Um pacóvio armado em primeiro-ministro no exílio

Fonte: Um pacóvio armado em primeiro-ministro no exílio

(In Blog O Jumento)

Um dos lados mais pacóvios da nossa sociedade é o complexo de inferioridade que sentimos em relação aos países que consideramos mais desenvolvidos, confundimos as causas do desenvolvimento económico e comportamo-nos como se o que nos condena ao subdesenvolvimento é a estupidez. Tornou-se moda em muitos governos e na Administração Pública a cópia das soluções do estrangeiro, sempre que procuramos dar um passo em frente vamos ver o que fazem os americanos, os ingleses, os alemães ou os franceses.

Um bom exemplo dessa tacanhez que nos aprisiona foi dada pela forma quase vexatória com que os governantes se rebaixavam perante meros funcionários da troika. Se analisarmos o currículo do representante de Portugal no FMI em Portugal percebemos que se dermos um pontapé numa pedra no meio de Lisboa saltam meia dúzia de economistas que teriam muito a ensinar a esse senhor. E se analisarmos o currículo dos técnicos do FMI que vieram ensinar Portugal até sentiríamos vergonha.
Na linha desta abordagem pacóvia que levou Cavaco a desenvolver a tese humilhante dos bons alunos vem agora esse iletrado que um dia acreditou num falecido e imaginou que podia transformar Portugal na Singapura da Europa, dar mais uma vez a imagem de um país pacóvio. Perante a possibilidade de nacionalizar um Novo Banco que já foi nacionalizado o traste de Massamá não está preocupado com os prejuízos e não está muito interessando em saber quem vai ser dono do maior banco privado português, o que o preocupa é o que poderão pensar de nós. Não importa que ande com as calças rotas, o importante é que não se repare.
É esta a dimensão cultural do nosso primeiro-ministro no exílio, um pacóvio que defende política em função do que dizem lá fora, se os estrangeiros falarem bem das nossas políticas é porque elas são boas. Não importa o que os portugueses pensam ou o que os eleitores decidiram, o importante é o que diz um qualquer obscuro director do FMI, uma analista da agência de rating, um jornalista estagiário do Financial Times ou um funcionário anónimo da Comissão Europeia. É por isso que encomendou um guião da reforma do Estado aos reformados da América Latina que o FMI trouxe para nos ensinarem a gerir o país.

O traste de Massamá não ficou envergonhado porque muitos morreram sem médicos nas urgências, com a fuga dos nossos jovens para o estrangeiro, com a falência em massa de pequenas empresas ou com o falhanço da sua experiência, da sua pinochetada económica, o que parece envergonhar o traste é o que possam dizer de um banco que ele próprio comprou com dinheiros públicos e que agora está a ser vendido por um ex-secretário de Estado que nunca vendeu nada a não ser, talvez, algum automóvel em segunda mão.

PS: Depois de uma tentativa atribulada de venda apressada do Novo Banco, com ofertas excluídas e negociações em ritmo acelerado com um candidato chinês, Passos Coelho deixou um homem da sua confiança a vender o banco em regime de consignação. Aprecia-se o grande empenho pessoal de Passos Coelho neste negócio.

Austeridade ou sacanice?

Fonte: Austeridade ou sacanice?

(In Blog O Jumento)

Austeridade é chamar todos os cidadãos a suportar os custos de um esforço nacional de controla despesa pública. Sacanice é um governo escolher um grupo profissional ou social com base em critérios ideológicos ou em ódios pessoais para que suporte os custos da austeridade. Os democratas optam pela equidade e a austeridade não significa necessariamente injustiça. Os canalhas optam pela sacanice, acusam aqueles que odeiam de todos os males do mundo e aplicam-lhe todas as medidas odiosas.
Quando se escolhem pensionistas e funcionários públicos para suportarem um corte brutal de rendimentos, quando se promete que a medida é para um ano pois se destina a compensar um falso “desvio colossal”, quando depois se diz que é para o período de ajustamento e mais tarde se garante que tudo voltará ao normal apenas oito anos depois não estamos perante uma medida de austeridade, estamos perante uma sacanice.
Em Espanha o governo da mesma direita cortou vencimentos e recuperada a normalidade orçamental não só os repôs como os reembolsou. Aqui a ideia era cortar vencimentos e despedir e o cinismo foi tão grande que se inspiraram nos portões dos campos nazis e chamaram ao despedimento requalificação, foram ainda mais longe, disseram que o despedimento era uma oportunidade na vida destes novos judeus.
Não, aquilo que alguns portugueses sofreram nos últimos anos não foi austeridade, foi sacanice. A canalhice foi tanta que como não podiam cortar os ordenados do sector privado e depois de o fazerem no sector público tentaram o golpe da TSU, retiravam uma parte dos ordenados sob a forma de um aumento da TSU e entregavam-na aos patrões sob a forma de uma redução da mesma TSU aplicada aos empregadores. Como a manobra falhou optaram por reduzir o IRC compensando esta redução com um aumento do IRS, sob a forma de uma sobretaxa.
A sacanice foi tão grande que funcionários públicos e reformados levaram duas doses desvalorização fiscal, primeiro pela via dos cortes e depois pelo aumento do IRS. Em relação aos reformados a sacanice foi ainda mais longe e com requintes de inspiração nazi. Não só levaram um corte nas pensões sob a forma de um imposto, como ainda tiveram de pagar o IRS acrescido da sobretaxa como se não tivessem levado qualquer corte.
Bendita austeridade porque essa austeridade pode ser distribuída por todos, ao contrário da sacanice que por definição é adoptada por sacanas e é aplicada àqueles que esses sacanas odeiam. E enquanto o sacana-mor, para não lhe chamar algo que possa ofender a progenitora, estiver na liderança do PSD considerarei este partido como nacional-social-democrata, um partido com a máxima “nacional-social-democracia sempre”.

O Naufrágio do Costa Discordia

Fonte: O Naufrágio do Costa Discordia

(In Blog O Jumento, 20/02/2016)

Passos Coelho escolheu o tema governador do Banco de Portugal para mais um dos seus brilhantes momentos de primeiro-ministro no exílio. Depois do golpe de  Estado que obrigou Passos Coelho a exilar-se em Massamá, instalando aí a sua residência oficial de onde prepara guerrilheiros como a Maria Luís ou o Montenegro para reconquistar o poder, que Bruxelas é um importante palco para o nosso artista.
Agora, sempre que se realiza uma cimeira europeia lá vai o nosso exilado mais o Zeca Mendonça dar ares de primeiro-ministro sem pasta, o espectáculo é tão divertido que o homem até devia convidar o D. Duarte e o rei do Carnaval da Mealhada para o acompanhar, assim teríamos uma importante delegação constituída por um primeiro-ministro sem governo, um rei sem trono e outro sem Carnaval.
Foi graças ao seu grito dado em Bruxelas que fiquei a saber que algo se passava de muito grave em Portugal, e enquanto o primeiro-ministro no exílio não regressou andei preocupado, sem saber do que se tratava, só sabia que algo de muito grave teria sucedido. Percebi depois que o que de tão grave tinha sucedido tinha sido o suposto ataque de Costa a Costa, dando lugar ao naufrágio do Costa Discórdia.
Da mesma forma que Passos desempenha na perfeição o papel de primeiro-ministro no exílio imagino-o a fazer de Francesco Schettino tendo ao seu lado Maria Luís, fazendo o papel da namorada croata com que o comandante italiano andava enfarinhado enquanto o navio batia nas rochas. Mas aqui o Costa Concórdia não bateu nas pedras, foi o Costa que desatou à pedrada ao outro Costa.
Acontece que os Costas são independentes um do outro mas enquanto o Carlos pode criticar a política orçamental do António, este não pode criticar a vista grossa do Carlos e muito menos o facto de enterrar os investidores no BES para passar a mentira de Passos e Maria Luís de que a falência forçada do BES não teve custos para o contribuintes e ainda deu para empregar o filho do Durão Barroso e o ex-secretário de Estado dos Transportes.