O caso do século em matéria de liberdade de imprensa

((Kevin Gosztola [*], In Project Censored, 10/03/2024, Trad. José Catarino Soares)

21 de Fevereiro de 2024. Londres. Stella Morris Assange, a mulher e advogada de Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, discursa nas imediações do Alto Tribunal de Justiça do Reino Unido sobre o recurso de Assange contra a sua extradição para os EUA.

Em Março de 2023, quando o meu livro [Guilty of Journalism: The Political Case Against Julian Assange, “Culpado por fazer jornalismo: o processo político contra Julian Assange”, n.t.] sobre o processo contra Julian Assange foi publicado, o fundador da WikiLeaks, que estava detido, aguardava para saber se um tribunal de recurso em Londres lhe permitiria recorrer da extradição para os Estados Unidos. [n.t.= nota do tradutor]

Agora, Guilty of Journalism: The Political Case Against Julian Assange está disponível nas prateleiras das livrarias há um ano — e Assange ainda não sabe se tem autorização para recorrer [e continua detido, n.t.].

Este limbo tornou-se uma caraterística da acusação contra Assange. A marcha do tempo corrói Assange enquanto as autoridades de sangue-frio o mantêm em detenção arbitrária.

Assange tinha 38 anos quando a WikiLeaks foi elogiada por ter publicado as revelações de Chelsea Manning, uma lançadora de alerta do exército americano. Assange era um ardente, ágil e perspicaz defensor da verdade. Mas, aos 52 anos, Assange está cada vez mais frágil, porque os atrasos nos processos em que está envolvido agravam os problemas de saúde física e mental que tem de enfrentar na prisão de Belmarsh [uma prisão de alta-segurança nos arredores de Londres onde Assange está encarcerado há 5 anos sem culpa formada, n.t.]

O governo do Presidente Joe Biden pode preferir o limbo a um julgamento sem precedentes que irá abrir caminho a uma condenação global. Nenhum serventuário de Biden manifestou quaisquer reservas quanto à acusação feita a Assange.

Os serventuários de Biden continuam a evitar os repórteres, que perguntam porque é que o governo dos EUA não retira as acusações contra Assange. O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional de Biden disse em Outubro de 2023: «Isso é algo que o Ministério da Justiça [Ingl. Justice Department, n.t.] está a tratar, e acho que é melhor interrogá-lo sobre esse assunto».

Mas o Ministério dos Negócios Estrangeiros americano [Ingl. State Department, n.t.] nem sempre foi tão disciplinado. No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa em 2023, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros americano, Verdant Patel, endossou a acusação que foi lançada a Assange durante a presidência de Donald Trump.

«O Ministério dos Negócios Estrangeiros considera que o Sr. Assange foi acusado de conduta criminosa grave nos Estados Unidos, em conexão com seu alegado papel numa das maiores fugas de informações confidenciais na história do nosso país. As suas acções colocaram em risco a segurança nacional dos EUA em benefício dos nossos adversários», afirmou Patel.

Patel acrescentou: «Colocou fontes humanas identificadas pelo nome em grave e iminente risco de danos físicos graves e detenção arbitrária».

O que o Ministério dos Negócios Estrangeiros americano disse é recorrente. Foi assim que os seus serventuários responderam quando a WikiLeaks publicou pela primeira vez os telegramas diplomáticos dos EUA em 2010.

Para ser claro, o “papel” de Assange era o de um editor que recebia documentos de Manning e se dedicava a actividades normais de recolha de notícias.

Uma análise de 2011 da Associated Press sobre as fontes que o Ministério dos Negócios Estrangeiros americano afirmava estarem em maior risco devido à publicação dos telegramas, não revelou provas de que qualquer pessoa tivesse sido ameaçada. De facto, o potencial de dano era “estritamente teórico”.

Apesar do processo contra Assange marcar passo, o movimento internacional para o libertar tem vindo a ganhar força. Parlamentares dos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e México enviaram cartas ao Procurador-Geral Merrick Garland exigindo o fim do processo.

Vinte sindicatos filiados na Federação Europeia de Jornalistas mostraram-se solidários, conferindo a Assange o estatuto de membro honorário em cada uma das suas organizações.

Em 4 de Março de 2024, o Chanceler alemão, Olaf Scholz, disse esperar que os tribunais britânicos bloqueassem a extradição, o que é notável dado o estatuto da Alemanha como um poderoso país da OTAN[/NATO].

Mais importante ainda, o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, apoiou uma moção aprovada pelo Parlamento australiano que apelava ao governo dos EUA ‒ um parceiro militar e de serviços secretos muito chegado da Austrália ‒ para “encerrar o caso” de modo a que Assange possa regressar ao seu país.

Assange é um dos prisioneiros políticos mais conhecidos do mundo. Se o governo dos EUA levar o fundador da WikiLeaks a julgamento, não só ameaçará a Primeira Emenda [da Constituição dos EUA, n.t.]  nos Estados Unidos como também porá em perigo o jornalismo de investigação em todo o mundo.

É pouco provável que o sistema jurídico do Reino Unido ou dos Estados Unidos nos proteja dos danos causados à liberdade de imprensa global que os seus governantes estão a infligir aos nossos direitos colectivos. Para evitar mais danos, teremos de encontrar uma forma de vexar o governo dos EUA para que abandone o caso. Caso contrário, muitos de nós poderão vir a ser processados por cometerem actos de jornalismo.

[*] Kevin Gosztola edita e publica o boletim informativo The Dissenter, que aborda regularmente assuntos como a liberdade de imprensa, os lançadores de alerta e o secretismo governamental no The Dissenter.

Fonte aqui.


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A censura como modelo de governação apresentado em Davos

(Por Pierre-Alain Depauw, in ReseauInternational, 31/01/2024, Trad. Estátua de Sal)

Em Davos, os dirigentes da Nova Ordem Mundial anunciaram uma nova era de censura daquilo a que chamam “desinformação”.


Uma das conclusões a que chegaram os campeões da Nova Ordem Mundial, na sua recente reunião no Fórum Económico Mundial de Davos, é que têm de combater aquilo a que chamam “desinformação”. Por outras palavras, querem acabar com as informações e opiniões críticas às suas teses sobre temas como o aborto, a ideologia de género, a soberania das nações, as pandemias passadas e futuras, etc.

Censura para “restabelecer a confiança”

Em resposta ao crescente ceticismo da opinião pública em relação à agenda globalista, o Fórum de Davos designou a sessão deste ano como “reconstruir a confiança”. Ao longo do evento, vários oradores reiteraram que o que consideram ser “desinformação” está a corroer a confiança nas instituições internacionais e que os líderes mundiais têm a obrigação moral de a combater.

O inimigo de Davos: aqueles que defendem “os valores da família ou a preservação das nossas tradições”.

Tirana Hassan, directora executiva da Human Rights Watch, associou o atual “clima de desinformação” ao autoritarismo. Tirana Hassan disse que “os sinais de alerta [do autoritarismo] aparecem… com conceitos como a proteção dos valores familiares ou a salvaguarda das nossas tradições” e que o público deve prestar muita atenção. “Tendem a ser egoístas, manipuladores e quase sempre prejudicam as pessoas e restringem os direitos humanos”.

Hassan acrescentou: “Outro exemplo é quando os direitos das mulheres estão a ser atacados… os governos dizem às mulheres… se podem ou não engravidar… na Florida, a censura educativa onde os estudantes são proibidos de aprender sobre a identidade sexual e de género”.

“Desinformação e COVID-19 – Informações estratégicas”

O Relatório de Davos sobre os Riscos Globais 2024 cita a desinformação e a falta de informação como os maiores riscos globais a curto prazo. O Fórum lançou uma iniciativa intitulada “Desinformação e COVID-19 – Inteligência Estratégica” que promoveu o discurso dominante sobre a resposta à pandemia.

Meredith Kopit Levien, Presidente e Directora Executiva do The New York Times, afirmou que “o Google fez verdadeiros progressos na forma como as coisas são indexadas”, o que significa que é eficaz a gerar e a promover o “tipo certo” de conteúdo para o topo da classificação das páginas de resultados de pesquisa, enquanto a “informação indesejável” é empurrada para baixo, tornando-se muito difícil de encontrar. Muitos utilizadores sabem disso, especialmente no contexto da Covid, quando tinham de percorrer dezenas de páginas do Google para aceder a conteúdos dissidentes.

A missão de controlo do discurso está também a ganhar peso na UE. No seu discurso, Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, afirmou que “para a comunidade empresarial global”, a principal preocupação nos próximos dois anos não são os conflitos ou o clima. “É a desinformação e a desinformação. Os valores que nos são queridos online também devem ser protegidos online”, afirmou Von der Leyen. Estes valores incluem o acesso ao aborto e a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que estão entre as prioridades da UE nos fóruns de direitos humanos da ONU em 2024.

Vera Jourová, Vice-Presidente da Comissão Europeia responsável pelos valores mobiliários e pela transparência, afirmou que a UE está “concentrada em melhorar o sistema para que as pessoas obtenham as informações correctas”. Vera Jourová saudou as capacidades de verificação de factos online e disse que a Europa “tem todas as grandes tecnologias de que precisamos para combater a desinformação”.

Durante os debates, Von der Leyen e Jourová também discutiram a Lei dos Serviços Digitais, uma proposta legislativa da UE que estabelece regras para regular as plataformas e serviços online em toda a UE. A lei inclui uma secção sobre “mitigação de riscos, como a manipulação e a desinformação”. A partir de 17 de fevereiro, a lei deverá ser vinculativa para todas as entidades reguladas e os Estados-Membros da UE terão de criar coordenadores dos serviços digitais.

Fonte aqui


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DAVOS. O preocupante discurso de Von Der Leyen pela liberdade de pensamento e expressão

(Charles Sannat, in La Cause du Peuple, 21/01/2024, trad. Estátua de Sal)

Eis Ursula Von Der Leyen , apelidada por algumas más línguas, incluindo eu mesma, “Cruella” Von der, a hiena, a líder da matilha de uma tropa terrível que come e devora todas as ovelhas simpáticas que acreditavam que podiam vaguear livremente pelos prados, cantando, dançando, conversando e lendo como quisessem.


Não. Para a presidente do grande comité (de Bruxelas), o principal perigo que enfrentamos não é o feio Putin (apelidado de Palputine) ou a guerra na Ucrânia.

Não. Para a Cruella de Bruxelas, o principal perigo não são as alterações climáticas (não estou a dizer-vos que deveis ter medo, digo-vos, no entanto, que todos os dias apresentamos o aquecimento global como a causa do nosso terrível sofrimento. futuro).

Não. O principal perigo para Cruella é… a liberdade de pensamento e expressão.

Ela não diz exatamente assim, mas é exatamente isso que ela explica de qualquer maneira: “A nossa principal preocupação para os próximos anos não é o conflito ou o clima, é a desinformação e a má informação seguida de perto pela polarização nas nossas sociedades. Estes riscos são graves porque limitam a nossa capacidade de enfrentar os principais desafios globais que enfrentamos, como o clima, mudanças geopolíticas, demográficas ou tecnológicas. 

O que diz a Cruella da Comissão é muito lógico de compreender. Ela não comete erros.

Se se pretende impor grandes mudanças no nosso modo de vida, ligadas a uma grande mudança nas políticas climáticas, geopolíticas, demográficas ou tecnológicas que serão levadas a cabo contra o povo, é necessário, para que o povo as aceite, controlar muito precisamente o que pode ser dito e, portanto, pensado.

O problema com o conceito abrangente de “desinformação e desinformação” é que podemos lá incluir qualquer coisa que não vá na direção da casta de Davos, estas 5.000 pessoas que governam o mundo porque dirigem as 5.000 maiores empresas, as 5.000 maiores multinacionais.

A casta de homens de Davos (e mulheres, há total paridade na maldade), precisa controlar o que pensamos e, portanto, o que podemos dizer.

Este é todo o sentido da luta da grande comissão de Bruxelas contra a rede Twitter de Elon Musk.

Nunca se esqueça. Não somos um pouco livres da mesma forma que não estamos um pouco grávidos. Somos livres ou não somos.A liberdade é o regime geral. A proibição é sempre a exceção.

Para a liberdade de expressão, esta citação atribuída a Voltaire (provavelmente erradamente) permanece cruelmente relevante: “Não concordo com o que você diz, mas lutarei até a morte pelo seu direito de dizê-lo. »

Pode ver o discurso de Von der Lyen em Davos, aqui.


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