar. Contra os autores de O Federalista (1788) – um dos 10 livros obrigatórios de filosofia política do Ocidente -, a categoria republicana da representação parlamentar, que deveria ser preenchida por um escol, eleito na base da honra e do intelecto, está hoje entregue a gente que faz do Congresso um lugar onde as leis são compradas e vendidas (John Rawls dixit).
Contra F. D. Roosevelt (presidente entre 1933 e 1945), voz infatigável a favor da justiça económica e social como escudo contra o risco de fascismo (que ele temia em caso de regresso à concentração capitalista anterior ao crash de 1929), hoje, nos EUA campeia uma plutocracia obscena que tudo controla, desde a comunicação social ao sistema político, incluindo as eleições (veja-se como Kamala e Trump se encostam ao apoio dos bilionários).
Contra o duplo perigo, denunciado por Eisenhower na sua despedida presidencial em 1961, a saber, o do “pilhar” (plundering) da natureza capaz de ameaçar as gerações futuras, e o de deixar a defesa entregue a uma sinistra teia de interesses sem controlo democrático, o famoso “complexo-militar-industrial”, o presente mostra-nos os EUA como um persistente obstáculo à cooperação internacional no combate à crise global do ambiente e clima, do mesmo modo que o seu negócio das armas transformou a diplomacia e a política externa na continuação da guerra por outros meios.
Os EUA embarcaram, sem aparente retorno, na demencial desmesura de um poder, autocentrado, que se julga absoluto. Nem Kamala, nem Trump entendem o derradeiro apelo de Roosevelt aos norte-americanos, no dealbar de 1945, quando insistia na ideia de que todos deveriam aprender a ser “cidadãos do mundo” (e não seus donos…), ou a proposta de J.F. Kennedy em 1962, aos países europeus, para uma “Declaração de Interdependência”, que se alargaria à própria União Soviética, quando se tratou de impedir a aniquilação nuclear.
O que une quem manda nos EUA e na UE é um desespero crepuscular, da sua inteira responsabilidade. Para travar o inevitável, sacrificam-se vidas e valores.
É indecente falar no Ocidente em direitos humanos, quando a desigualdade doméstica resvala na pobreza, e se alimenta o genocídio e a agressão perpetrados por Israel. Quando a nossa identidade se define pela fabricação e punição de “inimigos”, e não pelo poder inclusivo de um projeto de futuro, já entrámos no reino das sombras.
Desde que Israel iniciou o brutal massacre do povo palestiniano em Outubro de 2023, o regime de Netanyahu tem continuamente alargado os limites da nossa compreensão das profundezas da civilização ocidental perante as pessoas de todo o mundo.
A partir de 17 de setembro de 2024, uma série de incidentes de explosão de pagers e walkie-talkies em grande escala dentro das fronteiras do Líbano resultaram na morte de numerosos civis inocentes, incluindo crianças. Todos os sinais indicam que Israel é o cérebro por detrás dos primeiros assassínios seletivos, indiscriminados e em grande escala, de cidadãos comuns de outro país na história moderna da guerra humana. A ênfase no assassínio deve-se ao facto de, antes disso, os Estados Unidos terem “inventado” bombardeamentos massivos contra civis durante a guerra do Vietname, bem como ataques com armas químicas em áreas de produção de alimentos.
Neste caso, as ações de Israel no centro do Líbano, utilizando engenhos explosivos escondidos em engenhos eletrónicos civis, sem ter em conta a segurança de civis inocentes, através de assassinatos explosivos em grande escala, redefinem mais uma vez a nossa compreensão da palavra “bárbaro”.
Desde então, todos os produtos eletrónicos do dia-a-dia utilizados pelas pessoas tornaram-se perturbadores. Os assassinatos de Israel tornaram a palavra “segurança” perigosa nas nossas vidas quotidianas. Perante esta loucura extrema, todos correm perigo. O termo “segurança da cadeia de abastecimento”, que entrou recentemente na consciência das pessoas, está agora intimamente ligado à vida ou à morte de cada um de nós.
Na tarde do dia 18 de setembro, ocorreram mais incidentes de explosões de equipamentos de comunicação em vários locais do Líbano. Este acontecimento destrói por completo o último vestígio de cordiaidade na divisão internacional capitalista do trabalho nesta “era globalizada”.
Antes disso, alguns de nós poderíamos ter acreditado que a “segurança da cadeia de abastecimento” era apenas uma questão de rivalidade nacional. Para os indivíduos, os bens de consumo pessoais adquiridos no mercado global pareciam “amigáveis”. Ninguém questionaria a ameaça significativa que representa para a segurança pessoal, especialmente para a segurança da vida, produtos como smartphones, relógios, auscultadores, televisores, frigoríficos, automóveis e aviões produzidos na cadeia industrial global e que circulam no mercado global.
No entanto, à medida que Israel introduziu explosivos nestes produtos, cada indivíduo está agora exposto à violência pura de uma forma aterradora. Por detrás desta violência está um completo mal disfarçado de “nação”, servindo apenas muito poucos.
Um vídeo que circula nas redes sociais inglesas mostra uma menina a falar com sotaque americano, partilhando a sua história enquanto investigadora sobre a Palestina, silenciada pelas universidades e pelos media ocidentais. Ela pergunta: “Porque é que não podemos mencionar Israel?” É uma excelente questão.
Nos últimos anos, com a popularidade do discurso ocidental de “esquerda” sobre o pós-colonialismo e as políticas identitárias, desenvolvemos uma ilusão de que o colonialismo, o imperialismo, o genocídio, a opressão e similares pertencem ao passado.
Os antigos colonizadores, opressores e hegemonistas há muito que refletiram ativamente, admitiram erros, completaram uma autotransformação semelhante à “iluminação” e tornaram-se porta-vozes da civilização humana. Estes hegemonistas estão bem vestidos, cheios de retidão e moralidade; tecnologicamente avançado, transportando sonhos de levar a humanidade a Marte; educado, gentil com as pessoas e até elegeu um negro como presidente. O que há para não os adorar, respeitá-los e segui-los? Porque não havemos de “esquecer o passado e olhar para a frente”?
Os hegemonistas querem urgentemente que esqueçamos o passado, nos concentremos na sua imagem gloriosa atual e imaginemos o futuro à medida que nos guiam. “Não tens escolha”, dizem, “porque a história já terminou connosco”.
No entanto, o passado é como a sombra deles sob o sol. Esta sombra negra e assassina que lançaram, não a podemos esquecer.
Israel é o lugar onde os hegemonistas encontram a sua própria sombra. Traz o passado sangrento dos hegemonistas para o presente, diante de nós. Em Israel, colonizadores, assassinos e hegemonistas fundem-se vivamente mais uma vez.
O Secretário de Estado Blinken e Netanyahu apresentaram o The Times of Israel
A razão pela qual não podemos falar de Israel é porque isso mostra a todos que a colonização e o massacre não estão no passado, mas são sim componentes integrantes da face “civilizada” dos hegemonistas de hoje.
Na verdade, desde meados do século XX, os assassinatos políticos têm sido ferramentas importantes para os hegemonistas manterem a sua ordem global. Desde 1950, Israel tem perpetrado continuamente assassinatos contra povos árabes e indivíduos que apoiam o movimento de independência palestiniano em todo o mundo:
• Em 1956, as Forças de Defesa de Israel utilizaram um pacote-bomba para assassinar dois oficiais egípcios.
• A 11 de Setembro de 1962, a Mossad israelita assassinou o engenheiro alemão Heinz Krug na Alemanha Ocidental por ter ajudado o Egipto no desenvolvimento de tecnologia de mísseis.
• A 28 de Novembro do mesmo ano, a Mossad israelita utilizou uma carta-bomba para assassinar cinco trabalhadores numa fábrica de mísseis egípcia.
• A 8 de Julho de 1972, em Beirute, a Mossad israelita utilizou um carro armadilhado para assassinar o conceituado poeta, romancista e líder palestiniano da Frente Popular para a Libertação da Palestina, Ghassan Fayez Kanafani.
Esta lista manchada de sangue nunca cessou, até hoje.
A razão pela qual não podemos falar de Israel é porque antes disso, os hegemonistas ainda podiam usar termos como “intervenção humanitária”, “assassinatos seletivos” e “guerra contra o terror” para encobrir os seus assassinatos.
No “Anuário Internacional de Direito dos Direitos Humanos” de 2006, foi publicado um estudo sobre as decisões do Supremo Tribunal de Israel intitulado “Assassinato direcionado ou meio menos prejudicial? – A Função Limitativa do Supremo Tribunal Israelita em Matanças Selecionadas e Necessidades Militares.” O estudo observou que, desde o início da Guerra contra o Terror dos EUA, os países ocidentais têm vindo a inclinar-se cada vez mais para a utilização de “assassinatos seletivos” para alcançar os seus “objetivos militares”. Académicos, meios de comunicação social e políticos ocidentais descrevem esta violência de guerra como um ato de guerra “mais humano”, utilizando-a para justificar a “intervenção humanitária”, que é essencialmente uma agressão imperialista. Contudo, mesmo os tribunais ocidentais têm dificuldade em justificar tais argumentos.
Na realidade, para aém dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Suíça e da Alemanha, todas as antigas potências coloniais levaram a cabo estes assassinatos flagrantemente reacionários sob o pretexto de operações militares sob o nome de “assassinatos seletivos” contra antigas colónias. No entanto, operam principalmente em segredo e nunca são discutidos abertamente. Israel tornou-se o primeiro país a reconhecer oficialmente a legalidade de tais “assassinatos seletivos” em Novembro de 2000.
Os recentes incidentes de explosões de pagers no Líbano, no entanto, não são nem “direcionados” nem “limitados”, cruzando descaradamente as chamadas linhas legais utilizadas pelos imperialistas coloniais ocidentais para embelezar a sua fachada.
A razão pela qual não podemos falar de Israel é também porque todas as plataformas onde a sociedade ocidental, como os meios de comunicação social, os partidos políticos e outras vozes públicas, poderiam potencialmente falar, são estritamente controladas pelos capitalistas financeiros. São como um “império das sombras”, restringindo até um vislumbre de esperança de mudança no mundo ocidental.
Depois de Gaza e do Líbano, os hegemonistas já não podem usar a “civilização”, o “estado de direito”, a “democracia” e a “liberdade” para encobrir a sua hegemonia. Já não há globalização meiga, não há segurança absoluta para as pessoas comuns, não há vidas a salvo da matança hegemónica e não há liberdade sem Estado. A “segurança da cadeia de abastecimento” de agora em diante estará intimamente ligada à sobrevivência e à morte de cada um de nós.
Um mundo seguro, igualitário, livre e verdadeiramente multilateral surgirá a partir de um lugar onde possamos confrontar os hegemonistas, resistir aos seus assassinatos, agressões, interferências e enganos”.
Sim, como se atrevem os dirigentes ocidentais em dizer que defendem a “civilização”?
No momento em que escrevo, Gaza é a metáfora trágica do tempo que vivemos. Vivemos entre ruínas. Há memória recente de casas, de escolas, de hospitais, de gente viva, mas só presenciamos escombros e morte. Há memória recente de princípios éticos e de legalidade nacional e internacional, mas só observamos impunidade, indiferença, cumplicidade ou revolta impotente.
Há memória de ideias e projectos de resistência contra a dominação moderna eurocêntrica (capitalista, colonialista e patriarcal), mas aparentemente foram derrotados pela oposição frontal que lhes foi movida pelas classes dominantes, sobretudo desde o início do século XIX, as burguesias nacionais e a burguesia global, sempre as mesmas e sempre diferentes.
Foi esta a classe que sempre beneficiou do sistema de dominação e que hoje proclama com ruidoso triunfalismo que nunca permitirá ser desalojada dessa posição pacificamente.
Uma das características fundamentais da dominação moderna é a linha abissal que de modo radical separa os seres considerados plenamente humanos dos seres considerados sub-humanos ou infra-humanos, e como tal tratados. Esta linha abissal está radicalmente ausente da consciência filosófica moderna. É essa ausência que legitima a persistência da linha abissal, tanto nas relações sociais, como no desempenho “normal” das instituições políticas, jurídicas e educativas.
A ideia de que na era moderna eurocêntrica a humanidade não existe sem desumanidade é difícil de aceitar ou mesmo de entender, dado o extraordinário sistema de ilusões e de meias-verdades que, com o passar do tempo, se converteu em realidade para os que beneficiam desse sistema e, muitas vezes, mesmo para os que são vítimas dele.
Certamente o par humanidade/desumanidade sempre esteve presente ao longo da história, sendo indiferente saber se se trata de um castigo divino, de um imperativo religioso, bíblico ou corânico, ou simplesmente de uma fatalidade humana. O que é específico da era moderna é a negação de que tal dualidade existe. Nos seus termos, a humanidade é uma só e sem excepções; o que está fora da humanidade é, por definição, natureza não-humana, vida não-humana, por mais parecida que seja com a vida humana.
É notável a persistência dessa concepção. Os índios americanos eram seres inferiores e, como tal, extermináveis; os escravos africanos eram coisas transacionáveis; os palestinianos são, aos olhos dos sionistas de Israel, animais humanos; os imigrantes a caminho do Norte global são seres descartáveis, sempre que desnecessários para os interesses económicos dos países onde tentam chegar. Parafraseando James Baldwin, quem não tem o direito de dizer sim à vida, tal como o fazem os seres considerados plenamente humanos é, por definição, sub-humano.
Ou, como diria Frantz Fanon, habita a zona do não ser. A condição sub-humana é, assim, construída como natural e como tal ninguém é culpado dela, ninguém é responsável por ela. Eliminá-la é que seria antinatural, uma violência contra a natureza das coisas.
A tragédia do tempo presente é que, embora a dualidade humanidade/desumanidade seja mais necessária do que nunca à sobrevivência do sistema moderno de dominação, há um mal-estar geral, uma malaise indefinida, decorrente do facto de, depois de séculos de convivência entre seres considerados plenamente humanos e seres considerados sub-humanos, ser impossível não ver que os seres sub-humanos são pessoas como todas as outras. O mal-estar que isso causa representa o momento em que a linha abissal se faz presente na consciência colectiva.
Do outro lado da linha abissal teimam em afirmar a sua presença pessoas consideradas sub-humanas que têm tudo para poder dizer sim à vida, tal como os seres considerados plenamente humanos. Mas, assim sendo, o que lhes falta para serem tratados como seres plenamente humanos? A malaise contemporânea reside numa perplexidade não assumida que decorre da suspeita de que a resposta a essa pergunta seja intolerável para quem a faz.
Há, pois, dois tipos de perguntas: as perguntas que se fazem para conhecer a resposta e as perguntas que se fazem para evitar a resposta. As primeiras são motivadas pela curiosidade, as segundas, pelo pânico. A antecipação do pânico é tão paralisadora quanto o pânico em si mesmo.
O caracter inquietante da pergunta — o que lhes falta? — reside em que na era moderna eurocêntrica os seres considerados plenamente humanos só o são porque outros seres tão humanos quanto eles foram expropriados da capacidade de dizer sim à vida.
Essa resposta põe a totalidade dos seres humanos no centro da tragédia contemporânea. Os seres considerados plenamente humanos deixam de poder clamar inocência. A resposta credível não reside em assumir a culpa individual, mas antes em assumir a quota-parte individual de uma responsabilidade colectiva que criou este estado de coisas contraditório em que os princípios e valores do humanismo universal são, na prática, o privilégio exclusivo de alguns à custa do sacrifício de outros.
Isto significa que a linha abissal é tão desumanizante para os seres considerados plenamente humanos como para os seres considerados sub-humanos. Os seres considerados plenamente humanos são postos perante a ideia aterradora de que o seu bem-estar assenta num roubo há muito legalizado do bem-estar dos seres considerados sub-humanos. Os seres plenamente humanos são individualmente pessoas honestas, mas são colectivamente ladrões. São individualmente incapazes de violência, mas coletivamente assassinos profissionais. São cidadãos obedientes à lei, mas colectivamente beneficiam de uma impunidade sem limites.
De um lado, um privilégio injusto, do outro, um sacrifício injusto, ambos ocultados por um diáfano manto de princípios e valores universais (liberdade, igualdade, fraternidade). Não há psiquiatra que resolva esta antinomia quando ela se instala no corpo e na alma, tanto dos seres considerados plenamente humanos como dos seres considerados sub-humanos. A essa mesma conclusão chegou o grande psiquiatra Frantz Fanon.
É necessário analisar fenomenológica e existencialmente tanto a condição abissal das populações, relativamente cada vez mais numerosas, que foram expropriadas do direito a dizer sim à vida, como a condição dos que beneficiaram e beneficiam dessa expropriação. É fundamental ter em conta três factos.
Primeiro, a existência da linha abissal é uma constante da era moderna eurocêntrica. Contudo, a linha não é fixa e historicamente tem-se movido, quer no sentido de incluir mais população na plena humanidade, quer no sentido inverso.
Segundo, é possível passar individualmente de um lado para o outro da linha abissal e aí permanecer com alguma estabilidade; o que não é possível é que o colectivo a que o indivíduo originalmente pertenceu passe colectivamente para o outro lado da linha.
Terceiro, nas condições prevalecentes, sobretudo no Norte global, é possível que indivíduos transitem diariamente da plena humanidade para a sub-humanidade, e vice-versa.
Viver do lado de lá da linha abissal.
A condição existencial de sub-humanidade consiste num conjunto imenso de características. Não significa que todas estejam presentes, mas algumas delas estarão. Uso o plural masculino universal para designar indivíduos e colectividades sub-humanizados.
Não pertencem ao mundo que oficialmente se reconhece como mundo, mas vivem nele. Tal como nem todos os que vivem na cidade pertencem à cidade.
Conhecem os princípios e os valores universais (liberdade, igualdade, fraternidade), mas sabem, por experiência, que eles não os protegem; no máximo, contribuem para promover a sua passividade.
São constantemente avaliados e julgados pelo que são, e não pelo que fazem.
Só partilham duradouramente a amizade, a alegria e o sofrimento com os que estão do mesmo lado da linha abissal. Os considerados plenamente humanos aparecem e desaparecem segundo as suas conveniências.
O máximo reconhecimento oficial que podem obter deve-se ao facto de serem úteis ou, pelo menos, de não serem considerados perigosos.
São muitas as opiniões sob a sua condição com imagens próprias de quem observa uma paisagem num safari urbano para turistas ou analisa resíduos de uma história infeliz que felizmente foi superada ou é melhor esquecer.
Têm opiniões próprias, mas ninguém as tem em conta no mundo oficial senão na medida em que forem consideradas perigosas ou apropriáveis.
Quando se vêem ao espelho têm a sensação de que o espelho os vê, segundo as circunstâncias, ora com desconfiança, resignação, complacência, ora com orgulho e incontida revolta.
Quando saem de casa (se a tiverem) entram num mundo hostil que, no máximo, os aceita condicionalmente e por razões pragmáticas que lhes são estranhas. Quando a repressão tem sede de sangue, a casa é tão perigosa quanto a rua.
O seu trabalho, quando pago, é sempre sobredesvalorizado e precário. Quando lhes é dada autonomia, é sempre sem condições para serem autónomos. A autonomia é uma das mil formas de autoescravização.
Se viverem num país onde os escravos viveram no mesmo território que os seres considerados plenamente humanos, nunca deixarão de ser descendente de escravos, mesmo que sejam descendentes de reis ou de rainhas.
Não podem planear a sua vida nem a da sua família. A cada momento ocorrem emergências e riscos que põem tudo a perder, inclusivamente a própria vida. Por mais que eduquem os filhos, sabem que eles muito provavelmente nunca poderão fugir a essa contingência.
São tratados ocasionalmente com benevolência pelos seres considerados plenamente humanos, mas sabem que nenhum deles gostaria de ser como eles ou de viver com eles.
Têm marcadores corporais, ideológicos ou religiosos que os tornam suspeitos aos olhos dos seres considerados plenamente humanos até prova em contrário, uma prova que nunca vale para o colectivo a que pertencem.
São instigados a imitar o mundo dos seres considerados plenamente humanos, mas sob a condição de nunca lhe pertencer ou de o usar para benefício próprio.
São permanentemente vigiados e policiados. A convivência de proximidade com os seres considerados plenamente humanos, aparentemente benévola e educativa, é muitas vezes a mais insidiosa.
Vão à escola para desaprender tudo o que a família ou os antepassados lhes ensinaram e, sobretudo, para não conhecerem as verdadeiras razões da sua condição sub-humana. O que aprendem ensina-os a viver imitando os considerados plenamente humanos, mas nunca os ensina a serem diferentes deles e iguais a eles. O máximo que a escola lhes pode ensinar é não desprezar ou odiar, apesar de serem desprezados e odiados.
Têm momentos de intensa alegria, mas isso é muito diferente de ser feliz.
Sabem que ninguém controla o destino, mas que, no caso deles, alguém, que não eles, controla o seu destino.
Alguém lhes disse que no passado havia uma classe de gente que não tinha nada a perder senão as suas grilhetas. Perguntam-se: tudo o que têm pode ser considerado grilhetas?
Quando recebem ajuda travam a garganta para não ter de gritar: Maldita seja a ajuda por ser necessária!
Estarem conscientes que foram expropriados e desarmados é a arma primordial para resistir.
Viver do lado de cá da linha abissal
Na sociedade moderna eurocêntrica (capitalista, colonialista e heteropatriarcal), viver do lado de cá da linha abissal é sinónimo de ser considerado plenamente humano. Ser plenamente humano nas condições da modernidade ocidental é poder viver realisticamente uma existência com as características diametralmente opostas às que acabei de enumerar para caraterizar a sub-humanidade.
Viver a plenitude humana como se fosse uma condição universal é a inocência existencial primordial da modernidade ocidental. Ao longo de vários séculos foi-se construindo a imensa biblioteca da inocência ocidental, enumerando, analisando, detalhando, criticando, propondo incessantemente novas interpretações para todos os princípios, valores e ideais supostamente universais, constitutivos dessa inocência, e organizando toda a parafernália institucional político-jurídica, ideológica e educacional que oculte a fractura abissal em que assenta essa inocência.
Foi assim que se controlou e legitimou a parcela da humanidade a que foi concedido o privilégio de representar a totalidade da humanidade titular dos princípios e valores universais. Foi um investimento ideológico e político imenso. O que estava em causa era a reprodução da linha abissal e a garantia da sua invisibilidade para poder ser plenamente eficaz na reprodução do sistema moderno e eurocêntrico de dominação.
Se a biblioteca da inocência ocidental tiver de ser definida por conceitos essenciais, dois parecem evidentes: o liberalismo e o esquecimento da história. O liberalismo consistiu na prerrogativa de universalizar o que convinha à burguesia emergente e de particularizar (e, portanto, descartar) tudo o que se lhe opunha. O esquecimento da história consiste em concebê-la como passado e nunca como presente. Os EUA foram construídos à custa do extermínio dos índios, mas isso é passado ou filmes de Hollywood e John Wayne. O bem-estar dos europeus foi construído tanto com o roubo dos recursos naturais dos povos colonizados, quanto com o roubo dos seus recursos humanos através da escravatura, mas isso terminou com o fim da escravatura e as independências das colónias.
A vigência dos princípios e valores universais e as instituições que lhes foram dando corpo nunca impediram que houvesse exclusões sociais no interior do mundo dos seres considerados plenamente humanos. Mas tais exclusões foram controladas e minoradas pela vigência efectiva desses princípios e instituições: primado do direito, democracia, direitos humanos. Ou seja, direitos e garantias a serem accionados para eliminar ou minorar tais exclusões.
A cegueira constitutiva do liberalismo foi não ver que do outro lado da linha abissal, no mundo das relações entre os seres considerados plenamente humanos e os seres considerados sub-humanos, tais princípios e instituições não vigoravam, precisamente porque, se funcionassem do mesmo modo, poriam em causa a fractura abissal que lhes dera vida. Por isso, as práticas sociais nunca puseram em causa a universalidade dos princípios que violavam.
O preço que se paga por se ser considerado plenamente humano e protegido como tal nestas condições reside num risco existencial. O risco de, em algum momento, vir a ser-se confrontado com a ideia de que essa condição de plenitude, longe de ser um direito natural e universal, é um cruel privilégio que, desde o século XVI, assenta na necessidade inelutável de submeter populações inteiras à condição de sub-humanidade.
A ideologia da vigência universal que sustenta o princípio do primado do direito ou o princípio dos direitos humanos é tão hegemónica que as populações consideradas sub-humanas não têm sequer outra alternativa para minorar o sofrimento injusto a que são sujeitas senão apelar para esses princípios, mesmo sabendo que eles só virão em sua ajuda para aliviar marginal e transitoriamente a sua condição e para garantir a sua passividade ante o sistema de dominação.
Ser plenamente humano nas condições da modernidade ocidental implica um grau de desumanização. Implica ter de viver com a ideia de que a plenitude humana, de que tanto se orgulham os modernos eurocêntricos, assenta nos escombros, nas ruínas, nas valas comuns da humanidade de tantos seres humanos ao longo da história moderna, e hoje mais que nunca.
Arrisco-me a afirmar, pensando em Gaza, que esse grau de desumanização é vivido hoje com mais intensidade do que nunca, mesmo que seja uma vivência de passividade. É o resultado de processos sociais complexos e até contraditórios, tão contraditórios quanto as soluções que estão a ser dadas a essa vivência existencial.
As sociedades contemporâneas estão dramaticamente divididas entre os grupos sociais que não querem lembrar a história e os grupos sociais que a não podem esquecer. Por isso, concluo este texto com a voz do grande poeta palestiniano, Mahamoud Darwish:
A guerra vai acabar
Os líderes apertarão as mãos
A mulher idosa continuará à espera do seu filho martirizado