A necessidade de pensar o impensável

(Boaventura Sousa Santos, in Meer.com, 09/06/2025)

Judeus ortodoxos em frente à Downing Street protestando em solidariedade com a Palestina

Já publicámos aqui muito bons textos, mas permitam-me que sublinhe a qualidade e a atualidade deste trabalho. Se mais pensadores existissem com a capacidade de reflectir aqui evidenciada, e admitindo poderem ser as suas ideias divulgados com profusão, e o mundo seria um lugar mais amistoso e habitável. Parabéns ao Boaventura Sousa Santos de quem tive o prazer de ter sido aluno, na já longínqua década de 70 do século passado.

Estátua de Sal, 12/06/2025)


Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores.


Este título não é uma proposta contraditória. É um apelo a que des-pensemos muito do que nos habituámos a pensar para poder enfrentar o maior desafio de sempre: o perigo de deixar de pensar. Novalis estava certo quando escreveu Die Philosophie ist eigentlich Heimweh, ein Trieb überall zu Hause zu sein (Na verdade, a filosofia é saudade, uma pulsão para se estar em casa em qualquer parte).

Por filosofia entendo todo o pensamento estruturado pela busca da verdade sem recurso a tecnologias que, em vez de se manter nos limites de instrumentos para ajudar o pensamento a pensar, pelo contrário, procuram substituir-se ao pensamento. Se deixarmos de pensar, equivale a sermos expulsos de casa e a vaguear sem abrigo nem sentido num mundo caótico e distópico de monstros engravatados que nos governarão em palácios de luxo e converterão em lixo tudo o que se interpuser no trânsito das suas viaturas híper-blindadas contra a busca da verdade.

O perigo iminente é que deixemos de ser seres pensantes (res cogitans de Descartes) para passarmos a ser seres pensados (res cogitata). Ser pensado é ter deixado de pensar, quer por não ser necessário pensar para viver tranquilamente nesta sociedade, quer por ser tão perigoso pensar que equivale ao risco iminente de ser morto ou, em alternativa, de se suicidar. Eis os perigos mais imediatos.

O perigo de pensar que os certificados da mediocridade não são válidos

Se os sistemas de educação e as universidades continuarem na senda da ignorância programada para os estudantes esquecerem tudo o que não interessa aos donos dos algoritmos e do poder, serão, em breve, lares para idosos de tenra idade onde aprendem o que já sabem há muito graças à magnanimidade das redes sociais, e onde o conforto e o isolamento do mundo real são fundamentais para os preparar para uma morte serena, isto é, para viverem nas bolhas onde toda a gente vive morta sem saber.

E viverão certamente com o mesmo conforto que aprenderam e, por isso, tudo o que fizerem ou ordenarem tem a marca da objectividade. Estou certo de que, quando tal acontece, os deuses e as deusas devem levar mãos à cabeça, tapar os olhos para não ver e os ouvidos para não ouvir. Mas como tal desastre não os afecta, continuarão imperturbados nos seus afazeres divinos. O problema para a humanidade e para a natureza é que, quando os medíocres conseguem provar o que são, a sua objectividade é, afinal, abjectividade. É próprio da mediocridade não poder confrontar-se consigo mesmo, precisamente por ser medíocre.

O perigo de pensar que as liberdades autorizadas são uma fracção das liberdades possíveis

Esta sociedade permite-nos ser intransigentes com a mediocridade desde que sigamos no caminho traçado pelos medíocres; sermos intransigentes contra a corrupção, desde que aceitemos ser governados por corruptos; sermos radicais, desde que cegos para sermos facilmente atropelados pelo trânsito dos tanques civis e militares; sermos ousados, desde que inexactos ou descuidados num detalhe para sermos duramente criticados e cancelados pelos guardadores da normalidade; sermos lúcidos na denúncia da hipocrisia, desde que convivamos amigavelmente com os hipócritas; sermos jovens desde que drogados para nos esgotarmos em criatividades e rebeldias inócuas e autodestrutivas; sermos velhos, desde que murmurando uma sabedoria que ninguém tem paciência para ouvir ou entender. Esta sociedade é um monstro de Goya porque a razão dorme um sono profundo.

O perigo de pensar que o que se vê é, de facto, horroroso

O horror vivido pela maior parte da humanidade, diariamente, sempre diferente e sempre igual, desmente tudo o que pensámos sobre o progresso da humanidade. O horror, quando pensado a fundo, corre o risco de ser horror vivido por solidariedade com quem o sofre. Isso obrigaria a ir para a luta concreta no socorro, no estancamento da morte inocente, na destituição dos governantes cúmplices com a morte inocente. Mas como isso dá trabalho e obriga a riscos tão graves quanto desnecessários, o melhor é não pensar, não saber, fingir não saber, admitir que talvez seja um mal-entendido.

O genocídio do povo palestiniano, transmitido em directo todos os dias, é a primeira guerra conduzida conscientemente contra mulheres e crianças, os dois inimigos principais de uma limpeza étnica perfeita. Tem toda a lógica. Lógica e o apoio activo dos nossos governantes democratas.

Tal como Himmler, arquitecto do holocausto, entrava em casa à noite pela porta traseira para não acordar o seu canário de estimação, os arquitectos do genocídio de hoje fazem uma pausa no morticínio para fazer as suas orações e ajudar os filhos nos trabalhos de casa. Isto degrada a tal ponto o que resta de humanidade na nossa raiva impotente que o horror de pensar tem de se reduzir a pensar o horror sem correr o risco de o viver por solidariedade.

Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores. Torna-se impensável pensar que, tal como não teve êxito a solução final contra eles por parte dos Nazis, também eles não terão êxito na solução final que pretendem infligir ao povo palestiniano. E como tudo isto é impensável, é melhor mudar de canal e voltar às redes sociais ou comentar o trágico-cómico entretenimento das zangas entre dois gorilas, Donald Trump e Elon Musk (sem ofensa aos gorilas).

O perigo de pensar que a comida mental está na mesa e que quem não comer morre de fome

A Inteligência artificial (IA) nada cria nem transforma. Apenas acumula e sintetiza segundo critérios opacos apenas acessíveis aos donos dos programas dos algoritmos, isto é, aos donos do mundo. A inteligência artificial refere-se a máquinas que executam tarefas cognitivas como pensar, perceber, aprender, resolver problemas e tomar decisões. Não é a primeira vez que se atribui inteligência a máquinas. Na década de 1950 era comum designar os computadores emergentes como “cérebros electrónicos”. Actualmente, a maioria das aplicações populares de IA – o reconhecimento de voz e imagem, o processamento de linguagem natural, a publicidade direccionada, a manutenção preditiva de máquinas, carros sem condutor e drones – envolve a capacidade das máquinas para aprenderem com os dados sem serem explicitamente programadas.

Trata-se de uma mudança de paradigma na tecnologia informática. O que vai realmente fazer a diferença na corrida às aplicações de IA é a disponibilidade de dados; o elemento crítico é a abundância de dados. Mais dados conduzem a melhores produtos, o que, por sua vez, atrai mais utilizadores, que geram mais dados para melhorar ainda mais o produto. A escala de dados necessária para desenvolver aplicações avançadas de IA é a base do impacto da centralização e monopolização da IA. As grandes empresas americanas de tecnologia lideram o mundo em aplicações de IA, mas a China é um gigante em ascensão. Isto conduz a um duopólio da inovação da IA: EUA e China.

A IA é o caso paradigmático de uma tecnologia que visa ultrapassar os limites do instrumento que ajuda a pensar para se transformar no pensador que dispensa e substitui o pensador humano. A vertigem da sua ilimitada expansão está a entrar em todos os domínios da actividade humana, da medicina ao direito, da comunicação à guerra, da educação aos mercados financeiros. O que significa ser humano na época da IA?

No fundo, a IA funciona como um dispositivo estatístico, mas, devido ao número infinito de dados que gere e aos algoritmos que regem o seu funcionamento, a IA projecta a ideia de criar conhecimento a partir do nada, de inventar. Ou seja, a IA dá a impressão de funcionar como um ser humano, ainda que de forma infinitamente mais eficiente. Daí as designações utilizadas para a caracterizar – inteligência artificial, aprendizagem profunda – características até agora reservadas aos seres humanos ou, no máximo, aos seres vivos. Estas designações são utilizadas de forma metafórica, mas mostram até que ponto a IA parece estar a atingir níveis de compreensão e de transformação ainda reservados aos seres humanos.

O efeito de realidade é impressionante, porque enquanto cópia parece criativa, enquanto extractiva parece inventiva, enquanto reprodutiva parece produtiva, enquanto baseada em correlações parece oferecer novas relações. À luz da credibilidade desta “aparência”, as questões sobre o que conta como ser humano ou se a IA significa uma mudança civilizacional têm sido levantadas por pessoas em lados opostos do espectro político e ideológico.

Não gosto de citar criminosos de guerra, mas neste caso faço uma excepção para citar Henry Kissinger. Escrevia ele em 2018:

O Iluminismo procurou submeter as verdades tradicionais a uma razão humana liberta e analítica. O objetivo da Internet é ratificar o conhecimento através da acumulação e manipulação de dados em constante expansão. A cognição humana perde o seu carácter pessoal. Os indivíduos transformam-se em dados, e os dados tornam-se reinantes.

No início do texto Kissinger interrogava-se:

(…) “Qual seria o impacto na história das máquinas de auto-aprendizagem – máquinas que adquiriram conhecimento através de processos particulares a elas próprias, e aplicariam esse conhecimento a fins para os quais pode não haver nenhuma categoria de compreensão humana? Estas máquinas aprenderiam a comunicar umas com as outras? Como seriam feitas as escolhas entre as opções emergentes? Seria possível que a história da humanidade seguisse o caminho dos Incas, confrontados com uma cultura espanhola incompreensível e até inspiradora para eles? Estaríamos nós no limiar de uma nova fase da história humana?

Com Chomsky a meu lado, considero que:

a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que funciona com pequenas quantidades de informação; não procura inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas sim criar explicações… Por muito úteis que os programas de IA possam ser nalguns domínios restritos (podem ser úteis na programação de computadores, por exemplo, ou na sugestão de rimas para versos ligeiros), sabemos pela ciência da linguística e pela filosofia do conhecimento que diferem profundamente da forma como os humanos raciocinam e utilizam a linguagem. Estas diferenças impõem limitações significativas ao que estes programas podem fazer, codificando-os com defeitos inerradicáveis…

De facto, estes programas estão presos numa fase pré-humana ou não-humana da evolução cognitiva. A sua falha mais profunda é a ausência da capacidade mais crítica de qualquer inteligência: dizer não só o que é o caso, o que foi o caso e o que será o caso – isto é descrição e previsão – mas também o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso. Estes são os ingredientes da explicação, a marca da verdadeira inteligência… O pensamento humano baseia-se em explicações possíveis e na correcção de erros, um processo que limita gradualmente as possibilidades que podem ser racionalmente consideradas.

Na sua obra-prima, O Mundo como Vontade e Representação, Schopenhauer ([1819] 2020) faz uma distinção entre talento e génio. Enquanto a pessoa talentosa alcança o que os outros não conseguem alcançar, o génio alcança o que os outros não conseguem imaginar. O génio tem uma capacidade superior de contemplação que o leva a transcender a pequenez do ego e a entrar no mundo infinito das ideias. O génio é a faculdade de permanecer no estado de perceção pura, de se perder na perceção, o poder de deixar os seus próprios interesses, desejos e objectivos inteiramente fora de vista, renunciando assim inteiramente à sua própria personalidade durante algum tempo, de modo a permanecer um puro sujeito conhecedor, com uma visão clara do mundo.

À luz disto, podemos especular com segurança que, se Schopenhauer vivesse hoje, defenderia que a IA, por muito estimulantes que sejam as suas realizações, nunca poderá atingir os patamares da possibilidade humana. No máximo, poderá atingir o nível do talento. A genialidade é inacessível à IA. O génio é o limite superior da IA. O limite inferior é a actividade humana não registada ou, melhor ainda, a actividade humana que é registada e armazenada de formas que desafiam o extractivismo de dados.

Este jogo homem-máquina deixa escapar um ponto crucial: o facto de os seres humanos não existirem em abstracto, mas sim em contextos históricos, sociais e culturais específicos. Os exercícios sobre características universais construídas abstractamente convertem características locais centradas no Ocidente, capitalistas, colonialistas e patriarcais em características universais derivadas do conhecimento “visto a partir do zero”. Os preconceitos ontológicos e políticos são assim transformados em artefactos neutros em termos de IA.

O perigo de pensarmos que o que cai fora do algoritmo não existe é a nova forma do que tenho designado por sociologia das ausências. O perigo de pensar que o algoritmo é a única comida mental ao nosso dispor é o mesmo que pensar que o hamburger da MacDonald’s é a única comida ao nosso dispor.

O perigo de pensar que o pós-humano pressupõe que já fomos plenamente humanos

Desde o início do milénio tem havido um debate sobre o pós-humano. A morte do ser humano vinha de longe: de Nietzsche, de Heidegger, de Foucault, de Barthes, de Deleuze. Mais recentemente, a ideia do pós-humano centrou-se nos seres humanos sujeitos a xenotransplantes (transplantes de células, tecidos ou órgãos de outras espécies animais) ou vivendo com objectos tecnológicos inseridos no seu corpo. A ideia do pós-humanismo implica a crítica do antropocentrismo, a negação de qualquer privilégio ao ser humano no conjunto dos seres viventes do planeta.

Não vou neste texto discutir os méritos desta concepção. O que me interessa questionar é ideia de humano que subjaz à de pós-humano. É uma ideia substantivista e abstracta que pressupõe a existência prévia de uma natureza humana mais ou menos fixa. De resto, a questão de saber se há ou não uma natureza humana não é a questão que me preocupa. É antes a ideia de que os seres humanos foram sempre tratados como seres privilegiados e abstractamente iguais.

O perigo de pensar que, na verdade, isso nunca aconteceu na era moderna é um dos mais aterradores para a boa consciência liberal que formou a nossa consciência desde o século XVII. Ao longo dos anos, tenho mostrado que, com o colonialismo histórico, se traçou uma linha abissal, tão radical quanto radicalmente invisível, entre os seres tratados como seres plenamente humanos (a zona metropolitana) e seres tratados como seres sub-humanos (a zona colonial).

Essa linha abissal dura até hoje e a sub-humanidade que ela desenha abrange mais populações no mundo que durante o período do colonialismo histórico. Que o digam os imigrantes deportados com algemas e enviados para campos de concentração em El Salvador e em outros lugares de que um dia teremos notícia. Ou os camponeses da República Democrática do Congo martirizados pela maldição do lítio e dos minerais raros. O espectro da sub-humanidade paira sobre cada um de nós.

De um momento para o outro, como previa Brecht, pode caber a qualquer de nós ser atirado para a zona colonial onde as declarações universais dos direitos humanos e as garantias constitucionais não são mais que mentiras piedosas. Pensar que isto é um retrocesso é pensar que houve progresso. Claro que houve progressos, mas não houve Progresso com P maiúsculo.

Todos estes perigos obrigam a uma tarefa de des-pensar e de desaprender antes que seja possível dar sentido ao que não tem sentido.

Fonte aqui

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A Europa está a armar-se ou a desarmar-se?

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247, 15/03/2025)


Ó Costa, diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és…

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Toda a normalidade induz e tolera um certo tipo de extremismo. Para além de um certo limite, ou o extremismo é neutralizado ou o extremismo instaura uma nova normalidade. A normalidade nos EUA é o cumprimento da Constituição e, no que se refere às relações internacionais, é pôr esse cumprimento ao serviço dos interesses dos EUA, o único aliado incondicional dos EUA. Digo incondicional no sentido mais forte do termo: quem puser em causa esses interesses será neutralizado, mesmo que seja o Presidente. A neutralização está a cargo do deep State, o Estado profundo que, de facto, governa os EUA que conhecemos. O termo deep State só começou a usar-se com referência aos EUA durante o primeiro mandato de Trump, muitas vezes invocado por ele como bode expiatório dos seus fracassos. Pretende designar a existência de interesses muito poderosos e bem organizados que, sem qualquer escrutínio democrático, decidem os destinos do país em momentos identificados como sendo de grave crise. É nesses momentos que ocorrem acontecimentos dramáticos, ou decisões obscuras cujas causas nunca são plenamente esclarecidas. Por exemplo, o assassinato do Presidente John Kennedy (1963); Watergate (1972); Irão-Contra (1981-1986); o ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque conhecido como 9/11 (2001); a invasão do Iraque “justificada” por inexistentes armas de destruição massiva (2003). Concebido de várias formas, o deep State é hoje um tema incontornável e a sua aplicação é tão pertinente nos países considerados autoritários como nos países considerados democráticos. (Para o caso dos EUA ver, por exemplo, Peter Dale Scott, The American Deep State: Big Money, Big Oil and the Struggle for Democracy, 2015; Mike Lofgren, The Deep State: The Fall of the Constitution and the Rise of a Shadow Government, 2016).   Por enquanto, o governo de Donald Trump é uma excepção autorizada e o espectáculo de um extremismo. Se a normalidade vai sucumbir ou prevalecer, se o extremismo de Trump se mantém ou não nos limites do tolerável, são, por enquanto, questões em aberto. Tal como o futuro de Trump. Por agora, legalmente, só o sistema judicial tem algum poder para deter Trump. Quanto ao deep State, nada saberemos antes da sua intervenção estar consumada. 

O espectáculo gera um processo de retro-alimentação permanente: Donald Trump abre em dias consecutivos os noticiários de quase todas as televisões do mundo. O mundo surge como virado do avesso. De um dia para o outro, os EUA são (ou parecem ser) aliados da Rússia contra a Ucrânia e a Europa. Quem podia imaginar que os EUA votassem na ONU ao lado da China, da Coreia do Norte e do Irão na resolução que visava condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia? O problema maior para o mundo não é Trump, mas o modo com os líderes do mundo lidam com as suas posições. Por outro lado, ao contrário do que a espuma dos dias nos retrata, o comportamento de Trump é menos errático ou imprevisível do que se imagina. Os eixos principais da sua política à luz dos seus primeiros passos são os seguintes: 

  1. O negócio une e a política divide. Deve recorrer-se à divisão política para melhorar os negócios, e não para os destruir. Neste domínio, a Rússia é mais promissora que a Europa.

2. O armamento é crucial para a economia norte-americana, mas para ser vendido, não para ser usado, e muito menos pelos EUA.

3. Em termos de rivalidade económica só a China conta. 

4. O capitalismo tem de fazer valer o seu DNA colonialista. O colonialismo é pilhagem de recursos naturais. Sem ela não há capitalismo. Os palestianianos são índios. Tal como os congoleses.

5. Uma nova normalidade vai emergir não só nos EUA como no mundo: oligárquica, autoritária, fascista na substância, democrática nas formalidades. É o verdadeiro fim da história que só os ingénuos (como Francis Fukuyama) viram residir no liberalismo capitalista.

A resposta da Europa

O confronto “nunca visto” com Zelensky na Sala Oval da Casa Branca teve pouco a ver com Zelensky. Com perfeita encenação, Trump quis acima de tudo humilhar a Europa, humilhando o herói desta, o grande campeão da democracia. Quis também humilhar Joe Biden por este ter impedido que a guerra terminasse dois meses depois de ter começado; e também por estar convencido de que Biden está morto nos EUA, mas vivo na Europa. E a Europa comportou-se como Trump esperava de dirigentes medíocres que nada sabem de negócios. A Europa entrou na guerra por pressão dos EUA via NATO. A NATO é os EUA, pouco mais. A invasão pela Rússia foi ilegal e condenável, mas está hoje plenamente documentado de que foi provocada pelos EUA, convencidos de que enfraquecer a Rússia era enfraquecer um aliado-chave da China. Trump tem um entendimento oposto. Por um lado, para ele, só uma aliança calibrada com a Rússia pode enfraquecer a China. Por outro lado, a Europa tem características contrárias ao que Trump antevê para os EUA e o mundo: é demasiado secular e liberal; tem sistemas públicos de saúde e de educação robustos (até agora); “excessiva” protecção dos trabalhadores; “excessiva” protecção do meio ambiente e “excessiva” regulação estatal.  Em suma, a Europa é fraca por ter um Estado forte, por não ter recursos naturais e por não poder defender-se de ataques externos sem o apoio dos EUA. 

O que os líderes europeus não entendem é que a verdadeira fraqueza da Europa (não a fraqueza segundo Trump) foi querida e induzida pelos EUA desde o fim da União Soviética. Os EUA desde cedo temeram que a Europa se tornasse num global player e com isso alimentasse o multipolarismo, sempre temido pelos EUA, que não imaginam (e temem) deixar de ser o único global player. Quando o Presidente Chirac da França e o chanceler Gerhard Schröder da Alemanha se opuseram à invasão do Iraque, os EUA tomaram nota de que os aliados europeus eram futuros rivais num mundo multipolar.  Essa suspeita aumentou com o Tratado de Lisboa de 2007, com a inauguração, em 2011, do primeiro gasoduto Nord Stream para fornecer energia barata russa à maior economia europeia (e a outros estados europeus) e com o fortalecimento, no mesmo ano, do pacto fiscal para fortalecer a integração europeia. Aliás, a preferência da Alemanha pelo Nord Stream e a da Itália (de Berlusconi) pelo South Stream aumentava a suspeita contra estes dois países vistos como parceiros estratégicos da Rússia. A mesma suspeita contra um multipolarismo que enfraqueceria os EUA está na base do apoio dos EUA ao Brexit (2016-2020).

Ou seja, os medíocres líderes europeus da última década não entenderam que os EUA procuraram enfraquecer a Europa para agora a poderem desprezar…por ser fraca.

Retirado o apoio dos EUA à continuidade da guerra, os líderes europeus, bem oleados pelo lobby da indústria de armamentos dos EUA, em vez de se sentirem aliviados por se verem livres de uma guerra que lhes foi imposta e os levará à ruina financeira – e à destruição da Ucrânia –, assumiram a continuidade da guerra e a preparação para outras guerras como sua missão histórica, e pretendem vender esta ideia suicida aos europeus, inventando um novo perigo: a ameaça russa. Em suma, a Europa mordeu o isco lançado por Trump: vai rearmar-se para continuar a desarmar-se social e politicamente. As armas mais complexas e caras serão compradas à indústria militar dos EUA. De novo Trump atinge o seu objectivo: o material bélico é crucial para fazer negócios, não para fazer a guerra. Ao rearmar-se, a Europa transfere o investimento nas políticas sociais e na transição energética para o investimento nas armas e, em consequência, aumenta a desigualdade social e a polarização social, e ignora o perigo do colapso ecológico. Abre um campo fértil onde pastam as ideias e as políticas de extrema-direita. Ou seja, transforma-se numa réplica rasca dos EUA. O autoritarismo fascista com fachada democrática está no horizonte, tal como Trump deseja para a Europa e para o mundo. 

Em suma, ao rearmar-se, a Europa desarma-se. Em poucas décadas, a economia europeia no seu conjunto não estará entre as dez maiores economias do mundo. E do desarme social só beneficiará a extrema-direita, que neste momento, pelo menos pela voz de Viktor Orban, parece ser mais a favor da paz e mais resistente contra a orgia da preparação para a guerra que outras forças políticas de direita e de esquerda.   

Há uma ameaça russa?

A Europa só seria um rival-aliado a respeitar se se tivesse mantido unida à Rússia, o país com a maior superfície do mundo e com recursos naturais em grande medida inexplorados. Era a proposta que dominou o eixo Paris-Berlim nas duas primeiras décadas do século XXI. Haverá hoje uma ameaça russa contra a Europa quando Putin pede aos empresários europeus para regressar à Rússia? Trata-se da transferência subliminar do anti-comunismo para a russofobia? A russofobia é algo muito mais antigo e vem desde, pelo menos, o final do século XIX. Fiel ao seu projecto revolucionário, o próprio Karl Marx pode ser considerado russófobo nas cartas que escreveu em 1878 a Wilhem Liebknecht, pai de Karl Liebknecht. Tratava-se então de combater o reacionário império russo na altura em guerra com o não menos reacionário império otomano. Perante a passividade da Inglaterra e da Alemanha, Marx desabafava em francês:  «il n’y a plus d’Europe». Depois da Segunda Guerra Mundial, a russofobia metamorfoseou-se no anti-comunismo. O grande pilar do anti-comunismo na Europa foi o catolicismo conservador e, nos EUA, o Macarthismo. Mas a russofobia também alimentou a ideologia comunista da China de Mao Tse Tung e a ideologia imperial do Japão durante décadas. No Ocidente, os acordos de Yalta mantinham sob controle os impulsos mais extremistas. Convém recordar que em 1955 o exército soviético (pertencente ao regime comunista) retirou-se da Áustria em troca da neutralidade desta. O mesmo tipo de proposta foi feita por Gorbachov em 1990 ao aceitar a reunificação da Alemanha. 

A ideia da ameaça russa era sobretudo compreensível nos países da Europa do Norte e Oriental. Lembremos que, para Lenine, o tempo da Revolução Russa foi condicionado pela necessidade de terminar a guerra a todo o custo. E o custo foi alto porque a Rússia perdeu cerca de 30% do território que antes fazia parte do Império russo. Os Bolcheviques aceitaram a independência da Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia, Ucrânia e Bielorrússia, os últimos cinco países ocupados então pela Alemanha. Foi um tratado de pouca dura, dado o desfecho da guerra, mas as guerras locais que se seguiram (entre a Ucrânia e a Polónia, por exemplo) e a Segunda Guerra Mundial voltaram a mudar o mapa geopolítico desta região, uma região que, até à guerra da Ucrânia, era considerada periférica, tal como os Balcãs, e de pouca importância para grandes projectos europeus (isto é, do eixo Paris-Berlim). A russofobia regressa precisamente porque agora o centro da Europa parece ter-se deslocado para a Ucrânia, a Europa Oriental e os países bálticos.

Em minha opinião, a maior ameaça para a Europa decorre da sua incapacidade de se aproximar da Ucrânia, distanciando-se de Zelensky. Trump tentou mostrar aos europeus que Zelensky era parte do problema, e não da solução. Os líderes europeus, dando provas da sua indigência política, fazem vista grossa dos partidos democráticos proibidos, da censura, dos democratas presos na Ucrânia e da forte presença nazi no exército ucraniano. Ao entronizar um presidente de credenciais democráticas duvidosas, praticam “regime change” ao contrário, fazendo tudo para que não surjam outros líderes na Ucrânia que, em eleições livres e justas e não dominadas pela paranoia russofóbica, reconstruam o país e façam prosperar a democracia. O povo mártir da Ucrânia merece isso e muito mais.

Que futuro para a Europa?

Até à guerra da Ucrânia, a Europa parecia um oásis num mundo em convulsão. Para quem a observava de fora, a Europa juntava três características difíceis de reunir em qualquer outra parte do mundo: liberdade individual (democracia considerada robusta), solidariedade social, e paz. Para quem vivia na Europa, essas características eram em parte verdade e em parte ficção. As desigualdades sociais aumentavam; Bruxelas era mais uma comunidade de lobistas e burocratas escandalosamente bem pagos do que de democratas focados nos interesses dos cidadãos; a xenofobia crescia, como causa e consequência da polarização vinda da extrema-direita em ascensão.

Um mal-estar estava instalado depois de trinta anos de crítica alimentada sobretudo pelo neoliberalismo interno e internacional, para quem o Estado de bem-estar era inviável e a privatização das políticas públicas (sobretudo das mais vinculadas ao bem-estar das populações: saúde, educação, sistema de pensões) era a solução. 

A primeira Guerra Mundial fez desaparecer quatro impérios, três dos quais europeus (russo, alemão, austro-húngaro e otomano); a Segunda Guerra Mundial fez sucumbir o império japonês, emergir o império soviético e consolidar o império norte-americano, enquanto os impérios europeus agonizavam no Sul global (onde incluo as Caraíbas). Só para mencionar os casos mais salientes, o império holandês, na Indonésia, o inglês, na Índia, o francês, na Argélia e nos países do Sahel, e o português, na África sub-sahariana. Subrepticiamente reemergia um velho-novo império, a China.

A Europa está fora do jogo inter-imperial e decidiu tragicamente optar pela política perdedora, quer ante o império norte-americano, quer ante o império chinês. Enquanto as ex-colónias europeias aprenderam a tirar vantagens das rivalidades inter-imperiais, a Europa, de tão viciada pela memória do seu passado imperial, recusa-se a aprender com as suas ex-colónias, e prefere um não lugar, uma espécie de subcontinente sem abrigo. Tal como as populações sem abrigo, estará sujeita a todas as intempéries. 

Fonte aqui.

Tecnofascismo, tecnoterrorismo e guerra global

(Boaventura Sousa Santos, in Meer.com, 24/09/2024)

Exercícios do exército americano. Os EUA gastam um trilião de dólares em armamento, mas certamente não é suficiente porque os empresários da guerra inventam desvantagens dos EUA.

Explorando os paralelos históricos, o papel do capitalismo e a ascensão do tecnofascismo na paisagem geopolítica atual.


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O mundo caminha inexoravelmente para a guerra. Qualquer sondagem imaginária à população mundial mostraria que ninguém quer a guerra. Mas a guerra vai eclodir provavelmente antes do final da década. A maioria dos países do mundo dizem ter regimes democráticos, mas nenhum partido com algum significado eleitoral, da esquerda à direita, considera a guerra um perigo iminente e assume a luta pela paz como a sua principal bandeira. A paz não dá votos. A guerra dá mortos e os mortos não votam. Nenhum partido se imagina a fazer propaganda eleitoral nos cemitérios ou nas valas comuns. Tão pouco imagina que sem vivos não há partidos. Tudo isto parece absurdo, mas o absurdo acontece quando a razão dorme, como Francisco de Goya nos avisou há 225 anos no seu quadro el sueño de la razón produce monstruos. Não precisamos de recuar tanto.

As lições (ou ilusões) da História

Recuemos a 1900. A Inglaterra era então o país mais poderoso do mundo. Mas como todo o apogeu significa o princípio do declínio, começava a temer-se a concorrência pacífica dos EUA. O crescimento económico dos EUA era vertiginoso, aí tinham lugar as mais recentes invenções da revolução industrial e, entre as muitas vantagens em relação à Europa, uma era particularmente preciosa: os EUA gastavam muito pouco dinheiro em armas. Segundo relatos da época, um país de 75 milhões de habitantes tinha um exército de 25.000 homens e um orçamento de defesa ridículo para um país daquele tamanho. Ao contrário, os países europeus mais desenvolvidos (Inglaterra, Alemanha e França) estavam numa competição cada vez mais feroz entre si sobre a partilha colonial e a superioridade industrial (a Alemanha cada vez mais em evidência) e entravam na corrida aos armamentos.

Para além de que entre 1899 e 1902 a Inglaterra travava uma guerra colonial sórdida contra os Boers na África do Sul. Estava em causa o controle da produção do ouro e o sonho imperial de Cecil Rhodes: do caminho de ferro entre a Cidade do Cabo e o Cairo ao controle total do mundo de modo que “as guerras se tornassem impossíveis para bem da humanidade”. O domínio capitalista imperial exigia a guerra e a corrida aos armamentos, alegadamente para tornar a guerra impossível no futuro. Há alguma semelhança com os discursos bélicos actuais dos EUA e da União Europeia para vencer a Rússia e a China? Há, mas há diferenças.

Na primeira década do século XX eram visíveis dois movimentos: um na opinião pública e outro nos negócios. A opinião pública era dominada pela apologia da paz contra os perigos de uma guerra que seria fatalmente muito mortífera. O século XX devia ser o século da paz, sem a qual não seria possível a prosperidade que se anunciava.

Em 1899, realizava-se a primeira Conferência Internacional da Paz em Haia e, no ano seguinte, o Congresso da Paz Mundial. Daí em diante foram múltiplos os congressos e as reuniões internacionais sobre a paz. Deplorava-se que a cooperação internacional se estivesse a aprofundar em todos os domínios (correios, caminhos de ferro, etc.) exceto na política. Entre 1893 e 1912 publicaram-se 25 livros contra a corrida aos armamentos. Publicava-se com grande difusão Who is Who in the Peace Movement. Afirmava-se que as recentes invenções em material bélico (pólvora sem fumaça, espingardas de disparo rápido, substâncias explosivas como a lidite, a melinite e nitroglicerina etc.) tornavam a guerra, não só muito mortífera, mas impossível de ganhar por qualquer das partes em conflito. Terminaria sempre num impasse e depois de muita morte e devastação.

Um jornalista do English Echo demitiu-se do jornal para não ter de defender a guerra contra os Boers e 200 intelectuais ingleses de alto perfil organizaram um jantar para o homenagear. Entre 1900 e 1910, realizaram-se mais de mil congressos de pacifistas: operários, anarquistas, socialistas, livre-pensadores, esperantistas, mulheres. Dizia-se que o crescimento da democracia na Europa e nos EUA era incompatível com a guerra e que o grande número de acordos de arbitragem era a melhor demonstração disso. O sociólogo russo Jakov Novikov demonstrava que o bem-estar das massas populares nunca tinha melhorado com as guerras, antes pelo contrário. Escrevia-se sobre “a ilusão da guerra” e as publicações vendiam muitos milhares de exemplares.

Havia uma corrente de opinião para quem a verdadeira ilusão seria a “ilusão da paz”, se a luta não fosse reorientada contra o capitalismo. Se tal não acontecesse, a guerra seria inevitável. Era esta a posição dos socialistas, dos anarquistas e do movimento operário, que socialistas e anarquistas procuravam controlar. A guerra era o grande obstáculo à revolução social. A greve geral e a recusa do serviço militar eram duas das formas de luta mais referidas.

Mas o mundo da opinião pública era uma coisa e o mundo dos negócios era outra. No mundo dos negócios, desde 1899 avançava em grande ritmo, mas discretamente, a corrida aos armamentos. No Congresso Internacional Operário de 1907, realizado em Estugarda, Karl Liebknecht revelava o extraordinário crescimento das despesas em armamento, o que significava que os países se estavam, de facto, a preparar para a guerra.

Os lucros das grandes empresas de armamento eram reflexo disso: Krupp na Alemanha, Vickers-Armstrong na Inglaterra, Schneider-Creusot na França, Cockerill na Belgica, Skoda na Boémia e Putilov na Rússia. Tornava-se claro que a acumulação de armas conduziria à guerra. Aliás, as grandes empresas começavam a utilizar uma nova arma de propaganda: pagar a jornalistas e aos proprietários dos jornais para publicar notícias falsas sobre o armamento crescente dos prováveis adversários na futura guerra a fim de justificar o maior gasto em armas. Soa familiar aos ouvidos de hoje? Sim, mas há diferenças e para pior, muito pior.

Os socialistas tinham razão: a luta é contra o capitalismo

O apogeu do capitalismo global liderado pelos EUA ocorreu em 1991 com o fim do Bloco Soviético. Tal como cem anos antes, o apogeu da potência mais poderosa significou o princípio do seu declínio. E tal como antes, a indústria mais lucrativa em períodos de declínio é a que produz bens cujo uso consiste em destruir e ser destruído. Tais bens têm de ser incessantemente substituídos por outros enquanto a guerra durar.

Quanto mais tempo a guerra durar maiores serão os lucros. A guerra eterna é, por isso, a mais lucrativa. Agora as grandes empresas de armamento já não são europeias, são norte-americanas, e os EUA, ao contrário do que sucedia há cem anos, são de longe o país que mais gasta em armamentos e, portanto, mais necessidade tem de os usar (isto é, de usar destruindo e substituindo). Os EUA gastam um trilião de dólares em armamento, mas certamente não é suficiente porque os empresários da guerra inventam desvantagens dos EUA em relação aos seus inimigos que têm de ser prontamente superadas.

A luta pela paz é hoje mais que nunca uma luta contra o capitalismo. Por que mais que nunca? Se, na esteira de Immanuel Wallerstein, tomarmos o mundo como unidade de análise, podemos afirmar que entre 1917 e 1991 o mundo viveu um período de intensa guerra civil transnacional. Foi uma guerra civil porque ocorreu no interior de um só sistema — o sistema mundial moderno. Embora globalmente dominante, o capitalismo teve de enfrentar um outro sistema económico fortemente concorrente, o socialismo de Estado, cuja influência extravasava muito para além da União Soviética. Essa guerra civil foi lutada por múltiplos meios, nomeadamente, por contra- insurgência, ajuda ao desenvolvimento dos países dependentes e proxy wars (guerra da Coreia, guerra do Vietname, etc).

A Segunda Guerra Mundial foi um período de acalmia nesta guerra civil, uma vez que os EUA e a URSS foram aliados contra o Nazismo alemão. Com o fim da União Soviética e com as transformações que, entretanto, tinham ocorrido na China e que integrariam a economia chinesa na economia capitalista mundial, ainda que com algumas especificidades (manutenção do controle nacional do capital financeiro), a guerra civil transnacional entre capitalismo e socialismo terminou. Houve um interregno, que durou pouco mais de dez anos, em que a Rússia era um país capitalista de desenvolvimento intermédio como qualquer outro e a China era um parceiro económico, também de desenvolvimento intermédio, mas com um valor estratégico para as empresas multinacionais norte-americanas apostadas na conquista monopolista do mundo.

A partir da crise financeira global de 2008, iniciou-se uma nova guerra civil transnacional, desta vez entre o capitalismo das multinacionais norte-americanas e o capitalismo de Estado da China. Para neutralizar a China era necessário bloquear o seu acesso à Europa por duas razões: a Europa era, ao lado dos EUA, o outro grande consumidor afluente do mundo; através da cooperação com a China, a Europa podia ter alguma pretensão de escapar ao declínio cada vez mais evidente dos EUA na economia mundial e tornar-se um factor adicional de concorrência e de debilidade dos EUA. Para bloquear o acesso da China à Europa e submeter esta última aos EUA era necessário separar política e economicamente a Europa da Rússia (cujo território está maioritariamente na Europa).

A Rússia, com milhares de quilómetros de fronteira com a China, não só é a via de acesso da China à Europa, como é o território estratégico da Eurásia. Ora, vem de longe a ideia de que quem controlar a Eurásia controla o mundo. Assim se entrou numa nova guerra civil transnacional cujas primeiras proxy wars são a guerra Rússia-Ucrânia e a guerra Israel-Palestina.

Esta guerra civil é totalmente diferente da anterior. Na anterior, a luta era entre dois sistemas económicos (capitalismo versus socialismo), enquanto agora é entre duas versões do mesmo sistema económico (capitalismo de multinacionais versus capitalismo de Estado). Nada garante que esta guerra seja menos violenta do que a anterior. Pelo contrário, como vimos, no início do século XX, a disputa ocorria entre países com um longo passado em comum localizados num pequeno canto da Eurásia. Hoje, é uma luta por um domínio global que aliás se estende para além do planeta terra. O capitalismo monopolista nascia em 1900 quando o capital financeiro dos EUA começava a alargar-se aos caminhos de ferro e daí a muitos outros sectores e, potencialmente, a todos os países do mundo.

Para o capitalismo monopolista, a ideia de um mundo multipolar é tão ameaçadora quanto a ideia da concorrência com outros sistemas económicos, e a mesma pulsão destruidora está presente em ambos os casos. Acresce que o potencial e o grau de destruição são agora imensamente maiores que antes. Não me refiro à existência de armas nucleares, uma inovação tecnológica de destruição da vida que torna ridícula a preocupação dos comentadores do início do século passado com as invenções bélicas do seu tempo. Refiro-me à natureza do capitalismo e da (des)governação globais dos nossos dias, e à emergência de duas das suas consequências.

Estamos a entrar numa época em que formas de poder potencialmente destrutivo sem limites são suficientemente fortes para neutralizar, contornar ou eliminar qualquer processo democrático que lhes procure pôr limites.

O tecno-fascismo global: Elon Musk

No início do século XX vimos que a luta pela paz e pela resolução pacífica dos conflitos concebia os Estados soberanos como as unidades de análise e os actores políticos privilegiados. Sabemos que a soberania era um bem abstracto que só os países mais desenvolvidos podiam gozar efectivamente, para além de que grande parte do mundo estava sujeito ao colonialismo ou à influência tutelar da Europa.

Hoje, porém, o desenvolvimento tecnológico, a globalização neoliberal e a concentração de riqueza fazem com que o poder de controlar a vida humana e não humana tenha deixado de estar sujeito ao escrutínio democrático.

No início do século XX a ilusão da paz assentava no aumento e fortalecimento dos governos democráticos. Afinal, a democracia assentava na substituição dos inimigos a vencer pela guerra por adversários políticos a vencer pelo voto. Daí a capacidade mobilizadora da luta pelo sufrágio. Para muitos, a democracia teria a capacidade não só de promover a resolução pacífica dos conflitos, mas também de regular o capitalismo de modo a neutralizar os seus “excessos”.

Hoje, a maioria dos governos nacionais considera-se democrático, mas a democracia, se alguma vez nalgum país foi capaz de regular o capitalismo, hoje é estritamente regulada por ele, e só é tolerada na medida em que for funcional para expansão infinita da acumulação capitalista. Sem dúvida que os Estados nacionais mais poderosos continuam a exercer o poder formal, mas o poder real que controla as suas decisões está concentrado num pequeníssimo número de plutocratas, alguns com o rosto flagrantemente visível, outros, a maioria, sem rosto.

O poder real é potenciado a uma dimensão difícil de imaginar devido a uma fusão tóxica da capacidade tecnológica para controlar a vida humana de vastíssimas populações até ao mínimo detalhe e independentemente da sua nacionalidade, com a capacidade financeira para comprar, cooptar, chantagear ou obliterar qualquer obstáculo aos seus propósitos de dominação.

Trata-se de um poder fascista de tipo novo, um tecno-fascismo global, que não conhece limites nacionais. Elon Musk é a metáfora desse novo tipo de poder. Ao contrário do que sucedeu com Adolfo Hitler ou Benito Mussolini, a personalidade concreta de Musk, embora repugnante, tem pouca importância, uma vez que o que interessa é a estrutura de poder que ele hoje comanda e que amanhã pode ser comandada por outro indivíduo. A força deste novo tecno-fascismo global está bem expressa na dramatização mundial da luta de um Estado nacional relativamente poderoso contra um simples indivíduo estrangeiro apenas porque este é um tecno-fascista global.

Quando, em 31 de Agosto deste ano, a rede X foi suspensa no Brasil por decisão do Supremo Tribunal Federal pelo facto de o seu proprietário se ter recusado a eliminar contas da rede que chegavam a milhões de pessoas e cujo conteúdo difundia notícias falsas, violava gravemente os mais elementares valores democráticos e incitava ao ódio, à violência e mesmo ao assassinato, isso foi notícia em todo o mundo. Seria imaginável há dez anos que um individuo solitário e, além disso, estrangeiro, pudesse afrontar um Estado soberano?

O tecno-terrorismo global: do Cavalo de Troia aos pagers assassinos

No dia 18 de Setembro passado, milhares de pagers e de walkie- talkies explodiram no Líbano, mantando dezenas de pessoas (incluindo crianças) e ferindo milhares. Estes transmissores tinham sido comprados pelo Hezbollah aparentemente por serem dispositivos seguros que permitem as comunicações sem localizar os utilizadores. Este acto terrorista tem sido atribuído aos serviços secretos de Israel e na sua origem esteve a implantação de uma substância explosiva junto da bateria, codificada de modo a explodir por comando remoto.

Os pagers assassinos não são uma mera nova edição do Cavalo de Troia, o enorme cavalo oco de madeira construído pelos gregos para entrar em Troia durante a Guerra de Troia. O cavalo foi construído por Epeius, um mestre carpinteiro e pugilista. Os gregos, fingindo abandonar a guerra, navegaram para a ilha vizinha de Tenedos, deixando para trás o falso desertor Sinon, que persuadiu os troianos de que o cavalo era uma oferenda a Atena (deusa da guerra) que tornaria Troia inexpugnável. Apesar dos avisos de Laocoonte e Cassandra, o cavalo foi levado para dentro das portas da cidade. Nessa noite, guerreiros gregos saíram do cavalo e abriram as portas para deixar entrar o exército grego. A história é contada em pormenor no Livro II da Eneida.

A semelhança entre o Cavalo de Troia e os pagers assassinos reside apenas no facto de o termo “Cavalo de Troia” ter passado a designar a subversão introduzida a partir do exterior. A visibilidade e a transparência do artifício, corporizado num objecto que não era de uso corrente, impediram que ele fosse realisticamente reproduzido (se é que alguma vez o foi) com eficácia no futuro. Ao contrário, os pagers assassinos significam uma mudança qualitativa na tecnologia da guerra e do controle das populações.

A mesma tecnologia e a mesma cumplicidade assassina que instalou insidiosamente material explosivo nestes dispositivos pode amanhã instalar em qualquer outro dispositivo de uso eletrónico (telemóvel ou computador) qualquer substância que, em vez de matar, danifique a saúde, crie pânico ou altere o comportamento do seu utilizador, sem qualquer possibilidade de controle por parte deste. Com o desenvolvimento e a propagação da inteligência artificial, qualquer dispositivo de uso corrente pode ser utilizado para este fim, seja ele um carro ou um micro-ondas.

As convenções internacionais contra o terrorismo, que o genocídio de Gaza reduziu a letra morta, deixam sequer de fazer sentido no futuro quando qualquer cidadão não combatente em nenhuma guerra está condenado a viver numa sociedade em que o acto mais trivial de consumo pode trazer consigo, além da garantia e do prazo de validade, a sua certidão de óbito, o atestado de insanidade mental ou a compulsão para cometer um crime.

A divisão internacional do trabalho da guerra e a maldição de Cassandra

Em ambiente de tecno-fascismo e de tecno-terrorismo globais, o capitalismo euro-norteamericano prepara-se activamente para passar da guerra fria à guerra quente. Perante o olhar vazio ou revoltadamente impotente dos cidadãos, uma estranha divisão internacional do trabalho de matar está a ser preparada: a Europa vai ocupar-se de vencer a Rússia enquanto os EUA vão ocupar-se de vencer a China. Praticamente ao mesmo tempo, o primeiro comissário de defesa da União Europeia, Andrius Kubilius, ex-primeiro ministro da Lituânia, afirma que a Europa tem de estar preparada para a guerra com a Rússia daqui a 6–8 anos, e uma alta patente da Marinha norte-americana declara que os EUA devem estar preparados para a guerra com a China em 2027.

Não valerá muito a pena prever que a guerra terá lugar, mas que o seu resultado será muito diferente daquele que é imaginado por estes empresários da guerra intoxicados pelos think tanks financiados pelos produtores de armas. A maldição de Cassandra paira sobre os poucos que se atrevem a ver o que é evidente.


Fonte aqui.