Kamalas, Obamas, Tonys & Tims: o espectáculo da América que arma a guerra

(Alexandra Lucas Coelho, in Público, 24/08/2024)

Após dez meses de extermínio (com bombas americanas), o grande palco dos Democratas americanos recusou qualquer voz da Palestina. E o embargo de armas.


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1. Por quatro dias, e sobretudo noites, foi o maior espectáculo da Terra. O espectáculo de como a América que se crê multirracial, ecuménica, compassiva, farol da liberdade e dos direitos galvanizou uma audiência com esses valores ao mesmo tempo que dava cabo deles:

1) dentro da própria arena da Convenção Nacional Democrata (DNC, na sigla original), onde o partido recusou insistentes pedidos para que alguma voz palestiniana-americana ou sobre Gaza subisse ao palco;

2) lá fora, onde milhares de pessoas apelavam a esses testemunhos e ao embargo de armas, incluindo 30 delegados eleitos em representação de 700 mil eleitores democratas que se declararam não-alinhados com um candidato à partida, e tinham expectativa de serem ouvidos;

3) em Israel, onde oportunamente aterravam mais 20 mil milhões em ajuda americana, e o diligente Antony Blinken representava pela 9.ª vez a farsa do cessar-fogo iminente.

Devia fazer-se uma versão Blinken da máxima sobre a história que se repete como farsa. A cara compungida de quem aperta a mão a Netanyahu pela 9.ª vez, como se nos dissesse: sim, eu sei que é um canalha. E mais uma vez a notícia é que o canalha lhe tirou o tapete. Hum. Referem-se ao canalha a quem Blinken deu com uma mão 20 mil milhões enquanto com a outra lhe exigia o cessar-fogo? De facto, é uma pressão insuportável. Nem se percebe como Netanyahu resiste a ela.

O que se passa desde 7 de Outubro, e atingiu o cúmulo esta semana, é que o governo Biden-Harris continua a premiar com ouro o maior crime do nosso tempo. Um ouro que sai do bolso dos americanos. Com uma mão premeia, com a outra puxa o gatilho. A guerra só é possível porque os EUA a fazem. E a isso chamam trabalhar “incansavelmente” pelo cessar-fogo. Como Biden disse a abrir a convenção, e Kamala repetiu no fim, quando aceitou ser candidata a presidente da “maior democracia da História do mundo”.

2. Lembram-se dos muitos Democratas que se recusaram a ir ao Capitólio ouvir Netanyahu? Pois agora estavam em Chicago e recusaram-se a dizer no palco: vamos parar de mandar bombas para Gaza. Incluindo o candidato a “vice” Tim Walz, que muita gente quis ver como a escolha mais progressista possível de Kamala. Incluindo Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez. Alexandria ainda pior que Bernie. Porque Bernie esteve aquém do mínimo no palco, mas falou com um peso. Não me soou a falso como Alexandria, que tem sido uma desilusão contínua. Como Obama me soou a falso. O que não o impediu de “electrificar” a convenção, para usar o adjectivo de vários media americanos.

Cobri como repórter as duas convenções americanas da segunda eleição de Clinton. Muitos anos depois, atravessei o Atlântico para estar no Harlem na noite da eleição do primeiro presidente negro dos EUA. Chamava-se Barack Obama, foi inesquecível. Ao contrário do que depois ele não fez no Médio Oriente. E agora, ao ouvi-lo no palco a seguir a Michelle, pareceu-me mais remoto ter ido à América por ele do que aquelas convenções dos anos 1990, quando não havia Internet nem telemóveis, e mandávamos reportagens de cabines telefónicas.

Em Agosto de 2024, ao fim de mais de dez meses de extermínio, Barack Obama não disse uma palavra sobre Gaza. Como se fosse um assunto externo, ou irrelevante. Como se não fosse o elefante na sala, ou porque era o elefante na sala. Então, tudo o que Obama não disse revelou Obama.

A convenção Democrata foi assim um espectáculo duplo, na verdade. Havia o espectáculo e havia a farsa que Gaza revelava a cada discurso, em cada decisão.

O primeiro electrificou a audiência que só quer uma pílula de Gaza. Não quer acordar com cabeças de bebé rebentadas. Não quer pensar que milhares de crianças morreram de forma horrível, centenas de milhares estão a morrer, e todas as outras nunca mais estarão bem. Que esta guerra trouxe de volta a pólio a Gaza. A pólio paralisa até os músculos vitais para respirar, como os Democratas da América poderiam aprender, ou lembrar, se tivessem aceitado ouvir, por exemplo, Tanya Haj-Hassan, pediatra americana que fez várias missões em Gaza, e foi a Chicago para dar testemunho, mais uma vez. Mas não havia lugar para ela no palco. Como não houve para nenhum descendente de palestinianos. Houve lugar para o candidato a primeiro-cavalheiro, o judeu americano Doug Emhoff, falar da sua infância de classe média em New Jersey, como ia de autocarro para a escola hebraica, como Kamala o incentivou a abraçar a luta contra o anti-semitismo. Mas não houve lugar para os também judeus pelo embargo, contra o genocídio, que se sentaram lá fora, naquelas intermináveis horas entre quarta e quinta-feira, porque não queriam desistir de esperar que fosse possível alguém levar Gaza ao palco.

O espectáculo lá dentro não era o deles. Era o de quem não os ouve. Tal como não vê os 100 sacos de plástico transparentes com pedaços de carne e ossos dos palestinianos mortos no ataque de Israel à escola, no sábado em que publiquei a última crónica sobre as torturas nas prisões israelitas. A propósito, anteontem o tribunal revelou mais detalhes sobre os soldados acusados de violação (leiam no Haaretz).

3. Vi os 37 minutos de Kamala Harris antes de começar esta crónica. Choro estupidamente com filmes feitos para chorar. E chorei naqueles 37 minutos, em que alguns talvez tivessem sido feitos para chorar, começando com a mãe que veio da Índia, e rimava com a mãe de Michelle. Mães não-brancas, bravas, lutando pelas suas crias na América. Como não chorar com elas e por elas? Não subestimo por um minuto o quanto Kamala fará muita diferença na vida de milhões de mulheres na América. E milhões de imigrantes, pessoas não-brancas. Muita diferença comparada com Trump, uma diferença decisiva. Como não? A história de cada mulher na América que tiver, ou não tiver, direito a aborto seguro é também minha.

Mas se chorei a ouvir Kamala foi porque cada frase dela revelava o quanto as pessoas de Gaza não estavam incluídas nela.

“Acredito que toda a gente tem direito a segurança, dignidade e justiça.” Sim?

“No nosso sistema de justiça, um mal feito a alguém é um mal feito a todos.” Realmente?

“Ninguém deve ter de lutar sozinho. Estamos todos juntos nisto.” De facto.

Kamala diz que sempre apoiará o direito de Israel a defender-se. Que vai “assegurar sempre que Israel tenha a capacidade de se defender”. E ainda: “Estamos a trabalhar para acabar com esta guerra, de forma a que Israel esteja seguro, os reféns sejam libertados, o sofrimento em Gaza acabe, e o povo palestiniano veja cumprido o seu direito a dignidade, a segurança, a liberdade e a autodeterminação.” A convenção aplaudiu. Para muita gente, terá sido bastante. Porque falou de Gaza, porque falou em autodeterminação — ao fim de 76 anos.

Eu vi e ouvi uma mulher filha de uma indiana e de um jamaicano dizer, mais uma vez, que as vidas palestinianas não contam o bastante. Não tanto como as dos 109 reféns de que falaram o pai e a mãe israelitas convidados para o palco.

América: como é pouco o bastante quando não se trata dos teus. E como é miserável que ao fim de 76 anos estejamos aqui, a assistir a isto. O Estado que a Europa ajudou a criar para se ver livre dos judeus e da culpa de os ter morto e perseguido. O terror de Estado que a América financia e arma. O que acontece a um Estado quando tudo lhe é permitido. O que acontece à humanidade quando isso acontece.

Todas, todos, nós: testemunhas.

Blinken, o amigo do genocídio

(Tiago Franco, in Pagina Um, 22/08/2024)

O criminoso aplaudido de pé no Congresso dos Estados Unidos

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Quando ouvi Antony Blinken, secretário de Estado de Biden, afirmar que os Estados Unidos (EUA) tinham traçado um plano de paz com o qual Israel concordara e, que agora, esperavam o mesmo do Hamas, fiquei ligeiramente desconfiado. Só para não dizer que sorri.

É, no mínimo, estranho que seja uma das partes do conflito a elaborar uma proposta para o fim desse mesmo conflito. E mais estranho seria se esse documento fosse sequer algo justo para ambos os lados.

Ler a parte restante do artigo aqui.

Kursk, a loucura da NATO por trás do avanço de Kiev

(Por General Fábio Mini, In Le Grand Soir, 22/08/2024, Trad. Estátua de Sal)


O objetivo ucraniano e britânico mais racional e provável da operação é envolver a NATO numa guerra direta contra a Rússia em território russo antes que os Estados Unidos e outros países, assoberbados por problemas internos e prioridades internacionais, desliguem o suporte de vida que mantém a Ucrânia viva.


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A penetração “ucraniana” no território russo de Kursk, que começou com cerca de uma centena de homens, expandiu-se e aprofundou-se relativamente. Fontes ocidentais contam agora com cerca de cinco brigadas mecanizadas e blindadas, além das forças especiais ucranianas na Rússia, e cada quilómetro ocupado ou atravessado por estas últimas é considerado um sucesso indiscutível. Mesmo os analistas mais céticos das capacidades militares da Ucrânia tendem a apresentar a situação como um ponto de viragem fundamental no conjunto do conflito, enquanto os instigadores nacionais da guerra já se regozijam com a hipotética perspetiva do colapso da Rússia em toda a frente. Contudo, a evolução das operações no terreno sugere certas considerações táticas e estratégicas.

1. A invasão ucraniana marca a transferência da iniciativa estratégica e do comando das operações da Ucrânia para a Grã-Bretanha, simultaneamente enquanto membro da NATO e como líder do BB (Bloco Báltico ou Banda Bassotti ad lib.) que apoia a Ucrânia. As forças ucranianas estão a ser motivadas e treinadas, com sinais claros de revitalização, através da participação de profissionais ocidentais, ordens precisas e objectivos pouco escrupulosos. A cautela relativamente ao poder russo e à sua capacidade de escalada desapareceu. Os próprios ucranianos abandonaram os seus receios de represálias russas e, por seu lado, a NATO, a Europa e a Grã-Bretanha nunca tiveram em conta os riscos e sacrifícios que o conflito implicou e implica para os ucranianos. O otimista “até ao último ucraniano” sempre evidenciou a indiferença quanto às perdas ucranianas e à monopolização dos lucros da guerra pelo Ocidente.

2. A manobra “ucraniana” que tendia a desviar as forças russas do Donbass, na verdade, favoreceu a mobilização de novas forças russas, que se preparam durante a evacuação da zona ocupada, com a intenção de ganhar tempo cedendo espaço. A capacidade residual de penetração das forças ucranianas ainda pode permitir-lhes avançar dezenas de quilómetros mas, sem reforços atrás delas, à medida que avançam, as necessidades logísticas aumentam e as forças tendem a encontrar-se numa bolsa perigoso que pode fechar-se, não tanto com a resistência russa na frente, mas mais com uma junção dos ataques de mísseis aos disparos da aviação na retaguarda, em território ucraniano.

3. A ocupação ucraniana não está estabilizada e é fluida. A possibilidade de estabelecer comandos militares territoriais ucranianos, anunciada pelo Presidente Zelensky para divertir os seus apoiantes, é um fim em si mesma e pode durar enquanto se mantiver a presença militar. As ocupações militares retiraram sempre recursos às populações, impuseram regimes que eliminaram qualquer simpatia pelos ocupantes e envolveram forças operacionais em tarefas de controlo territorial, desviando-as das frentes de combate. Mesmo a eventual transformação da brecha numa zona controlada por um contingente internacional tem uma probabilidade nula, devido à previsível oposição da Rússia a um ato internacionalmente condenável, e uma probabilidade elevada de representar uma provocação militar aberta.

4. A manobra de Kursk baseia-se na aposta ocidental de que a Rússia não utilizará armas nucleares táticas. Certamente não o fará no seu próprio território, mesmo que este esteja ocupado e mesmo que os próprios falcões russos pressionem a realização de um massacre para atingir as forças invasoras. Mas ela pode fazê-lo em território ucraniano, e logo aquando a penetração terminar. É fácil de prever os efeitos devastadores daquilo que, a priori, se está a excluir.

5. A atual operação, que alimenta os sonhos do início do desaparecimento da Rússia, pode evoluir na direção oposta precisamente devido ao cinismo da liderança ocidental das operações. O objetivo ucraniano e britânico mais racional e provável da operação é envolver a NATO numa guerra direta contra a Rússia em território russo antes que os Estados Unidos e outros países, assoberbados por problemas internos e prioridades internacionais, desliguem o suporte de vida que mantém a Ucrânia viva. Seria uma guerra aberta entre o Ocidente e o Oriente, desastrosa para todos, quer envolvesse operações prolongadas ou, pior, desencadeasse um confronto nuclear. No entanto, o cinismo ocidental que presidiu à operação em Kursk permite vislumbrar o objetivo estratégico de acelerar o fim do conflito, sacrificando as últimas forças ucranianas, negociando a troca de territórios e incorporando o que restará da Ucrânia na NATO. e na União Europeia.

Seria o início da nova Guerra Fria que muitos imaginam, com as novas instalações de mísseis na Europa, como o grande negócio da nova corrida ao armamento, como a oportunidade de reconstrução dos territórios devastados pela guerra, sendo um alfobre dos “benefícios” da nova Cortina de Ferro: desta vez sobre o Dnieper, cortando Kiev em duas ou quatro.

Sobre o autor:

Tenente-general, serviu como chefe do Estado-Maior do Comando do Sul da Europa da NATO e, a partir de Janeiro de 2001, chefiou o Comando de Operações Conjuntas nos Balcãs. De outubro de 2002 a outubro de 2003, comandou operações de manutenção da paz lideradas pela NATO no cenário de guerra do Kosovo, como parte da missão KFOR (Força do Kosovo). Entre outras missões, serviu como adido militar em Pequim. Ele também dirigiu a Escola de Estado-Maior Interforças (ISSMI). Ele introduziu o pensamento militar chinês moderno na Itália, traduzindo o livro dos generais chineses Qiao Liang e Wang Xiangsui Guerra Sem Limites. A arte da guerra assimétrica entre o terrorismo e a globalização. Ele também traduziu o livro “O Arco do Império” do General Liang para o italiano. With China and the United States at Each End”, uma análise a partir de uma perspetiva chinesa do mundo atual na sua transição do unipolaridade americana para o multipolaridade.

Fonte aqui