A Terceira Guerra Mundial vai começar

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247, 27/02/2026)


Sinais geopolíticos indicam escalada de tensão entre EUA, China, Rússia e Irão.


Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, quando o cheiro da guerra estava no ar, um dos mais prolixos defensores da paz, o escritor Romain Rolland, Prémio Nobel da Literatura de 1915, escrevia que a urgência do momento já não permitia a circunspecção analítica da complexidade dos fatores que impulsionavam a guerra. A guerra podia começar a qualquer momento, antes mesmo de terminarmos as nossas reflexões. Posso estar redondamente enganado, mas sinto-me hoje a viver a mesma perplexidade que assombrou Rolland nos meses que antecederam o início da Primeira Guerra Mundial. Por isso, este texto desagradará aos meus leitores habituais. E, para complicar as coisas, eu desejo ardentemente estar enganado ao escrever, no que se segue, a iminência da guerra.

Ao contrário do que aconteceu nas guerras anteriores, menos gente no mundo pode declarar-se surpreendida quando as notícias da próxima guerra global rebentarem. É que os sinais são muito evidentes e são muito conhecidos. Tal como aconteceu com os impérios anteriores, o declínio do imperialismo norte-americano será lento e violento até que uma guerra precipite o seu fim. Em 1914, havia quatro grandes impérios: o alemão, o austro-húngaro, o russo e o otomano. Nenhum deles sobreviveu à Primeira Guerra Mundial. Restaram os impérios assentes em colônias (britânico, francês, italiano, japonês, português, holandês, belga e espanhol). Nenhum deles sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, embora agonizassem durante algum tempo (o português, até 1975).

Que impérios existem hoje? Se entendermos, por império, toda a unidade política de grande escala com um poder central que exerce o controle sobre povos distintos tratados discriminadamente em resultado de conquista militar, colonização ou pressão económica, podemos afirmar que hoje existem os seguintes impérios: EUA, China, Rússia, Israel e União Europeia. Pode surpreender incluir na lista Israel, porque a sua escala é menor. Mas em contrapartida é o país que mais diretamente assume as formas mais antigas de dominação imperial: conquista militar e colonização. Pode também surpreender que a União Europeia seja considerada um império. É um quase-império, um império em formação. Não o era na origem, mas tem-se vindo a constituir como tal à medida que aumenta a assimetria política entre os povos que a constituem (relações imperiais entre países supostamente iguais na partilha da soberania) e se prepara para agressões militares (ainda que justificadas como defesas militares). A nova rivalidade imperial pode definir-se assim: de um lado, EUA, UE e Israel; e do outro, China e Rússia. Cada grupo tem um líder que define uma estratégia colectiva. Na atualidade, os líderes são EUA e China.

Cada grupo imperial defende a ideia de multipolaridade enquanto isso convém ao seu fortalecimento. Continua a convir à China, mas deixou de convir aos EUA. É esta assimetria que vai conduzir à próxima guerra. Mas os rivais evitam enfrentar-se diretamente durante o maior tempo possível. Para isso, usam as guerras por procuração (proxy wars) com o objetivo de enfraquecer o rival. A primeira guerra por procuração é a guerra Rússia-Ucrânia, uma guerra encorajada pelos EUA para neutralizar um dos principais aliados da China – a Rússia. Enquanto precisar dos EUA para terminar a guerra com a Ucrânia, a Rússia não interferirá em qualquer outra intervenção imperial norte-americana.

A segunda guerra por procuração foi a guerra Israel-Palestina com o objetivo de consolidar a derrota histórica do Islão que remonta às Cruzadas. Devido a essa derrota, os países islâmicos têm estado sempre sob suspeita porque a sua lealdade às potências cristãs que historicamente os derrotaram é sempre vista como matéria de conveniência. O modo como eles se têm comportado perante a guerra Israel-Palestina mostra ao grupo imperial EUA-UE-Israel que o Islão está bem neutralizado. Com uma excepção, o Irão, o único Estado que se define como teocracia e que, como tal, vê a ferida da derrota histórica como permanentemente sangrando. O Irão não pode ser neutralizado. Tem de ser destruído. O mesmo se pode dizer de Cuba, mas Cuba não tem para a China ou para a Rússia a importância que tem o Irão.

Por esta razão estou convencido de que a guerra vai começar e o Irão será o centro dessa guerra. O problema é que o Irão é muito mais forte que a Ucrânia ou que a Palestina e por isso uma guerra por procuração contra o Irão terá consequências imprevisíveis.

Entre elas, a menos imprevisível é a generalização da guerra quando a China concluir que, com a derrota do Irão (que é muito provável), deixou de poder dispor dos recursos energéticos essenciais para a sua expansão. É preciso ter em vista que a China acaba de sofrer uma enorme derrota na Venezuela e que os países latino-americanos são para a China o que os países do Médio Oriente são para os EUA. A sua lealdade decorre da conveniência e, além disso, estão sob crescente pressão norte-americana para diminuir as relações com a China.

É, pois, muito provável que a Terceira Guerra Mundial comece. Como disse, os sinais são evidentes, mas isso não significa que não cause surpresa. É que tal como Cuba é o mesmo que Gaza, mas sem bombas, a Terceira Guerra Mundial pode começar por qualquer elo fraco do imperialismo EUA-UE-Israel. Suspeito que esse elo fraco seja o dólar como moeda de reserva mundial. A guerra começa com a perda do poder econômico à escala mundial e amplia-se com o colapso do capital financeiro assente no dólar. As bombas podem ser usadas como causas ou como consequências. Só assim não será se as reservas de ouro que os países têm vindo a acumular freneticamente o impedir. Duvido muito.

Nada podemos fazer para evitar a Terceira Guerra Mundial?

Podemos.

1 – Uma petição internacional, pedindo ao Secretário-geral da ONU, António Guterres, que se demita imediatamente ante a alta probabilidade da ocorrência da guerra e a impotência da ONU para a evitar.

2 – Ir para as ruas em defesa de Cuba e do Irão como fomos em defesa da Palestina.

3 – Organizar protestos em frente das embaixadas dos EUA, de Israel e das representações da UE.

4 – Considerando que o elo mais repugnante (ainda que não mais fraco) da tríade EUA-UE-Israel é Israel, boicotar Israel por via do movimento BDS.

Fonte aqui

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Mais valia estarem calados

(João Gomes, in Facebook, 25/02/2026)


Em 2025 escrevi sob o peso de uma guerra prolongada e de um ambiente estratégico saturado de medo, rearmamento acelerado e retórica maximalista. A Europa despertava tarde para vulnerabilidades acumuladas, investia em defesa, falava de autonomia estratégica – mas fazia-o num clima psicológico que começava a normalizar o impensável. É nesse espírito de guerra que devem ser enquadradas as declarações de ontem do almirante na reserva Henrique Gouveia e Melo.

As suas palavras exatas foram claras: a Rússia só teria vantagem num conflito prolongado com a União Europeia se recorresse à guerra nuclear – algo que considerou “impensável”, porque as ogivas nucleares de França e Reino Unido seriam suficientes para dissuadir. “Não é preciso ter mil ogivas nucleares, basta 200 ou 300 para destruir o território todo”, afirmou.

Importa ser intelectualmente rigoroso: o almirante não defendeu a proliferação nuclear europeia. Referia-se ao arsenal já existente de França e Reino Unido como suficiente para dissuasão. A crítica, portanto, não é sobre expansão nuclear. É mais profunda do que isso.

1. A banalização aritmética do apocalipse

Mesmo no contexto da dissuasão, afirmar que “basta 200 ou 300 para destruir o território todo” reduz a questão nuclear a uma equação quantitativa. Ora a dissuasão não é uma operação de contabilidade. É um equilíbrio psicológico, político e estratégico extremamente delicado. Transformar centenas de ogivas – instrumentos de devastação irreversível – num argumento quase técnico produz um efeito perigoso: normaliza a linguagem da aniquilação como parte aceitável do debate corrente.

Dizer que algo é “impensável” enquanto se descreve, com aparente serenidade, a capacidade de destruição total cria uma tensão retórica inquietante.

2. A ilusão da estabilidade automática

A ideia implícita nas declarações é esta: a Rússia não recorrerá ao nuclear porque sabe que a resposta franco-britânica seria devastadora. Essa lógica parte de três pressupostos discutíveis:

– racionalidade perfeita de todos os atores;

– ausência de erro de cálculo ou escalada acidental;

– inexistência de cenários intermédios (uso limitado, demonstração tática, erro técnico).

A história da dissuasão nuclear mostra que o equilíbrio não depende apenas do número de ogivas, mas da prudência política, da comunicação controlada e da redução da retórica inflamada. Quanto mais o discurso público passa a falar em números de destruição total, mais se enfraquece a própria cultura estratégica que sustenta a estabilidade.

3. O “espírito de guerra” como enquadramento mental

O almirante identifica os próximos três anos como período de maior risco, associa vulnerabilidade europeia a um ciclo político específico e defende a necessidade de “prender a Rússia na Ucrânia” até que o rearmamento europeu esteja completo. Isto não é apenas análise estratégica. É a consolidação de uma mentalidade de contenção prolongada, quase estrutural.

Quando o debate passa a assumir como dado adquirido um horizonte de confronto inevitável, a política deixa de procurar saídas e passa a gerir tensões permanentes. É esse o verdadeiro risco do espírito de guerra: ele infiltra-se na linguagem antes de se manifestar nos campos de batalha.

4. Força não substitui estratégia

A Europa tem desafios reais:

– dependências estratégicas passadas,

– necessidade de reforço industrial e militar,

– incertezas na arquitetura transatlântica.

Mas nenhuma dessas fragilidades se resolve através da evocação explícita da capacidade de destruir “o território todo” de um adversário. A credibilidade europeia constrói-se com coesão política, capacidade industrial, clareza diplomática e prudência estratégica – não com a quantificação do poder de aniquilação.

5. A responsabilidade da palavra

Um almirante na reserva e ex-candidato presidencial não fala como comentador casual. Fala como alguém que conhece o peso real da guerra. Num continente que vive sob a sombra histórica de duas guerras mundiais e sob o equilíbrio nuclear desde 1945, a responsabilidade da palavra é parte da própria estratégia. A dissuasão funciona melhor quando é silenciosa. Quando se torna argumento televisivo, perde parte da sua racionalidade e ganha dimensão emocional.

Tem de se recusar a normalização discursiva do fim. Falar de centenas de ogivas como variável suficiente para “destruir o território todo” pode parecer frieza estratégica. Mas pode também revelar uma preocupante habituação à ideia do irreversível. Num tempo em que o espírito de guerra se infiltra no vocabulário político europeu, talvez a verdadeira maturidade estratégica consista em conter não apenas arsenais – mas também palavras.

Por vezes, a prudência não é fraqueza. É civilização. E, sim, há momentos em que mais valia estarem calados.

Bom dia!

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Apocalipse: o pacto suicida pelo qual ninguém votou

(Gerry Nolan, in ISLANDER/, 24/02/2026, Trad. da Estátua)


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O termo “fim do mundo” é o único que se encaixa — mas vamos nomear essa loucura com a clareza cirúrgica que este momento exige. No quarto aniversário de uma guerra que já perderam, Londres e Paris aparentemente decidiram que a resposta não é a negociação, nem a dignidade, nem a arte de governar elementar reconhecendo a derrota — mas sim uma escalada nuclear rumo ao abismo. Já ultrapassámos o ponto de qualquer estratégia por parte da NATO — só existe uma palavra para descrever essa insanidade, e essa palavra é patologia.

O Serviço de Vigilância Nuclear da Rússia (SVR) nomeia a arma com uma especificidade clínica que não pode ser considerada como propaganda: a ogiva termonuclear miniaturizada francesa TN75, a joia da coroa do míssil balístico M51 lançado por submarino — que será secretamente desmembrada, seus componentes contrabandeados, transferidos para Kiev e disfarçados cosmeticamente como um “desenvolvimento autóctone” ucraniano. Uma mentira tão arquitetonicamente transparente que insulta todos os inspetores de armas, todos os signatários de tratados, todos os seres humanos que passaram oitenta anos construindo a frágil estrutura da não proliferação nuclear. Kiev, prontamente, diz que isso é uma mentira absurda. Paris chama-lhe desinformação flagrante. Londres diz que “não há verdade nisso”. E, no entanto, nenhum deles convocou uma conferência de imprensa de emergência para repudiar. Nenhum deles forneceu, nem fornecerá, nada de material e relevante para limpar o seu nome. Eles emitiram declarações banais — o equivalente diplomático a um homem apanhado em flagrante com a mão no cofre dizendo que estava apenas a verificar a fechadura.

Eis a questão a que nem Londres nem Paris podem responder — porque nenhum processo democrático na Terra jamais a fez. Nenhum eleitor na França foi às urnas para autorizar a transferência secreta de ogivas termonucleares para uma zona de guerra ativa. Nenhum cidadão britânico votou a favor de uma política que a doutrina russa classifica formalmente como um acto conjunto de guerra contra uma potência nuclear. Nenhum eleitorado na Europa ou na América — nenhum — foi consultado sobre a decisão de levar os seus filhos sonâmbulos para à beira do precipício nuclear. Um poder dessa magnitude, exercido nessa escuridão, sobre as consequências tão irreversíveis, foi simplesmente usurpado — guardado no corredor de uma reunião de inteligência, ratificado por ninguém, sem prestar contas a ninguém.

Esses não são os movimentos de homens que acreditam estar a vencer. São os sacrifícios desesperados, que queimam o tempo, de jogadores que já perderam o tabuleiro — e agora estendem a mão para virar tudo de cabeça para baixo, rezando para que o caos os poupe da humilhação do xeque-mate. Quatro anos de armas, tesouros, sangue e credibilidade ocidental alimentaram a fornalha ucraniana — e a linha da frente revela a única verdade que importa. O império da narrativa não sobrevive ao contacto com a matemática da artilharia. Eles sabem que a posição está perdida. É assim que a derrota se parece quando os responsáveis ​​têm acesso a armas nucleares e nenhuma responsabilidade.

E a Alemanha — a Alemanha, a nação que carrega na sua essência civilizacional o custo preciso e irreversível da arrogância militar catastrófica — disse não. Berlim retirou-se. O SVR registra isso com uma brevidade quase desdenhosa: a Alemanha “sabiamente recusou-se a participar dessa perigosa aventura”. Que isso soe como uma sentença de um tribunal de crimes de guerra. O país que deu ao século XX as suas duas lições definidoras sobre o que acontece quando os líderes europeus confundem beligerância com estratégia — esse país olhou para o plano, olhou para os homens que o apresentavam e, silenciosamente, recuou da cadeira. Os derrotados  traem-se sempre nos seus movimentos finais. Nada, em toda a trajetória deste conflito, anunciou a falência estratégica, com uma eloquência mais devastadora, do que o momento em que o aliado mais marcado pela história, mais versado em catástrofes, olha para a sua obra-prima e se retira sem dizer uma palavra.

A postura nuclear da Rússia não exige interpretação, nem kremlinologia, nem descodificador especializado. Está escrita em linguagem tão inequívoca que a ignorância é impossível e a inocência, perdida: a agressão de um Estado não nuclear apoiado por uma potência nuclear constitui um ataque conjunto — de ambos. Sem metáforas. Sem floreios de negociação. Um quadro jurídico-militar publicado com quatro anos de linhas vermelhas impostas. Uma muralha de ferro. O Conselho da Federação solicitou formalmente a Londres, Paris, ao Conselho de Segurança da ONU e à AIEA que investiguem o assunto. Peskov confirmou que o assunto está em discussão em Genebra. Medvedev disse o que se segue em linguagem que não requer tradução. Eles não estão a fazer bluff. Nunca precisaram. E, no entanto, aqui estão Starmer e Macron — Dr. Strangelove sem a autoconsciência, sem o humor negro, sem sequer a graça salvadora do distanciamento ficcional — desencadeando, conscientemente, o que sua própria doutrina denomina como guerra nuclear.

Observe a foto acima usada pela Reuters, que captura a arrogância e a incompetência, como tantas outras fotos fazem. Quatro homens incompetentes do lado de fora da porta preta do número 10 — apertos de mão, ternos escuros, a encenação da gravidade. Eles não parecem homens que sabem que já são fantasmas. Essa é a coisa mais aterradora a dizer sobre eles — eles nunca parecem. O que estamos a testemunhar em tempo real, no aniversário exato do início da guerra, não é diplomacia. Não é estratégia. Não é nem mesmo desespero com um plano. É um pacto suicida coletivo, assinado por uma elite derrotada, tão esvaziada pela sua própria mitologia, tão fisicamente incapaz de absorver o veredicto do campo de batalha, que ainda está a mover peões num tabuleiro sem casas restantes — cega demais para ver o xeque-mate, arrogante demais para ouvir a peça a cair no chão.

A história não terá dificuldade em nomear o que foi que aconteceu. A tragédia é que talvez não haja mais historiadores para o escrever.

Fonte aqui