Outros tempos

(In Blog O Jumento, 15/07/2017)

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Quando a PT era PT e tentou comprar a TVI caiu o Carmo e a Trindade, até deu direito aos zelosos inquéritos policiais com grande destaque nos órgão oficiosos do MP. Agora que a TVI24 vai ser comprada pelos saloios franceses e afrancesados endinheirados não há comentários, dizem que é o mercado. Desta vez não há perseguições nem inquéritos judiciais, estão todos felizes porque os montanheiros da Altice vão fazer na Media Capital o que estão a fazer na PT.

Mas neste país com elevada densidade de idiotas há quem dê crédito à declaração dos montanheiros que dizem que a Media Capital vai concorrer com o Facebook e com a Google. Até fazem lembrar o Passos Coelho quando foi ao Japão declarar que em breve Portugal iria ser um dos países mais competitivos do mundo.

A lei da selva na PT

(Pedro Filipe Soares, in Diário de Notícias, 13/07/2017)pedro_filipe

Assistimos a um corrupio de privatizações nas últimas décadas. Setores estratégicos, funções essenciais, monopólios naturais… muito pouco ficou a salvo desta rapina. A cada privatização era aclamado o exemplo da gestão privada, a introdução de inovação, a garantia da manutenção dos centros de decisão em Portugal e um serviço à economia e às pessoas redobrado. Uma gigante mentira como vemos atualmente.

Uma das grandes empresas privatizadas foi a Portugal Telecom (PT). A gigante das telecomunicações mudou de mãos no turno de António Guterres, para gáudio dos privados e garantia de rendimentos chorudos. O que se seguiu é digno de um filme de terror. Nas décadas posteriores assistimos ao desmantelar da empresa, espartilhada entre interesses de acionistas e o crime de gestores.

Ainda se lembra de Zeinal Bava, o supergestor que se engasgou em direto na comissão de inquérito do BES? Foi um dos autores da gestão danosa na PT: quando ele entrou para a gestão, a empresa estava avaliada em 12 800 milhões de euros; quando ele saiu da PT a empresa valia menos de 1500 milhões de euros. E enquanto se cometiam os crimes na PT os acionistas calavam-se, rendidos ao jackpot de dividendos distribuídos, de 9500 milhões só desde 2006. Outros acionistas eram intervenientes na gestão danosa: as vendas de ativos foram feitas para garantir a liquidez de acionistas contra o interesse da própria empresa.

O engodo da manutenção dos centros de decisão no país é agora inequívoco. Os acionistas nacionais da PT foram engolidos pela sofreguidão do lucro fácil e consequente descapitalização da empresa. Agora, manda apenas a Altice, um fundo abutre que faz negócios especulativos com empresas de telecomunicações em dificuldades. Pelo meio, desapareceu a Golden Share que prometia a participação pública em decisões estratégicas, atropelada pelo desprezo que Passos Coelho e Assunção Cristas tinham do que era público.

A crónica desta empresa conclui-se com a atitude selvagem com que está a tratar os seus trabalhadores e trabalhadoras. Em maio, a PT pediu ao governo para realizar um despedimento coletivo. Pretendiam despedir três mil pessoas, nada menos do que um terço de todos os trabalhadores, e que fosse o Estado a pagar esse despedimento. O governo fechou a porta a essa vontade e a lei impediu a PT de fazer esse despedimento coletivo, que seria um dos maiores da história do país. Mas onde se fechou a porta à administração da PT a criatividade legal da Altice procura agora abrir uma janela.

A gestão da Altice está a criar um cenário de repressão no seio da empresa, num claro assédio moral sobre os seus trabalhadores: colocou trabalhadores sem funções, na expectativa de que isso conduza ao desânimo e ao despedimento voluntário, e criou uma unidade de trabalho temporário para onde enviou cerca de 300 trabalhadores, novamente sem tarefas atribuídas. A intenção é tornar incontornável a figura miserável da “rescisão amigável” para fugir ao desespero que se instala. A amizade nesta proposta é apenas um cínico recurso de linguagem para esconder a violência do assédio moral em causa.

O cúmulo da atuação da PT é a forma retorcida como interpreta o Código do Trabalho para conseguir o despedimento coletivo que havia sido negado. O Código do Trabalho tem um artigo criado para defender os direitos dos trabalhadores quando determinado estabelecimento ou empresa é vendido ou concessionado. Esse artigo da “Transmissão de Empresa ou Estabelecimento” garante que exista a manutenção dos postos de trabalho. Contudo, a PT criou em cima deste artigo da lei um esquema fraudulento.

O esquema é o seguinte: A PT vende determinado departamento a um testa-de-ferro ou a uma empresa sem património; com essa venda e a coberto da lei, são transferidos também os trabalhadores; concretizada a venda, é realizado um despedimento coletivo; com esse despedimento coletivo, e como não há património da empresa, os trabalhadores não recebem qualquer indemnização, ficando apenas com o subsídio de desemprego que é pago pelo Estado.

A gestão desumana que a Altice está a fazer da PT está a ser combatida pelos trabalhadores, que já marcaram uma greve para o próximo dia 21 de julho. Têm também denunciado o assédio moral à Autoridade para as Condições do Trabalho, que já levantou mais de 70 autos de notícia. Merecem toda a nossa solidariedade, mas é necessário mais. Exige-se que o governo faça cumprir a lei e rejeite os despedimentos selvagens na PT. A Altice não está acima da lei e não pode tratar os trabalhadores como lixo.

Os cúmplices da Ongoing

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 06/02/2017)

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“O sucesso incomoda sempre, em especial aqueles que não são bem sucedidos”. A frase não é de nenhum grande guru internacional da gestão, mas de um portuguesíssimo gestor, cujo grande projecto acabou numa estrondosa falência: Nuno Vasconcelos, o homem que juntamente com Rafael Mora, construiu um império a partir de uma empresa de consultoria a que governantes e grandes empresas públicas e privadas se foram curvando, sem conseguirem perceber que o referido império tinha pés de barro. Mas mesmo tendo por trás a Sociedade Nacional de Sabões, controlada pela sua família, Vasconcelos só chegou onde chegou porque construiu uma enorme rede de cumplicidades e ganhou vastos apoios.

Vasconcelos e Mora partiram da empresa de consultoria Heydrick & Struggles, uma multinacional norte-americana que lhes permitiu utilizar o nome da empresa em regime de “franchising”. Com base nela e nos contactos pessoais que já tinham devido à rede de contactos sociais e familiares de Vasconcelos conseguiram passar a fazer a gestão das carreiras de altos quadros das maiores empresas portuguesas e a definir as políticas de recrutamento, bem como políticas salariais e a gestão de talentos, o que lhes permitiu ter acesso directo às administrações de empresas como a PT, EDP, BES e BCP, para algumas das quais chegaram a desenhar modelos de governo e a ser administradores.

A sua aceitação começara, aliás, em 2004, quando Rafael Mora dinamizou a criação do Compromisso Portugal, uma associação de jovens gestores e quadros técnicos, quase todos de orientação de centro–direita, descontentes com os rumos que o país seguia. A dar a cara estavam pessoas como António Carrapatoso, hoje remetido para a presidência da Fundação Vodafone, Diogo Vaz Guedes, na altura presidente da Somague, que vendeu aos espanhóis da Sacyr, abandonando completamente a empresa em 2007 e António Mexia, então presidente da Galpenergia.

É, aliás, António Mexia que, quando se torna ministro das Obras Públicas do governo de Santana Lopes, abre as portas da maioria das grandes empresas públicas a avenças com a Heydrich & Struggles: ANA, Carris, TAP e Águas de Portugal, entre outras.

Depois, quando em Fevereiro de 2006 a Sonaecom lança uma OPA sobre a Portugal Telecom, a resistência passou pela presidência da empresa, na altura liderada por Miguel Horta e Costa a que se seguiria Henrique Granadeiro, mas sob a batuta de Ricardo Salgado, accionista de referência da PT através do BES e grande beneficiário das operações com a empresa de telecomunicações. Contudo, era necessário encontrar novos aliados para enfrentar a OPA. Salgado concede um forte financiamento à Ongoing, que entretanto Vasconcelos tinha criado, e que vai alinhar sempre com o BES na resistência à OPA.

Mesmo tendo por trás a Sociedade Nacional de Sabões, controlada pela sua família, Nuno Vasconcelos só chegou onde chegou porque construiu uma enorme rede de cumplicidades e ganhou vastos apoios, públicos e privados

Rejeitada a OPA, Vasconcelos e Mora ganham ainda maior influência e arrogância. A PT investe 80 milhões de euros num “hedge fund” da Ongoing e o Montepio 30 milhões. A morte de Luís Vasconcelos, braço direito de Francisco Pinto Balsemão no Grupo Impresa, leva Vasconcelos seis meses depois a propor a Balsemão que o grupo editorial, detentor do Expresso, SIC e Visão, entre outras marcas, aumentasse o capital; ele, Vasconcelos, financiaria Balsemão se este não pudesse acompanhar o aumento de capital; em contrapartida, ele, Vasconcelos, assumiria a gestão empresarial e editorial do Grupo Impresa e Balsemão ficava como “chairman”. Este não aceitou.

Entretanto, a Ongoing pagava o seu elevadíssimo endividamento com o rendimento das acções da PT que detinha. Contudo, todos os outros negócios não davam mostras de levantar voo. Vasconcelos compra o Diário Económico por um preço exorbitante (27 milhões de euros) para ter um meio de influenciar o poder. Envolve-se numa manobra política para tentar a compra da TVI, o que não se concretiza. Avança para o Brasil, lança um jornal económico, contrata José Dirceu, o braço direito do ex-presidente Lula da Silva, e a mulher de Dirceu. Contrata igualmente a peso de ouro um conjunto alargado de jornalistas portugueses, com José Eduardo Moniz à cabeça para tentar lançar um canal de televisão no Brasil. Tudo tresandava a manobras que servissem para influenciar os poderes em Portugal e no Brasil e muito pouco a genuínas operações económicas.

O colapso do Grupo Espírito Santo e do respectivo banco, arrastando com ele a PT, foi o golpe fatal. Privado dos rendimentos que recebia da PT e sem outros negócios que dessem uma rentabilidade equivalente, Vasconcelos mudou-se para o Brasil, enquanto o seu império com pés de barro ruía fragorosamente, deixando um rasto impressionante de vítimas entre trabalhadores e credores.

Ele entretanto ia colocando fotos nas redes sociais a comer marisco numa praia brasileira enquanto em Lisboa eram despedidos os jornalistas e trabalhadores do Económico.

Agora sabe-se também que a 23 de Maio de 2016, quando o fim já era mais que visível e a poucos dias de perder a licença da Heydrick and Struggles, o Banco de Portugal adjudicou por ajuste directo à HS Consultores de Gestão um contrato no valor de 67.500 euros anuais para prestar serviços associados à prestação do plano estratégico 2017-2020 na vertente organizacional e no apoio à formulação de políticas de gestão de recursos humanos. Das duas uma: ou é incompetência ou é má fé. Seguramente que quem fez isto dentro do Banco de Portugal já foi demitido.

E o novo responsável da Heydrick and Struggles em Portugal, que agora resgatou o “franchising” das mãos da Ongoing, diz que sabia que Vasconcelos e Mora tinham outros interesses e actividades e que o foco já não era a H&S, mas que por vezes nesta actividade é “um bocado complicado” acompanhar o “franchisado”. Traduzindo, enquanto entrou dinheiro e houve negócios nunca se interessaram em saber como ele era obtido. Quando o vil metal começou a escassear é que se começaram a preocupar. Tarde e a más horas, como se vê. Vão ter de esfregar muito a tabuleta de entrada para todos nos esquecermos para o que serviu a H&S em Portugal. Mas, claro, há sempre amigos distraídos em cada esquina…