Sidónio e batatinha 

(Daniel Oliveira, in Expresso, 13/01/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Tendo Passos Coelho dado ao PSD um cunho ideológico que nunca tivera, seria expectável que o debate da sucessão passasse pelo recentramento da sua identidade. Pelo contrário, a grande discussão entre Rui Rio e Santana Lopes foi saber qual dos dois foi mais fiel às posições do líder cessante. Porque não há identidade alguma para discutir.

Costuma dizer-se que o PSD é o mais português de todos os partidos. De facto, do ponto de vista das grandes famílias políticas europeias, é filho de pai incógnito. Isto resulta do contexto histórico em que se fundou: quando ser de direita era impensável, quis aderir à Internacional Socialista enquanto herdava grande parte da base de apoio do Estado Novo.

Os contactos internacionais de Soares permitiram que fosse o PS a ocupar o espaço que Sá Carneiro desejou e os combates do PREC determinaram que fosse o PS a liderar o combate aos comunistas e à extrema-esquerda. Para o PSD ficou uma função: ser alternativa ao PS. Do ponto de vista prático, é o grande partido da direita portuguesa. Só que o equívoco do seu nome e da sua fundação e a necessidade de falar para uma maioria social de esquerda impedem-no de construir um discurso coerente. As suas lideranças formam-se nesta crise identitária que erradamente se toma por pragmatismo. E nesta disputa isso foi muito evidente, até porque Santana representa a tralha “passista” com a qual teve uma relação distante e Rio não parece querer representar nada.

Não é por serem do mesmo partido que Rio e Santana não conseguiram discutir grandes diferenças políticas. Até dentro dos pequenos partidos elas existem. A ausência de clivagens com substância não resulta da falta de clivagens, resulta da falta de substância. Sobrou o estilo e esse foi miserável. Por isso, nos dois penosos debates televisivos, ficámos a saber, para além de uns vaguíssimos estados de alma sobre economia, com quem Rui Rio foi almoçar e quantas vezes Santana disse que ia sair do PSD.

O problema não é os debates terem sido violentos. Ficaram a léguas do momento em que Seguro acusou Costa de representar os negócios. Mas essa acusação tinha interesse para o conjunto dos eleitores. As conversas entre Rio e Santana ficaram ao nível da concelhia e não deviam ter saído das sedes. A violência supera-se, a mediocridade não.

PSD e PS passam, ciclicamente, por momentos em que nos perguntamos se alguma vez recuperarão. Quando estão na oposição quase todos os candidatos a líder parecem péssimos. Depois, se o poder lhes cai no colo, logo ganham uma certa gravitas. O único a quem isso não aconteceu foi mesmo Santana Lopes. Só que se olha para estes dois e percebe-se que não vai sair daqui o próximo primeiro-ministro. Rui Rio, que cheguei a pensar que seria um autoritário destinado a representar o cansaço com regime, não tem carisma para ser o Sidónio Pais modernizado que desejava. O que diz de extravagante, que costuma vir de candidatos antissistémicos, não o diz por ser um populista, que até mostrou não ser. É só a autoconfiança de um amador a falar. E Santana continua Santana, um bobo cheio de malícia que, não sendo levado a sério, sabe que nem as suas baixezas o prejudicam. É uma anedota demasiadas vezes contada da qual já ninguém se vai rir. O que a campanha revelou dos dois explica porque se discutiu tanto o que cada um fará se perder as eleições. É, se formos realistas, o tema mais relevante para o futuro próximo do PSD.

ESCOLHA DIFÍCIL

(In Blog O Jumento, 12/01/2018)
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Não quereria estar na pele de António Costa se coubesse ao líder do PS a escolha do futuro líder do PSD: se não é nada fácil escolher, de entre os dois candidatos à liderança do PSD, qual o que daria um melhor primeiro-ministro, mais difícil ainda seria escolher qual dos dois lhe proporcionaria melhores resultados nas próximas legislativas.
O PSD não parece estar a escolher um líder; pelos debates está a escolher qual o chefe guerrilheiro que poderá ferir mais o primeiro-ministro. O debate chega a um nível intelectual deprimente, tem momentos dignos de crianças do ensino básico, com Santana Lopes a acusar Rio de ter almoçado com um perigoso criminoso chamado Pacheco Pereira e aquele a ripostar mais ou menos da mesma forma.
Não importa as qualidades do futuro líder – Santana Lopes ainda fez em meia dúzia de horas um mega programa de governo -, mas a verdade é que em vez de apresentar as suas ideias limita-se a enumerar as supostas traições do seu adversário. Rui Rio responde no mesmo tom, esquecendo que depois de décadas de conluios nos jogos partidários foi conivente, ou participou, em tantas trapalhadas quantas as de Santana.
É quase deprimente ver os militantes do PSD a discutir se Santana odeia mais ou menos António Costa do que Rui Rio, com um a recusar qualquer acordo com o PS e o outro a admitir apoiar um governo do PS. Isto é, o que distingue um do outro não é a capacidade de ganhar, mas sim a forma como vão digerir uma derrota que consideram certa. Pelo meio vem Miguel Relva dizer que ganhe um ou o outro, o futuro líder do PSD vai durar dois anos, isto é, só é eleito para tomar conta da casa.
Se o PS não ganhar com maioria absoluta, e Santana for líder, ou consegue formar nova geringonça ou o país terá de repetir as eleições. É óbvio que ninguém ao centro ou à direita perdoará a Santana essa entrega do poder ao PCP e ao BE; mas se Costa optar pela repetição das eleições, já que Marcelo nunca cairia na asneira de um governo presidencial apoiado por Santana, é bem provável que o PSD desapareça nas segundas eleições.
Se Rui Rio chegar a líder do PSD não só terá um grupo parlamentar formado por um ninho de cobras, como dificilmente conseguirá levar os eleitores a votar nele para fazer o tal 25 de abril civil,  já que não terá o apoio de uma maioria constitucional que patrocine as suas idiotices. Se o que Rui Rio tem a propor é o equilíbrio orçamental que Centeno já conseguiu ou o tal 25 de abril, dificilmente conseguirá convencer alguém a votar nele.

O futuro do passado

(Por Francisco Seixas da Costa, in Blog Duas ou três coisas, 11/01/2018)

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Hoje, vou ter por aqui o meu momento Maya.
Neste sábado, Rui Rio vai vencer Santana Lopes. E a margem vai ser relativamente confortável. Rio vai fazer alguns gestos para recuperar o “passismo” que esteve com Santana, cooptando alguns dos quadros da nova geração de liberais Católica/Observador.
O futuro de Santana passará a ser incerto, porque terá de “disputar” com Passos Coelho a futura liderança da lista para o Parlamento Europeu, tanto mais que, ao contrário do que esteve (quase) para acontecer em 2011, já não haverá agora para ele a perspetiva de uma embaixada multilateral em Paris no fundo do túnel, alternativa que então recusou em face da apelativa Misericórdia (que também já se foi). Rio vai ter de agravar fortemente o discurso contra o governo de António Costa, potenciando qualquer erro deste e a mínima distanciação que vier a detetar no Presidente da República face ao governo, porque essa é a única maneira de se legitimar dentro do partido. Se vier a perder em 2019, hipótese mais provável (a menos que “trapalhadas” imprevisíveis, internas ou na ordem financeira externa venham a ocorrer, o que não é de excluir, em absoluto), “saltará” no dia seguinte às eleições, com Luis Montenegro a suceder-lhe, quase pela certa. Isso limitará muito as chances de Carlos Moedas, que em 2019 sairá da Comissão Europeia (onde será seguramente substituído por Mário Centeno) e cujas hipóteses de vir a suceder a Rio seriam maiores se a derrota do PSD nesse ano fosse titulada por Santana Lopes, porque os “passistas” (e Montenegro) seriam disso co-responsabilizados.
As coisas vão correr assim? Vão, tal como o (meu) Sporting vai ganhar o campeonato (já a “Champions” está um pouco mais difícil) e eu o Euromilhões.