O Presidente de todos os jornalistas

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/03/2016)

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                          Daniel Oliveira

Não me lembro de alguma vez ter ouvido ou lido os comentários que ouvi e li sobre o discurso de tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa. Genial, notável, extraordinário. Quem lesse as avaliações sem conhecer o discurso esperaria encontrar um daqueles pedaços de prosa de Winston Churchill declamado com a destreza de Barack Obama. Mas o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa foi banal. Não foi mau, não foi excelente. “Não teve interesse nenhum”, como escreveu João Miguel Tavares.

Recorrendo às ideias feitas sobre a essência de ser português, socorrendo-se dessa velha tábua de salvação que sempre encontramos nos momentos de agonia, recordou a grandeza passada e fez a habitual simplificação benévola da nossa História imperial, com as costumeiras odes ao mar e aos descobridores. O discurso não teve nada de mal. Um Presidente não cumpre o papel de historiador ou de intelectual. Não se espera que seja severo com a sua pátria nem sofisticado na sua análise. Poderia ter-se concentrado mais no futuro, mas talvez o passado cumpra melhor o papel que aquele discurso tinha que ter: evitar as clivagens que realmente existem. Marcelo fez o que se faz, citou o que se cita. Nada mais.

O discurso abrangente não foi mais, na realidade, do que uma salada de frutas que foi lançando piscares de olhos para um lado e para o outro, sem grande coerência que consiga conciliar coisas que lamentavelmente são inconciliáveis. Mais uma vez, nada de mal. O Presidente não tinha perante si nenhum quebra-cabeças, nenhum assunto difícil para resolver. Era só o primeiro discurso. Pelo menos ali podia tentar falar a todos. Marcelo fez o que seria normal fazer o que se faz nestas circunstâncias. Mesmo do ponto de vista literário, o discurso está longíssimo de ser extraordinário, notável ou genial.

Claro que depois de dez anos de sermões de Cavaco Silva, num economês mal amanhado e mal escrito, sempre cheio da sua arrogância de mestre-escola, cada palavra na boca de Marcelo parece brilhar. Depois de tantas intervenções carregadas de ressentimento, vindas de um chefe de Estado, a normalidade pode parecer magnífica. Mas é bom não perder a perspetiva.

O jornal “Público” escreveu um editorial tão prolixo em adjetivos que foi difícil não sentir alguma vergonha alheia. Sendo um texto não assinado, que vincula todo um jornal, seria de esperar algum comedimento no tom encomiástico. Mas comedimento é coisa de que os jornalistas desistiram por estes dias. E só isso explica que uma coisa que sempre aconteceu se tenha transformado em assunto. Veja-se o espanto: Bloco e PCP não aplaudiram o discurso. Por tamanha heresia, o “Público” condenou estes deputados a viver “fechados numa espécie de cápsula do tempo”. Por insulto institucional? Nem sequer foi isso. O “Público”, que descobriu o que nem Marcelo Rebelo de Sousa sabe (que ele é um “social-democrata à la nórdica”), acha incompreensível que não se aplauda o “discurso notável de Marcelo Rebelo de Sousa”. E este espírito de delírio coletivo foi acompanhado pela generalidade da imprensa.

Fosse deputado e teria aplaudido o discurso. Porque foi bom? Não. Porque não tinha nada para não merecer um aplauso de circunstância e isso talvez seja a demonstração de que esteve longe de ser “notável”. Porque o novo Presidente da República pode vir a ter um papel muito importante, e não é mau que todas as forças políticas tentem, pelo menos quando ainda não há qualquer razão para não o tentarem, construir pontes com ele. Mas sejamos claros: o aplauso não é sinal de educação, é sinal de concordância. Exigir que alguém aplauda um discurso que não subscreve é absurdo.

Onde estavam estas almas ofendidas quando, depois da eleição de Ferro Rodrigues, segunda figura de Estado, os deputados do PSD e do CDS se dedicaram a intervenções que se aproximaram do insulto? Onde estava esta indignação quando Passos Coelho não aplaudiu nem uma única vez a intervenção de tomada de posse de António Costa? Ouvi muita gente dar o exemplo dos EUA. Acontece que em Portugal não existe esta tradição. Nunca nenhum discurso de tomada de posse de nenhum Presidente ou primeiro-ministro ou Presidente da Assembleia da República (a começar pelos atuais) foi, que me recorde, aplaudido por todas as bancadas. O que raio aconteceu para que subitamente tenha surgido a ideia de que com Marcelo Rebelo de Sousa tinha de ser diferente?

Eu sei o que aconteceu: os jornalistas amam Marcelo. Não amam Marcelo por razões políticas, ideológicas ou de interesse próprio. Amam Marcelo porque Marcelo fala a sua linguagem. Se repararmos nos vários dias da tomada de posse, houve sempre um qualquer pormenor a destoar do habitual. Que os jornalistas sublinharam. As coisas mais banais, desde o cumprimento aos funcionários do palácio de Belém à chatíssima receção ao corpo diplomático, tudo tinha um bombom para os jornalistas. Mais uma vez, nada de mal. Os políticos também falam para os jornalistas e têm de os saber cortejar. Espera-se, no entanto, que o sucesso desse cortejo não resulte no linchamento mediático das forças políticas que não lhe sejam seduzíveis. Ter a comunicação social quase toda a zurzir em quem não aplaude um discurso de alguém que lhe caiu no goto ultrapassa todos os limites do admissível. O pouco saudável endeusamento mediático do novo Presidente da República não se pode transformar numa forma de acantonar quem legitimamente decida não lhe declarar qualquer simpatia. Pior do que uma comunicação social que não é pluralista é uma comunicação social que condena o pluralismo na política.

A única importância que tudo isto tem é que Marcelo Rebelo de Sousa é um detentor de um cargo político. Também ele terá de ser fiscalizado, vigiado, escrutinado. E é suposto os jornalistas terem um papel nisto tudo. Um Presidente que começa o seu mandato a ser namorado de forma tão despudorada por toda a comunicação social é um Presidente que, sentindo-se pouco vigiado, tenderá a ser menos rigoroso.

Marcelo é um político como outro qualquer. Merece o mesmo respeito, os mesmos aplausos, a mesma censura. Seria bom a comunicação social abandonar esta fase de enamoramento para não começar a fazer figuras tristes.

Um e o outro

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 09/03/2016)

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Baptista Bastos

O que sai é a tristeza balofa, o rancor cabisbaixo. O que entra é o sorriso alegre.

O que vai embora não deixa saudades; pelo contrário: é um alívio. O que entra é naturalmente melhor pela qualidade do estilo, pela cultura e pela familiaridade sorridente com que se nos dirige. Pior ou mesmo igual ao que sai é impossível. O Marques Mendes bem tentou repintar a imagem do homem de quem se não gosta, mas os factos aí estão para provar a desfeita de uma História repleta de iniquidades e de soberba, protagonizada por quem se construiu na soberba e na iniquidade. Basta lembrar a última sessão de condecorações, a omissão ao mundo do trabalho e a definição que ele fez de “heróis” para o qualificar e às suas escolhas.

O que entra não desconhece que “Os Lusíadas” contêm dez cantos; e não confunde Tomas Mann com Tomas More. As diferenças entre os dois são abissais: de cultura, de curiosidade activa, de comportamento, de princípios e de carácter.

Já escrevi demasiado sobre o que sai. O que entra não é o meu votado, mas é a minha veemente expectativa. Sempre mantive com ele relações de cordialidade, embora nunca deixasse de lhe dar com o sarrafo. Um dia escrevi que as nossas aproximações adivinham de comuns interesses culturais. O que entra foi um dos oradores (os outros eram Mário Soares, José Manuel Mendes e José Barata-Moura) da sessão, na FIL, para apresentar o romance “Ensaio sobre a Lucidez”, de José Saramago. O seu texto revelava uma profunda atenção aos significados ocultos do livro e uma acendrada admiração intelectual pelo autor. Os calorosos aplausos de uma assistência maioritariamente de Esquerda (quase duas mil pessoas) foram a demonstração de uma dupla grandeza, a dele e a da plateia.

O que sai é a tristeza balofa, o rancor cabisbaixo, a carência de afectos. O que entra é o sorriso alegre e a compostura de quem recusa a cerimónia pomposa, a reverência hipócrita e o colarinho gomado.

Desta coluna saúdo o Marcelo Rebelo de Sousa.

O homem de quem se não gosta

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 19/02/2016)

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Baptista Bastos

Serviu quem muito bem entendeu, e nunca foi o Presidente de todos os portugueses. Pelo contrário: fraccionou a sociedade portuguesa.


Entrevistados pelas televisões, dois representantes de associações militares disseram, alto e bom som, que não reconheciam o dr. Cavaco como supremo comandante das Forças Armadas. E aduziram um aluvião de razões para justificar a abominação. Não deixa saudades, acrescentaram. O desprezo pelo homem que vai embora, não tarda, é transversal à sociedade portuguesa. Nas artes, nos ofícios, nos serviços, nunca um Presidente da República foi tão condenado. E a culpa é dele próprio: tolamente arrogante, autoritário, ignorante e inculto, desajeitado e impositivo, ele representa o que de pior o português em si encerra. Acresce que nos longos anos que esteve no poder, como primeiro-ministro e, depois, Presidente, cometeu tolices, injúrias e disparates, fruto dessa soberba e dessa ignorância que deram azo a histórias e anedotas devastadoras. Quando falava, nada dizia para um povo já informado, atento e sarcástico.

A separação a que procedeu, entre os portugueses, foi-lhe fatal, desde o princípio. Ficou famosa a frase “Deixem-nos trabalhar!”, e a foto dele e dos seus colaboradores, em mangas de camisa, muito atarefados e zelosos. Era primeiro-ministro e logo nos apercebemos de que, do país e de quem cá vive, ele pouco entendia. No entanto, possuía uma imagem de gravidade até às orelhas, um penteado à Cary Grant e umas camisas muito brunidas; tudo isso contava, numa terra onde o respeitinho é muito bonito.

Agradou logo àqueles que, moldados pelo salazarismo, constituíam a zona mais cinzenta e reaccionária de entre nós. Portugal ainda vivia nas sombras de um passado nefasto e entre os medos uma revolução interrompida. A Igreja e os senhores da finança desempenharam, aqui, um papel crucial. A satisfação dessa parte da sociedade rejubilou, quando ele, numa atitude sórdida, premiou, com reformas opíparas, antigos agentes da PIDE, e recusou uma pensão de sangue à viúva de Salgueiro Maia, um dos impolutos capitães de Abril.

É preciso relembrar que este homem, tacanho por natureza e educação, nunca tomou a mais leve atitude contra o fascismo, é o produto típico de um prazo e de uma época ainda não dissolvidos por completo, e que demonstra extrema dificuldade em adaptar-se aos tempos outros. Pessoalmente, chego a ter compaixão por esta desgraça ambulante, que nunca sabe onde meter as mãos, que nunca está à vontade em nenhuma parte, e que parece não entender coisa alguma.

Mas não pode ficar isento de culpas. A natureza profunda das suas acções a comportamentos não se associa às características da democracia. A guerrilha estabelecida contra José Sócrates é um dos episódios mais desacreditantes do seu mandato; e a utilização do verbo “indicar”, em vez do “indigitar”, quando aludiu a António Costa, para primeiro-ministro, fornecem o retrato moral do indivíduo e a dificuldade ostentada para aceitar o inevitável.

O rol das indigências do dr. Cavaco é enorme e nada nele serve de exemplo positivo. Serviu quem muito bem entendeu, e nunca foi o Presidente de todos os portugueses. Pelo contrário: fraccionou a sociedade portuguesa, e não teve uma palavra de desagrado quando assistiu à debandada de jovens portugueses para o estrangeiro, resultado de uma política velhaca que ele apoia com desfaçatez.

Não deixa saudades, de facto. Adeus.