Todo o poder aos novos sovietes

(Pedro Marques Lopes, in Diário de Notícias, 13/02/2021)

Pedro Marques Lopes

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Como é do conhecimento geral, as contas de Donald Trump, no Facebook e no Twitter, continuam suspensas. As administrações destas duas empresas deliberaram e acharam que as publicações do agora ex-presidente dos Estados Unidos incitavam à violência e debitavam muitas mentiras.

Não será preciso ser particularmente sagaz para perceber que os gestores destas redes sociais só prescindiram deste importante cliente depois de ser certo que ele ia deixar de ser presidente dos Estados Unidos.

Isso chegaria para desconfiarmos do suposto compromisso com a verdade destes indivíduos ou de qualquer vontade de defender valores que não seja ganhar mais uns milhões. Aliás, não será preciso puxar muito pela memória nem este jornal inteiro bastaria para dar exemplos de que não só a verdade para estas empresas pouco importa como os atropelos éticos são constantes.

Se em tese todas as empresas se devem guiar por práticas que sigam princípios éticos em que, claro está, se inclui não mentir e não divulgar mentiras, sabemos que essa qualidade é tão mais respeitada quanto maior for o poder coercivo das autoridades – e convém lembrar que no caso das democracias essas são as representantes do povo. Ou seja, ou o Estado impõe regras ou a vontade de realizar lucros sobrepõe-se a quase tudo. É uma visão pessimista sobre os homens e sobre o capitalismo? Talvez, mas é o que a história nos ensinou. Não, não há uma mão invisível para a ética empresarial.

Então quem regula as redes sociais e o que há para regular? Ninguém e nada. Não são órgãos de comunicação social – não sendo assim regulados pelas entidades do setor – e o produto que têm para vender são conteúdos produzidos por pessoas e organizações a que não têm qualquer ligação e que publicam ou não em função do lucro.

Ou seja, temos umas empresas com fundos ilimitados, sem qualquer controlo e que decidem, em grande parte, quem tem voz ou não, o que é verdade e mentira, quem pode anunciar e o quê. Acresce esse pequeno detalhe de saberem tudo sobre os seus clientes. Ou seja, além de venderem o que lhes é cedido gratuitamente, vendem também as informações que têm sobre nós, e nunca ninguém soube tanto sobre todos os aspetos da nossa vida como essas empresas (acrescento Amazons e Googles).

Este poder, nunca antes alcançado por empresas privadas, é tão grande que põe em causa, também como nunca, o poder político. O too big to fail de instituições financeiras que condicionava (e ainda condiciona) os Estados é uma brincadeira comparado com esta, já não tão nova, realidade.

A globalização tirou muitos milhões de pessoas da miséria, mas concentrou um poder extraordinário em meia dúzia de empresas que de facto governam o mundo.

O controlo dos mercados onde operam (e estão em cada vez mais) é absoluto. A sua dimensão é tão grande que qualquer possível concorrente é rapidamente destruído ou absorvido. De facto, já não há mercado nenhum, é na prática impossível concorrer com essas empresas.

O sonho do governo mundial foi atingido, mas revelou-se um pesadelo. Não somos governados por ninguém que lute pelo bem comum, o interesse deste governo é só e apenas o lucro das empresas de que são donos.

Teremos de prescindir do excelente serviço da Amazon, da possibilidade de saber sobre a vida de quem gostamos ou de partilhar opiniões através de redes sociais como o Facebook ou o Twitter? Não sei, provavelmente. O que de certeza absoluta não podemos fazer é aceitar bovinamente que condicionem a nossa forma de pensar, que nos controlem todos os nossos passos e, sobretudo, não podemos entregar os nossos destinos a quem não elegemos.


O zoom dos imperadores

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 04/08/2020)

Nunca na história moderna houve empresas tão poderosas e nunca as empresas mais poderosas foram as de comunicações, o que significa que desenham o poder. Por isso, a aliança entre Zuckerberg, em particular, e Trump, seja ela episódica, é um dos factos mais influentes deste ano de 2020.


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Quando Bezos (Amazon), Cook (Apple), Zuckerberg (Facebook) e Pichai (Google) se sentaram nos seus gabinetes para um zoom com a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, no fim da semana passada, nem era a primeira vez que o faziam nem seria a mais difícil das suas audições. Mas o surpreendente é que demonstraram algum nervosismo. Trata-se dos gestores de quatro das empresas mais poderosas do mundo e, se os deputados norte-americanos tinham perguntas a fazer-lhes sobre a forma como estabelecem monopólios nos seus sectores de atividade, estariam relativamente tranquilos quanto à inconsequência das questões: aquele Parlamento não concebe a ideia de impor restrições que dividam os monopólios, ao contrário do que aconteceu há um século com maior companhia petrolífera.

Assim, durante cinco horas, os quatro executivos desembaraçaram-se, mesmo que com alguma atrapalhação, das inquietações dos deputados, que ficaram na mesma. Desviaram a conversa para o “perigo chinês”, tão ao gosto de Trump, e para um discurso meloso acerca do “sonho americano”, que justificaria todas as tropelias na destruição de concorrentes e no condicionamento dos consumidores. Os “imperadores”, como lhe chamou a imprensa norte-americana, limitaram-se a exibir o seu poder, deixando as respostas no ar.

O que não conseguem evitar é que a questão do poder dos monopólios de busca de conteúdos, de comunicação, de publicidade e de plataformas sociais se torne mais notória no debate sobre o presente e futuro da democracia. Por isso radicalizam as suas posições. O que os imperadores estão a tentar construir é um castelo inexpugnável e que, estando acima dos estados nacionais e de autoridades internacionais, defina as suas próprias regras. Nunca na história moderna houve empresas tão poderosas e nunca as empresas mais poderosas foram as de comunicações, o que significa que desenham o poder. Por isso, a aliança entre Zuckerberg, em particular, e Trump, seja ela episódica, é um dos factos mais influentes deste ano de 2020. Mesmo que não seja suficiente para recuperar o terreno eleitoral já perdido pelo milionário, assim se conformarão os poderes mundiais deste século: o que decide são os mísseis, o comando financeiro e o controlo de massas pela internet.

Nesse contexto, a intervenção da Casa Branca contra a rede TikTok, da chinesa ByteDance, foi interpretada como uma vingança: adolescentes norte-americanos terão utilizado a rede para popularizar a ideia de um boicote artificioso ao comício de Trump em Tulsa em junho, pedindo centenas de milhares de bilhetes para deixarem a sala às moscas. O presidente quereria banir a rede, que é a que mais tem crescido nos EUA (já terá 100 milhões de utilizadores, um terço da população, sobretudo jovens) e teria inventado o estratagema de impor a sua compra por uma empresa norte-americana para a domesticar. Em todo o caso, parece que a justificação é exagerada, a direita republicana também já tem grande presença na rede (o hastag #conservative tem 1,9 mil milhões de visualizações). O resultado, apesar de tudo, foi que a Microsoft se ofereceu, teria assim um canal de entrada no mundo das redes sociais e fala-se de um preço de 50 mil milhões.

Ora, a perspetiva da venda desencadeou uma tempestade entre os trumpistas. O conselheiro para o comércio externo, Peter Navarro, recusa a operação e pede iniciativas para proibir a ação da Tiktok e do WeChat, da Tencent, outro gigante chinês. Ameaçou mesmo a Microsoft de ter de encerrar as suas operações da China, se fosse adiante com a compra. Num tuíte de sexta-feira, Trump apoiou-o e anunciou a proibição do negócio, mas voltou atrás esta semana depois de um telefonema de Satya Nadella, chefe da Microsoft. Se se concretizar nas próximas semanas, será a maior compra de empresa do ano, com um simbolismo evidente: quando todo o mundo mergulha em recessão, há um setor que cresce, o da comunicação.

A lógica parece ser a de que, se for um gigante tecnológico norte-americano a crescer, a soberania dos imperadores ficará reforçada e, no fim das contas, é isso mesmo que é determinante. Os presidentes passam pela Casa Branca mas quem fica são os poderes que tutelam a comunicação e o nosso dia a dia.


As virtualidades do virtual

(José Gameiro, in Expresso, 13/06/2020)

Não há muito tempo, um jovem disse-me uma frase que me fez pensar. “Os mais velhos ainda não conseguiram perceber que, digam o que disserem, todas as tecnologias que nós usamos são para ficar. Podem ir mudando, mas não voltam para trás.” E acrescentou: “Parece que se esquecem das inovações que surgiram quando eram novos.”

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Agora, em plena pandemia, recordei esta — não sei bem se lhe devo chamar “cházada”. As chamadas redes sociais foram, nos últimos anos, o “diabo” para muitos. Porque são um local de livre expressão, em que cada um diz o que pensa, apoia, critica, insulta os outros, tenta manipular pessoas, situações, comete fraudes, “cusca” os que lá se expõem, a relatarem, em direto, a sua vida. E fá-lo, na maioria das vezes, a coberto do anonimato…

Não me venham dizer que são resquícios da ditadura, as pessoas são o que são, e os portugueses não são particularmente frontais. A frontalidade é quase anticultural e malvista… A internet, em Portugal, começa nos anos 90. No seu início, muito centrada nas universidades, mais tarde alargada aos serviços e às pessoas. Mas é em 2004 que começa a tecnologia 3G e as redes sociais começam a divulgar-se, maciçamente.

Este alastramento do seu uso é particularmente notório nos jovens, primeiro nos de famílias com maior poder económico — a net não era acessível para muitos —, mas progressivamente é massificada com a baixa de preços e os pacotes de serviços ilimitados. Recorrentemente surgiam as críticas, algumas exageradas, outras previdentes, nos riscos da sua utilização pelos mais jovens e incautos, que, por vezes, foram apanhados em situações graves.

Agora imaginem estes tempos de pandemia sem internet. Em vez de teletrabalho, tudo em casa sem trabalhar, aulas completamente paradas, serviços inexistentes, comunicações lentas e difíceis, impossibilidade de conversas pessoais ou profissionais com mais de duas pessoas.

Imaginem os jovens sem poderem comunicar a toda a hora com os amigos, com os amores, com a família distante, em particular com os avós, tão importantes. Sem aulas, sem programas digitais que permitem centenas de pessoas, em simultâneo, numa aula ou numa conferência.

As redes sociais nesta pandemia foram fundamentais para ajudarem a manter a saúde mental de quem se viu, de repente, quase completamente isolado. O melhor ansiolítico e antidepressivo é poder falar com os outros, mais próximos, ou mesmo técnicos, quando a situação emocional se agrava.

Todos recebemos diariamente centenas de mensagens. Muitas são piadas. O humor, mais ou menos cáustico, mais ou menos brejeiro, tem sido fundamental para aliviar a tensão. Quantas vezes nos rimos, no meio disto, com as pequenas histórias que nos chegam. Como uma das que mais circularam: “Ao fim deste tempo em casa, até acho que a minha mulher é simpática.” Ou: “Quem não estiver confuso não está bem informado.” Ou: “Em breve, temos de caçar para comer, e eu não sei onde vivem as pizas.”

Foi o virtual e a esperança de que o confinamento não durasse muito tempo que nos aguentou estes meses. Infelizmente, as virtualidades do virtual não irão ajudar muito a grave crise económica que já aí está e de que, por muito que os economistas se esforcem, com as suas bolas de cristal, ninguém sabe a profundidade e a duração. Há uma coisa que podem já prever, sem receio de errarem. Não vai ser igual para todos.