OLH’Ó RESGATE

(José Gabriel, in Facebook, 14/09/2016)

resgate
A estagiária da CBS estava orgulhosa. Tinha sido destacada para entrevistar o ministro das finanças de Portugal! A primeira tarefa que se impôs foi a de investigar onde era esse país – porque se tratava de um país, assegurou-lhe o chefe. Levou algum tempo e precisou da ajuda do Google Earth, já no mapa que percorreu detalhadamente não encontrara tal lugar. Também, pensou, era tão pequeno. Mas agora, com o apoio da Wikipédia, estava pronta. Já sabia que o país tinha sofrido um resgate financeiro – embora não atinasse lá muito bem o que isso significava. O chefe até disse que isso era coisa de peso. Importante. Logo, mal enfrentou o sorridente ministro português, disparou: “Portugal vai ter um segundo resgate?” O senhor, perplexo – mas sempre sorridente – lá construiu uma resposta em que nunca mencionou resgate nenhum e manifestou a sua disposição e empenho em que tudo corresse bem. E pronto.

Num canal de televisão portuguesa, uma outra estagiária – sabidona e ansiosa por subir na vida – logo viu ali uma mina. E, como quem conta um conto acrescenta um ponto, apressou-se: “chefe, chefe, o Centeno admitiu que pode haver um novo resgate!”. O chefe, que também tinha chefes, logo se atirou ao telefone: “provavelmente vai haver um segundo resgate, disse o Centeno!”.

E a coisa lá correu com a velocidade que estes boatos têm, que é semelhante à da merda que se atira à ventoinha. Ora estavam, por essa altura, o Passos e Marilú, a confessar mutuamente o seu vazio de ideias, propostas, discursos sequer, quando a atoarda lhes chegou aos ouvidos. Era uma dádiva dos céus, garantiu a Cristas, entretanto informada.

E logo começou o fadinho do resgate, acompanhado dos sobrolhos erguidos, das ameaças veladas, do paleio depressivo, enfim, tudo o que pudesse espalhar a infelicidade e o temor entre as gentes, já que estas personagens julgam ter gasto toda a felicidade que tinham para distribuir. A “comunicação social” entrou na dança, ao som de “lá vamos cantando e rindo”.

É verdade que apareceram umas criaturas – “vendidas ao comunismo internacional”, garantia o “Clarim de Ranholas”, em editorial – como a OCDE e, até a Moodys (!!!!) a dizer que estava tudo bem e a situação financeira em Portugal estava equilibrada, mas que sabem eles disto?! – pelo menos desta vez…

OLH'Ó RESGATE

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(José Gabriel, in Facebook, 14/09/2016)

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A estagiária da CBS estava orgulhosa. Tinha sido destacada para entrevistar o ministro das finanças de Portugal! A primeira tarefa que se impôs foi a de investigar onde era esse país – porque se tratava de um país, assegurou-lhe o chefe. Levou algum tempo e precisou da ajuda do Google Earth, já no mapa que percorreu detalhadamente não encontrara tal lugar. Também, pensou, era tão pequeno. Mas agora, com o apoio da Wikipédia, estava pronta. Já sabia que o país tinha sofrido um resgate financeiro – embora não atinasse lá muito bem o que isso significava. O chefe até disse que isso era coisa de peso. Importante. Logo, mal enfrentou o sorridente ministro português, disparou: “Portugal vai ter um segundo resgate?” O senhor, perplexo – mas sempre sorridente – lá construiu uma resposta em que nunca mencionou resgate nenhum e manifestou a sua disposição e empenho em que tudo corresse bem. E pronto.

Num canal de televisão portuguesa, uma outra estagiária – sabidona e ansiosa por subir na vida – logo viu ali uma mina. E, como quem conta um conto acrescenta um ponto, apressou-se: “chefe, chefe, o Centeno admitiu que pode haver um novo resgate!”. O chefe, que também tinha chefes, logo se atirou ao telefone: “provavelmente vai haver um segundo resgate, disse o Centeno!”.

E a coisa lá correu com a velocidade que estes boatos têm, que é semelhante à da merda que se atira à ventoinha. Ora estavam, por essa altura, o Passos e Marilú, a confessar mutuamente o seu vazio de ideias, propostas, discursos sequer, quando a atoarda lhes chegou aos ouvidos. Era uma dádiva dos céus, garantiu a Cristas, entretanto informada.

E logo começou o fadinho do resgate, acompanhado dos sobrolhos erguidos, das ameaças veladas, do paleio depressivo, enfim, tudo o que pudesse espalhar a infelicidade e o temor entre as gentes, já que estas personagens julgam ter gasto toda a felicidade que tinham para distribuir. A “comunicação social” entrou na dança, ao som de “lá vamos cantando e rindo”.

É verdade que apareceram umas criaturas – “vendidas ao comunismo internacional”, garantia o “Clarim de Ranholas”, em editorial – como a OCDE e, até a Moodys (!!!!) a dizer que estava tudo bem e a situação financeira em Portugal estava equilibrada, mas que sabem eles disto?! – pelo menos desta vez…

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Memória dos que não sobram

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 26/08/2016)

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Baptista Bastos

O movimento das coisas fez revolutear muitas consciências, e democratas instantâneos como o pudim flan surgiram do lodo para construir o seu pessoal destino.


Durão Barroso, Maria Luís Albuquerque, Paulo Portas, Vítor Gaspar, Carlos Moedas, outros mais, serviram quem entenderam dever servir, e foram à vida. Quero dizer: ajeitaram melhor o seu pessoal caminho. Maria Luís ainda aguarda. Aguarda a subida ao poder, depois de Pedro Passos Coelho ser abalroado. O cenário é perturbador. No Pontal, o dirigente máximo do PSD pareceu uma careta de si mesmo. Acentuaram-se-lhe, por moto próprio, os gestos, o sorriso bisonho, o discurso paralelo à ofensa dos outros, e aquele ar de triunfo obrigatório que parece ser um tique nervoso de quem comanda à Direita.

Todos estes acontecimentos são deploráveis pelo que revelam de ócio mentiroso. Quando do 25 de Abril, as pessoas, na generalidade cansadas do fascismo beato, irmanaram-se para proceder a uma alteração histórica nos destinos da pátria. Foi quando a revolução desceu à rua, e aqueles que a não assistiram perderam um dos momentos cruciais da história pátria. Houve democratas instantâneos como o pudim flan, e outros, atemorizados com o desenrolar as coisas, que fugiram para o Brasil, lá permaneceram até que a poeira deixou de estremecer as consciências e tudo voltou quase à mesma.

O movimento das coisas fez revolutear muitas consciências, e democratas instantâneos como o pudim flan surgiram do lodo para construir o seu pessoal destino. Durão Barroso é um desses triunfadores de algibeira. O destino social e político deste homem segue, paralelo, o destino da pátria, sempre sacudida por atenções momentâneas de pessoas sempre prontas a virar o casaco e a fazer melhor vida pessoal. Não me detenho muito nestes casos passionais, mais próprios do momento e da inexistência de carácter. Sei muito bem que os que ficam são tidos como marginais, gente antiga e fora do contexto. E, acaso, todas estas acusações sejam verdadeiras. Mas vejo essa população ainda imensa, que se sujeitou a acreditar nos sonhos, e sinto que ela tem a razão que alimenta a vida e constrói os ideais possíveis.

É lógico que as coisas mudaram, e mudam substancialmente cada dia que passa. E sei que, para muita gente, é difícil adaptar-se a estas normas novas, recuperadas de tradições antigas. Com certa emoção (confesso), sigo as travessias, os gritos e ainda as esperanças desses meus compatriotas. No contexto político mais alargado de todo o mundo, essa gente ainda é aquilo que resta, o que sobra do que ficou dos sonhos antigos. E todos nós sobrevivemos.