Não há crianças cristãs na Síria

(In Blog O Jumento, 16/12/2016)
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Sabemos que no Iraque há cristãos perseguidos pelo DAESH, todos ouvimos as notícias sobre o que os extremistas fizeram a esta minoria iraquiana e, em particular, o que fizeram às mulheres. Nos últimos dias a minoria Yazidi voltou a ser notícia, primeiro em consequência da batalha de Mossul, mais recentemente porque duas jovens desta comunidade, Nadia Murad Basee e Lamiya Aji Bashar, foram agraciadas com o prémio Sakharov.
Mas na Síria não há cristãos?
Não, na Síria não há cristãos, não há locais sagrados do cristianismo, não há templos religiosos de cristãos, não há mulheres cristãs. Aquelas mulheres que não andam de cara tapada e vestem à ocidental são todas perigosas chiitas, alauitas e outras minorias apoiantes do ditador. Aliás, na Síria não há terroristas, só há soldados do regime apoiados pelos perigosos russos, libaneses e iranianos de um lado e forças da resistência apoiadas por países amigos como a Turquia, a Arábia Saudita, Emiratos e outros grandes defensores da liberdade, da igualdade das mulheres e da democracia, como costumam ser todos os aliados do Ocidente.
Na Síria não morrem crianças cristãs, em anos de guerra ainda não se viu uma única imagem de uma criança cristã, xiita ou alauita morta. Mesmo quando o mundo ficou chocado com  fotografia de Aylan Kurdi morto na praia foram poucos os órgãos de comunicação social que explicaram que era uma criança que tinha fugido de Kobani, uma cidade mártir que só foi notícia quando estava quase totalmente destruída. Para a maior parte dos europeus Aylan Kurdi foi mais uma vítima de Assad e dos russos.
A manipulação da comunicação social é de tal forma que os europeus assistem a enxurradas de refugiados programadas pelo fascista Edogan, que usa os refugiados para conseguir subjugar a Europa, e protestam conta Assad. Estamos todos muito distraídos e esquecemos que o tal califado do DAESH ocupava uma boa parte da Síria e que tirando os curdos a resistência contra o regime de Assad é pouco credível, sendo em grande parte braços armados da Turquia ou da Arábia Saudita. Quando o DAESH dominava quase toda a Síria e até se dava bem nas fronteiras dos Montes Golan ninguém se preocupou com a Síria!
É por isso que na Síria os cristãos devem estar vivendo em ressorts de luxo pois não há uma única imagem de sofrimento e o mesmo sucede com todos os que não são sunitas. Ninguém reparou que antes da contra-ofensiva do regime uma boa parte da Síria já estava destruída e muitos das centenas de milhares de mortos já tinham morrido. Só os refugiados é que ainda não se tinham refugiado, porque a Turquia estava a ganhar mais com a espoliação das riquezas da Síria, deixando o tráfico de refugiados para quando fosse mais conveniente a Erdogan.
Um dia saberemos tudo sobre o que se passou na Síria, sobre quem inventou o DAESH, sobre o envolvimento dos aliados do Ocidente na destruição de um país que era o único que poderia fazer frente a países como a Arábia Saudita. Um dia os europeus saberão a quem andaram a dar o dinheiro dos seus impostos.

Foge, António!

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 16/12/2016)

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António Guterres fez, na passada segunda-feira, o juramento da Carta das Nações Unidas e todos nos sentimos muito orgulhosos.

Podemos dizer que foi um nove e meio em termos de Orgulho Nacional Por Ver Portugueses No Poder, numa escala que vai de Durão Barroso ao cão de água português do Obama.

Assistimos a várias manifestações de alegria e emoção, mas sinto-me dividido. Por ser patriota, e vendo como está o mundo, tenho algum receio de que nos venham atribuir as culpas pela III Guerra Mundial. Já sei como é que estas coisas são. No fim, é sempre o tuga que paga.

Vão sempre lembrar que estava um António português ao leme da ONU quando a coisa se deu. Ainda nos obrigam a pagar a reconstrução do mundo, incluindo todo os bancos que foram bombardeados.

Gosto do Engenheiro Guterres e acho que esta eleição é um presente envenenado. Ele devia ter desconfiado, quando uma organização machista como a ONU queria apostar numa mulher para o cargo. A intenção era: “estão a ver como elas estão bem é na cozinha”. Não percebo como é que o Padre Melícias não o alertou. Com tanto dito popular que um bom franciscano gosta de usar, como o “quando a esmola é grande o pobre desconfia”.

Não sei como estão as apostas na bwin, mas a probabilidade de haver chatice da grossa mundial, durante o mandato de Guterres, deve pagar pouco. Só um semi-monge budista, como Guterres, entrava num edifício em chamas com aquela calma e sorriso. No actual momento mundial, a ONU é a pior reunião de condóminos do universo. A lista de broncas que já estão em andamento, junto com as que prevemos que estejam a começar, é mais extensa do que a própria Carta das Nações Unidas. Se Guterres tivesse jurado com a mão esquerda pousada sobre os problemas que vai ter de enfrentar, ou assistir, teriam de lhe arranjar um escadote. Ponho-me a pensar como é que eles o terão convencido – “eh, pá, vais trabalhar com o Trump, reunir com o Putin e jogar ao mata com o Erdogan”.

Muito sinceramente, a ter de ser um português a ocupar o lugar de secretário-geral da ONU, preferia mil vezes o Durão Barroso. Quanto mais não fosse porque sempre tinha menos poder do que estando no Goldman Sachs. E, como ele já tem um bom currículo em termos de contribuir para dar cabo da paz e de organizações de nações, não seria surpresa para ninguém se ficasse associado ao fim do mundo.

Se eu fosse o Engenheiro Guterres, preparava um plano B no caso de isto ir mesmo dar para o torto. Nem seria preciso inventar muito. Pelo contrário, seria uma sequela. Muito simples. Caso a Le Pen vencesse as eleições presidenciais em França, Guterres diria que sentia este resultado, das eleições francesas, como uma derrota pessoal e de como o seu discurso, como secretário-geral da ONU, não tinha tido apoio e demitia-se.

Boa sorte, Senhor Engenheiro.


TOP 5

ONU

1. José Eduardo Moniz ou Laurinda Alves podem correr pelo PSD à Câmara de Lisboa – Eu apostava no Medina Carreira. Medina contra o Medina. Ou no Paulo Macedo, só para baralhar ainda mais a situação na CGD.

2. Rui Rio sugeriu um imposto para pagar a dívida pública – um tipo de direita que entra com o pé esquerdo.

3. Os irmãos iraquianos ausentaram-se para Istambul – a noite lá é mais segura.

4. Face Oculta: Manuel Godinho já pode sair do país – vai fazer “interrail” com o Salgado e gamar os carris.

5. A Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal atribuiu ao seleccionador português de futebol, Fernando Santos, o prémio Personalidade do Ano – faltou ao Professor Marcelo Rebelo de Sousa uma “selfie” com a Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal.

O dia em que ele chegou ao topo do mundo

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 12/12/2016)

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António Guterres tomou hoje posse como secretário-geral das Nações Unidas. O mundo que tem pela frente é complexo, imprevisível e perigoso, muito perigoso. Competência tem-na de sobra. Esperemos que tenha sorte.

Os portugueses tem uma enorme tendência para se apoucarem e para menosprezar o que de muito bom se vai fazendo por cá. E não vou falar de coisas materiais, mas sim de pessoas, da sua preparação, da sua competência, da sua qualidade, aquilo que na verdade faz mover um país. António Guterres é obviamente uma pessoa excepcional. Mas é português e licenciou-se no Instituto Superior Técnico, tendo sido o melhor aluno de sempre de uma das mais prestigiadas faculdades do país. Aprendeu com professores portugueses, numa universidade portuguesa, com colegas portugueses. Por outras palavras, Guterres é um produto português.

Depois, num país ainda muito avesso à cultura da avaliação, Guterres bateu-se não com um, dois ou três candidatos mas com nove candidatos, oriundos de vários países, em várias rondas de análise. Venceu todas e foi consolidando a sua vantagem ao longo dos exames. Finalmente, quando de repente, saída do nada mas apoiada pela Comissão Europeia, numa manobra muito pouco dignificante, surgiu uma nova candidata, Guterres voltou a vencer sem margem para dúvidas e de forma ainda mais clara. Ou seja, quando foi dada a oportunidade, num processo altamente transparente e democrático, de vários candidatos se apresentarem e disputarem o cargo de secretário-geral das Nações Unidas, foi um português que venceu. E isso diz muito sobre a pessoa mas diz seguramente também alguma coisa do meio onde cresceu, da sua família, do seu percurso académico, do seu país.

Quer isto dizer que o mandato de Guterres vai ser um indiscutível sucesso? Não se pode dizer. O mundo está mais crispado do que há uns anos. Os Estados Unidos de Donald Trump começam a irritar a China, com as suas pretensões de reconhecer Taiwan ou de acusar Pequim de ser um especulador cambial ou de ameaçar os produtos chineses que entram no mercado norte-americano com uma sobretaxa de 45%. Convém lembrar que a China é o maior detentor de obrigações do Tesouro norte-americano e que continua a ser um forte comprador. Convém lembrar que se Trump quer mesmo lançar um fortíssimo programa de investimento em infraestruturas públicas vai necessitar de obter financiamentos internacionais. Talvez não seja grande ideia irritar o maior financiador dos Estados Unidos…

Na Europa, o maior problema é a ascensão de líderes populistas e de extrema-direita, que podem chegar ao poder na Holanda e em França, e que já marcam posição em países do Leste. Mas as tensões xenófobas vão alastrando um pouco por todo o Velho Continente, com eventual exceção até agora da Península Ibérica. Por outro lado, as relações entre a União Europeia e a Rússia já conheceram melhores dias. Moscovo dá como adquirido a anexação da Crimeia. As sanções económicas europeias à Rússia mantém-se. Mas é da Rússia que vem a maior parte da energia de que a União necessita.

No Médio Oriente, o conflito israelo-palestianiano arrasta-se há tantos anos que já ninguém tem esperanças que um dia se venha a resolver. Mas há ainda os casos da Síria, da Líbia ou do Iraque, que estão muito longe de estar estabilizados. O norte de África está, quase todo, a contas com o terrorismo e o Daesh é uma ameaça muito longe de ter sido erradicada. Por isso, o drama dos refugiados que acorrem à Europa vai continuar a manter-se, um drama que Guterres conhece bem, mas que não será resolvido sem que toda a comunidade internacional se envolva no tema. E o que se tem visto na Europa é a emergência dos egoísmos nacionais e a hostilização dos migrantes, com a construção de muros nas fronteiras e a indiferença perante a morte por afogamento de milhares de pessoas no Mediterrâneo.

No plano das alterações climáticas, Guterres também enfrenta a nova posição de Washington, que coloca em causa não só as teses do aquecimento global como se prepara para rasgar alguns dos acordos que assinou e para libertar regiões protegidas do seu território para a exploração de recursos petrolíferos. E o novo secretário-geral das Nações Unidas vai ainda enfrentar dois outros problemas com a administração Trump: a desvalorização que faz dos organismos internacionais e, como resultado, a redução dos montantes em que as financia; e o pouco apreço que Trump mostra pelo diálogo, a não ser que no final todos concordem com ele.

Digamos, pois, que todas as melhores capacidades de Guterres – a sua competência, a sua preparação, a sua memória, a sua cultura, a sua fabulosa capacidade de diálogo – serão postas à prova nos próximos anos. O seu sucesso será o sucesso do mundo. Mas se acontecer, será sobretudo o sucesso de um português que hoje chegou ao topo do mundo por indiscutível mérito próprio.