Francesca Albanese, uma voz pela justiça que o lobby israelita tenta silenciar

(Michael Lynk in Resistir, 26/02/2026)


Grupos israelitas de lobby propagaram citações adulteradas da Relatora Especial da ONU para os Direitos Humanos, Francesca Albanese, a fim de difamá-la.   Esta campanha desesperada é uma prova do seu bom trabalho e da ameaça que representa ao responsabilizar Israel pelo genocídio.


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Mark Twain e Winston Churchill teriam dito que uma mentira pode dar a volta ao mundo antes que a verdade tenha tempo de vestir as calças.

Em 7 de fevereiro, Francesca Albanese, atual Relatora Especial da ONU para os direitos humanos na Palestina, fez uma breve apresentação por videoconferência num fórum dos media em Doha, no Catar, organizado pela rede Al Jazeera. Ela participou de um painel que incluiu Fatou Bensouda, ex-procuradora do Tribunal Penal Internacional, falando sobre o papel do direito internacional no tratamento de graves violações dos direitos humanos.

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Um crime coletivo

(Manuel Loff, in Público, 18/02/2026)

Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinianos Ocupados

Revelador da trumpização avançada do ambiente político internacional é que o governo francês se tenha juntado a Netanyahu e aos EUA na exigência de demissão de Albanese.


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“Em vez de deter Israel, a maior parte do mundo armou-o, forneceu-lhe desculpas e abrigo político, apoio económico e financeiro (…) Nós, que não controlamos capital financeiro, algoritmos e armas, vemos agora que, como humanidade, temos um inimigo comum, e que as liberdades, o respeito pelas liberdades fundamentais, são a última via e ferramenta pacífica que temos para recuperar a nossa liberdade“.

Isto foi o que Francesca Albanese disse numa conferência da Al Jazeera no passado dia 7 falando dos dois anos e meio de “genocídio em grande escala” em “que agora se transformou a ocupação ilegal prolongada do território palestiniano por Israel”, como escreveu no último dos seus relatórios como relatora da ONU para os territórios ocupados da Palestina (O genocídio de Gaza: um crime coletivo).

Não disse nada que não tivesse dito no cumprimento das suas funções. Desde que, em 2023, o Comité dos Direitos Humanos da ONU a nomeou, Albanese tem feito um trabalho notável, não apenas na denúncia da limpeza étnica, do memoricídio e do genocídio de que Israel é culpado como potência ocupante, mas de fundamentação rigorosa, jurídica e cientificamente inatacável, de como a ocupação é um “projeto de mais de um século de colonialismo de aniquilamento” como se pode ler no seu impressionante relatório de 2024, Genocídio como apagamento colonial.

Face à coragem desta mulher, Israel move-lhe uma guerra sem quartel. Washington impôs-lhe as mesmas sanções que já tinha imposto a juízes e procuradores do Tribunal Penal Internacional por emitirem um mandado de captura contra Netanyahu. Que a juntem ao longo rol de personagens internacionais a que os israelitas chamam “antissemitas” – a abominável manipulação do conceito está a ter consequências irreversíveis no seu uso moral e político —, em que se incluem o Papa Francisco, António Guterres e a ONU, mais todas as ONGs humanitárias que operam na Palestina, não surpreende ninguém.

Revelador da trumpização avançada do ambiente político internacional é que o governo francês se tenha juntado a Netanyahu e aos EUA na exigência de demissão de Albanese, considerando “ultrajantes” as suas declarações por acharem “que visam, não o Governo israelita mas Israel enquanto povo e nação”, replicando palavra por palavra o argumento de Netanyahu.

À França juntou-se ao grupo habitual na conivência com Israel: Alemanha e Áustria (onde governam, note-se, coligações da direita com social-democratas) e os governos italiano e checo, de ultradireita. Todos eles divulgaram nas redes oficiais um vídeo truncado da intervenção de Albanese. Como escreve a Amnistia Internacional, “tivessem ao menos sido tão veementes e contundentes a confrontar um Estado que comete genocídio, ocupação ilegal e apartheid quanto foram ao atacar uma especialista da ONU. A sua cobardia e recusa em responsabilizar Israel contrastam fortemente com o compromisso inabalável da relatora em dizer a verdade ao poder.

O trumpismo e o regresso às formas mais desaforadas do velho imperialismo estadunidense, que, depois da Venezuela, tem hoje na asfixia literal da vida em Cuba a sua última manifestação, têm procurado apagar definitivamente o Direito Internacional. E ajudam a que o desprezo da ONU como base de um mínimo de equidade no sistema internacional passe a ser a atitude de quase todos os Estados europeus.

O discurso do “respeito pelo Direito Internacional”, tão típico da retórica europeia, Portugal incluído, revela-se pura aparência. A Europa não aprende nada. Nem com a Gronelândia, nem com a ingerência direta dos EUA nos processos eleitorais – Marco Rubio acaba de apelar ao voto em Orbán na disputa eleitoral contra um ex-membro do governo deste. Imitando Trump e Netanyahu, a Europa cumpre obedientemente o modelo contra o qual, em Davos, o primeiro-ministro canadiano advertia: o da “simulação de soberania ao mesmo tempo que se aceita a subordinação”.

“O genocídio contínuo dos palestinianos deve ser entendido como um crime possibilitado internacionalmente”, escreve Albanese. Um crime coletivo. Não admira que quem o pratica a queira calar.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

Nazismo – um eufemismo para a União Europeia, uma realidade para a Europa

(João Gomes, in Facebook, 16/11/2025)


(Sobre o resultado da resolução da ONU, a que o artigo abaixo reporta , avanço com alguns esclarecimentos, pois não encontrei nenhum meio de comunicação social que por cá o tivesse noticiado: o Ocidente, Portugal incluído, não é contra o nazismo mas não quer que se saiba…

“A 14 de novembro, em Nova Iorque, a Terceira Comissão da 80ª Assembleia Geral da ONU adotou, por iniciativa da Federação Russa, a resolução sobre o combate à glorificação do nazismo, do neonazismo e de outras práticas que contribuem para alimentar formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância conexa.

Quarenta e quatro Estados, representando todas as regiões do mundo, foram coautores da resolução. Cento e catorze Estados votaram a favor da adopção do documento; 52 delegações votaram contra e 11 Estados abstiveram-se. A resolução condenou a glorificação do movimento nazi e a exoneração de antigos membros das SS, incluindo as Waffen-SS, que foram considerados criminosos nos Julgamentos de Nuremberga.” (Press release do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia),

A votação da União Europeia e de Portugal foi coerente: se passam a vida a apoiar o regime nazi da Ucrânia, como poderiam votar contra a glorificação do nazismo?!

Estátua de Sal, 16/11/2025)


Há coisas que nos dizem mais pelo que calam do que pelo que proclamam. E a recente posição da UE na ONU – recusando aprovar uma resolução dedicada ao combate à glorificação do nazismo, do neonazismo e da xenofobia – é um desses casos em que o silêncio pesa mais do que o discurso.

Com palavras cuidadosamente medidas, a UE procurou justificar a sua escolha recorrendo à crítica insuficiente, da instrumentalização russa do tema. Invocou o relatório de E. Tendayi Achiume como quem ergue um biombo moral, apontando a outros a manipulação do termo “neonazismo”, para assim evitar olhar para o espelho. Porque o espelho, hoje, é incómodo: nele a Europa vê a emergência de partidos de extrema-direita que crescem nas urnas, que governam países, que moldam políticas migratórias, que normalizam discursos outrora inaceitáveis.

O nazismo, para a UE, parece ser uma palavra perigosa – não por aquilo que evoca, mas por aquilo que expõe. É mais fácil tratá-lo como um conceito distante, como um rótulo usado indevidamente por um adversário geopolítico, do que reconhecê-lo – ou às suas variações contemporâneas – dentro da própria casa.

E, no entanto, a resolução rejeitada não era sobre a Rússia. Era sobre racismo, neonazismo, intolerância, glorificação do passado fascista. Era sobre realidades que se manifestam hoje na Europa: nas ruas, nos parlamentos, nos discursos eleitorais, nos programas de governo. Realidades que não se resolvem com retórica diplomática nem com deslocações estratégicas do debate.

Ao votar contra, a UE fez do combate ao nazismo uma discussão lateral, uma nota de rodapé de uma disputa política maior. Mas para quem observa o avanço da extrema-direita – que deixou de ser sombra e se tornou presença ativa – este combate não é um detalhe: é uma urgência civilizacional.

A UE escolheu transformar o nazismo num eufemismo, numa palavra cuja pronúncia só parece conveniente quando pode ser projetada para fora, para outros. Mas para a Europa, para os seus cidadãos, para as suas democracias vulneráveis, o nazismo – ou o que dele renasce, adaptado aos novos tempos – é uma realidade palpável. Não precisa de ser inventado, nem instrumentalizado: basta olhar para o mapa político.

O voto europeu na ONU é mais do que uma decisão diplomática. É um sinal inquietante de que a Europa prefere discutir quem usa o termo “neonazismo” de forma imprópria, do que enfrentar quem o está a colocar novamente em prática – e com sucesso eleitoral.

Assim, entre o eufemismo e a realidade, entre a retórica e o compromisso, entre a política externa e a coragem interna, a UE fez a escolha errada. E uma Europa que vacila perante o passado corre o risco de tropeçar no futuro.

Porque enquanto a UE debate tecnicalidades, o fascismo organiza-se. E cresce. E vota. E governa. E a resolução que devia ter sido aprovada – essa, ficou por aprovar.

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