Engorda de Natal

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 23/12/2016)

quadros

Apesar de ser só um fim-de-semana, é muito provável que consigamos voltar das “férias” de Natal mais gordos do que depois das férias de Verão.

É impressionante a capacidade que um ser humano tem para atafulhar criaturas no estômago durante a ceia de natal. O que pomos em cima da mesa da consoada, num dia normal, dava para alimentar Elvas. E Elvas ainda levava um “tupperware”, com restos para dar a Badajoz. No Natal, vai tudo. Parecemos ceifeiras a debulhar comida. É como se as pessoas tivessem recebido de prenda um casal de ténias.

Já imaginaram o que seria se a consoada se o bacalhau fosse como frango? Se em minha casa já há discussão por causa da posta alta e posta baixa, o que seria se o bacalhau viesse só com duas pernas?! Havia feridos. E lá ficavam os miúdos com as asas do bacalhau.

Em minha casa, o bacalhau vem com tudo. E, quando eu digo com tudo, inclui duas norueguesas vestidas com couve, por causa dos dentes do avô. Eu gosto do meu bacalhau com arroz-doce. Assim, salto logo para as prendas.

No meu Natal também costuma haver canja de peru com massa de letras. É um clássico. Dá trabalho mas, com a colher, consigo mandar alguns dos meus familiares para sítios porreiros sem eles darem por isso.

Em minha casa, também costuma haver uma coisa que é a chamada “travessa de carnes frias”. As mais fascinantes, carnes frias, são as mortadelas com Chocapic de azeitonas em “pickles”. Parecem uma rodela, cortada, fininha, de uma perna de uma senhora com varizes.

Não sei quem se lembra de decorar rodelas de porco com mais comida, mas é de certeza alguém que, na infância, comia sandes de banha com rodelas de Ketchup. E deve ser a mesma pessoa que se lembrou de deitar “confettis” em cima de broas. Irritam-me estas pessoas que gostam de alterar o que estava bem. Têm sempre de adicionar mais qualquer coisinha. Como aqueles que põem fios de ovos à volta do bolo-rei. O bolo-rei é uma coisa de homem, maciça, não é para estar a juntar cenas da Accessorize.

Este ano, felizmente, ofereceram-me uma fatia dourada para cama de casal e já não fico a seco até à hora de ir abocanhar o peru. Eu detesto peru. O peru é uma coisa que comemos mais por causa do tamanho do que pelo sabor. É só porque é um bicho que matava um frango com uma patada e, nos outros dias, comemos frango. Porque a carne do peru, propriamente dita, sabe a beliche. Por isso é que lhe metem coisas lá dentro. Ou seja, mais uma vez, acrescentam comida à comida. Não chega comer uma ave do tamanho, e peso, dos dois netos mais novos, ainda lhe enfiam castanhas e patês, onde antes estavam coisas que faziam falta ao peru para fazer um vida normal.

Se o peru soubesse que, depois de morto, vai para a mesa com coisas que ele nunca comeu enfiadas no rabo, andava atrás de pavões enquanto era vivo. Que se lixe a fama se é para acabar assim.
Feliz Natal para todos e ficamos à espera dos prometidos Três Reis Magos.

TOP 5

Consoada

1. “Quantos são os lesados do GES o que vão receber, quem vai pagar e do que vão abdicar” – Lesados do BES passam a “tenho dói-dói do BES”.

2. Christine Lagarde condenada por negligência. FMI reitera plena confiança em Lagarde – Negligência conta como formação para o FMI.

3. “Assassinato de embaixador aproxima Putin e Erdogan” – falta o “e tiveram filhos e foram felizes para sempre.”

4. Pokémon Go: jogadores andaram o equivalente a 200 mil voltas ao planeta Terra – mas não viram nada.

5. Cada português produziu 464 quilos de lixo em 2015 – mas só em ideias.

Um Natal como se fora todos os natais

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 23/12/2015)

bb1

Baptista Bastos

Liguei a televisão para ouvir o noticiário. Por vezes, a televisão, qualquer delas, chega a ser sórdida. Passo para o canal Mezzo e experimente, o meu Dilecto, um dia destes fazer a mesma coisa e deixar-se embalar nos pensamentos.


Estou à espera do Natal, nesta sala às escuras e a escutar, distraído, os ruídos dispersos da rua. A rua possui um dispositivo para fazer com que os condutores abrandem a velocidade, lá mais à frente há uma escola. Nos dias comuns gosto muito de ouvir os miúdos, aos bandos, a rir e a correr. Estou à espera do Natal, enquanto os adultos da família saíram para as últimas comprar. Como todos os anos, a Isaura montou a árvore de Natal, e as luzes tremelicam. Nas prateleiras, os meus livros predilectos, muitos daqueles cuja leitura ajudou a construir o homem que sou. Tenho andado um pouco atormentado com dores, mas sei que pago o peso da idade. De resto, sinto-me bem. Junto dos livros, retratos da minha vida, dos meus filhos e dos meus netos. Também do meu casamento, e da evolução das nossas idades. A velhice é um penoso ofício de adaptações. Ela costuma dizer que é preciso coragem para ser velho; eu acrescento: coragem e paciência.

 Não me restam, apenas, a família, os amigos, os livros e as recordações. Estou aqui e, apesar de tudo, estar aqui é bom. O telefone não tem parado de tocar. Nesta quadra é normal. O João Paulo Guerra, o Mário Zambujal, o Fernando Dacosta, a Arlete Rodrigues, a Alice Vieira, a quererem saber como estou. Agora, estou bem: mudou o Governo, respira-se um pouco melhor.

 Antes de ir com um dos nossos filhos ao supermercado, conversámos um pouco sobre as coisas que nos rodeiam. Os amigos que desistiram e foram para lá de tudo; os que envelhecerem embalando como sempre o sonho de tornar o mundo um lugar melhor; e os que continuam a trabalhar, com denodo e esperança. O António Borges Coelho, por exemplo, o grande historiador que continua a ensinar-nos aquilo que temos sido. Telefonou-me, há pouco, a propósito de uma crónica que, sobre o Redol, nestas páginas escrevi. E lembrámos aqueles que têm ido, tornando mais apetecível para os patifes e os biltres a bela pátria onde queremos viver felizes.

Alguns dos melhores de nós nunca desistiram. E essa presença moral é um estímulo. Há meses escrevi: estamos aqui para o que der e vier. O Borges Coelho disso me falou. Como o João Paulo Guerra costuma dizer uma frase que é a nossa fé na perseverança e na decência: não os deixes estrebuchar!; não os deixemos estrebuchar!

Liguei a televisão para ouvir o noticiário. Por vezes, a televisão, qualquer delas, chega a ser sórdida. E os comentadores só o são porque do óbvio. Passo para o Canal Mezzo e experimente o meu Dilecto, um dia destes, fazer a mesma coisa e deixar-se embalar na escuridão e nos pensamentos.

Com os jornais, a mesma coisa. O pensamento único elevado à sua expressão mais tola, como se todos nós fôssemos um montão de mentecaptos. Penso que nunca o jornalismo português desceu tão baixo em leviandade, incompetência e reverência. Agora, os jornalistas tratam-se por “colegas”. Como dizia o Neves de Sousa, “colegas são as p…”; jornalistas são camaradas e tratam-se por tu.

Foi um dos maiores repórteres portugueses. Costumávamos almoçar juntos nas tabernas do Bairro Alto. Ele trabalhava no “Diário de Lisboa”, eu no “Diário Popular”. Telefonávamo-nos. Conversávamos e bebíamos. Camaradas, assim é que é, e assim é que se diz. Quando morreu uma parte da minha vida profissional foi com ele. Escrevi umas páginas comovidas e, nessa evocação, estava lá uma turma enorme de jornalistas, o Acúrsio Pereira, o Tavares da Silva, o Norberto de Araújo, o Norberto Lopes, o Carlos Ferrão, o Mário Neves, o único repórter em todo o mundo que noticiou a chacina na praça de touros de Badajoz, ordenada por Franco durante a guerra civil de Espanha. E também Urbano Carrasco, Jacinto Baptista, Abel Pereira, José de Freitas, Mário Ventura Henriques, hi! Que gente!

Não é saudades, é memória, é pagar-lhes um pouco do que lhes devo por aquilo que me ofereceram, numa dádiva generosa e amiga. Por aquilo que ofereceram ao País, que os ignora. “Pátria madrasta, país padrasto”, escreveu o grande João de Barros, o das “Décadas”. Estão a tocar à porta; é o meu Natal que chega.