Francisco, a paz e a romaria dos hipócritas

(Por José Goulão, in SCF, 08/05/2025)


Francisco foi um irmão mais velho, sábio e presente para católicos, não católicos e não cristãos, religiosos, agnósticos e ateus.


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Começou a jorrar a pungente enxurrada de palavras laudatórias dos governantes deste mundo para expressar sentimentos que não existem, cumprir conveniências protocolares, identificar-se com tudo o que desprezam, exibir falsas comoções, tirar proveito de um acontecimento de que amanhã já não se lembrarão porque é fundamental regressar à vidinha reles e predadora do costume.

A morte do Papa Francisco é, inegavelmente, uma perda para o mundo. Não como chefe da Igreja Católica mas como homem universalista e humanista que soube evitar e contornar as questiúnculas vaticanas, velhas de séculos, para se dedicar a pensar e a agir sobre as coisas do mundo e da humanidade; as coisas que nos levam por caminhos transviados, quem sabe se fatais e que o Papa, não como santo mas como ser humano, tentou travar com a sua sensibilidade e espírito fraterno.

A comunidade dos hipócritas que dirige o mundo, conduzindo-nos para precipícios que Francisco identificou como facilmente evitáveis se os homens, e as mulheres, tivessem a boa vontade que extravasa, em muito, as palavras dos textos religiosos, não hesita agora em tirar proveito do seu falecimento com denodo vampiresco.

O Papa que agora nos deixa, chefe de uma instituição que dificilmente encontrará outro à sua altura, porque não saberá (nem quererá) navegar contra a corrente com a coragem e lucidez de Francisco, deixa órfãos os desprotegidos, os marginalizados, os pobres, os refugiados e migrantes, os povos das periferias, os que sofrem na carne os efeitos dos crimes ecológicos praticados pelos que enchem a boca com o combate (falso) às alterações climáticas, enfim os milhões de seres humanos que enfrentam os terrores das guerras gananciosas impostas pelos interesses de castas desumanizadas e as minorias do dinheiro.

A coragem e a lucidez de um pacifista

Francisco foi um homem corajoso e lúcido. Corajoso porque não teve de receio de usar a palavra contra os carrascos do ser humano que, tentando embalar-nos com conversas mansas das quais apenas sobra a mentira, não hesitam em criar infernos em vida e ameaçar as nossas existências. Lúcido, porque soube ler o mundo como poucos na comunidade internacional, traçando impiedosamente os retratos dos malfeitores e inconformando-se com os horrores das malfeitorias, apesar de os atingidos olharem sempre para o lado, fingindo que nada era com eles enquanto, cinicamente, lhe faziam os salamaleques da praxe.

O Papa que agora nos deixa extravasou em muito o catolicismo e o cristianismo. Mesmo no interior das instituições da sua fé e das comunidades dos crentes muitas vezes não foi bem aceite pelas correntes tradicionalistas, as mesmas que, simultaneamente, se acomodam, e até defendem o que de pior existe à face da Terra.

Francisco selou a sua presença na história do catolicismo mas, principalmente, da humanidade porque no seu tempo combateu sem hesitar os dois verdadeiros demónios que perseguem e abatem os seres humanos: o neoliberalismo e a guerra.

O sacerdote argentino que tanto sofria com o seu pobre povo cruelmente entregue ao estado mais extremo do neoliberalismo, nunca foi manso para com esta doutrina económica, social e política que despreza o ser humano em nome da liberdade, que o oprime mergulhando-o na pobreza como caminho para a sempre longínqua e assim inatingível abastança, que o mata garantindo-lhe independências e soberanias a que são intrinsecamente avessos. O desumano neoliberalismo globalista são a sua meta; a justiça social, o respeito pelo ser humano, a dignidade da vida, a paz e a convivência fraterna são as luzes pelas quais o falecido Papa se guiava.

Francisco foi, por tudo isto, um homem contra a corrente, na realidade um corpo estranho neste mundo e que não desistiu, até ao fim, de o tentar modificar, de o tornar um lugar adequado para o florescimento da dignidade do ser humano, de todos os seres humanos. Por isso, o Papa não se identificava, e nunca deixou de condenar, esta preciosidade ocidental de se comover, justamente, com o sofrimento e o drama dos ucranianos mas desprezar e ser até cúmplice da matança e do genocídio do povo palestiniano. O Papa jamais perdoou e seria capaz de perdoar e segregacionismo e a xenofobia que estão no ADN dos hipócritas. Ele amou especialmente todos os povos vítimas de guerras, e não apenas as terçadas com armas.

Neste domingo de Páscoa, nas suas derradeiras e esforçadas palavras, Francisco teve a energia sobre humana necessária para lembrar os pobres, os desprezados, as minorias perseguidas, os excluídos das periferias, as vítimas do racismo e da xenofobia, os refugiados e migrantes, solidarizando-se com estes como vítimas da ganância e das guerras impostas aos seus países. E não deixou de responsabilizar, mais uma vez, a doutrina que identificou explicitamente como responsável por essas expressões de miséria: o capitalismo e a sua versão extrema, o neoliberalismo.

Um combatente pelo desarmamento

E Francisco, horror dos horrores, defendeu a paz.

Não uma paz abstracta como apregoam os que a procuram e garantem estar no final das guerras. Mas sim a paz que desprezam e nos proíbem de invocar e defender sob pena de sermos considerados traidores e servidores dos inimigos que nos espreitam em cada canto. A paz que se encontra falando, compreendendo e negociando e não espalhando a pobreza e a morte porque são necessárias armas, mais armas, cada vez mais armas e mais sofisticadas, capazes de tornar sempre maiores as multidões de inocentes assassinados e fazer transbordar os cofres dos magnatas da morte.

É verdade, Francisco defendeu o desarmamento sem poupar a indústria armamentista e respectivos frequentadores como um dos grandes flagelos deste tempo. Guardou até para apelar ao desarmamento as suas derradeiras palavras proferidas, a custo, num Domingo de Páscoa. Adivinhem: os que agora dizem lamentar o seu desaparecimento nunca o escutaram, fingiram-se moucos. Para eles, o Papa era alguém que tentavam identificar com as suas desprezíveis imagens e semelhanças; não o Papa que jamais se esqueceu das verdadeiras vítimas desses hipócritas, refinados vendilhões do Templo.

Os chefes e as cliques governantes da União Europeia, de Marcelo e quejandos aos confins do Báltico proferem agora as palavras banais, protocolares e de circunstância, expressam sentimentos que não têm a não ser nas carteiras e contas bancárias, pronunciam, a contragosto, a palavra paz enquanto montam exércitos e atafulham o continente europeu de armas, vestem as suas mais caras e negras fatiotas para irem em romaria e alinharem-se, quiçá para a foto de família, nos tapetes do Vaticano. Francisco dispensaria a sua presença, mas eles acham-se sempre indispensáveis e bem vindos mesmo quando ninguém os convida. Lagarde, a senhora do dinheiro, a par de Van der Leyen, a senhora da guerra e Costa, servidor babado de tudo isto, não faltarão. Por aí se percebe o tipo de gente a quem estamos entregues e que o Papa argentino, perceptivelmente, não tinha em grande conta.

Francisco deixa muitas saudades e um vazio que provavelmente tão depressa não será preenchido. A hierarquia da Igreja Católica, que não a imensa multidão dos fiéis, tem grande habilidade para emendar os seus “erros” movendo-se e conspirando com uma experiência de dois milénios no silêncio dos corredores vaticanos. Como foi o caso de João Paulo I, prometedor homem de bem que não resistiu mais de 33 dias na cadeira de Pedro, o pescador, logo substituído por Wojtyla ou João Paulo II, o Papa do neoliberalismo, da unipolaridade imperial, arauto de um catolicismo com ressonâncias medievais.

Francisco foi um irmão mais velho, sábio e presente para católicos, não católicos e não cristãos, religiosos, agnósticos e ateus, muitos dos que, não comungando da sua doutrina e conceitos filosóficos, o admiraram como homem e humanista, certos de que nele podiam confiar.

Defendia conceitos de vida terrena pelos quais nos vale a pena lutar para retirar o mundo do pântano onde mulheres e homens degenerados pelo poder e o dinheiro o vão mergulhando. Estes são dias tristes e, ao mesmo tempo, dias que a cáfila dos hipócritas e fanáticos da guerra anseia para poder desfilar e brilhar.

Fonte aqui.

Sobre a morte de Bergoglio

(Por Andrea Zhok, in Euro-Synergies, 03/05/2025, Trad. Estátua)


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Os últimos vinte anos do pontificado, acredito, pintaram um quadro no qual o declínio da influência internacional do papado de Roma se tornou evidente. Os dois últimos pontífices tentaram caminhos complementares, em parte opostos, para restaurar um lugar central para a Igreja Católica.

O Papa Bento XVI, durante o seu pontificado de oito anos (2005-2013), tentou seguir um caminho de consolidação doutrinária com a restauração de certos fatores tradicionais. Nesse caminho “tradicionalista”, ele encontrou tanta resistência dentro do Vaticano que tomou a decisão sem precedentes de renunciar ao trono papal para sempre. O gesto de Bento XVI pretendia ser emblemático, admoestador.

A referência ao fundador da principal ordem monástica, São Bento, foi concebida por Ratzinger como um desejo e inspiração para um “renascimento” do mundo ocidental, assim como os mosteiros beneditinos foram a sua matriz após o colapso do Império Romano (a deposição do último imperador ocidental, Rómulo Augusto, ocorreu em 473 d.C., e a composição da Regra Beneditina ocorreu em 525 d.C.). Esta esperança e inspiração de Bento XVI falharam. Os papas, como os soberanos do passado, nunca reinam sozinhos, mas precisam de um ambiente funcional, de um “tribunal”, de um “aparelho” eficaz e aderente à “missão”, para poderem traduzir o seu magistério em costumes e instituições. E ambiente existente mostrou-se inadequado para traduzir os ensinamentos de Ratzinger.

O Papa Bergoglio ascendeu ao trono papal referindo-se a outra figura emblemática, menos decisiva no plano institucional, mas poderosa no plano ideal: São Francisco de Assis.

A figura de Francisco, asceta, místico, com traços quase panteístas, expressava um desejo e uma inspiração diferentes dos de Bento, mas também conotava uma renovação radical. A orientação ideal do Papa Francisco era apoiar os humildes, os “perdedores” do mundo moderno; ele queria criticar a exploração do homem pelo homem e do homem sobre a natureza.

A encíclica “Laudato Si” continua a ser um texto exemplar, uma encíclica de grande poder analítico e rara profundidade na mensagem. Laudato Si’ é frequentemente citada como uma “encíclica ecológica”, como se fosse uma das muitas manifestações de “greenwashing” que contaminam o discurso público atual. Mas, quem se der ao trabalho de a ler, encontrará uma riqueza analítica extraordinária, uma integração do tema ambiental no da exploração económica geral, uma crítica aos mecanismos do capital, à dominação da economia financeira sobre a economia real, à dominação tecnocrática, uma crítica às chamadas “soluções de mercado” para a degradação ecológica (como os “créditos de carbono”) e muito mais.

Mas, além das esperanças iniciais, os doze anos de pontificado de Bergoglio mostraram mais uma vez a enorme dificuldade que o papado atual tem em propor com sucesso uma mensagem autónoma.

As características do magistério de Bergoglio que foram adotadas e promovidas são todas e somente aquelas poucas características de “liberalização da moral” (por exemplo, aberturas LGBT com a carta ao Padre Martin) e amplificação da narrativa atual (por exemplo, adesão à leitura dominante sobre a Covid) que correspondiam a uma imagem de “modernismo” estereotipado. Muitas outras posições desconfortáveis ​​sobre o capitalismo financeiro ou questões internacionais, de Israel à Líbia, do Irão à Rússia, foram silenciadas, às vezes até censuradas.

A impressão geral é que os dois últimos pontificados mostraram duas tentativas — intelectualmente sólidas e espiritualmente elevadas — de restaurar o lugar central do catolicismo romano e da sua mensagem histórica.

A primeira tentativa, com conotações mais “conservadoras”, rapidamente caiu em paralisia. A segunda tentativa, com uma conotação mais “progressista”, foi reduzida a uma impotência substancial em todas as áreas em que não condizia com a status corrente — onde “corrente” se refere às modas ideológicas favorecidas pelas oligarquias financeiras anglo-americanas.

Pode dizer-se qualquer coisa sobre Ratzinger e Bergoglio, mas certamente não que eles foram papas sem inspiração, preparação ou caráter. Longe disso.

No entanto, é difícil dizer que, duas décadas depois, o status ideal e operacional do cristianismo católico ganhou centralidade ou autoridade.

Ninguém sabe o que o próximo fumo branco do conclave trará, mas acho que é sensato não esperar muito.

As condições históricas não parecem ser tais que permitam que um novo pontífice, quaisquer que sejam suas possíveis qualidades pré-clássicas, reverta uma tendência estagnada. E o problema não é que “o Papa não tenha divisões militares”, como disse Estaline em Yalta: “alavancas espirituais” podem fazer coisas extraordinárias.

Mas as alavancas espirituais são aquela “força fraca” que só funciona quando repousa sobre um ponto de apoio espiritual dentro das pessoas. E hoje, eu não apostaria na disseminação de tal ponto de apoio, mesmo entre aqueles que habitam os salões dos palácios do Vaticano…

Fonte aqui

Do diário da Diana – 12 anos – Escola C+S da Musgueira – Take 6

(Carlos Esperança, in Facebook, 24/04/2025)

Diana a escrever o diário – Imagem gerada por IA

(O texto que segue é mais uma deliciosa e pertinente alegoria. Infeliz e provavelmente mais ancorada na realidade do que seria desejável. Os meus parabéns ao Carlos Esperança.

Estátua de Sal, 24/04/2025)


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A minha mãe adora o 25 de Abril e eu também. O meu pai detesta-o. Se a democracia fosse futebol, cá em casa a democracia ganhava 2-1.

Ontem a minha mãe estava possessa. Ouviu o Ventura a fazer promessas, como se as pudesse cumprir, e disse que há mais gente estúpida do que ela pensava e que esse aldrabão de feira parece um encantador de burros.

Como o meu pai andava com o táxi a dizer mal dos taxistas do Bangladesh e de todos os imigrantes, ficámos à conversa depois de jantar. A minha mãe não detesta só o Ventura, está desiludida com o Costa, irritada com o Montenegro e furiosa com o Marcelo.

Ó Diana – dizia –, vê a falta que o Costa faz cá e a inutilidade que é ele na União Europeia, onde bastavam a Von der Leyen e a Kaja Kallas para fazerem asneiras e serem humilhadas pelo desmiolado Trump!

Em Portugal a vergonha desceu à rua e o 25 de Abril está de regresso ao 28 de maio. O país está entregue ao Bando dos Quatro que emigram para Roma em gozo de férias de nojo pela morte do Papa, um homem decente que junta no funeral a escória da política e o refugo dos católicos, os que diziam cobras e lagartos do pontificado e fingem agora ser fervorosos admiradores de quem defendeu a paz e os pobres.

Em Portugal, durante o funeral do Papa, o país fica entregue aos bichos. A substituir o PR fica o Pacheco de Amorim, ex-terrorista do MDLP ou outro vice-presidente da AR; em vez do PM o Miranda Sarmento – porque até o MNE, o indizível Rangel, foi como acólito do PR, PAR e PM para perfazer o Bando dos Quatro, saborosa expressão de humor e raiva da minha mãe numa alusão a um grupo de radicais da China de Mao.

De facto, quando um ministro, em nome do governo que se ausenta para o estrangeiro no dia 25 de Abril, diz que «(…) o Governo cancelou toda a agenda festiva e adiou as celebrações relativas ao 25 de Abril», até eu percebo que não estamos num país de gente séria, estamos nas mãos de traidores, que trocam a Pátria por uma missa em Roma.

E, como se não bastasse, o ministro das Finanças de um governo em gestão, que já gastou a folga orçamental herdada, prepara-se agora para, segundo alega, em conluio com o PS, endividar o País em mais 1,5% do PIB para a Defesa, isto é, para armas.

Disse que pediu a Bruxelas para contrair mais 1,5% do PIB numa dívida que não conta para o Orçamento do Estado. Perguntei à minha mãe como era isso. Irritada, não comigo, nunca se zanga comigo, ela disse que era um expediente para esconder a dívida, até termos de pagar o capital e os juros. Nem sequer é uma dívida da UE, é só nossa.

E à custa de quem – perguntei eu? – De todos nós, respondeu ela. Vão às pensões e aos benefícios sociais. Mas o Nuno Melo disse que uma coisa não tinha a ver com a outra… – retorqui eu. E li, no sorriso triste da minha mãe, o desprezo por tal energúmeno e a dimensão da mentira.

E acrescentou ela: – Se tivéssemos um PR com um módico de dignidade, alertaria o Governo que nos impôs para o descaramento de tomar decisões com o PS sem saber se os dois têm a maioria em relação aos restantes. E acrescentou: – Ó Diana, que legitimidade têm de decidir despesas que oneram as gerações futuras sem as discutirem antes das eleições?

Que a Alemanha, queira gastar 500 mil milhões de euros, é lá com ela, embora esteja na origem das duas grandes guerras mundiais e esquecida da proibição de se rearmar, mas que a UE queira gastar 800 mil milhões também é connosco. Não digo que sou contra o armamento da UE, mas é preciso que se saiba para quê, para nos defendermos de quem e que sacrifícios estamos dispostos a fazer, incluindo o de morrer na Gronelândia ou em qualquer área da UE que vier a ser invadida.

A minha mãe diz que somos vítimas de bullying e que há uma campanha de intoxicação em curso para evitar que discutamos o que interessa aos portugueses para que interesses alheios possam prosperar.

Estou a pensar que amanhã não poremos cravos vermelhos na jarra da sala, por causa do meu pai e, antes que na rua comece a ser tão perigoso como dar vivas à República ou dizer mal do Salazar no tempo dos meus falecidos avós, eu e a minha mãe, só as duas, vamos da Musgueira ao desfile da Av. da Liberdade para gritarmos a plenos pulmões…

Viva o 25 de Abril! Sempre!

Musgueira, 24 de abril de 2025 – Diana