((Kevin Gosztola [*], In Project Censored, 10/03/2024, Trad. José Catarino Soares)

Em Março de 2023, quando o meu livro [Guilty of Journalism: The Political Case Against Julian Assange, “Culpado por fazer jornalismo: o processo político contra Julian Assange”, n.t.] sobre o processo contra Julian Assange foi publicado, o fundador da WikiLeaks, que estava detido, aguardava para saber se um tribunal de recurso em Londres lhe permitiria recorrer da extradição para os Estados Unidos. [n.t.= nota do tradutor]
Agora, Guilty of Journalism: The Political Case Against Julian Assange está disponível nas prateleiras das livrarias há um ano — e Assange ainda não sabe se tem autorização para recorrer [e continua detido, n.t.].
Este limbo tornou-se uma caraterística da acusação contra Assange. A marcha do tempo corrói Assange enquanto as autoridades de sangue-frio o mantêm em detenção arbitrária.
Assange tinha 38 anos quando a WikiLeaks foi elogiada por ter publicado as revelações de Chelsea Manning, uma lançadora de alerta do exército americano. Assange era um ardente, ágil e perspicaz defensor da verdade. Mas, aos 52 anos, Assange está cada vez mais frágil, porque os atrasos nos processos em que está envolvido agravam os problemas de saúde física e mental que tem de enfrentar na prisão de Belmarsh [uma prisão de alta-segurança nos arredores de Londres onde Assange está encarcerado há 5 anos sem culpa formada, n.t.]
O governo do Presidente Joe Biden pode preferir o limbo a um julgamento sem precedentes que irá abrir caminho a uma condenação global. Nenhum serventuário de Biden manifestou quaisquer reservas quanto à acusação feita a Assange.
Os serventuários de Biden continuam a evitar os repórteres, que perguntam porque é que o governo dos EUA não retira as acusações contra Assange. O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional de Biden disse em Outubro de 2023: «Isso é algo que o Ministério da Justiça [Ingl. Justice Department, n.t.] está a tratar, e acho que é melhor interrogá-lo sobre esse assunto».
Mas o Ministério dos Negócios Estrangeiros americano [Ingl. State Department, n.t.] nem sempre foi tão disciplinado. No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa em 2023, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros americano, Verdant Patel, endossou a acusação que foi lançada a Assange durante a presidência de Donald Trump.
«O Ministério dos Negócios Estrangeiros considera que o Sr. Assange foi acusado de conduta criminosa grave nos Estados Unidos, em conexão com seu alegado papel numa das maiores fugas de informações confidenciais na história do nosso país. As suas acções colocaram em risco a segurança nacional dos EUA em benefício dos nossos adversários», afirmou Patel.
Patel acrescentou: «Colocou fontes humanas identificadas pelo nome em grave e iminente risco de danos físicos graves e detenção arbitrária».
O que o Ministério dos Negócios Estrangeiros americano disse é recorrente. Foi assim que os seus serventuários responderam quando a WikiLeaks publicou pela primeira vez os telegramas diplomáticos dos EUA em 2010.
Para ser claro, o “papel” de Assange era o de um editor que recebia documentos de Manning e se dedicava a actividades normais de recolha de notícias.
Uma análise de 2011 da Associated Press sobre as fontes que o Ministério dos Negócios Estrangeiros americano afirmava estarem em maior risco devido à publicação dos telegramas, não revelou provas de que qualquer pessoa tivesse sido ameaçada. De facto, o potencial de dano era “estritamente teórico”.
Apesar do processo contra Assange marcar passo, o movimento internacional para o libertar tem vindo a ganhar força. Parlamentares dos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e México enviaram cartas ao Procurador-Geral Merrick Garland exigindo o fim do processo.
Vinte sindicatos filiados na Federação Europeia de Jornalistas mostraram-se solidários, conferindo a Assange o estatuto de membro honorário em cada uma das suas organizações.
Em 4 de Março de 2024, o Chanceler alemão, Olaf Scholz, disse esperar que os tribunais britânicos bloqueassem a extradição, o que é notável dado o estatuto da Alemanha como um poderoso país da OTAN[/NATO].
Mais importante ainda, o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, apoiou uma moção aprovada pelo Parlamento australiano que apelava ao governo dos EUA ‒ um parceiro militar e de serviços secretos muito chegado da Austrália ‒ para “encerrar o caso” de modo a que Assange possa regressar ao seu país.
Assange é um dos prisioneiros políticos mais conhecidos do mundo. Se o governo dos EUA levar o fundador da WikiLeaks a julgamento, não só ameaçará a Primeira Emenda [da Constituição dos EUA, n.t.] nos Estados Unidos como também porá em perigo o jornalismo de investigação em todo o mundo.
É pouco provável que o sistema jurídico do Reino Unido ou dos Estados Unidos nos proteja dos danos causados à liberdade de imprensa global que os seus governantes estão a infligir aos nossos direitos colectivos. Para evitar mais danos, teremos de encontrar uma forma de vexar o governo dos EUA para que abandone o caso. Caso contrário, muitos de nós poderão vir a ser processados por cometerem actos de jornalismo.
[*] Kevin Gosztola edita e publica o boletim informativo The Dissenter, que aborda regularmente assuntos como a liberdade de imprensa, os lançadores de alerta e o secretismo governamental no The Dissenter.
Fonte aqui.
Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.



