Apanhei com as duas notícias quase em simultâneo. Israel destruiu o hospital Kamal Adwan, o último que ainda funcionava em Gaza. Os médicos e os doentes foram forçados a sair, alguns nus, como se encontravam, em fila indiana, antes do edifício ser incendiado.
No Público um extrato de um artigo de Alexandra Lucas Coelho, com o título “Israel acabou. O futuro é da Palestina.” (Ver texto completo aqui):
“Esse horror não seria possível sem as bombas e os milhões dos EUA. Biden é um criminoso de guerra. Como Scholz, Ursula, a maior parte da UE (com três ou quatro países a fazerem a diferença). O mundo que permite que se extermine um povo em nome de Deus, e ainda se considera religioso…”
O genocídio que Israel está a cometer na Palestina coloca a questão de ser a comunidade judaica que determina a política dos Estados Unidos ou se são os Estados Unidos que determinam a política de Israel. No fundo trata-se da mesma velha questão de saber se, enquanto existiu, era a Inquisição que determinava a política dos reinos de Portugal e de Espanha, ou se eram estes reinos, os Estados, que utilizavam a Inquisição como seu instrumento de poder. Israel elimina os palestinianos para impor o seu poder de forma inquestionável, no seu interesse próprio ou os Estados Unidos utilizavam Israel para imporem o seu poder no Médio Oriente?
A posição estratégica da Palestina no Médio Oriente faz com que o seu controlo constitua um objetivo vital para os Estados Unidos. Esse interesse é assegurado por Israel. A existência de palestinianos, os nativos, constitui um obstáculo para a justificação do direito de controlo absoluto do território por parte dos Estados Unidos. Israel foi criado, entre outras razões, com o argumento do direito dos judeus à posse do território pela ancestralidade bíblica (na realidade idêntica à de todos os povos semitas da região).
Israel foi criado, existe e atua com a violência e a crueldade que são impossíveis de ignorar para eliminar os palestinianos, para eliminar os que colocam em causa o poder dos Estados Unidos na região através de Israel.
A Santa Inquisição dispunha de um Manual do Inquisidor que justificava a tortura para obter a confissão e mesmo a conversão dos judeus, que entregava os condenados ao braço secular para execução da sentença de morte, que tanto punia os relapsos, como ajudava os conversos a irem para o Paraíso mais cedo.
A dúvida que se coloca na relação atual entre os Estados Unidos e Israel nesta adaptação do Manual do Inquisidor de eliminação de um povo é a antiga dúvida se era a Inquisição que determinava ao Estado a política de morte dos hereges, ou se era este, o Estado, que utilizava a Inquisição como um instrumento da sua política de poder absoluto. Ou se ambos atuavam em conluio. O direito da Inquisição, que representava a maioria cristã, armada, se defender dos hereges é, curiosamente, o mesmo atualmente invocado do direito à existência de Israel, que está fortemente armado e constitui a maioria reinante.
No século XV em Estanha, era Tomás Torquemada, o Inquisidor mor, insano e fanático, ou Fernando de Aragão e Isabel de Castela, os reis católicos que governavam a Espanha e a “limpavam” de judeus e muçulmanos, e hoje, é Netanyahu ou o presidente dos Estados Unidos que determina a matança dos palestinianos, o auto de fé de Gaza?
O dramático, hoje, como há quinhentos anos, para quem tiver consciência, será responder à pergunta deixada pela Alexandra Lucas Coelho: – O que fizeram contra isto? – Que filhos ou netos farão aos seus pais ou avós, sobre nós. Isto na esperança de os nossos filhos e netos não serem iguais a nós e nós não sermos iguais aos que participavam nos autos de fé em ambiente de festa.
(Um grande bem-haja para a autora deste texto pela coragem de denunciar as atrocidades monstruosas de Israel que sendo descomunais, muita gente, tal como eu, não deve saber que o são tanto. E pelo o libelo de dedo erguido contra os nossos políticos, cobardes, coniventes com a mortandade e benzendo-a com o seu silêncio cúmplice.
1. No dia 19 de Dezembro de 2023 acordei em Jenin (norte da Cisjordânia), após mais uma invasão israelita. As ruas estavam rebentadas de fresco, crateras e montanhas de lama, jorros de esgoto. O exército retirara com blindados e bulldozers mas continuava no céu, pronto a disparar. Ouvíamos o drone por cima da cabeça. Jenin é um bastião da resistência palestiniana, chamam-lhe A Pequena Gaza. Eu estava lá por Jenin e por Gaza, onde Israel matava jornalistas desde 7 de Outubro, barrando a entrada de outros jornalistas, de forma inédita na história do jornalismo.
Portanto, eu nunca poderia relatar o que se passava naquele momento na Cidade de Gaza. Mas esse 19 de Dezembro foi também o dia em que um homem, por sorte médico, teve de amputar a perna da sua sobrinha sem anestesia, em cima da mesa da cozinha. Uma bomba levara a parte de baixo da perna, ela morreria de hemorragia. O tio limpou o sangue com a esponja da loiça, cortou com a faca da cozinha, coseu a artéria com a agulha da costura, porque era o que havia e lá fora caíam bombas. Impossível chegar ao Al-Shifa, a cinco minutos. O maior hospital de Gaza, onde tantas vezes estive a saber de feridos, como a 19 de Dezembro estive no hospital de Jenin.
Um ano depois, já não me lembrava ao certo onde estava. Fui verificar agora, quando vi a data dessa amputação no mais exaustivo relatório que um indivíduo fez desde 7 de Outubro. Na última versão em inglês tem 124 páginas e 1401 notas de rodapé, remetendo para milhares de fontes (informação institucional, organizações de direitos humanos, media tradicionais, textos académicos, redes sociais). Chama-se Bearing Witness to the Israel-Gaza War e é um trabalho escrito e compilado pelo israelita Lee Mordechai, historiador da Universidade Hebraica de Jerusalém, doutorado em Princeton. Mordechai, 42 anos, encontrava-se numa sabática nos EUA no 7 de Outubro. Queria fazer algo, e a partir de Dezembro começou a reunir informação além da que estava a ser vista pela maioria das pessoas em Israel. Em Março de 2024, o documento tornou-se viral no ex-Twitter em hebraico. Mordechai ampliou o alcance: para seja quem for que queira saber. Esclarece no começo: “Não recebi qualquer pagamento para escrever este documento, e fi-lo em compromisso com os direitos humanos, a minha profissão e o meu país.” Viu milhares de imagens horríveis. Não as mostra no texto, dá os links. Não usa palavras como “terrorista” ou “sionismo”. Chama “militantes” ou “operacionais” aos membros do Hamas. Li o documento: é um texto claro, sucinto, quase sempre factual, com poucos adjectivos. Considera o ataque do Hamas e outros grupos a 7 de Outubro uma atrocidade. Tal como considera a resposta de Israel um genocídio, e no fim explica porquê.
Os palestinianos têm sido a grande fonte directa do maior horror do nosso tempo de vida: aquele que está em curso desde 7 de Outubro. Quem acompanha os incontáveis testemunhos que eles nos têm dado do seu próprio holocausto, sobretudo pelo Instagram, vai reconhecer centenas de momentos no relatório de Mordechai. Idem para quem segue as agências e tribunais da ONU, a Human Rights Watch, a Amnistia Internacional e muitas outras organizações, incluindo israelitas. Uma sucessão de horrores e recordes. Resumo aqui: recorde de bombas e de crianças mortas à bomba, à fome, de diarreia, hipotermia ou outros problemas que não seriam mortais, se fossem assistidas. Recorde de crianças mortas com tiros na cabeça, no peito. Recordes de médicos e trabalhadores humanitários mortos. Recorde de licença para matar civis por cada alvo de alto ranking: 300 para 1. Recorde de civis mortos com as mãos no ar ou bandeiras brancas. Recorde de detidos arbitrariamente, homens, mulheres e crianças, com tortura, violação e mortes nas cadeias (muitíssimo acima de Guantánamo). Recorde de sacos de plástico para corpos, e saquinhos de plástico para pedaços de carne e ossos. Famílias com muitos saquinhos de plástico, que eram filhos, filhas, mães, pais. Quase 100 por cento da população deslocada: 2,3 milhões de pessoas. Destruição ou razia da grande maioria das casas, escolas, hospitais, mesquitas, edifícios em geral. Fome e epidemias em massa. Pessoas a comer erva e ração de animais, e cães a comer os cadáveres das pessoas. Lixo e esgoto por toda a parte. Ausência de electricidade e água potável. Cesarianas sem anestesia, além das amputações e outras cirurgias. Sofrimento contínuo e atroz de centenas de milhares de mutilados, queimados, doentes. Mais de 45 mil mortos oficiais, milhares de desaparecidos, centenas de valas comuns, projecções de centenas de milhares de mortos. Sem falar na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, onde o Hamas não está no poder, e milhões de outros palestinianos são reféns de um governo de colonos, que nunca capturou semelhante quantidade de terra, árvores e animais, ou matou e prendeu tanta gente.
Tudo isto já estava documentado, e Mordechai compila muitos exemplos. Mas talvez a parte mais singular do relatório, pelo próprio facto de ser israelita e falar hebraico, seja o que ele expõe sobre Israel, o ponto a que chegou a desumanização dos palestinianos. E eis a chave, diz Mordechai: a desumanização dos palestinianos é o que permite este horror. Resumo: a grande maioria dos israelitas que não quer saber a verdade (as muitas verdades além da propaganda); que nas sondagens acha bem limpar os palestinianos de Gaza; que é contra a entrada de ajuda (e em muitos casos a trava, incendeia); que acima de todas as instituições aprova as Forças Armadas de Israel, acredita que são as mais morais do mundo. Até porque essas forças são ela mesma, a grande maioria dos israelitas, pais e filhos, mães e filhas. Um exército de tiro ao pato, onde é possível matar palestinianos por tédio ou por um post, onde cada um no terreno pode fazer o que lhe dá na telha, como testemunham soldados e oficiais que estiveram em Gaza. Não são excepções, são padrões. Militares que fazem de qualquer civil um terrorista, incluindo crianças e bebés. Que agem como se Gaza fosse um videojogo, planeiam alvos por Inteligência Artificial, dedicam execuções e explosões às namoradas (e namorados). Que fazem dos palestinianos cães. Que filmam e postam o cadáver de um palestiniano a ser comido por um cão, seguido do lindo pôr-do-sol de Gaza. Que filmam e postam palestinianos passados a ferro por veículos militares, palestinianos despidos, atados, vendados, aos montes. Que recitam a Torah e a cada compasso disparam um morteiro. Que grafitam as paredes, incluindo das mesquitas, com insultos ao Islão e símbolos judaicos (fotografei em Jenin). Que posam no Tinder com fardas, armas, troféus da guerra, porque exterminar palestinianos é sexy. Que se postam com a lingerie das palestinianas, nas casas que arruínam. Enquanto a televisão israelita pode, por exemplo, promover um vídeo genocida em que crianças israelitas, com imagens de destruição em fundo, cantam sobre como Gaza será arrasada e em breve Israel vai cultivar os campos lá. Aliás, uma das últimas actualizações de Mordechai diz respeito à limpeza étnica do norte de Gaza, nestas últimas semanas de 2024, depois de uma líder dos colonos ter ido a Gaza, escoltada pelos soldados, para inspeccionar os futuros domínios das 500 famílias israelitas que ela diz que já estão prontas a mudar.
Há instruções escritas para esta limpeza étnica? Para o genocídio? Que se saiba, não. O que só convém às lideranças, como diz Mordechai, acautelando futuros julgamentos. Mas houve inúmeros apelos à destruição geral de Gaza, comparações dos palestinianos com animais, com bárbaros, com inimigos da Bíblia, que deviam ser erradicados até aos bebés. Ao mesmo tempo que milhões foram gastos em propaganda para destruir críticos de Israel (incluindo a ONU), comprar vozes pró-Israel, multiplicar histórias falsas. Como eram falsos os 40 bebés decapitados do 7 de Outubro, ou as violações em massa do Hamas, e relatos feitos pela organização israelita que primeiro esteve nos kibbutzim atacados, a ZAKA, que Mordechai hoje considera descredibilizada (não porque o que aconteceu a 7 de Outubro não tenha sido atroz, mas porque foi distorcido desde a raiz e aproveitado politicamente).
“Acredito que Israel tem tentado uma combinação destas três coisas: (1) remover os palestinianos de Gaza, especialmente no Norte; (2) tornar vastas partes da Faixa inabitáveis, esperando que isso contribua para o objectivo anterior; (3) matar as pessoas de Gaza por violência directa, fome ou prevenção de ajuda”, escreve Mordechai quando explica porque considera tratar-se de um genocídio, de acordo com os critérios da Convenção de Genebra.
Incluindo a intenção de o cometer.
2. No dia 7 de Outubro de 2023 voltei a casa de uma caminhada ao fim da manhã e peguei no telefone que ficara em cima da banca da cozinha. Quando vi as notícias, ali de pé, transida, pensei duas coisas, nenhuma racional. Uma foi: “Vou comprar um bilhete de avião.” A outra é algo que até hoje não escrevi publicamente, com as palavras que então pensei: “Israel acabou.”
Esta crónica sai um ano, dois meses e vinte e um dias depois disso, e é o que continuo a achar, mas hoje de forma mais detalhada. Claro que Israel não acabou no terreno, nem sei quando isso acontecerá. O que quero dizer é que a ideia de Israel acabou. Israel é hoje um estado pária para qualquer pessoa que queira realmente saber o que aconteceu desde 7 de Outubro. Que encare o que já mostraram — além dos próprios palestinianos — os tribunais e agências da ONU, a relatora da ONU para a Palestina, a Human Rights Watch, a Amnistia, centenas de outras organizações ou Lee Mordechai, desde 7 de Outubro. E antes disso, desde 2007, com o cerco a Gaza. E antes disso desde 1967, quando Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental (e os Montes Golã) foram ocupados, e colonizados. E antes disso desde 1948, quando centenas de milhares de palestinianos foram expulsos de suas casas, feitos refugiados. Até hoje em campos miseráveis do Líbano, da Jordânia, da Síria.
Os jovens do mundo que acordaram para Israel/Palestina a 7 de Outubro não entendem como foi possível um país ser fundado à custa de um povo. Muito menos como é possível um povo ser exterminado nos nossos telemóveis, com a ajuda dos nossos governantes. Porque é que um único país no mundo faz o que quer na ONU, incluindo cortar-lhe as pernas, banir o secretário-geral. Porque é que um povo parece valer mais do que qualquer outro. E porque é que os palestinianos valem menos do que Israel, a América ou a culpa da Europa. Numa palavra: racismo (étnico, religioso, cultural).
A ideia de Israel nasce na Europa colonial do fim do século 19. Uma Europa que achava que era ok extrair o que pudesse de África ou da Ásia, instalar-se lá, ser dona. Em parte sionista por amor aos judeus, em parte sionista para se livrar deles. Anti-semita de longa data, muitos séculos, muitas fogueiras, muitos pogroms, até ao Holocausto. E depois do Holocausto — do maior horror que a Europa do século 20 conheceu — funda-se então o Estado judaico, com a alavanca da culpa europeia, para que nunca mais, nunca mais.
Mas fundado no quê? Na destruição de outro povo. Na mentira de que era uma terra sem povo para um povo sem terra. A ideia de Israel está ferida desde o começo pela destruição e pela mentira. E a partir daí foi de vitória em vitória, até o Hamas abrir o alçapão em que Israel se despenhou.
O Hamas derrotou Israel no dia 7 de Outubro. Com um massacre contra civis, na sua maior parte, tal como milícias sionistas pré-Israel foram terroristas, e muitos outros movimentos recorreram ao terrorismo sem se resumirem a isso. O Hamas fortaleceu-se pela corrupção da Autoridade Palestina, pelo jeito que deu a Israel ter esse inimigo e pela vergonhosa incapacidade da comunidade internacional. Membros do Hamas torturaram o meu tradutor e amigo W., mas antes disso eu já não tinha ilusões sobre o Hamas. Simplesmente é um erro resumi-lo como terrorista.
A sociedade israelita viveu o maior trauma de sempre a 7 de Outubro. E a gente que hoje a lidera viu nisso uma grande oportunidade para concluir a Nakba de 1948, a Naksa de 1967. É o que Netanyahu tem estado a fazer, com os seus ministros colonos, supremacistas judaicos, a colaboração activa de muitos sectores da sociedade, a incapacidade de qualquer oposição, a anuência de uma maioria de israelitas. E abriu-se a frente libanesa, com o Hezbollah, e a frente síria, com a queda de Assad, tudo oportunidades. Expansão, conquista. Na verdade, auto-destruição. A espiral da queda no alçapão.
Os israelitas não vão recuperar como país do que fizeram, do que viram, e do que não fizeram e não quiseram ver. Uma sociedade doente, cada vez mais incapaz de reconhecer o outro, os outros. A ilusão de uma bolha étnico-religiosa, vendo anti-semitismo em todas as partes, da ONU ao Papa, da Irlanda à Amnistia Internacional. Validada porque o mundo a tentou destruir. E tentou.
Israel perdeu o mundo. Bem pode vir a sinistra Arábia Saudita assinar a normalização, estão bem uns para os outros. Idem os sinistros regimes árabes, todos, desde 1947, carrascos dos próprios povos, e de outros. Carrascos dos palestinianos. Somando o sinistro Irão: nenhuma democracia no Médio Oriente.
Não há futuro num Estado fundado na desumanização de outros. O começo de Israel já era o fim de Israel. O 7 de Outubro gerou a desumanização definitiva. O futuro é da Palestina ou não será. Não mais, ao fim de 76 anos. A Palestina perdeu o mundo durante 76 anos, mas agora Gaza é o mundo. E para jovens como Greta Thunberg está associada à própria luta pela vida da Terra.
E será inútil os guardiões da lenda Dois Estados virem com o papão de que isto deita os judeus ao mar. Quero os judeus livres de Israel. Quero os judeus livres. Quero os palestinianos livres. Toda a gente livre desde o rio até ao mar. Toda a gente livre: não há outra moral. Ou: nunca mais é para toda a gente.
3. Daqui a um mês, a 27 de Janeiro de 2025, Netanyahu não irá aos 80 anos da libertação de Auschwitz porque tem medo de ser preso por crimes contra a Humanidade. Há dias, no Haaretz, Gideon Levy resumiu o simbolismo alucinante disto. Era bom que Netanyahu fosse preso já, mas faz bem em não ir: Auschwitz não merece o homem que desde 7 de Outubro preside a Auschwitz-agora-em-directo. Uma criança morta por hora.
E aqui tocamos na última parte deste texto. A verdade mais difícil está por escrever porque, ao mesmo tempo que o horror nunca foi exposto como desde 7 de Outubro, ainda falta muito. E tudo isso será sobre nós: o tamanho do buraco humano.
Esse horror não seria possível sem as bombas e os milhões dos EUA. Biden é um criminoso de guerra. Como Scholz, Ursula, a maior parte da UE (com três ou quatro países a fazerem a diferença). O mundo que permite que se extermine um povo em nome de Deus, e ainda se considera religioso. Mas Deus não tem culpa, só os humanos mesmo.
Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, primeiro-ministro Luís Montenegro, ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel, restantes ministros: vão continuar a ser cúmplices de um genocídio? Quando vamos ter sanções a Israel? Quando vão ter coragem para enfrentar o fecho da embaixada israelita em Lisboa?
Quando vão exigir aos israelitas que querem ser portugueses que provem que não estiveram envolvidos neste genocídio? E que vão fazer quando os vossos filhos ou netos vos perguntarem que fizeram contra isto?
Lee Mordechai testemunha. Toda a gente pode testemunhar desde 7 de Outubro. Isto não é só sobre Israel e Palestina. É sobre nós.
(Ana França em entrevista a Karim Franceschi, in Expresso, 16/12/2024)
Karim Franceschi
Combateu quase cinco anos contra grupos em quase tudo semelhantes aos que destronaram Bashar al-Assad na Síria e por isso não vê como é que no Ocidente as pessoas parecem ter esperança num governo pluralista ou inclusivo. Karim Franceschi, ex-comandante da Brigada Internacional que combateu o Daesh, diz ao Expresso que a nova Síria, aos poucos, vai transformar-se num sítio muito escuro para as mulheres.
Karim Franceschi nasceu em 1989 em Casablanca, filho de um antigo guerrilheiro toscano que lutou contra os fascistas nas montanhas da Toscana durante a Segunda Guerra Mundial, de quem herdou o compromisso com uma ideia de sociedade anticapitalista. A mãe é marroquina e Franceschi só se mudou de Marrocos para Itália já era adolescente. É “pelo menos metade árabe”. A sua história na Síria começou em 2014, quando viajou até Kobane, uma cidade maioritariamente curda, no norte do país, para ajudar as populações que viviam na altura subjugadas às tropas do autoproclamado Estado Islâmico (ISIS, em inglês), ou Daesh. Percebeu que cantar as canções revolucionárias que o seu pai havia entoado nos anos 40 não era tudo o que podia fazer. Ele podia combater. Sentia que podia, e acabou por descobrir que é um bom atirador furtivo.
Em janeiro de 2015, juntou-se às Brigadas de Proteção da População (as YPK, braço armado do Partido dos Trabalhadores Curdos, o PKK, considerado um grupo terrorista pela Turquia), e em Kobane, após um rudimentar treino, participou nas batalhas pela libertação da cidade, na altura já com a ajuda dos Estados Unidos, que, no entanto, deixaram para as brigadas curdas boa parte do trabalho. Foi quando se tornou “Marcello”, o nome de guerra do pai que o filho abraçou para si. Em 2017, foi o líder da Brigada Internacional na libertação de Raqqa.
O Daesh caiu por causa dos curdos, e agora Franceschi vê o mundo “esquecido” da sua “enorme dívida moral” para com um povo a ser “dizimado” por “um país da NATO”, diz o ex-guerrilheiro ao Expresso, referindo-se à ofensiva turca contra os curdos no norte da Síria. Não tem qualquer tipo de dúvida sobre quem são e o que querem os homens que tomaram conta da Síria, que o Ocidente entroniza ao chamar-lhes “rebeldes”. Ele conheceu-os e combateu-os quando eram islâmicos radicais assumidos. E não mudaram muito, na sua opinião. “Contrataram empresas de comunicação de topo, e estão a vender uma ilusão ao Ocidente.” E o problema é, principalmente, este: a liberdade das mulheres.
Lutou quase meia década contra o Daesh. Muita gente considera os homens que acabaram de tomar o poder na Síria pouco diferentes. A Síria foi afinal tomada por islâmicos radicais?
Bom, não há grande diferença. Quer dizer é preciso distinguir entre o Hayat Tahrir al-Sham (HTS) e o Exército Nacional Sírio (SNA) que são duas entidades separadas, mas ambas têm muitos ex-militantes do ISIS [Daesh]. A quantidade de informação publicamente disponível permite-nos saber, sem margem para dúvidas, que [Abu Mohammed] Jolani [atual líder da revolução e do HTS] era o segundo comandante de Baghdadi [ex-líder do Daesh, morto num bombardeamento da coligação anti-Daesh] quando este estava no Iraque. Mas Jolani foi fazendo várias mudanças nos grupos que liderava, umas de maquilhagem, outras verdadeiras mudanças, tanto ideológicas como organizacionais. E a última delas aconteceu em 2017, quando o HST nasceu e se separou da Al-Qaeda. Jolani teve de matar as pessoas que não concordavam com essa mudança e livrar-se dos elementos mais radicais, dos que queriam uma jihad internacional, porque ele queria concentrar-se na governação de Idlib [província do noroeste da Síria onde se concentravam os rebeldes anti-Assad] e apresentar-se como um rebelde moderado. Dito isto, é preciso compreender de onde ele vem, ou seja, ele subiu nas fileiras do ISIS durante a insurreição no Iraque e não é como se pessoas como eles fossem deixar chegar um homem simpático e acolhedor ao topo de um grupo daqueles. Ele cortou muitas gargantas, mas é também tremendamente inteligente, muito mais que outros líderes do ISIS, uma organização megalómana, completamente louca.
Porque é que diz isso, o que é que viu que o pudesse levar a tirar a conclusão de que eram caóticos, mal organizados?
Eu vi-os a lutar entre si. Uma parte do ISIS uniu-se para matar os ex-generais, ex-oficiais dos serviços secretos, burocratas afastados pelo regime de al-Assad. Tinham uma guerra interna, mataram a parte mais eficiente do seu suposto Estado. E a fação do ISIS que ganhou foi a que era mais ideológica, corânica, feita de sacerdotes em vez de estadistas.
Certo. E Jolani escolheu os estadistas?
Ele já não tinha estadistas, mas sim, foi pela via pragmática. Só que a ideologia central é a mesma. Ambos os ramos queriam o mesmo: um Estado Islâmico. A diferença é que Jolani está muito mais consciente do poder da comunicação, aperfeiçoou as suas capacidades de comunicação de uma forma impressionante. E pôs na prisão, ou pior, os elementos que não alinharam com a sua nova narrativa, aqueles que ameaçavam o Ocidente, aqueles que ameaçavam Israel, aqueles que falavam da jihad global, ele eliminou tudo. E desde 2018 que se vinha preparando, de muitas formas, incluindo as diplomáticas, para fazer exatamente o que fez agora.
Falou do SNA, o Exército Nacional Sírio, apoiado pela Turquia. Como ex-comandante de uma força que lutou pelo direito dos curdos a manter o seu estado autónomo, provavelmente vê com apreensão o avanço deste exército…
Esses também mudaram de nome várias vezes. Mas os seus líderes são sempre os mesmos. E nunca mudaram a nível organizacional. E o que eles são é simples de definir: mercenários turcos, remanescentes do ISIS. Depois deste ter sido derrotado pelos curdos, alguns conseguiram fugir antes de todo o território estar fechado e controlado pelos curdos. E juntaram-se-lhe os tipos radicais que nem o HST quis, como contei em cima. Os crimes de guerra estão documentados, são eles mesmos que os filmam. São a pior escumalha que saiu da revolução síria, pedem dinheiro aos comerciantes para não lhes incendiar as lojas, é uma máfia, um cartel. Jolani não os quis em Idlib, então a Turquia ofereceu-lhes um trabalho, e assim nasceu o exército que invadiu Afrin [noroeste da Síria, fronteira com a Turquia] em 2018 para criar o suposto corredor de segurança [que a Turquia alega ser essencial para impedir que os curdos cometam ataques terroristas na Turquia]. O exército oficial da Turquia entrou com tanques e com a sua superioridade aérea, bombardeamentos, drones, tudo.
Três dias depois de o HTS ter lançado esta revolução, já o SNA estava a atacar os curdos. Não tiveram intervenção nas movimentações contra o Assad, focaram-se nos curdos. Quando finalmente começaram a investir na direção das tropas do regime, estas já tinham recuado, e os civis curdos ficaram desprotegidos nessas áreas. As forças russas, o exército de Assad e as milícias iranianas controlavam a área de Sheba, que é a zona rural a norte de Alepo, e, nesses anos todos [2020-2024], não permitiram que os curdos se fortificassem ou trouxessem grandes tropas ou equipamento, pelo que houve muito pouca resistência. Apoderaram-se de toda a região e deram início à sua limpeza étnica. Nestas zonas havia 200.000 deslocados internos que já tinham sido obrigados a sair de Afrin em 2018, aquando da criação do tal corredor de segurança que ainda agora mencionei…
Sim, e agora estão a ter de se deslocar outra vez, com muito menos meios e já traumatizados por anos de vida em tendas. Os efeitos nas crianças são particularmente nefastos, há vários artigos sobre isso. Dito isto, não vi ainda provas dessa limpeza étnica recente. Não é uma desvalorização, pergunto apenas no sentido de entender se o HTS pode ter mais mão agora no SNA do que antigamente e por isso impedir a violência contra os curdos.
Há imagens, não muitas porque não há imprensa estrangeira no terreno, mas há imagens destas longas marchas de pessoas na rua com todos os seus pertences que estavam a deslocar-se para leste, para o resto do território, para encontrar refúgio. Estamos a falar de centenas de milhares. E depois disso, eles atacaram Manbij [norte da Síria] e tomaram a cidade [poucas horas após a entrevista os Estados Unidos assinaram um cessar-fogo e o SNA retirou-se de Manbij] e começaram a matar militares de curdos feridos nos hospitais, uma das coisas mais escandalosas que se pode fazer.
E, portanto, não acha que o HTS vá fazer alguma coisa para parar isto?
Não vão fazer nada. É preciso compreender que, antes de mais, o HTS vê os curdos como o seu maior inimigo. Não é por racismo, nem por serem de outra etnia, se os curdos fossem islamistas o HTS não teria nenhum problema com eles. Há alguns curdos que estão com o HTS, mas a maioria não está. O problema é o princípio fundamental da AANES [Administração Autónoma do Norte e Leste da Síria], a revolução das mulheres, a governação local partilhada com as mulheres. Os rebeldes e os sírios que os apoiam estão confortáveis com a gestão local, sempre a tiveram em muitas províncias, não estão é confortáveis com a revolução das mulheres. Esse é o seu grande problema, porque não querem que o Estado ou uma entidade governamental imponha os direitos das mulheres. Eu não sou meio árabe, sou berbere de Marrocos, cresci num ambiente muçulmano, por isso não é que não seja islamofóbico, mas há uma tradição, e que se manteve mesmo durante o regime de Assad, de, por exemplo, um homem ter várias mulheres, e os crimes de honra existem, mesmo na AANES. E houve grandes tumultos quando, por exemplo, o pai do presidente do cantão de Jazira, que é a região de Qamishlo [na zona autónoma curda], foi preso porque batia na mulher, portanto a mãe do presidente. Foi um grande escândalo, prender alguém de 65 anos porque bateu na mulher, algo que eles fazem constantemente.
Mas poderá haver uma espécie de compromisso em que as mulheres possam ter alguns direitos e mesmo assim a sociedade ter o Islão como religião oficial? Por exemplo, as mulheres no Egito, na Jordânia, na Turquia, no Líbano, trabalham, estudam. Claro que todos estes países são diferentes entre si.
Imagina, tens um leão em casa, ou um tigre, que domesticaste, ele parece manso, mas consegues garantir que ele não te vai morder um dia quando se sentir ameaçado? Temos de olhar, antes de mais, para o passado destes homens, mas neste momento isso não está a acontecer porque eles são muito inteligentes, têm conselheiros muito bons com eles, sabem como manipular os meios de comunicação ocidentais e a perceção ocidental. E estão a especializar-se nisso desde 2018. Contrataram empresas de comunicação de topo, e estão a vender uma ilusão ao Ocidente. Estas equipas, de especialistas formados em universidades do Ocidente, estão a elaborar, muito metodicamente, a propaganda do HTS, são-lhes dados pontos de discussão, explicam-lhes o que realçar, o que retratar, o que censurar, o que dizer do seu passado, como explicar as mudanças, a moderação que agora dizem apoiar, etc. Mas o que eles querem é implementar um Estado Islâmico, lentamente. Neste momento, o que estão a tentar fazer é algo mais importante do que implementar a lei sharia, isso será numa segunda fase. Agora estão a tentar formar um Estado. E por isso continuam em estreita colaboração a com a elite ba’atista [do partido Ba’ath, o partido da família Assad que esteve 53 anos no poder]. Eles não querem desmantelar o Estado, querem adaptá-lo, sem grandes reestruturações, porque a ideia de Jolani é dizer ao mundo que não é um agente do caos, que não é um rebelde sem cabeça, que não quer nem permite instabilidade.
E os combatentes dele vão ocupar posições ministeriais? Ele tem dito que quer um governo de tecnocratas…
Os ex-combatentes tornar-se-ão oficialmente o exército sírio. Tornar-se-ão a polícia síria. Vão tomar conta dos tribunais. Vão tornar-se a nova lei, e quando começarem esse processo, veremos a sharia [lei islâmica, particularmente restritiva dos direitos das mulheres]. Assim que os vários países os começarem a retirar da lista de terroristas, assim que a ‘lei César’ [um conjunto de sanções impostas pelos Estados Unidos depois da descoberta de ficheiros que provaram as horríveis torturas cometidas pelo regime de Assad] expirar, vão começar a empurrar mais e mais as mulheres para dentro de casa, um dia todas terão de usar lenço, depois véu completo, depois serão retiradas da vida pública porque é esta a ideia que eles têm da mulher. O problema é com a revolução das mulheres. Portanto, o problema da região pela qual combati, volto a dizer, é que é liderada pela revolução das mulheres.
E teme que, um dia, a região autónoma também terá de ser absorvida por esse novo Estado que está a descrever?
Haverá uma guerra. E o que se passa é que já estamos a assistir a essa guerra. Neste momento, o SNA está a fazer o trabalho sujo na vez do Jolani, para que ele não destrua já a sua reputação junto das potências ocidentais atacando mulheres. O SNA está a bombardear continuamente em Rojava. Bombardearam Tell Tamer, que é uma cidade cristã. Têm estado a bombardear Raqqa e Qamishli, o aeroporto foi bombardeado e uma série de material militar das Forças Democráticas da Síria [nome oficial das forças curdas que lutaram contra o Daesh] foi destruído.
O exército que está a ajudar o SNA, o exército turco, é da NATO. O que é que os outros países da NATO, na sua opinião, deveriam estar a fazer?
É a Turquia que está a bombardear. Nem é só a ajudar, é mesmo a bombardear diretamente, além de ajudar.
Os Estados Unidos, que lutaram contra o Daesh ao lado dos curdos, não vão intervir para evitar a destruição da região autónoma dos curdos?
É uma espécie de esquizofrenia o que se passa com os EUA, porque eles têm um grande papel no que Jolani está a fazer. Quer dizer, os Estados Unidos têm um prémio de 10 milhões de dólares (9,5 milhões de euros) pela cabeça de Jolani. Ele anda por aí de dia, aparece em público. E os americanos podem apanhá-lo com um ataque de drones quando quiserem. Não estou a dizer que o deviam matar. Só estou a dizer que o facto de não haver sequer qualquer conversa sobre o facto de ele ser um criminoso segundo os próprios Estados Unidos, revela que há um nível de grande tolerância. Estão a torná-lo normal, vão ungi-lo rei da Síria.
E isso está a ser mal recebido na zona autónoma?
Sim, está a criar problemas na zona autónoma porque os habitantes estão a ver a traição dos americanos aos curdos e ao projeto AANES. Os americanos seguiram em frente e agora estão a apostar num cavalo novo. Em primeiro lugar, e acima de tudo, os líderes locais procuram a sua sobrevivência tribal. Sobreviveram aos impérios otomanos, aos impérios anteriores, e querem sobreviver também a este conflito. Muitos estão a tentar abandonar o barco porque não querem ficar na mira quando a Turquia chegar e os americanos abandonarem os curdos. É por isso que muitos árabes, mesmo na zona autónoma, já estão a pensar seriamente jurar fidelidade ao novo governo de Jolani, tentando posicionar-se favoravelmente na nova Síria. E parece que os americanos abandonaram os curdos, porque se há bombardeamentos da Turquia em espaço protegido pelos norte-americanos, a mim parece-me que há uma aceitação tácita destas investidas turcas. Que outra explicação pode haver? E até que ponto é esta a vontade da antiga administração? Não faço ideia nenhuma.
Os curdos estão a ficar sem tempo. O momento é muito desfavorável, até porque a propaganda turca, que está a controlar a narrativa árabe na Síria, através de dezenas de contas nas redes sociais e canais de televisão, diz que os curdos são pró-Assad e por isso é obviamente muito perigoso. As pessoas ferozmente islâmicas no AANES, que existem, estão suscetíveis a estas narrativas e isso é mentira e é perigoso. Mas há um público para esta propaganda, claro, e até já têm surgido protestos nestas bolsas conservadoras da região autónoma, totalmente fabricados por notícias falsas turcas. Eles falam de ‘domínio curdo’ nessas histórias de propaganda, mas que domínio curdo? Manbij era governada por um conselho árabe, os militares eram todos árabes, a polícia também, o mesmo se passa com Raqqa, com Deir ez-Zor, portanto, todos os enclaves árabes, todas as regiões árabes são governadas por locais autónomos, pelo que o seu único problema é com este quadro constitucional no qual os direitos das mulheres são protegidos.
Diria que essa é a grande luta do futuro na Síria? As mulheres?
Sim, mas as pessoas esqueceram-se das batalhas de Kobane e do projeto igualitário e democrático em vigor na região autónoma. E a comunidade internacional tem uma grande responsabilidade nisso, porque a Turquia faz parte da NATO e, no passado, utilizou fundos da Europa para fazer o que fez em Rojava. Lembrem-se que a primeira ideia, a forma como os turcos venderam à União Europeia a necessidade de construir este corredor de segurança, foi dizer que ali ficariam instalados os sírios que queriam passar para a Europa, isto durante a crise das migrações. Como sabemos, receberam dinheiro europeu para a alegada gestão dessa crise. A ideia é e sempre foi destruir qualquer autonomia curda. O Ocidente tem sido cúmplice até certo ponto. Continuam a vender armas a Erdogan, continuam a negociar com ele. E o que está a acontecer na Síria vai desestabilizar toda a região durante muito tempo, e isso vai ter consequências tangíveis e bastante imediatas para o Ocidente, sendo a mais óbvia uma segunda grande onda migratória quando as guerras sectárias começarem a estourar. Para além disso tudo, temos o dever moral de apoiar aqueles que derrotaram o ISIS e se sacrificaram tanto para o fazer.
Como se explica então esse abandono de que fala?
Acho que agora o Ocidente vê a Rússia como a maior ameaça e está completamente concentrado no conflito ucraniano, que é também uma das razões pelas quais não está focado na Síria. Vê-se a derrota da Rússia na Síria e a potencial perda de portos no Mediterrâneo como uma vitória. O foco passou a ser esse e não compreendem que é uma forma muito redutora de ver o mundo. Perceberam-no depois da Primeira e da Segunda guerras mundiais. E depois esqueceram-se. E agora estamos de volta a isso, a essas trincheiras em que tentamos posicionar-nos com esses blocos.
Os Estados Unidos, e o Ocidente como um todo, falando de forma geral, tem uma história complicada no Médio Oriente, em que cometeu muitos erros…
Sim, claro, e agora estamos a apoiar literalmente uma versão do ISIS, podemos tentar manipulá-los durante algum tempo, mas depois o tiro sairá pela culatra. Isso sempre aconteceu. Historicamente, o Ocidente tentou utilizar a jihad para fazer avançar as suas políticas externas. Fizemo-lo no Afeganistão, em todo o lado e o tiro saiu pela culatra e depois nasceu a Al-Qaeda e nasceu o ISIS e agora estão a fazê-lo de novo.
E por que é que se juntou à luta armada? O seu pai foi partisano, mas nem todas as pessoas que tiveram pais revolucionários se juntam a lutas armadas na vida adulta…
Sim, ele foi partisano, há essa ligação emocional. Mas o que se passou foi que eu fui para lá a primeira vez, para Rojava, apenas como voluntário, um ativista dos direitos humanos. E depois senti que tudo estava a tornar-se muito pessoal. Senti que não pertencia aos ativistas, que pertencia à resistência armada.
E por que é que não pertencia aos ativistas? O que é que lhes faltava? Ou a si?
Os ativistas tiveram um papel muito importante, todos tiveram. Mas um dia, numa aldeia perto de Suruc, na frente de batalha por Kobane, comecei a aperceber-me que aquilo era uma guerra a sério e que não parava. Durante a noite, podíamos ver as explosões e ouvir os combates dentro da cidade. Não parava. Era uma coisa fora deste mundo, inferno na terra, literalmente tudo ardia, os combates, a dois quilómetros do nosso acampamento de ativistas, eram tão reais e tão espetaculares que podíamos ver as bombas a sair, os cogumelos a iluminar o céu, os foguetes a voar por todo o lado e o som dos combates era como se a batalha estivesse a passar na televisão. Depois vi fotografias das pessoas que estavam a lutar: raparigas e rapazes adolescentes, homens, mulheres, mas todos muito jovens. E nós estávamos a ver aquele fogo lá ao fundo, a cantar a Bella Ciao e também lá estavam ativistas turcos e curdos, vindos de todo o Curdistão, e nós estávamos a cantar, a cantar, à volta das fogueiras, e eu só conseguia pensar que quem estava a fazer a diferença eram os que estavam lá dentro e eu pertencia lá, só queria estar lá com eles, senti que a minha gente estava do outro lado, a lutar.
Recentemente falou-se da possibilidade de libertação de Abdullah Öcalan [fundador do Partido dos Trabalhadores Curdos e preso há cerca de 25 anos na Turquia] como caminho para uma paz entre os dois povos. Poderia ser uma boa oferta para que os curdos abandonem aquilo a que os turcos chamam insurreição terrorista para conquistar solo turco?
Que insurreição?
Bom, há vários ataques – e mortes – atribuídos a milícias curdas desde 1984 e recentemente houve outro, a uma empresa de construção aeroespacial que matou cinco pessoas.
É um ataque legítimo, um alvo legítimo, a empresa produz armas. Acho que se eles querem paz podem começar por parar de bombardear os curdos, matar civis e destruir infraestruturas. Continuam a bombardear alvos civis, o que constitui um crime de guerra. E têm estado a bombardear sem parar os curdos nas montanhas iraquianas. Há décadas que estão a fazer uma guerra de extermínio dos curdos. Por isso, se quiserem acabar com a guerra, podem fazê-lo num dia. Os curdos estão sempre a tentar retomar as conversações e parar a agressão.
Escreveu um tweet dizendo que talvez o HTS entrasse em rota de colisão com os turcos do SNA por causa da sua proposta de descentralização. Pode explicar isso?
O HTS não me parece estar a dar início a um Estado inclusivo e claro que terá de se livrar do SNA. Essas pessoas não vão largar as armas facilmente e a Turquia não vai permitir que elas as larguem. Talvez tenha de haver uma guerra com a Turquia, a certo ponto, porque esta gente não vai largar os seus territórios, os seus domínios como gangues e máfias que são. O Estado não pode ter cartéis, não pode ter rebeldes, não pode ter instabilidade, não pode ter nada disso. Se continuarem a fazer o que estão a fazer, estão a minar o Estado, a sua autoridade e tudo isso. E Jolani não vai aceitar qualquer dissidência.
Mas Jolani não pode lutar contra um exército da NATO, certo? Os rebeldes não terão força para isso, suponho.
Podem, porque mesmo que os turcos entrem, não podem entrar com grandes números, porque uma coisa é tentar arrasar os curdos, outra é destruir bases do Jolani e dos seus rebeldes, que, de momento, são deuses na Síria. Ele tem mesmo muito apoio popular, e Erdogan tem entre a sua base muitos islamistas que adoravam ver Jolani coroado, e, por isso, entrar numa guerra direta com o HTS para salvar o SNA não é eleitoralmente sustentável para o Presidente turco.
E se houver mesmo uma nova guerra para preservar o modelo governamental da AANES, volta para lutar?
Não. Construí um batalhão internacional muito bem-sucedido, mas levei um ano a treinar toda a gente, a fazer com que se comportassem como militares, a criar coesão e disciplina. Éramos 30 mas em Raqqa eu estava com toda a frente, eram 120 homens sob o meu comando. Só que para construir um pelotão eficaz é preciso tempo e agora não há tempo. Mesmo que eu fosse lá para recriar a brigada internacional levaria um ano para a tornar eficaz. E como há uma grande falta de vozes, vozes em língua inglesa que possam traduzir o que está a acontecer para uma audiência ocidental pensei que pudesse ficar cá a fazer isso por agora.