Como Draghi e os últimos 30 anos abriram caminho à extrema-direita

(In AbrilAbril, 30/07/2022)

A queda do «Super Mario» provocou pânico em Bruxelas e a indignação dos meios de comunicação social. A vitória da extrema-direita é quase uma certeza.


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Alma Grande

(TIMOTHY GARTON ASH, in Expresso Diário, 12/04/2020)

Jean Monnet disse que “a Europa será forjada em crises e será a soma das soluções adotadas para essas crises”. O tipo de Europa que emerja desta crise vai depender das respostas dadas a três testes.

O TESTE HÚNGARO

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Uma ditadura pode ser membro da UE? Já antes deste ano Viktor Orbán e o seu partido Fidesz tinham adulterado a democracia na Hungria a tal ponto que o país não se qualificaria para adesão à UE se fosse candidato. Usa agora a justificação do combate à pandemia do coronavírus para se apropriar de vastos poderes de emergência, que lhe permitem governar por decreto por período ilimitado. A Hungria é, enquanto durarem tais poderes, uma ditadura. Monnet também disse que uma ditadura não pode ser membro da Comunidade Europeia (que posteriormente se tornou a UE). Hoje há uma que é.

As sanções ao dispor das instituições da UE são lentas e complexas, mas há uma organização que pode e deve agir agora de maneira decisiva: o Partido Popular Europeu (PPE), o grupo de centro-direita extremamente influente a que ainda pertence o Fidesz (embora o partido esteja teoricamente “suspenso”, os seus eurodeputados continuam a funcionar como parte do grupo do PPE no Parlamento Europeu). O PPE deveria ter expulsado o Fidesz há muito. Em vez disso, seguiu uma política de apaziguamento. Se não expulsar agora o partido do ditador húngaro, perderá os últimos vestígios de credibilidade. Quando os políticos do PPE fizerem grandes discursos sobre democracia, Estado de direito e valores europeus, os jovens europeus terão mais do que justificação para gritarem: seus grandes hipócritas!

O TESTE ITALIANO

Há solidariedade no coração da Europa? Irá a zona euro permitir que os seus Estados-membros mais afetados recuperem? No mês passado, assistimos com horror enquanto uma das regiões mais desenvolvidas do nosso continente, com um dos melhores serviços de saúde, foi quase devastada pela pandemia. Quando a Itália emergir deste inferno, enfrentará o enorme desafio da recuperação económica, agravada por já ter um dos mais pesados encargos da dívida pública da zona euro. A sua capacidade de contrair o empréstimo das volumosas quantias necessárias dependerá da credibilidade do apoio mútuo na zona euro.

É na resposta ao teste italiano que o contributo da Alemanha será decisivo. O futuro da Itália está nas mãos dos alemães

Mesmo antes da pandemia, a Itália passara de um dos países mais europeístas da UE para um dos mais eurocéticos. A crise exacerbou esses sentimentos. Numa sondagem no início de março, 88% dos italianos afirmaram que a Europa não estava a apoiar o seu país; impressionantes 67% sentem a pertença à UE como desvantagem. Há uma União Europeia sem o Reino Unido. Não há União Europeia sem a Itália.

O TESTE ALEMÃO

A Alemanha poderá salvar a situação? Aceitará a potência central europeia, por fim, a lógica da união monetária de que tanto beneficiou? A Alemanha deu resposta nacional à pandemia mais impressionante do que qualquer outra democracia fora da Ásia. O seu fornecimento de testes em larga escala, ventiladores e camas para cuidados intensivos mostra as vantagens de ter bons serviços públicos e uma forte indústria sanitária. Angela Merkel fez um excelente discurso ao país pela televisão, uma lição sobre democracia, solidariedade e responsabilidade individual, proferida com o cérebro de uma cientista e o coração da filha de um pastor. Só faltou uma coisa. A palavra “Europa”.

Entretanto, a Alemanha mostrou solidariedade com os seus pressionados vizinhos europeus, enviando remessas de máscaras para a Lombardia e transportando pacientes italianos e franceses em estado grave para hospitais alemães. Mas é para responder à crise económica e política que a liderança alemã é realmente convocada.

A Alemanha pode ajudar a Europa a passar o teste húngaro, sobretudo porque os democratas-cristãos de Merkel (CDU) são o partido mais poderoso do PPE. Agora, terão decerto de se decidir pela expulsão do Fidesz. Todos os candidatos que se preparam para suceder a Merkel como líder dos democratas-cristãos devem ser questionados sobre a sua posição em relação a isto.

Merkel tem uma última e inesperada oportunidade de passar à História como a grande arquiteta de uma UE mais forte

Contudo, é na resposta ao teste italiano que o contributo da Alemanha será decisivo. Como se lia numa manchete recente, o futuro da Itália está nas mãos dos alemães. Se a zona euro e, portanto, a Europa, recuperarem a saúde económica, o Governo italiano e outros do sul da Europa têm de poder contrair empréstimos recorrendo à credibilidade financeira da Alemanha e de outros estados do norte da Europa. Ao lado da Itália, Espanha foi o país mais atingido pela crise. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, falou da necessidade de uma “economia de guerra” na Europa e apelou a um novo Plano Marshall intraeuropeu.

Sete importantes economistas alemães argumentaram de forma convincente que este plano de recuperação europeu deve incluir a emissão de 1 bilião de euros em títulos comunitários, garantidos em conjunto por todos os Governos da zona euro. Ao contrário dos eurobonds discutidos após a crise financeira, seria dinheiro novo, destinado a enfrentar os resultados de um desastre natural pelo qual nenhum Governo do sul da Europa poderá ser responsabilizado.

Perguntar exatamente como esse apoio deve ser prestado levar-nos-ia para os meandros dos acrónimos BCE, BEI, MEE e até MEEF (nem pergunte), mas a questão básica é simples: tendo posto de lado os seus tabus orçamentais (‘travão da dívida’, ‘base zero’) para ajudar-se a si mesma, num montante que pode aproximar-se de 1 bilião de euros, estará a Alemanha disposta a fazer uma fração disso a fim de ajudar outros países que estão no mesmo barco? No caso de uma união monetária, “o mesmo barco” não é apenas uma metáfora vaga. Qualquer que seja o pacote que os dirigentes europeus acordem esta semana, ele deve ser grande e ser visto como tal.

O principal tabloide alemão, “Bild”, publicou recentemente uma carta aberta à Itália intitulada ‘Estamos convosco!’. Elogiava a Itália por ter trazido “boa comida” para a Alemanha e concluía: “Ciao, Italia. Vemo-nos de novo em breve. Vamos todos beber um espresso, um vino rosso, seja de férias ou numa pizaria.” Uma ideia interessante de solidariedade. Dias antes, o mesmo jornal publicava um artigo intitulado “Que será do euro? A mutualização da dívida está ameaçada”. Caro leitor do “Bild”, o que a Itália precisa não é do seu hábito de beber um café quando vai de férias para a Toscana, por mais encanto que isso tenha, mas da mutualização da dívida, consequência necessária de uma união monetária europeia da qual você, caro leitor do “Bild”, muito beneficiou.

Há uma pessoa na Europa que pode realizar e defender as ações necessárias: a chanceler Merkel. No ano passado, argumentei que a Alemanha precisava de uma mudança de Governo, porque a Grande Coligação [CDU e SPD, social-democrata] estava exausta e, por conseguinte, os extremos políticos que se lhe opunham estavam a fortalecer-se. Isso agora está fora de questão, no meio de uma tempestade de força 10.

Em vez disso, Merkel tem uma última e inesperada oportunidade de passar à História como a grande arquiteta de uma União Europeia mais forte. Bismarck disse que a política consiste em esperar para ouvir os passos de Deus a avançar na História e depois saltar para se agarrar às abas do seu casaco. Esse casaco está a passar agora.


Diário da Peste: “A salvação agarra-se à pequena fissura”

(Gonçalo M. Tavares, in Expresso Diário, 29/03/2020)

Diário da Peste, 28 de março

“A salvação agarra-se à pequena fissura na catástrofe contínua”, escreveu Walter Benjamin.
É preciso salvar nos pequenos intervalos, nas pausas.
Quando o diabo se distrai um segundo, eis uma fissura.
E aí entra a salvação.
Espanha.
Dia 26 de Março “na planta numero 4, na habitacion 429 del Hospital del mar”.
Um vídeo.
No Hospital del Mar uma enfermeira pega no seu próprio telemóvel e faz uma chamada para o filho de um doente.
4º Andar, quarto 429.
Faz uma vídeo chamada, pega no telemóvel, aponta para o rosto do doente.
“Respira bem, sim, sem a máquina”, diz ela para o filho do doente acamado.
E repete, a sorrir: “Não vê? Não vê?”
Quer mostrar que o pai dele não está tão doente, que melhorou.
Repete: respira sem máquina, está só com uma máscara!
Fala como se anunciasse a um pai que acabou de lhe nascer um filho.
Mas não.
Está a anunciar a um filho que o pai ainda está vivo.
O doente levanta a mão em direcção à imagem do filho.
A enfermeira aproxima o telemóvel.
A mão fica a uns centímetros do ecrã.
Tocar no rosto do filho na tela é nestes dias tocar no rosto do filho.
Quase tocar na tela é quase tocar no corpo.
Olá! eu sou a Susana, diz a enfermeira com ar feliz para o filho que está no outro lado do ecrã.
É preciso infiltrar nas fissuras a alegria.
Como se a alegria fosse um material médico.
Quase um material de salvação.
Certos enfermeiros usam esse material.
Que bom, José. Diz a enfermeira, viste o teu filho.
Quem está a filmar tudo é um colega do quarto do doente José.
Quem estava a filmar, outro doente, termina a gravação com a frase, numa voz cansada:
“Muita felicidade para todos”.
Alguém que está doente fala da felicidade dos outros.
Alguém que está doente consegue mudar de assunto.
O assunto não sou eu, diz – de uma cama do hospital – quem deseja aos outros felicidades.
Há fissuras evidentes e até belas na catástrofe contínua.
Benjamin fala numa investigação necessária. Perceber se os extremos da salvação têm ou não dois nomes: cedo demais e tarde demais.
Escrevo.
A salvação é o que está no meio do cedo demais e do demasiado tarde.
A salvação só existe como efeito de uma absoluta pontaria no tempo.
Acertar no tempo como num alvo móvel que tem dois limites exteriores: cedo demais/ tarde demais.
Já se viu que a peste não é uma fissura, não é qualquer coisa que se remende facilmente.
A alegria não basta, mas é necessária.
Uma alegria que salvasse, que fosse máquina de fazer respirar quem começa a não conseguir respirar.
Uma máquina não pode dar alegria.
Ou talvez possa, mas não de forma directa.
Uma máquina cuja função fosse instalar na fissura da doença uma alegria alta ou pelo menos mínima.
Encomendar máquinas que não existem a fábricas que ainda não existem.
Leio La Repubblica e estremeço.
Digo alto a frase.
Repetir alto uma frase até ela se dissolver no ar, como se não tivesse existido.
Repetir 100 vezes uma frase para ela desaparecer.
Como se o uso repetido fosse uma forma de destruição das frases e das coisas.
No La Repubblica dizem que na Lombardia já não há avós.
É esta a frase.
É preciso repeti-la até ela desaparecer no ar.
Escondê-la debaixo do chão ou então repeti-la até ela desaparecer no ar.
No La Repubblica dizem que na Lombardia já não há avós.