Costa, entre duas histórias

(Manuel Loff, in Público, 01/02/2022)

Manuel Loff

A história que começava por “ia tudo tão bem e estes irresponsáveis quiseram deitar o Governo abaixo” funcionou. A que dentro de meses Costa nos vai contar é outra, e vai começar por “afinal não era bem isto com que contávamos…” Aí, claro, vai ser (temporariamente) tarde demais.


Funcionou. Nem ele contava que funcionasse tão bem, mas a história contada por António Costa, que, simplificada, começava por “ia tudo tão bem e estes irresponsáveis quiseram deitar o Governo abaixo”, convenceu uns 90 mil votantes da CDU e 250 mil do Bloco, mais uns 40 mil outros (abstencionistas, restos do PAN), e deu-lhe a maioria parlamentar. 28% dos eleitores comunistas/verdes de 2019 e 51% dos bloquistas convenceram-se que dar maioria ao PS era a melhor forma de preservar o que terão achado ter sido a “geringonça” – aumentos de salário mínimo, pensões e prestações sociais, descida do preço dos transportes e das propinas, salário pago a 100% em período de lay-off. Sejamos claros: ao abandonar quem, à esquerda do PS, obrigou o PS a fazer o que o PS não queria fazer nem em 2015, nem em 2019, e obrigando-o a assumir a política social mais à esquerda que algum governo socialista assumiu desde 1976, estes 340 mil eleitores (40% de quem em 2019 votava à esquerda do PS) entregaram nas mãos de Costa a possibilidade de não ter de negociar mais coisa nenhuma que beneficie a sério quem trabalha, estuda e tem uma reforma – além de não impedir minimamente que negoceie à direita tudo aquilo a pomposamente chama “acordos de regime” (ou “de cavalheiros”, na semântica rançosa de Santos Silva). Com a inflação e a desvalorização do poder de compra dos assalariados e dos reformados, mais a iminente a subida das taxas de juro, vai ser preciso esperar muito pouco para que Costa regresse à austeridade e às políticas neoliberais que a social-democracia assume todas as vezes que grita “crise!” A história que dentro de meses Costa nos vai contar é outra, e vai começar por “afinal não era bem isto com que contávamos…” Aí, claro, vai ser (temporariamente) tarde demais.

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Este foi para a esquerda a sério (PCP, Verdes, BE) o preço da colaboração com o PS. Para os que continuam a passar a cassete gasta da ortodoxia do PCP e do radicalismo do BE, recordo que ambos os partidos anteciparam já em 2015 o preço que poderiam pagar por pôr o PS no governo quando ele não tinha os votos para lá chegar, e obrigá-lo a atuar como o partido de esquerda que, nas políticas económicas (recorde de privatizações com Guterres), sociais (legislação laboral de Soares e Sócrates) e na apropriação patrimonial do Estado (governos Guterres e Sócrates), o PS nunca foi. Em 2019 a CDU (perdendo 110 mil votos para o PS) pagou mais esse preço que o BE (60 mil); agora é o inverso: o descalabro da votação do BE assemelha-se ao que sofreu em 2011 em favor de Sócrates (e veja-se para que serviu votar PS então…), enquanto a CDU resiste melhor. Revelador desta expectativa de que o PS mantenha as conquistas que lhe foram arrancadas pela esquerda é a votação na Margem Sul do Tejo, onde se concentra grande parte do eleitorado popular da CDU, onde o PS subiu bem mais (10-11% em alguns casos) que na média nacional (5%) e onde comunistas (e bloquistas) perderam mais que a média.

Em todo o caso, o homem que criticava as vitórias poucochinhas ficará para a história como o recordista destas: subiu ao poder com 32% dos votos, fez-se reconduzir em 2019 com uma das mais baixas vitórias da história do PS e agora obtém a mais barata das maiorias absolutas da história eleitoral (41,7%), bem abaixo da de Sócrates ou as da AD (45%-48%) ou de ambas as de Cavaco (acima de 50%). O único recorde histórico que Costa detinha queimou-o agora: assinar acordos à sua esquerda, negociar com comunistas e bloquistas, derrubando (chamou-lhe ele) um muro que separava a esquerda desde 1975. Ele ainda cá está. É o da leitura da Revolução e daquilo para que serve a democracia que ela criou: constituir a “Vila Morena” em que o povo é quem mais ordena ou “meter o socialismo na gaveta”?

Aos que há 30 anos juram que o PCP vai morrer ou já morreu, e que (re)anteveem a morte do BE ao virar da esquina, lembro que há 20 anos, em 2002, estes partidos juntavam o mesmo meio milhão de votos que têm agora. Em 2015, depois de terem sido eles e não o PS a estar na batalha contra a catástrofe da troika, juntaram um milhão e impuseram a derrota da direita.

Quando Costa começar a dizer que, afinal, não era bem como nos tinha contado, ele que se prepare. O 25 de Abril vai fazer 50 anos, e nós ainda cá vamos estar. Todos.


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Apontamentos

(Joseph Praetorius, in Facebook, 31/01/2022)

Joseph Praetorius

Nas declarações de Rodrigues dos Santos retive a sua definição como “social cristão” . A designação radica em Leão XIII que não aprovava a fórmula da “Democracia Cristã” por conter a palavra “Democracia”. (Se bem recordo, foi na Libertas Praestantissimum).

O “social cristão” é um nacional-católico. O significado prático disto é bastante feio. Nem vale a pena referir.

Foi bem varrido, portanto.

Todavia, tanto o PAN como o Livre tiveram menos votos que o CDS, o que mostra bem a absurda – e radicalmente abusiva – distorção do significado dos votos expressos aqui operada.

Os nacional-católicos do CDS tiveram mais de 86 mil votos, sem nenhum deputado.

Isso garante-lhes uma subvenção ainda importante que não lhes vai chegar para manterem aquela tralha toda, em todo o caso. Mas o Livre não chegou aos 69 mil… E tem um deputado.

Outra questão é que o deputado do Livre vale quase 69 mil votos e um deputado do PS valerá uns vinte mil.

Isto não pode continuar a acontecer com esta amplitude e gravidade. Não é simplesmente aceitável.

A deputada do PAN vale oitenta e dois mil votos. Contra os vinte mil de um deputado socialista e os sessenta e oito mil e novecentos do Livre.

Isto é um insulto à vontade popular expressa nas urnas. É preciso rever a Lei Eleitoral.

Quanto ao que vai seguir-se, isso está á vista.

O PSD corre risco iminente de cisão ou esvaziamento. Nem as clientelas nem os quadros aguentam mais tempo sem cargos e empregos, influências negociáveis e acesso a fundos públicos ou da União.

O CDS continuará a descer o seu plano inclinado.

Os liberais podem transformar-se em nova direita que conta, com uma subalternização importante, porventura definitiva, da fantasmagórica “democracioa cristã”.

E o Chega será remetido por toda a gente com média noção das conveniências para o anedotário grotesco. O Governo não o ouvirá nunca e o PR logo veremos.

Este sector da direita falhou aqui radicalmente. Nunca se entrega o comando seja do que for a um antigo aluno de seminário menor. (Os seminários menores são seminários de crianças). O homem tem estigmas na alma que o inibirão em tudo vitaliciamente e procurará ultrapassar isso por formas pouco toleráveis. Isso vai dar asneira, ali. Porque a dá em todo o lado.

O PS pagará o preço do seu êxito em mil conspirações internas que visarão cindi-lo. Porque a ala esquerda não suportará a política de direita e a direita interna nunca foi socialista… Pensem no eventual socialismo de Basílio Horta que me entendem mais depressa… Esta tensão será agora um pouco diferente. Uma das facções tem a (objectiva) polícia política nas mãos e pode armar ciladas francamente perigosas aos outros. (A quaisquer outros, em bom rigor). O número de avençados do SIS na imprensa permite acertar minutas de campanha de denegrimento contra quem quer que seja. Esta parte da história não vai ser bonita, caso se desenrrole como temo que ocorrerá.

Rebelo de Sousa, nisto e em tudo, fará sentir a sua personalidade histriónica, pela certa, mas não é imaginável até onde se consentirá ir para barrar o passo à esquerda. Ele é – e sempre foi – um nacional-católico. É tarde para mudar.


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Marcelo Rebelo de Sousa perdeu as eleições?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 31/01/2022)

O medo de um governo de direita, que as inúmeras sondagens anteriores às eleições tornaram, erradamente, uma possibilidade viável na cabeça de muitos eleitores, levaram a uma concentração de votos da população de esquerda no Partido Socialista, com sacrifício do Bloco e da CDU, e originaram uma grande vitória pessoal de António Costa.

O PS está livre para formar o governo que quiser.

É uma vitória ao PSD, é uma vitória aos partidos da geringonça, é uma vitória à direita liberal, é uma vitória à direita nacionalista, e é, finalmente, uma vitória ao Presidente da República.

Na verdade, a vitória eleitoral de António Costa é politicamente tão forte e tão surpreendente que qualquer intenção do Presidente da República em influenciar a formação do próximo governo, o seu programa, as suas opções estratégicas, os parceiros a incluir ou a excluir de acordos de governação, toda a matemática no espaço que o estratega Marcelo Rebelo de Sousa certamente esteve a construir nos últimos meses, se esfumou na decisão emanada ontem dos boletins de voto.

O Presidente da República, ao contrário do que seria de esperar, parece condenado a ter um resto de segundo mandato em que tem de se confrontar com duas opções, face a um António Costa praticamente com as mãos livres para fazer quase tudo o que quiser.

A primeira é o Presidente da República começar a comportar-se com António Costa, em contraste com a convivência simpática anterior, como Mário Soares, no seu segundo mandato, fez com Cavaco Silva, que criticava frequentemente as opções do governo, solidarizava-se com os que se queixavam do primeiro-ministro, parecendo quase um líder da oposição.

A segunda é Marcelo Rebelo de Sousa conformar-se, pelo menos nos próximos tempos, a uma palidez política, a uma secundarização do seu papel, ofuscado pelo aumento de poder de António Costa, à espera de uma qualquer crise que volte a equilibrar para o seu lado a balança da capacidade de decidir os destinos do país, correndo o risco de que isso não aconteça até ao fim do seu mandato.

Qualquer das opções implica, de qualquer forma, que nos próximos tempos o homem que decidiu, glosando o seu discurso de sábado sobre estas legislativas, pela primeira vez na nossa história, que o chumbo de um Orçamento do Estado implicava a convocação de novas eleições, é também um dos castigados por essa antecipação do ato eleitoral.

Esta vitória do primeiro-ministro derrota também uma parte do próprio PS, que parecia estar a deixar de acreditar nele: uns criticavam-no pela sua opção de fazer acordos à esquerda, outros denunciaram a sua responsabilidade pelo fim da geringonça. Agora clamam, todos juntos, vitória.

Isto significa que, a partir de agora, o poder acrescido que António Costa conquistou o tornou igualmente um político mais isolado: todas as decisões que daqui em diante tomar vão-lhe ser imputadas, ninguém mais as atribuirá, para o bem ou para o mal, à necessidade de compromisso, a resultados de duras negociações, a cedências necessárias para manter a estabilidade governativa, que serão, obviamente, marginais. Esse tempo acabou.

Este é, portanto, o tempo para finalmente avaliar o carácter ideológico de António Costa: praticamente sem outros freios que não sejam os das limitações impostas pela União Europeia, livre de oposição interna, livre da influência de Marcelo, iremos ver no poder um homem de esquerda ou um homem de centro?


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