Mais Salgado

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 20/01/2017)

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Foi a notícia do dia, o ex-presidente do BES estava no Departamento Central de Investigação e Acção Penal para prestar declarações no processo Marquês. O MP suspeita que Salgado deu ordens para transferir dinheiro para Sócrates. Ao fim de quase três anos ainda há notícias do dia da operação Marquês. Não sei se isso é bom.

À Operação Marquês juntou-se a falência do Universo Espírito Santo e o Monte Branco: Salgado é arguido nos três processos. A Judiciária devia escrever SALGADO com os dossiês dos processos como fazem com tijolos de haxixe. Com mais esta acusação, Ricardo Salgado já tem currículo para ser presidente do Parlamento Europeu.

Confesso, quando ouvi a notícia, fiquei admirado. Ricardo Salgado, que agora já podia ir para onde quisesse, estava no DCIAP?! Provavelmente, não havia neve em St.Moritz.

Depois de ter sido ouvido durante várias horas no DCIAP, como é hábito, ficámos a saber (sabe-se lá como) que, desta vez, o MP pedia uma medida de coacção pesada para Ricardo Salgado. Termo de identidade e residência era insuficiente para os procuradores da “Operação Marquês” e sai muito caro pôr polícia à volta daquela moradia. Salgado ainda leva a PSP à falência.

O ex-presidente do BES ia, de seguida, ser ouvido pelo célebre juiz Carlos Alexandre, que iria decidir a medida aplicar. Esperava-se castigo severo mas, afinal, Salgado regressava a casa proibido de se ausentar do país.

O MP, segundo as fontes, queria medidas de coacção mais pesadas mas, provavelmente, o charme do Doutor Ricardo Salgado foi demais para uma alma simples como a do Carlos Alexandre. Uma coisa é o Pinto de Sousa, que ele topa que veio das berças como ele, outra o Doutor Salgado, que sabe usar vinte e quatro talheres desde que nasceu. Mais duas horas de conversa, e um prego do Gambrinus, e o Doutor Salgado ainda conseguia convencer o juiz Carlos Alexandre a comprar o Novo Banco.

De resto, o “castigo” que Salgado levou foi não poder falar com Sócrates. Mais de dois anos depois do caso ter começado, Salgado não pode falar com Sócrates. Agora é tarde. A única coisa que evita são os telefonemas de Sócrates a gozar com o Sporting.

O ex-DDT está também proibido de falar com pessoas do “Universo Espírito Santo”. Ou seja, Salgado pode levar um vida normal se ficar afónico. Esta medida é mais pesada, mas seria muito pior se tivesse sido aplicada há um mês. Imagina, o estimado leitor, como seria a ceia de Natal do Doutor Salgado sem poder falar com pessoas do Universo Espírito Santo? Bem sei que, provavelmente, metade da família não lhe quer falar, mas ia ser complicado não poder falar com ninguém. Já estou a ver o Doutor Salgado a imitar um peru para lhe passarem a travessa.

Sobrinha do Dr. Salgado – “O Tio Ricardo esta a ter um AVC, mãe?”

Irmã do Dr. Salgado – “Não, querida, está a pedir para lhe passarem a travessa das carnes frias.”


TOP 5

Monte Marquês do BES

1. “Jornalistas aprovam boicote a conferências de imprensa sem direito a perguntas” – Congresso dos jornalistas dá conferência de imprensa sem direito a perguntas de jornalistas.

2. “Católica melhora previsão de crescimento do PIB para 1,7%” – mas por causa da visita do Papa Francisco.

3. “Ulrich diz que quem pagou resgate os bancos foram accionistas e não contribuintes” – na verdade, somos todos accionistas à força.

4. “Cristas desconfortável com atitude de Passos Coelho” – é para ficar a saber o que sentimos quando ela abre a boca e leva embrulhos para a Assembleia.

5. “PS vai chumbar terça-feira de Carnaval como feriado obrigatório” – se for por causa da gripe e das urgências, faz sentido.

E o Ricardo estava mesmo ali!

(In Blog O Jumento, 19/01/2017)
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Primeiro descobriu-se que Sócrates tinha de ser corrupto, a seguir descobriram que o dinheiro do Sócrates estava nas contas do amigo. Como o amigo era administrador de uma empresa que trabalhava para o Estado tinha que ser ele o corruptor, Mas azar do dito, a empresa do amigo tinha tido mais contratos com a direita do que com o Sócrates, isto é, se o dinheiro tivesse vindo do Grupo Lena o sofisticado software do inspector do fisco mais a sua super equipa ainda teriam que vasculhar nas contas do Passos, do Portas e até mesmo do genro de alguém mais influente. A pista tinha de ser outra.
E onde é que cheira mais a dinheiro? É óbvio, qualquer canídeo com faro especializado no vil metal sabe que o cheiro a dinheiro vem do sul, cheira a África, logo a pista do dinheiro teria de ir dar a Angola e aos muitos negócios aí realizados. Jogo perigoso, o único capítulo em que os angolanos são rigorosamente apegados aos valores da democracia é na distribuição de patacas por tugas gulosos.
Angola não era boa ideia, talvez a Venezuela, quem não se lembrava do Magalhães? Era isso, vamos já investigar a empresa do Magalhães, o navegador que deu a volta ao mundo para acabar nos entrefolhos dos bolsos das calças do Sócrates que, afinal, não era do Sócrates, tinham sido compradas pelo amigo mas este em vez de as provar deu as medidas de calça do primeiro-ministro. Aliás, acho mesmo que as medidas dos primeiros-ministros e do presidente da CGD também deviam ser depositadas no Tribunal de Contas.
Mais um azar, o super investigador de Braga tinha de continuar a sua rota do dinheiro, o negócio estava mesmo ali ao lado, não era na Venezuela, mais a sul, no Brasil, como é que não tinham visto logo? Mas não era no Lavajato, já tinham pedido ajuda aos super juízes brazucas, mas nada, o negócio tinha de ser na Oi. Doi, doi mas não deu em nada, feita a circum-navegação do pilim, o arcebispo virou-se para o país e aí o dinheiro pecaminoso tinha de estar no Algarve, em Vale do Lobo.
Estava mais do que provado, já não haviam dúvidas, Sócrates tinha-se abotoado com o dinheiro por conta de um esquema de licenciamentos. Mas o azar tem destas coisas e até o líder do PSD de Faro, autarca de VRSA e amigo de Fidel Castro veio desmentir. Eis que de repente e a um mês do último prazo dado para concluir a acusação bingo! Estava-se mesmo a ver que tinha de ser o Ricardo Salgado a ter desembolsado a massa!

A investigação tem destas coisas e da mesma forma que Deus faz justiça por linhas tortas, os novos investigadores a fazem com linhas trocadas. No primeiro mês da investigação concluíram da culpa de Sócrates, provaram que tinha recebido milhões. Passados anos de investigações descobriram o móbil do crime e o corruptor. Vá lá, Sócrates é um gajo com sorte, pode dar-se por feliz pois com este tipo de justiça podia muito bem ter sido julgado e executado primeiro e só depois investigado, tudo dentro dos prazos legais generosamente concedidos, alargados e aprazados pela procuradora-geral.

É uma pena que o prazo esteja mesmo a acabar pois há uma dúvida que subsiste, haverá alguma relação entre o luxuoso patrocínio concedido pelo BES a um congresso organizado pelos magistrados do MP e o dinheiro dado a Sócrates?
É uma pena que o fiscal de Braga não tenha tempo para investigar mais despesas com férias, da mesma forma que andou a ver quem pagava as férias de Sócrates, podia muito bem investigar se houve alguma relação entre os negócios de Sócrates e os passeios das dondocas dos magistrados que estiveram no congresso. Enfim, com a criatividade imaginativa da justiça e com Sócrates e Salgado metidos no negócio tudo é possível. Querem ver que foi o amigo de Sócrates a pagar os salgadinhos no luxuoso hotel Tivoli Marina, uma espécie da versão hoteleira dos sapatos da Prada?

O que é que Ricardo Salgado tem?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 27/07/2015)

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Até há um ano, sabia-se o que Ricardo Salgado tinha: influência, muita influência, e poder, muito poder. Por isso é que era conhecido pelo Dono Disto Tudo. Agora, apesar da sua prisão domiciliária, as condições em que ela decorreu e as medidas de coação que lhe foram impostas, provam que a sua aura de DDT ainda não desapareceu. Ou então que, para o juiz Carlos Alexandre, há filhos e enteados (da Justiça, entenda-se).

Um ano depois da resolução do Banco Espírito Santo (ou melhor, da sua extinção, ordenada pelo Banco de Portugal) e da implosão do Grupo Espírito Santo, o juiz Carlos Alexandre invoca como motivos para a detenção domiciliária de Ricardo Salgado os riscos de fuga e perturbação do inquérito, através da ocultação ou manipulação de provas. Ora muito bem: durante um ano, o dr. Ricardo Salgado não esteve sujeito a nenhuma medida de coação no âmbito deste processo. E agora, ao fim de um ano, é que há riscos de que fuja ou que destrua documentos ou esconda património? Se o quisesse fazer teria esperado 365 dias para começar a atuar nesse sentido? Isto faz algum sentido?

Como perguntou Luís Marques Mendes: “Porque é que se demorou quase um ano a constituir arguidos? (…) Percebo que é um processo muito complexo, mas o Ministério Público deveria, no mínimo, dar uma explicação.”

PARECE QUE PASSOU A HAVER UMA JUSTIÇA QUE SERVE PARA HUMILHAR OS POLÍTICOS E OUTRA, MAIS SUAVE, PARA BANQUEIROS

Mais: o dr. Carlos Alexandre impôs a Duarte Lima a detenção em casa com pulseira eletrónica. Fez o mesmo com Armando Vara. E queria fazer coisa idêntica com José Sócrates, recusando o que o ex-primeiro-ministro pretendia: ir para casa com vigilância policial à porta. Com Ricardo Salgado não propôs essa medida porquê, sabendo-se que a vigilância policial é bastante mais onerosa para os cofres públicos? Ou propôs, Salgado recusou e ninguém sabe? Volto a invocar Luís Marques Mendes: “Porquê vigilância policial? Admitindo que seja por questões de natureza técnica ou logística, estou do lado das pessoas que querem ajudar a credibilizar a justiça e, por isso, acho que era devida uma explicação.”

E como é possível que no caso de Armando Vara e José Sócrates, apesar de se terem disponibilizado para prestarem informações, tenham sido detidos e conduzidos em carros policiais para os calabouços do Ministério Público a fim de prestar declarações ao juiz Carlos Alexandre – e no caso de Ricardo Salgado não só foi de motorista, como regressou a casa igualmente no seu carro com o respetivo motorista, apesar do invocado risco de fuga?! Não é um bocadinho ridículo?

Lamento, mas parece que passou a haver uma Justiça que serve para humilhar os políticos e outra, mais suave, para banqueiros. E esta impressão só é corrigida se o Ministério Público der informações esclarecedoras aos cidadãos sobre o que justifica a forma como foi tratado Ricardo Salgado, por oposição aos casos de Duarte Lima, Armando Vara e José Sócrates. De outra forma, a suspeita está criada.