RARÍSSIMAS vezes…

(Por Carlos Esperança, in Facebook, 15/12/2017)

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Raríssimas vezes a mãe de uma criança disforme e deficiente encontra forças para lutar por ele e, com ele, por outros como ele.

Raríssimas vezes a mãe, que trouxe no ventre um feto teratogénico, tem a sabedoria e a arte de conseguir, para a criança, a solidariedade de tantos, a simpatia geral e o apoio da Segurança Social, para fundar uma obra de cuidados modelares para crianças diferentes.

Raríssimas vezes a mágoa e o desespero que marcaram a tragédia de uma mulher foram tão criativos, e tiveram um final tão feliz para as crianças que nasceram diferentes num país que é solidário e tem o SNS que nasceu dos votos do PS, PCP, UDP e do deputado independente Brás Pinto.

Raríssimas vezes uma obra nasce tão bem e passa pelo sobressalto de ter à sua frente a mãe que, perdido o filho, canibalizou a obra para proveito próprio e alegadamente a usa para comprar vestidos caros, viagens mundanas e promover relações que atraem as tias de Cascais e a D. Maria Cavaco (equiparada), a rainha de Espanha e o PR português, os ministros da Segurança Social e outras altas personalidades, de Eanes a Leonor Beleza, de Maria de Belém a Fernando Ulrich.

E eis como a ambição da mulher mundana e venal, que eventualmente desviou dinheiros e cometeu peculato, se transforma, de um caso de polícia, num caso político. Um jornal confundiu a verba legítima que o atual governo transferiu com as comparticipações previstas no anterior para vários anos e, para denegrir um ministro competente, atribuiu-lhe a quadruplicação das verbas, o que é mentira; a TVI referiu-se a vestidos caros como sintoma do Governo que temos, quando comprados na vigência do anterior e como se isso fosse uma legítima arma política e não um caso de abuso pessoal.

Face à conspiração de silêncio perante os desmandos da direita e à necessidade desviar atenções sobre o desnorte do PSD e do CDS, é preciso criar casos para lançar suspeitas sobre o governo que procura a saída do buraco em que Passos Coelho e Portas lançaram o País, com a cumplicidade de Cavaco.

Bastam meias-verdades e grosseiras mentiras para adicionar à monotonia nauseante dos noticiários sobre os incêndios e atacar o Governo, mas não destruam a RARÍSSIMAS de cujo conselho fiscal não se ouviu falar.

Apostila – Sexta-feira, 15 de dezembro de 2017 – Agência Europeia de Doenças Raras suspende Raríssimas.

Raríssimas: como todos os debates acabam 

 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 14/11/2017)

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Daniel Oliveira

Como ministro, Vieira da Silva recebeu uma queixa por uma irregularidade estatutária: a Raríssimas tinha ficado sem tesoureiro. A queixa não era o que ficámos a conhecer na reportagem da TVI. Com dez mil IPSS, não me choca que ela seguisse a tramitação normal que, no Estado, sabemos ser lenta. Também o foi em Belém, que só esta semana encontrou a correspondência enviada, sem que isso causasse grande choque. De resto, tudo o que aconteceu na Raríssimas vem desde 2013 e este governo tinha tanta informação como o anterior. O terceiro sector não está sob tutela do Estado. Como 75% dos recursos da Raríssimas não são públicos, não é o Estado que anda a ver se gastam o dinheiro em gambas e vestidos. Isso cabe aos órgãos da própria associação.

Passamos então para a responsabilidade do próprio Vieira da Silva como vice-presidente da Assembleia Geral. É, como sabe quem participou em associações, um cargo honorífico. É verdade que não devia ser, mas o mal é geral, não é dos políticos. Dirão que o convite a políticos revela a tentativa de proximidade destas associações em relação ao poder. É verdade e sobre a total dependência do terceiro sector em relação ao Estado já escrevi. Estes dois anos, em que a comunicação se tornou mais atenta, têm-nos feito subitamente descobrir o país em que vivemos.

Mas mesmo que não fosse um cargo honorífico, as irregularidades divulgadas dificilmente poderiam ser do conhecimento da Assembleia Geral.

Muito do que tenho lido por aí revela um total desconhecimento do funcionamento das associações. O que a Assembleia Geral aprova são as contas, conhecendo as grandes rubricas. Não estão lá as gambas e os vestidos. Desde que as IPSS foram dispensadas de ter revisores oficiais de contas, que teriam deveres diferentes, a Assembleia Geral só poderia conhecer esses abusos se o tesoureiro os reportasse.

Esperou seis anos, em que colaborou com a trafulhice, para o dizer. Não à Assembleia Geral, como era seu dever, mas à TVI. Atribuir a cargo de vice-presidente da Assembleia Geral um papel de cúmplice deste tipo de irregularidades só pode resultar de má-fé ou ignorância.

Muitas empresas foram doadoras da Raríssimas até este escândalo rebentar. Mais do que o Estado, aliás. Algumas, segundo sei, estão a retirar o seu apoio, o que compreendo mas deixa-me preocupado. A anterior primeira-dama, Maria Cavaco Silva, foi madrinha da instituição e até lá levou a Rainha de Espanha. Marcelo Rebelo de Sousa visitou a Casa dos Marcos. Vieira da Silva aceitou ser vice-presidente da Assembleia Geral. Ricardo Batista Leite, deputado do PSD, tinha aceite ser vice-presidente da próxima direção. E os serviços do Estado decidiram financiar a Raríssimas, no correspondente um quarto dos seus recursos, menos do que a média das IPSS, que andará por metade. Todos os fizeram porque todos os que conheciam a Raríssimas tinham a melhor opinião sobre o seu trabalho. A não ser que se prove má-fé na ajuda que deram, a caça a quem se ajudou uma IPSS que trabalha numa área tão difícil é absurda.

Até porque a boa opinião que todos tinham do trabalho junto dos utentes dos serviços da Raríssimas não era, segundo grande parte dos relatos que me chegam, injustificada. A instituição foi premiada em Portugal e no estrangeiro porque, ao que parece, faz mesmo um bom trabalho naquela área. Preocupa-me, aliás, a situação em que se encontra agora, pondo em risco as pessoas que dependem dela. Penso que uma das coisas a que estamos obrigados a fazer, como cidadãos, depois desta indignação, é a apelar para que haja uma direção que transmita credibilidade, para que os apoios regressem e para que os utentes continuem a ter o ajuda que precisam. O bom trabalho que a Raríssimas faz não é incompatível com uma presidente arrivista, abusadora e que maltrata o dinheiro que não é seu. As coisas na vida são mais contraditórias do que este tipo de polémicas fazem pensar.

O que revela muito sobre a fragilidade da nossa sociedade civil é sermos incapazes de fazer qualquer debate – incluindo o do funcionamento do terceiro sector – sem que ele se transforme, mesmo quando isso é manifestamente forçado, num mero confronto partidário. A tentativa de transformar este caso numa espécie BPN do PS, que alguns comentadores mais ativistas e imaginativos tentam ensaiar, diz tudo da má-fé com que algumas pessoas estão a lidar com este caso.

Mas é natural que o debate acabe sempre assim. A maioria dos portugueses sabe o que são os partidos mas nunca meteu os pés numa associação. E essa anemia da nossa sociedade civil ajuda a explicar muito do que deveríamos estar discutir com este caso: porque temos uma sociedade civil tão frágil, totalmente dependente do Estado e que todos esperam que seja tutelada por ele.

Jornalismo de sarjeta e… calma!

(In Blog Aspirina B, 14/12/2017)

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(Andam para aí choros e rasgar de vestes dos donos das televisões e dos jornais tradicionais contra as redes sociais, acusando-as de serem um meio de propagação de “fake news”. Na verdade, os orgãos de comunicação social tradicional sempre foram canais de transmissão de “fake news”, aquelas que interessam a quem lhes paga a publicidade, ou que interessam ao poder global dominante, como se viu no caso da guerra do Iraque com as fantasiosas armas químicas do Saddam. Este artigo é mais uma prova de que continuam a fazer o que sempre fizeram.

Quer-me parecer que choram porque estão a perder um monopólio que lhes dava lucros chorudos. E como todos os monopólios, quando aparece a concorrência, perdem poder e rendas de situação.

Estátua de Sal, 14/12/2017) 


Hoje, logo pela manhã, o DN noticiava que o valor do financiamento atribuído à Raríssimas quadruplicara com o actual governo. Escândalo, sugeria a manchete. Falcatrua, sugeria também, isto de o ministro Vieira da Silva ter passado pela associação tivera como resultado um favorecimento imoral. O quádruplo das verbas previstas pela governo anterior é muito múltiplo. Mas é verdade?

Não, é mentira. O insuspeito Observador foi ler melhor os despachos e chegou à conclusão de que as verbas são praticamente as mesmas – na ordem dos 1 200 000 euros, apesar do aumento do número de camas. Com o esclarecimento do Ministério da Saúde (também reproduzido pelo site), mais se confirma a fraude noticiosa do DN.

Até à hora a que escrevo, o DN mantinha a notícia inalterada.

Sobre este assunto da Raríssimas e a tentativa logo pronta de envolver um importante membro do Governo nas eventuais irregularidades (pela jornalista da TVI e pela oposição de direita), importa referir uma entrevista que ouvi ontem, por acaso, na SIC Notícias (já depois das 21h00) ao ex-tesoureiro denunciante das irregularidades e na qual, pelos vistos mais moderado, ele sublinha que gostaria que o problema não fosse levado para o campo dos ministros ou políticos que tenham colaborado com a associação, porque não é aí que ele está. Que convém não perder o foco: a gestão danosa, autoritária e prepotente da presidente agora demissionária. Pareceu-me ser um reparo ao próprio jornalista. Li também que não é a mesa da Assembleia Geral que aprova as contas. Podendo nós questionar-nos por que razão este senhor demorou algum tempo a denunciar as irregularidades observadas, parece, de facto, ter havido abuso de poder e aproveitamento por parte da presidente. Se são pecadilhos ou crimes, a justiça o dirá. Convém, porém, não esquecer que o trabalho realizado no que aos doentes diz respeito é meritório, muito meritório mesmo, atendendo aos casos que as imagens mostram, e que a dirigente de uma associação deste tipo tem todo o direito e, porventura, o dever de tudo fazer, incluindo lobbying, para aumentar a visibilidade da associação, inclusive a nível internacional, e os donativos para a causa. Parece-me ir demasiado entusiasmo na justiceira e assanhada (sempre em direcção aos mesmos) Ana Leal. Um entusiasmo politiqueiro, telenovelesco e de devassa que não se justifica de todo num trabalho sério.


Fonte aqui