É preciso mudar a cabeça que não pensa

(João Gomes, in Facebook, 10/09/2026)


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Há exatamente um ano escrevi que a Europa estava a transformar a defesa numa gigantesca operação financeira e que, por detrás dos números, faltava a pergunta essencial: onde está a diplomacia capaz de transformar uma guerra em paz?

Um ano depois, não tenho razões para retirar uma única palavra ao essencial daquela reflexão. Pelo contrário. Algumas das coisas que então pareciam apenas projecções ganharam entretanto forma política, financeira e institucional.

Em Março de 2025, a União Europeia apresentou o plano ReArm Europe/Readiness 2030, com a possibilidade de mobilizar até €800 mil milhões para a defesa europeia, incluindo €150 mil milhões através do instrumento SAFE. O Parlamento Europeu acompanhou esta orientação. Em Março, aprovou por 442 votos contra 98, com 126 abstenções, uma resolução que reforçava o apoio militar à Ucrânia e defendia garantias de segurança robustas. Em Novembro voltou ao mesmo caminho, aprovando por 401 votos contra 70 uma posição que associava a paz a um cessar-fogo prévio, garantias de segurança e novas formas de pressão sobre a Rússia. E, em Dezembro, aprovou por 425 votos contra 120 uma resolução sobre a preparação militar europeia que colocava em cima da mesa a possibilidade de atingir os €800 mil milhões de investimento na defesa até 2030.

Ou seja: aquilo que há um ano era anunciado como uma enorme possibilidade financeira transformou-se numa arquitectura política permanente.

E não ficou pelo papel.

Em 2026, o SAFE começou efectivamente a distribuir dinheiro. Chipre recebeu €177,2 milhões, a Lituânia €956,3 milhões, a Grécia €118,2 milhões e a Estónia €351,6 milhões nas primeiras tranches dos seus empréstimos. O mecanismo prevê €150 mil milhões em empréstimos aos Estados-membros e integra o objectivo de mobilizar mais de €800 mil milhões para a defesa europeia.

A minha pergunta de há um ano tornou-se, portanto, ainda mais simples: quanto custa esta nova Europa da prontidão permanente e quanto tempo estamos dispostos a viver dentro dela?

Mas existe uma questão ainda maior. Onde está a paz? Não se pode dizer que a palavra tenha desaparecido dos documentos europeus. Pelo contrário. Ela aparece em quase todas as conclusões, declarações e resoluções. Fala-se de “paz justa e duradoura”, de “negociações significativas”, de “cessar-fogo” e de “soluções diplomáticas”.

Mas existe uma diferença entre falar de paz e construir as condições políticas para a alcançar. E é aqui que a Europa continua prisioneira da sua própria contradição.

António Costa, enquanto presidente do Conselho Europeu, reconhece que a diplomacia é necessária. Em Junho de 2026 chegou mesmo a afirmar que a União precisa de um canal diplomático direto com Moscovo, para poder ouvir e transmitir posições. É uma constatação elementar – e talvez uma das mais importantes que ouvi de uma instituição europeia nos últimos tempos. Mas, simultaneamente, o Conselho Europeu continua a defender mais apoio militar, mais produção de armas, mais munições, mais drones, mais mísseis, mais pressão económica sobre a Rússia e mais garantias militares para a Ucrânia.

Em Junho de 2026, a própria conclusão europeia é reveladora: apoia-se a diplomacia, mas continua-se a aumentar o apoio militar e a “enfraquecer a economia de guerra russa” para obrigar Moscovo a negociar.

É uma estratégia possível. Mas não é uma estratégia de paz. É uma estratégia de pressão para obter uma negociação.

E há uma diferença enorme entre as duas coisas. Kaja Kallas, responsável pela política externa da União, tornou essa lógica particularmente clara durante 2025. Em Abril dizia que a única forma de levar a Rússia a negociar seriamente seria aumentar a pressão sobre Moscovo. Em Maio repetia que a opção era colocar mais pressão sobre a Rússia para que negociasse seriamente. Em Dezembro, quando as conversações continuavam, a prioridade continuava a ser a mesma: mais pressão sobre Moscovo e mais apoio a Kiev.

Ora, se a diplomacia é sempre apresentada como aquilo que acontecerá depois de a pressão militar produzir resultados, então a diplomacia deixa de ser uma política autónoma. Passa a ser o prémio prometido no fim da escalada. E esse é precisamente o problema.

A Europa habituou-se a pensar que para conseguir a paz é necessário primeiro tornar a guerra suficientemente cara para o adversário. Só que ninguém consegue garantir antecipadamente onde termina essa lógica. Porque Moscovo também calcula. Washington também calcula. Kiev também calcula. E cada capital interpreta a palavra “pressão” de maneira diferente.

Entretanto, a guerra continua. E a Europa paga. Paga financeiramente, paga economicamente, paga politicamente e paga através de uma crescente militarização da sua própria ideia de segurança.

Em Junho de 2026, a União já contabilizava €220,2 mil milhões de apoio à Ucrânia desde o início da guerra, dos quais €77 mil milhões em assistência militar. E a factura não terminou. O Conselho Europeu continua a preparar apoio financeiro e militar adicional, enquanto o novo sistema de empréstimos SAFE começa a materializar a enorme transformação da política europeia de defesa.

A questão é a seguinte: uma política de segurança que não consegue produzir uma saída política para a guerra é uma política de segurança incompleta. E é aqui que a Europa falha. Falha porque confundiu durante demasiado tempo capacidade militar com capacidade política.

Pode-se fabricar mais munição. Pode-se comprar mais mísseis. Pode-se aumentar os orçamentos militares. Pode-se contrair dívida. Pode-se criar fundos. Pode-se construir fábricas de armamento. Mas nenhuma fábrica produz uma coisa chamada acordo de paz. E nenhum míssil consegue fabricar confiança entre dois Estados que estão em guerra.

É por isso que o problema europeu já não é apenas militar. É político. A Europa precisa de uma política externa que seja capaz de falar com Washington sem depender de Washington, com Kiev sem se limitar a repetir Kiev e com Moscovo sem considerar que falar com Moscovo é uma concessão moral. Uma Europa verdadeiramente soberana não pode escolher os seus interlocutores em função da simpatia que sente por eles.

Diplomacia não é gostar do adversário. É falar com ele precisamente porque existe um conflito.

E aqui chegamos ao problema das cabeças. Ursula von der Leyen transformou a Comissão numa das principais impulsionadoras da nova arquitetura europeia de defesa. Kaja Kallas tornou-se a voz de uma política externa particularmente assente na pressão sobre Moscovo. António Costa, embora introduza no discurso uma preocupação maior com a diplomacia e tenha reconhecido a necessidade de um canal direto com a Rússia, continua inserido numa estrutura europeia que mantém como prioridade o reforço militar da Ucrânia e da capacidade de pressão sobre Moscovo.

Não é necessário afirmar que estas três figuras pensam exatamente da mesma maneira. Não pensam. E talvez esse seja precisamente o problema. A Europa não tem uma cabeça política única para pensar a paz. Tem várias cabeças, várias instituições, várias sensibilidades e várias estratégias que nem sempre convergem.

A Comissão pensa em instrumentos e capacidade. Kallas pensa sobretudo em pressão e segurança. O Conselho procura conciliar 27 governos e preservar a unidade. O Parlamento Europeu reflete uma maioria política que, em matéria de Ucrânia, tem reiteradamente aprovado o reforço do apoio militar. E o cidadão europeu fica a assistir a tudo isto como quem olha para uma máquina gigantesca cujo botão “acelerar” todos sabem onde está, mas cujo botão “parar e negociar” ninguém parece encontrar.

É preciso mudar esta lógica. E talvez seja aqui que a conclusão de há um ano tenha de ser ainda mais dura. Não basta mudar políticas. É preciso mudar quem pensa as políticas. Não porque uma mudança de dirigentes garanta automaticamente a paz – não garante. Mas porque uma Europa que permanece presa à mesma arquitetura mental dificilmente produzirá um resultado diferente.

Se os mesmos dirigentes continuam a interpretar a segurança quase exclusivamente através do aumento da capacidade militar, se continuam a acreditar que a paz nascerá essencialmente da pressão sobre o adversário e se continuam a colocar a diplomacia como consequência de uma futura correlação de forças, então estamos perante uma política que pode prolongar a guerra durante muito tempo sem saber exatamente como terminá-la.

E isso é demasiado perigoso para um continente que já conheceu duas guerras mundiais.

A Europa precisa de dirigentes que saibam que defender a Europa não é apenas preparar a guerra que poderá vir. É também impedir a guerra que ainda pode terminar. Precisa de gente capaz de sentar à mesma mesa quem não queremos sentar à nossa mesa. Precisa de diplomatas com autonomia. Precisa de canais diretos com Moscovo. Precisa de capacidade para ouvir Kiev sem assumir automaticamente todas as suas posições como posições europeias. Precisa de capacidade para dialogar com Washington sem aceitar que a estratégia europeia seja sempre uma extensão da estratégia americana. E precisa, sobretudo, de voltar a perguntar aos seus cidadãos uma coisa muito simples: queremos uma Europa armada para uma guerra interminável ou uma Europa suficientemente forte para poder negociar a paz?

Porque não são exatamente a mesma coisa.

Há um ano terminei o meu texto dizendo que uma Europa que gasta o seu futuro em armas corre o risco de esquecer para quem governa. Hoje acrescentaria apenas isto: uma Europa que sabe quanto custa uma guerra, mas não sabe quanto custa politicamente construir a paz, está a pensar com a cabeça errada.

Não precisamos de dirigentes que confundam firmeza com obstinação. Não precisamos de dirigentes que confundam diplomacia com fraqueza. Não precisamos de dirigentes que confundam segurança com rearmamento permanente. Precisamos de uma mudança de cabeça.

E, se as cabeças que hoje conduzem a Europa não forem capazes de fazer essa mudança, então serão os cidadãos europeus que terão de exigir outra orientação – e, quando chegar o momento democrático, outros dirigentes.

Porque a paz não se constrói apenas com armas suficientes para continuar uma guerra. Constrói-se com dirigentes suficientemente inteligentes para saber quando é preciso parar de preparar a guerra e começar verdadeiramente a preparar a paz.

Um ano depois, a conclusão é inevitável: A Europa não está mais perto da paz. Está mais armada, mais endividada, mais dividida na sua visão estratégica e ainda sem uma diplomacia europeia capaz de falar diretamente com todos os protagonistas do conflito. E enquanto Ursula von der Leyen, Kaja Kallas e António Costa representarem, cada um à sua maneira, uma Europa que ainda não conseguiu transformar a força militar numa estratégia política de paz, todos os europeus correm o risco de perder. Não a guerra. Mas a paz.