António Costa, que tem assumido uma postura de nulidade, assemelhando-se a um morto-vivo, saiu hoje da tumba – qual ressuscitado – para se indignar com a Rússia. A Rússia deve ser o único tónico que o tira da letargia já que as bombas de Israel sobre Gaza e os gritos das crianças decepadas e moribundas devem ser música para os seus ouvidos de capataz do Império.
Isso mesmo nos diz o excelente comentário de Bruno de Carvalho que reproduzimos:
“Von der Leyen anuncia 19.° pacote de sanções à Rússia como resposta ao ataque de hoje à Ucrânia que lamentavelmente provocou a morte de mais de uma dúzia de pessoas.
António Costa diz-se “horrorizado”. Entretanto, como sublinhou muito bem Tiago André Lopes esta manhã na CNN, a noção de horror do presidente do Conselho Europeu está mal calibrada.
Houve zero sanções e zero declarações de horror contra Israel que assassina funcionários da ONU, jornalistas, trabalhadores humanitários, dezenas de milhares de crianças e mulheres, etc.
A União Europeia pode fazer o que bem entender para enfrentar Moscovo mas não pode fingir que se trata de defender valores democráticos. Há muito que essa mentira jaz debaixo dos escombros da Faixa de Gaza.
Ninguém que tenha uma noção mínima de direito internacional e geopolítica acredita que as intenções dos líderes ocidentais são honestas e desprovidas de interesse.“
E sim. A afirmação de Tiago André Lopes, na CNN – “A noção de horror de António Costa sobre este ataque da Rússia está mal calibrada, para não dizer outras coisas”, e que dá título a esta publicação é mais que apropriada. O vídeo – uma excelente análise dos últimos acontecimentos da guerra na Ucrânia -, pode ser visto abaixo.
(Hadrien Mathoux in Marianne, 30/07/25, Tradução de Alfredo Barroso in Facebook, 26/08/25)
Ao aceitar um acordo comercial humilhante para a União Europeia, a presidente da Comissão Europeia confirmou a incapacidade da organização supranacional se comportar de forma diferente de um vassalo dócil dos norte-americanos. Só alguns sonhadores assaz ingénuos [“naïfs”] continuam a crer que, na Europa, “a união faz a força”.
China imperial, meados do século XIX. Entalada, enfraquecida pela corrupção e saída exangue das guerras do ópio, a dinastia Qing é constrangida pelas potências ocidentais (Reino Unido, França, Rússia, Estados-Unidos) a assinar o que mais tarde os chineses designarão por «tratados iníquos». Paragrafados sem verdadeira negociação, esses acordos abrem a China ao comércio, forçam-na a ceder enclaves territoriais, condenam-na a pagar indemnizações. Em troca, o Império do Meio não recebe… nada. Estes tratados inauguram um século de declínio e de humilhação para os chineses, submetidos ao jugo de uma Europa triunfante.
Regressemos à nossa época, e ao funesto acordo-quadro concluído no domingo 27 de Julho de 2025 por Ursula von der Leyen com Donald Trump. Desta vez, é a Europa que está do lado dos vencidos da História. A presidente da Comissão Europeia aceitou as condições exorbitantes sem contrapartida notória: a U.E. vê ser-lhe imposto o pagamento duma taxa de direitos alfandegários de 15% sobre as suas exportações em sectores chave e não imporá o pagamento de taxas aos produtos dos EUA; a U.E. compromete-se a investir 600 mil milhões de dólares no país do Tio Sam, designadamente em equipamentos militares, e a proceder a compras massivas de petróleo, de gaz natural liquefeito e, ainda, de nuclear e de inteligência artificial.
Esta negociação só tem um nome: o desequilíbrio manifesto do «deal» – denunciado quer por chefes de Governo quer por economistas e por empresários – confirma a vassalagem da Europa. É preciso ouvir Ursula von der Leyen, sorriso crispado, a explicar que os Estados-Unidos não atribuíram «nenhuma» concessão à U.E., tendo apresentado como objectivo das discussões o «reequilíbrio da relação comercial» visando suprimir «um excedente do nosso lado e um défice do lado norte-americano».
Longe de ser a «presidente da Europa» que ela sonha incarnar, a patroa da Comissão Europeia – que parece, aliás, bem menos preocupada com os excedentes comerciais da sua Alemanha natal em relação aos outros Estados europeus… – adopta a atitude duma representante de país colonizado a capitular perante as exigências da potência superior, da qual ela adopta, de passagem, os elementos de linguagem. Von der Leyen e os seus comissários europeus aplaudiram a «estabilidade» e a «previsibilidade» trazidas pelo acordo. Uma verdadeira “Munique comercial”, em que se felicitam pela breve pausa, sem admitirem que ela inaugura um declínio duradouro.
Poderia tudo isto ter acontecido de outro modo? As causas desta humilhação têm a ver evidentemente com o estado alarmante da economia do Velho Continente, pregado ao solo por uma taxa de crescimento largamente inferior às da Ásia e da América, e chumbada por uma natalidade ridícula que não consegue compensar uma imigração mal controlada. Mas têm a ver também com a própria natureza da União Europeia, uma espécie de “URSS do comércio livre” que combina a rigidez burocrática e fé ingénua numa “mundialização feliz”.
Representante anacrónica de uma ideologia que já estava ultrapassada vinte anos atrás, Ursula von der Leyen acredita ainda que a extensão infinita dos mercados, o liberalismo à “outrance” e o doce comércio livre resolverão os problemas do mundo,
Tudo isto nem sequer é muito grave para ela visto que, facto espantoso, a actual presidente da Comissão negoceia as decisões que comprometem toda a Europa, sem prestar contas a ninguém.
É absolutamente inacreditável o número de pessoas de esquerda que abomina esta governação do PPD e do Chega, que manifesta a sua imensa preocupação pelos ataques ao Estado Social, e ao futuro negro que tal política nos reserva, mas depois aparecem solidários, ao lado de políticos impostores, vendidos aos interesses dos fabricantes de armas, em especial os norte-americanos. Ele é o chanceler alemão, Metz, a presidente da UE, Ursula, o presidente francês, Macron, o Primeiro-ministro inglês, Starmer, a Primeira-ministra italiana, a neofascista Meloni, o Secretário-geral da NATO, Rutte, a louca da Estónia, a Kallas e outros de uma a lista interminável de malfeitores, apoiantes da guerra na Ucrânia. Tal é uma verdadeira desgraça para a manutenção do Estado Social.
Será que, essas pessoas e organizações, não são capazes de discernir que a continuação da guerra – que a Europa, desses políticos impostores, inequivocamente apoia -, liquidará sem apelo nem agravo o Estado Social? Que o dinheiro para o rearmamento europeu, para uma guerra que não existe, virá exclusivamente dos ataques que os governos preparam aos direitos das pessoas? Não sou eu que o digo é o próprio chanceler alemão que o confirma.
Se os que nada têm e votam na Direita e extrema-direita são acéfalos, o que chamar aos que cegamente continuam a defender a narrativa da NATO e a considerar herói um fulano que é uma marionete manipulada por interesses que são estranhos ao seu país e que ele diz defender?
Uma guerra que, a continuar, se saldará por mais destruição da Ucrânia e mais mortes e mais dinheiro dos europeus, vindo do Estado Social, enterrado no caos.
Estranho mundo este, onde pessoas, que até prezamos, dizem combater a Direita e a extrema-direita mas são incapazes de resistir aos cantos, não das sereias, mas de malfeitores, sem sequer se darem conta disso.