Muitas Direitas cada vez mais Tortas

(Dieter Dellinger, 19/08/2018)

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Foto: Emblemas possíveis para os novos partidos da direita dita liberal.

A Aliança procura desesperadamente pessoas para assinarem o documento de fundação que deverá ter 7.500 assinaturas reconhecidas. Consta que Santana não tem tantos amigos no PSD e não conseguiu pescar muita gente no CDS e no PS terá arranjado apenas dois militantes.

Na mesma situação – em processo de fundação – estão dois partidos de direita, a “Democracia 21” ainda sem as assinaturas necessárias e a “Iniciativa LiberaL (IL) que dizem ter já entregue as 7.500 assinaturas no Tribunal Constitucional no final do ano passado sem que as televisões tivessem informado, ou eu não dei por isso. É dirigido por um tal Rodrigo Saraiva que diz que na opinião publicada já existe muita gente liberal e acrescenta “o liberalismo está a assumir-se sem complexos em Portugal”. Não duvido que a maior parte dos poucos jornais existentes no país sejam muito de direita e necessitam do termo “liberal” para não utilizarem a mais que desacreditado palavra direita, mas não são 7.500 papalvos e muito menos 3 x 7500 ou 22.500 idiotas.

Oficialmente, a Iniciativa Liberal é um partido com 300 militantes e 90 fundadores, pelo que as restantes assinaturas devem ter sido compradas. Chega-se a um drogado arrumador de carros e a troco de uns 20 euros ou mais o tipo põe a sua assinatura num papel e andando por aí devem ter arranjado assinaturas, mas não têm um único nome sonante que tenha sido deputado ou se tenha evidenciado em qualquer actividade. Parece que o patronato rejeita assinar papéis de qualquer partido e não é por medo, é porque acham a sua assinatura demasiado valiosa para um qualquer papel que um desconhecido lhe coloca na sua frente.

A “Democracia 21” aproximou-se de Santana, mas este rejeitou-a, apesar de ser dirigida por uma mulher, uma tal Sofia Ferreira que terá apoiado Passos Coelho e fala numa geringonça de direita e diz que já tem 5 mil assinaturas e até ao fim de Setembro terá 7.500. Considera-se liberal nos costumes e na economia.

Admito que o Correio da Manha que ganha muito com as publicidade proxeneta à prostituição seja um periódico apoiante porque deseja a “industrialização” da prostituição, isto é, o estabelecimento de grandes albergues de fornicação como há na Alemanha e na Holanda. Desde que dê dinheiro está tudo bem para o eng. Paulo Fernandes.

Tudo menos pagar impostos e TSU às trabalhadoras do jornal e depois dos grandes supermercados do sexo em que tudo se possa comprar, desde mulheres e homens aos mais diversos instrumentos. Talvez o CM consiga muitas assinaturas das suas clientes de publicidade. Basta pôr um “call center” a trabalhar nisso.

Vou fazer como Marcelo e Marques Mendes…

(Pacheco Pereira, in Sábado, 12/08(2018)

JPP

Pacheco Pereira

Uma coisa é a livre expressão de críticas e outra a organização de grupos e fracções como Passos fez contra Manuela Ferreira Leite, e Montenegro, Duarte e muitos membros do Grupo Parlamentar e algumas distritais fazem a Rio, e Lopes vai fazer, pelo menos com maior transparência, porque sob outro chapéu.

…e dizer: como eu vos disse, como eu tinha previsto a semana passada, etc.
Sim, como eu tinha previsto há mais tempo que a semana passada, Lopes admite que o seu “novo” partido tem como objectivo arranjar uns lugares nas próximas eleições, o dele em particular, e ninguém do PSD saiu atrás de Lopes sem se consumar a derradeira e desesperada tentativa de derrubar Rui Rio, antes que este possa condicionar as listas para deputados.
É o objectivo de Pedro Duarte e Montenegro. As suas estratégias têm nuances: Duarte quer condicionar as escolhas das próximas eleições, Montenegro é mais prudente e como sabe que elas serão muito difíceis de ganhar, prefere esperar para não ter o ónus da derrota.

Hipocrisias

Claro que ambos juram hipocritamente que não querem “desestabilizar” a direcção, mas isso é o lugar -comum do “politiquês” muito pobre, feito de frases feitas e rodriguinhos, que todos usam. Críticas a Rio, duras que sejam, serei o último a pôr esse direito em causa, até porque o exerço em abundância. E vejo com ironia como muitos dos que me criticaram fazem hoje o mesmo.
Só que, uma coisa é a livre expressão de críticas e outra a organização de grupos e fracções como Passos fez contra Manuela Ferreira Leite, e Montenegro, Duarte e muitos membros do Grupo Parlamentar e algumas distritais fazem a Rio, e Lopes vai fazer, pelo menos com maior transparência, porque sob outro chapéu.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Os passos

O primeiro passo foi a contestação imediata e às claras com centro no Grupo Parlamentar (e tal não é por acaso…), o segundo é a contestação organizada com exigência de um novo Congresso que agora Duarte vai tentar liderar.
O terceiro passo deste movimento, caso falhe a tentativa de derrubar Rio, então será a transumância para o partido de Lopes, ou para o CDS de Cristas. Mas só depois de se esgotarem as tentativas internas.

Vai ser interessante ver quem vai financiar quem

Quem vai financiar o PS a gente já sabe: toda a gente que tem capacidade para financiar a vida política. O PS está no poder e não lhe vão faltar apoios nos meios económicos e empresariais. Para os grandes partidos, incluindo o PSD, é esta proximidade que explica muita da corrupção e do tráfico de influências que inquinam a vida política nacional. O PSD terá um quinhão mais pequeno dos mesmos que vão financiar o PS.

É uma velha prática apoiar sempre em partes desiguais conforme quem tenha o poder, o PS e o PSD. Deixo de lado o BE e o PCP, cujos mecanismos de financiamento são de outra natureza, mas com zonas pouco transparentes como é o caso das autarquias para o PCP.
O financiamento do CDS pode até crescer, porque é como o financiamento de uma startup, e a ecologia do CDS sozinho e alguma renovação interna vão torná-lo apetecível para os deserdados ideológicos e políticos do PSD de Passos, ou seja a alt-right portuguesa, os think tanks conservadores, os trumpistas envergonhados, o Observador, e outros blogues muito activos na direita radical.
Agora verdadeiramente interessante será o financiamento do partido de Lopes, embora suspeite que vai ter as mesmas origens do financiamento do CDS de Cristas. Vamos ver.

É um pouco aborrecido…

…ter quase a certeza de que daqui a uns dias vou poder começar de novo a dizer, como Marcelo e Marques Mendes, como eu tinha previsto… Mas prometo moderar-me.

Os proletários do desporto: a Volta a Portugal acima de 40º

Querem um exemplo de gritante irresponsabilidade? Permitir que várias etapas da Volta a Portugal em bicicleta se realizassem no pico da onda de calor em pleno Alentejo, com temperaturas à volta dos 45o. Alguém o permitiu e esse alguém é um criminoso que podia ter matado ou atingido gravemente um ou vários ciclistas, já para não falar dos que vão para as estradas ver a volta passar. Pelos vistos, considera-se normal manter o espectáculo por causa dos múltiplos interesses em jogo, dos da publicidade até aos dos órgãos de comunicação que precisam de alimento.
Felizmente parece que não aconteceu nada, mas isso é irrelevante. Ah! e para além dos promotores da Volta, o Governo é igualmente responsável e muito.

E se Santana tiver razão?… 

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 30/06/2018)

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Santana Lopes deu a entender que pode abandonar o PSD para formar um novo partido. O anúncio é recorrente e, porventura, não deve ser levado muito a sério, até porque pode corresponder, em parte, à visão lúdica que o ex-primeiro-ministro tem da política. E se Santana Lopes tiver razão? Isto é, e se o espaço partidário português estiver exaurido e a necessitar de diversificação de oferta?

Se olharmos para os restantes países da Europa do sul, a marca da última década é o colapso dos sistemas partidários e a sua substituição por novas formações. Foi o que aconteceu de forma radical em Itália, França, Grécia e, em importante medida, na Espanha. Portugal permanece uma notável exceção: PS e PSD, apesar de tudo (a corrupção e a austeridade), resistem e PCP, BE e CDS continuam a servir de tampões à emergência de novas formações. Há explicações para esta resistência: algumas bem antigas (a capacidade que o PCP tem tido, desde 1975, para institucionalizar o protesto) e outras mais recentes (a capacidade de adaptação do PSD, que virou à direita, respondendo a anseios eleitorais; a forma como o PS não se comprometeu com a austeridade; e um BE que abandonou as suas raízes na velha esquerda para evoluir para um partido populista de esquerda).

Contudo, talvez possa ser um equívoco dar a estabilidade do sistema como garantida. Não apenas porque as condições para surgirem novas formações partidárias existem, mas também porque, na verdade, com as oportunidades certas, elas já tiveram sucesso.

Em Portugal, como no resto da Europa do sul, o espaço partidário já não corresponde de forma tão linear ao eleitorado sociológico. Seja porque os partidos cristalizaram nos seus núcleos duros de votantes, deixando de ser catch-all parties, seja, essencialmente, porque tem emergido um eleitorado de classe média, para quem o estatuto e as expectativas sociais já não correspondem à situação material, mais exposto às redes sociais do que aos media tradicionais, e cujos interesses são contraditórios com os das classes médias baixas. É por isso que as grandes sínteses acabaram e com elas as maiorias absolutas monocromáticas.

Se bem que com uma intensidade diferente do resto da Europa do sul (até porque não há nem uma questão autonómica nem imigração), os fatores que têm levado à derrocada do sistema partidário também se encontram presentes em Portugal. Aliás, não têm faltado sinais de que existe um eleitorado desafeto, disponível para escolher algo de novo e estranho aos partidos. Foi assim nas presidenciais com figuras desligadas dos aparelhos partidários (Nobre, Alegre, Sampaio da Nóvoa e Marcelo), nas europeias com Marinho e Pinto e em muitas eleições autárquicas. Santana Lopes anda por aí há demasiado tempo para poder ser credível neste papel, mas talvez seja extemporâneo dar por garantida a resistência do sistema português.