Conversando à chuva sobre enigmas

 (José Pacheco Pereira, in Público, 06/01/2018)

JPP

Pacheco Pereira

A comunicação social, essa grande simplificadora, acha que foi um combate de boxe. Mas não foi. Foi mau de um lado, mas bastante meigo do outro.


[Simplicio, Sagredo e Salviati estão protegidos da chuva num alpendre. Falam. Melhor, conversam, uma arte perdida.]

Simplicio – Viste o debate entre o Alemão e o Menino?

Sagredo – Vi.

Salviati – Vi. Estava a jantar com Aquele que Todos Renegam e Todos Querem Ser. No debate.

Sagredo – Quem?

Salviati – O Camarada Operário Soberano de Todas as Alianças.

Simplicio – Isso é um enigma?

Sagredo – É. Já sabes que Salviati de vez em quando fala assim.

Simplicio – Por quê?

Salviati – Por causa da Santa Inquisição, antes que venha aí a Lei da Rolha.

Sagredo – Já não te lembras? Houve uma proposta do Menino para haver uma Lei da Rolha, mas não passou…

Salviati – … mas como isto está vai acabar por passar.

Simplicio – E valeu tudo? Até tirar olhos?

Sagredo – A comunicação social, essa grande simplificadora, acha que foi um combate de boxe. Mas não foi. Eles não sabem o que é um combate de boxe. Foi mau de um lado, mas bastante meigo do outro. Ainda há quem não entenda que em certos combates ou não se vai lá, ou se se vai é para valer. Não há murros pela metade.

Simplicio – É a tua regra Salviati?

Salviati – É. Mas tenho outra regra antes dessa. Chamemos-lhe uma regra preventiva, filha da elegância, mãe do juízo.

Simplicio – Elegância? Para aqui chamada?

Salviati – Sim. Sempre nos podemos comportar como um lorde inglês, como aqueles que estão a organizar as cartas de um antepassado e chega o mordomo e diz “sua senhoria, a Inglaterra entrou em guerra, já mandei fazer as malas”. E um ano depois está a saltar de paraquedas na Sérvia para apoiar o Tito contra os alemães. Ele, oficial, junto com o mordomo, cabo. Aconteceu.

Sagredo – Isso não há cá. Voltemos à regra.

Salviati – A regra foi feita por George Bernard Shaw…“I learned long ago, never to wrestle with a pig. You get dirty, and besides, the pig likes it.”

Sagredo – Já agora podes mandar junto o link do George Bernard Shaw para a Wikipedia, pelo menos para um deles, o que confunde os Concertos.

Simplicio – E depois, o que é que ficou?

Salviati – Muito pouco. Ao Menino não lhe disseram que quem vai a eleições não é o Outro, o Fantasma, a Sombra, aquele que em 2005 lhe chamou o “portador do caos”, mas o Alemão…

Sagredo – … e o Alemão esqueceu-se da longa lista de “trapalhadas”. Da sesta, da incubadora, da tentativa de calar o nosso gentil Presidente dos Afectos que falava na televisão, – sempre a Lei da Rolha, – da fabulosa entrevista ao Frankfurter Allgemeine

Salviati – Oh memória! “o Governo português abdica do rumo de poupança” (…) este “é o momento” para corrigir a política de austeridade dos últimos dois anos.”. Política de austeridade, de quem? Manuela Ferreira Leite. E uma conferência de imprensa eleitoralista com Mexia, ministro das Obras Públicas, – lembram-se?, – sobre o anúncio de travessias do Tejo que ainda não se sabia onde nem como eram…

Sagrado – … se por cima, se por baixo. E a incubadora com um bebé que entrou num discurso de Estado…

Simplicio – … de quê?

Salviati – … de Estado. Pobre Estado. E a Secretaria de Estado que foi de charrete, e o “caso Chaves”, a gota de água. Na verdade, havia um tsunami atrás da gota de água, visto que o CDS já andava a dizer a Sampaio que talvez fosse retirar o apoio “àquilo”.

Sagredo – É, a perda da honra da boa governação, que era apanágio da instituição. E depois o “homem também chora…menina morena. Também deseja colo”(…)  “precisa de carinho, precisa de ternura”.

Salviati – O Alemão devia ter passado o vídeo, chegava para ganhar o debate com um imenso ridículo a abater-se sobre todos nós…

Simplicio – Depois queixa-te de que ele quer a Lei da Rolha… De facto, isso é mortífero.

Sagredo – E o que está lá a fazer a “menina morena”? Mas que está, está. Até eu já estou envergonhado. Quero ir para a Islândia.

Simplicio – Também eu, simples homem da escola aristotélica, me envergonho. Mas houve coisas sérias?

Salviati – Muito poucas. E aqui a culpa é mais do Alemão, porque é dele e não do Menino que quer colo que se esperava mais.

Sagredo – Mas não sei que vírus terrível castrou o debate…

Salviati – O Passos foi o vírus. Conseguiu uma grande vitória póstuma: impedir os que podiam falar, de falar. Acabaram todos por se atolar no pior vício da instituição, o medo de discutir de forma franca e aberta o que se passou nos últimos anos. Caiu-lhes um raio em cima e nem sequer olham para a nuvem escura. Daí o ódio à Sombra.

Sagredo – Mas o Menino não queria fazer um partido com a Sombra já Passos era Presidente?

Salviati – Queria. Em data que se conhece, num local que se conhece, pelos lados da Lapa. O Menino dizia que estava “enojado” com a transumância da Senhora para o Passos, e que era melhor fazer um novo partido para concorrer  com a instituição e foi a Sombra que lhe disse que não. E a mesma proposta foi feita a outros. Não adianta desmentir.

Simplicio – Não era o Partido Social Liberal?

Salviati – Não. Foi muito depois disso.

Sagredo – Por isso a Sombra deve estar a sorrir de ironia, com tanto esquecimento conveniente, com tanta concordância tímida com o que ele disse, mesmo que só sussurrada. Que a instituição está desfeita e a perder papel, que houve “excessos” nos anos da Carruagem de Três Cavalos, que se perdeu a “consciência social”, etc., etc. Até o Menino o diz.

Salviati – Dizem, mas não “produzem”. Não há na vida política do nosso Pobre País, nenhuma instituição que melhor reúna a pompa da não-discussão por cima com a fervorosa intriga por baixo. O baixo agora são as “redes”…

Simplicio – … onde proliferam os homens eternamente “jovens” sem currículo a não ser uns teewts a pretender ser engraçados. Até eu, simples homem, sei que é que está a dar.

Sagredo – Isto não vai acabar bem. É pena, porque a instituição faz falta.

Simplicio – Mas não é a Sombra que tem a biblioteca de um bruxo? Pede-lhe uns bruxedos.

Sagredo – Ele responde torto e diz que não é preciso. Que já viu muita coisa, e que a regra é que não é preciso nenhuma invocação a um demónio para os  transformar em sapos…

Salviati – … ele diz que eles normalmente fazem isso a si próprios, sem necessidade de qualquer Demónio.

AS DIRECTAS DO PS E AS ELEIÇÕES NO PSD

(In Blog O Jumento, 06/01/2018)
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O PS escolheu o seu líder abrindo o direito de voto aos seus simpatizantes, o PSD optou por limitar a escolha aos inscritos no partido. Se no PS os candidatos tentaram mobilizar os simpatizantes da sua área, a verdade é que muitos simpatizantes se dirigiram às mesas de voto por sua própria iniciativa. No PSD o processo está limitado à “arregimentação” de militantes pelos caciques que apoiam cada um dos candidatos, ganha aquele que conseguir pagar a quota de mais militantes adormecidos ou que conseguiu inscrever mais novos militantes dentro do prazo estatutário. Quando Santana Lopes pediu mais tempo, por partir atrasado, estava mais preocupado com a possibilidade de pagar mais quotas ou inscrever mais falsos militantes.
Os modelos de eleição geram processos muito diferentes quer nos truques, nas motivações dos eleitores e nos temas dos debates. Há ainda um outro aspecto importante: no PSD quem ainda manda no aparelho, são as lideranças locais e distritais eleitas no tempo de Passos, têm um peso determinante na escolha do próximo líder. Isso explica as manifestações de vassalagem dos dois candidatos em relação a Passos Coelho e, no caso de Rui Rio, até à Maria Luís Albuquerque.
A prazo a situação é ainda mais ridícula, teremos um novo líder mas as estruturas controladas por Passos Coelho escolherão a maioria dos candidatos a deputados nas próximas legislativas. Antes disso será a máquina de Passos Coelho a escolher a maioria dos delegados ao próximo congresso. Em vez de um congresso para projetar o próximo líder e mostrar no que ele é melhor e diferente do antecessor, teremos uma romaria de homenagem a Passos Coelho.
O modelo de escolha no PSD leva a que os candidatos em vez de explicarem porque serão melhores do que o líder caído devido aos maus resultados eleitorais, degladiam-se tentando demonstrar que são mais próximos e se identificam com o líder que eles próprios ajudaram a expulsar, um porque sempre o criticou, o outro porque lhe tirou o tapete nas autárquicas de Lisboa.
Os militantes e simpatizantes do PS escolheram o líder que consideraram ter o melhor projecto para o país ou com o qual se identificavam mais. No PSD os candidatos debatem quem é que no passado foi mais fiel ao PSD, ganha aquele que nunca apareceu em iniciativas que não fossem do líder do PSD. Aparecer ao lado de um militar que ajudou a fazer o 25 de Abril e que depois mais se bateu pela democracia é equivalente a aparecer ao lado de um traficante de droga, só porque esse militar ousou criticar uma personagem como Passos Coelho.
As directas no PS nem sempre foram um modelo de virtudes, os ataques pessoais dirigidos durante a campanha, com alguns apoiantes de Seguro e o próprio Seguro a fazer insinuações, não poupando mesmo os autarcas. No PSD os candidatos tentam dar lições de cortesia, mas a verdade é que o debate entre os dois apenas serviu para escolher o que tinha mais jeito para dar golpes baixos. O mais incrível é que alguns dos comentadores mais sérios do país consideraram Santana um grande vencedor só porque é mais sujo nos ataques. Triste sorte a de um partido cujo líder se afirma desta forma.

Uma coisa arrevesada para entretenimento dos tais «deploráveis»

(Por Jorge Rocha, in Blog Ventos Semeados, 06/01/2017)

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Razões várias têm-me impedido de, nos dias mais recentes, prestar grande atenção a quanto se passa à minha volta. Daí que anteontem à noite, quando me preparava para uma sessão de cinema, tenha  reagido com alguma estupefação à invetiva de pessoa amiga, também ali a comungar do mesmo prazer cinéfilo, mas a questionar-me porque não ficara a ver o debate dessa noite.

Estava tão a leste da sucessão de Passos Coelho no PSD, que julguei referir-se ela a um daqueles painéis de «inteligentes», que costumam esmiuçar todos os pormenores sobre os jogos de futebol dos dias anteriores, e que teriam no Benfica – Sporting muito sobre que parolar. Só depois percebi, que Santana e Rio estariam por essa altura a exibir os limitados dotes perante os masoquistas, que se dispusessem a assistir-lhes ao palavreado.

Pela manhã ainda espreitei nos telejornais a síntese do que se passara e a auscultar nos jornais o que ficava como saldo. Não foi difícil entender que a televisão e o semanário de Balsemão estão rendidos à «eloquência» de Santana e deram-no como vencedor da peleja. Mas, por seu lado David Dinis, no matutino da Sonae, deu como único vencedor o tranquilo António Costa, já que tudo lhe soara ao jeito da RTP Memória (no seu pior).

Por muito que as televisões, as rádios e os jornais torçam pelo que vier a vencer, nem Santana, nem Rio têm argumentos para beliscarem a superioridade intelectual, política e executiva do atual primeiro-ministro á frente dos destinos do país. Mas ambos ensaiam duas estratégias diversas, já gastas ou em vias disso, para tentarem forçar o destino.

Rui Rio busca apoiar-se naquele segmento da população portuguesa,  que nunca conseguiu livrar-se da canga salazarenta de dentro de si, e por isso deu ao ditador de Santa Comba a vitória num lamentável concurso sobre popularidade de personagens históricos e justificou vinte anos de cavaquismo a  azucrinar-nos as mentes … e os bolsos.

Santana olha para fora do país e procura reter os exemplos de Farage, Berlusconi ou Le Pen: insulta o 25 de abril e dirá tudo quanto possa sentir como «popular» para se enquadrar na vaga de demagogos, que tem ocupado espaço político excessivo na cena europeia dos últimos anos. Acaso seja ele o vencedor, Cristas estará em maus lençóis, porque também ela anda a testar esse mesmo tipo de demagogia, e aqueles que, neste cantinho, se adequam ao qualificativo empregue por Hillary Clinton para designar os  apoiantes de Trump – os deploráveis – não são assim tantos, que dêem para garantir público bastante para dois «artistas» desse jaez.

No fundo eu tinha razão em sequer me dar ao trabalho de saber quando seria esse debate. Ele acabou por se revelar tão pequenino na relevância, que hoje já ninguém se lembra do que nele sucedeu…


Fonte aqui