Anatomia de uma catástrofe

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 08/10/2017)

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Pedro Passos Coelho não usa apenas uma bandeira na lapela. PPC sempre foi um homem de bandeiras. Desde o início, as suas bandeiras foram máscaras da ausência de um pensamento estruturado sobre o país e elucidativas quanto à absorção pelo PSD (que hoje é PPC multiplicado no aparelho) da prática política que denuncia a morte da social-democracia e o apego sem pudor a uma direita opressiva.

No dia em que fez o seu primeiro discurso como líder do PSD, PPC teve uma bandeira: a “urgência” de uma revisão constitucional. A revisão não era urgente coisa nenhuma e o texto que PPC encomendou mostrava ignorância quanto à nossa história constitucional e dava umas bofetadas no PSD geneticamente interclassista e preocupado com a pobreza.

A falta de discurso era evidente e o vazio do novíssimo PSD, ocupado pelos seguidores de PPC, permitiu incorporar a política da troika. Não assistimos apenas ao confessado “ir além da troika”, mas a uma interiorização profunda dos métodos da assistência externa como virtudes a inscrever no ideário de um descaracterizado PSD pronto para carregar nos fracos e para aliviar os fortes. PPC (com o CDS ao seu lado) fez escolhas claras quanto aos grupos que deveriam ser atingidos por uma austeridade que teve por coisa boa. Nasceu uma direita com o nome de PSD, uma direita avessa aos direitos dos trabalhadores, dos funcionários públicos, dos pensionistas, dos mais pobres entre os mais pobres, uma direita inimiga da classe média, imagine-se.

Não menos importante, o PSD de PPC ficou marcado por momentos historicamente vergonhosos no que toca a direitos individuais. A violência com que PPC comandou o bloqueio à coadoção (prejudicando crianças concretas) chegou ao ponto de um seu serviçal, agora presidente do grupo parlamentar, propor um referendo a direitos de crianças, tudo com disciplina de voto e ameaças veladas a quem não a cumprisse. Foi também o PSD de PPC (acompanhado pelo CDS) que aprovou uma lei (prontamente revogada pela esquerda) amiga da desgraça do aborto clandestino.

A esquerda parlamentar entendeu-se e dela saiu legitimado um governo, exatamente como a Constituição prevê, mas PPC nunca aceitou ser líder da oposição. Em vez disso, e sem discurso, acenou com a bandeira do diabo. A estratégia do líder da oposição assentou em nada apresentar em termos de alternativas à governação socialista, antes apostando no elogio da desgraça anunciada, o tal do diabo que haveria de vir, fazer o governo e cair e devolver o trono a PPC.

O CDS percebeu que tinha de fazer oposição e apresentar propostas. Paulo Portas deixou o caminho livre a uma nova liderança e hoje, pelo menos em Lisboa, Assunção Cristas conseguiu passar a sua mensagem aos eleitores do PSD, quase fazendo esquecer que muito do que critica na cidade é responsabilidade sua enquanto ex-governante.

PPC, ao contrário, não preparou as autárquicas. Tinha por certo que o governo que insiste em apelidar de “não eleito” (é penoso) cairia rapidamente pelo que nada havia que planear, pensar ou estruturar. Se PPC passou estes quase dois anos a fazer de adivinho do diabo, valendo zero na oposição, evidentemente que quando as autárquicas chegaram a única coisa que o PSD tinha para apresentar ao país era o seu ressentimento para com os inegáveis bons resultados da governação socialista.

Chega a impressionar como foi possível PPC rodear-se dos piores, matar a génese ideológica de um partido essencial à democracia portuguesa, perder consequentemente a sua expressão eleitoral e gritar em voz alta, no apoio a André Ventura, que até o trumpismo nacional tem casa no PSD.

Isto é uma catástrofe com culpa. Resta saber se alguém vai buscar os cacos da social-democracia perdida ou se o PSD dará lugar a um populista perigoso que leva o nome de Rui Rio.

Quem quer casar com a carochinha?

(In Blog O Jumento, 07/10/2017)
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Parece que ninguém se oferece para casar com a carochinha, muito rica e bonitinha, tudo aponta para que o Rui Rio faça as vezes de João Ratão. Durante anos andou na sombra para chegar à liderança do PSD sem ter de correr o risco de dar a cara por esse desejo e de preferência sem lutas que o exponham, obrigando-o a dizer o que pensa ou que pensa que pensa.
Se não fosse Pedro Santana Lopes que há muitos anda por aí, não perdendo nenhuma oportunidade para gritar “estou aqui”, o PSD poderia poupar congressos e eleições, até podiam ter dado posse ao novo líder no almoço de Azeitão, que muitos militantes e velhos dirigentes agradeceriam não ter de ir a mais um congresso inútil. Até se poupava o trabalho de apresentar moções, até porque Rui Rio não tem pensamento político, o mais longe que vai nesse domínio é um bom dia ou boa tarde.
Começa a ser evidente que os apoiantes de Passos optaram por estender a passadeira laranja a Rui Rio obrigando-o a ir a jogo no pior momento do PSD. Sem programa, sem projeto e sem grandes apoios das bases Rui Rio vai dirigir o PSD sem ter lugar no parlamento e com um grupo parlamentar com uma maioria esmagadora de apoiantes do ex-líder.
Rui Rio não tem programa, andou anos a fazer oposição a Passos Coelho sem a coragem de o fazer de forma frontal e sempre que lhe foi exigido que se assumisse ia almoçar com Passos Coelho para lhe garantir apoio, acusando a imprensa de inventar posições que não tinha. Rui Rio nunca teve uma visão para o país, esteve sempre limitado ás suas capacidades intelectuais e aos limites do concelho do Porto.
O PSD vai enfrentar um período muito complicado, derrotado num parlamento onde a direita ficou em minoria, derrotado nas autárquicas, derrotado em todas as sondagens e sem uma resposta à política económica do governo, tem agora um líder sem programa, que chega à liderança sem debate, sem um lugar no parlamento, sem imprensa e sem dinheiro.
Rui Rio vai casar com a carochinha e não lhe faltarão padrinhos e damas de honor, reúne uma unanimidade quase cínica, levará como padrinhos Manuela ferreira Leite e Morais Sarmento, terá Rangel e Montenegro como damas de honor, reservando-se para Marques Mendes a tarefa de levar as alianças e com Marcelo a celebrar a eucaristia. Agora já falta saber se o João Ratão cai no caldeirão antes ou depois das próximas eleições.

PASSOS PASSOU

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 07/10/2017)

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Clara Ferreira Alves

(Dona Clara. Apesar de a zurzir de vez em quando, não posso deixar de sublinhar o quão bem conhece a “alma” do PSD que magistralmente aqui descreve. É por isso que ainda a vou lendo, qual garimpeiro que de vez em quando pode encontrar uma pepita de ouro… 🙂 

Estátua de Sal, 07/10/2017)


O PSD sacode o torpor dos últimos anos e prepara-se para a sessão de psicanálise. Ora a psicanálise do PSD é a da pátria, a do bom povo português.


Confesso. Já tinha saudades. Dos barões, das facas longas, e das curtas já agora, das noitadas, das jantaradas, da conspiração, das mensagens segredadas, dos recados disfarçados, das facadas e navalhadas, das piadas, das frases bombásticas como ‘Estou disponível para avançar, mas a minha hora ainda não chegou’, ou ‘A minha hora chegou, mas não estou disponível para avançar’. Ou da clássica frase ‘Miguel Relvas já está a trabalhar’, como se alguma vez tivesse deixado de o fazer, esperto como é em apanhar o zeitgeist no bolso. Tinha saudades das autoflagelações, das traições, das opiniões, das questões programáticas onde a gramática não é o elemento forte. Tinha saudades das paixões e devaneios, dos silêncios fundos como abismos, das lamentações, das aglomerações das classes subalternas, do fogo de vista e dos pensamentos rotundos sobre a pátria. Tinha saudades da ingratidão e do oportunismo. Até da caturrice de Cavaco se tem saudades nestas ocasiões de derrota. Espera-se dele um pronunciamento devidamente caturra e enfastiado.

Na verdade, Pedro Passos Coelho tinha reduzido o partido a um grupo de neocons cheios de decoro e desaforo, destituídos de um pingo de dramatismo. Sentia-se a falta daquela intensidade passional que vinha do passado e que transformava os congressos do PSD em óperas bufas ou em imitações de Scorsese em Little Italy. O Coliseu apinhado, Santana com a sua dama, homens de bigode em correria pela galeria, grupos de calças — que calças, que talento! dizia o Eça — arrumados a um canto em amena perversidade, senhoras agitadas, e grandes declamações de júbilo.

Enquanto o PS de Costa se transformará numa soneca albanesa, uns cem por cento de apoiantes, o PSD sacode o torpor dos últimos anos e prepara-se para a sessão de psicanálise. Ora a psicanálise do PSD é a da pátria, a do bom povo português. Tinha saudades do PSD. Achei que depois da frígida sensibilidade de Maria Luís e Vítor Gaspar, incapazes de um ricto facial, e da passividade urbana de Passos Coelho, o PSD nunca mais iria ao teatro. Era como se o partido estivesse em casa entretido a ver séries de televisão e telenovelas, com as pantufas calçadas e um chá com bolinhos feitos pela mãe.

Bastou uma noite e uma derrota histórica para os heróis do mar nobre povo se levantarem da poltrona. Até Rio, o homem das reticências e parêntesis e com horror a pontos finais, se mexeu da cadeira para ir jantar fora. Os trumpistas envergonhados estão prestes a abandonar a melhor sociedade e regressar às parcas carreiras, mantendo a pistola carregada e remirando a hipótese de um lugarzinho de comentador. Nunca se sabe. Ora este nunca se sabe é a melhor característica do PSD. É o equivalente partidário da velha frase portuguesa ‘Depois logo se vê’. Ou, ‘Alguma coisa se há de arranjar’.

O sangue voltou a fluir nas artérias sociais-democratas que de sociais-democratas nada tinham. Claro que ainda não se vislumbra o sopro de uma ideia no deserto, mas do drama e da discussão, da noitada e da conversa amesendada nascerá a luz. Pode ser um partido doente mas ainda é um partido preciso. Há que dar-lhe a transfusão de sangue (mas não do Lalanda), o suplemento vitamínico, o tónico cerebral, as ervas curativas, a sessão de Pilates, o treino com pesos, e umas aulas de krav maga. O Costa é mais capoeira, uma dança acrobática. O PSD precisa de ganhar músculo e reabilitar o neurónio, adormecido por anos de sonolência cavaquista e oportunismo negocista. Não assistiremos à morte do César no Senado, não teremos um bruto para isso. O passismo, corrente anémica, não terá discípulos que transcendam a presença de Passos. Lá pelas províncias, as costureiras estão a receber as casacas para revirar antes do inverno.

Tudo isto existe, tudo isto não é triste. Em breve, o país ficará farto da placidez da geringonça, e já há quem deseje ardentemente, sobretudo os jornalistas e analistas políticos que preferem viver na Sicília do que na Suíça, que o velho PCP dê um pontapé na coisa e declare o direito à autodeterminação. A oligarquia sacode as teias de aranha e prepara-se para dizer a célebre frase ‘Eu bem vos dizia’. Os dinossauros estão extintos em toda a parte menos em Portugal, tal como os Templários.

A juntar-se à festa vem aí a famosa acusação de Sócrates, que contribuirá para a animação geral. Sócrates, como os do PSD, partido a que pertenceu antes de se declarar inefavelmente de esquerda, só veste fatos italianos e prefere a tragédia à paz dos cemitérios. Toda esta gente desatará aos berros e poderemos finalmente deixar de falar no défice e na dívida, tema de bocejo. Costa manda discretamente reforçar as tropas e a artilharia e espera que os azougados vizinhos do lado limpem os estábulos e lhe permitam dizer ao Jerónimo, ‘Estás na idade de te reformares antecipadamente e sem penalizações’. Ora no PSD não há reformados. Os barões continuam na vida ativa e têm mocidade eterna.

Passos passou.