EU TIVE UM SONHO…

(Joaquim Vassalo Abreu, 18/04/2017)

dream

…. Que em estrangeiro quer dizer “I Had a Dream…”, mas que não posso utilizar porque teria que pagar direitos de autor ao Rev. Dr. Martin Luther King! Por isso, adiante…

Mas quando digo que “tive um sonho”, eu tenho que me referir a um sonho especial e diferente, verosímil e alcançável, e não me ater àqueles sonhos que todos temos, como o do que fazermos se nos saísse o Euromilhões, e até me fico por este exemplo pois tenho cá para mim que é o mais vulgar de todos! Quem nunca com isso não sonhou que levante o dedo!

Porque, na realidade, só sonha quem nunca teve, só sonha quem nunca atingiu e só sonha quem nunca foi capaz. E, também por isso, se diz que sonhar é de graça! E por isso todos sonhamos, com o alcançável, com o inalcançável, ou com a soma dos dois que é nos sair precisamente o Euro…coiso!

Mas eu, como sonhador, devo ser o Ser mais irrelevante que em Portugal existe. E porquê, perguntarão? Simples: Nunca sonhei aparecer na TV, e nunca apareci! Num jornal que fosse, e nunca apareci também! Nunca fui objecto de qualquer curiosidade ou abordagem politica, mas aqui, valha a verdade, nunca fiz por isso. Mas nunca fui, por exemplo, sondado, e sempre sonhei com isso. E eu pergunto-me: como diabo há tantas sondagens e eu nunca fui sondado? Porque raio só me telefonam os tipos da Meo, da Nos, da Vodafone e da Impresa?

Mas, mesmo assim, tento ser um sonhador e vou lutando, por conta própria, e vou tentando erguer a minha voz, quanto mais não seja aqui neste espaço aberto, o Facebook! E, por incrível que pareça ainda vai havendo um punhado de gente que, mesmo não me conhecendo, me lê e partilha. Já não é mau!

Mas vocês estão a ler e a perguntar-se a onde é que este “cromo” quer chegar, com que raio terá ele sonhado, para além das coisas triviais já ditas, a que se pode acrescentar a Paz, a Liberdade, a Habitação, a Saúde, a Justiça e todas essas coisas de somenos? E aqui já não posso esconder mais e tenho que confessar o meu sonho. Um sonho que é um misto de sonho e de pesadelo (tanto eu escrevi a dizer mal dele…), mas que agora resulta numa simples coisita: Sonhei fazer uma perguntita ao Marcelo? Acreditem, sonhei mesmo…

Não é preciso recuar e trazer à colação o FREUD para afirmar que todos os sonhos têm uma qualquer razão, seja ela superficial e dela nos recordemos, ou seja ela profunda, e é qualquer coisa escondida no nosso subconsciente e que, destrambelhadamente, vem à superfície! Mas, neste caso, não é nada disso! É uma coisa corriqueira: o meu Irmão mais velho, que ainda é Presidente da Câmara da Ponte da Barca e é tu cá tu lá com o Marcelo, disse-me uma vez, e ficou gravado na minha memória, que sonhava convidar o Marcelo a ir à Barca! Onde o anterior, para seu desgosto e nosso gáudio, nunca foi, nem pelo meu Irmão foi convidado!

E como quando há assim um evento desses eles até me costumam convidar (devem pensar, às tantas, que a minha presença eleva a sua qualidade, a do evento) eu até fui ao obrigatório e informal jantar com Sua Excelência! E então, com aquela descomunal “lata” que me caracteriza (posso nada ter, mas “lata” não me falta), pedi licença a Sua Excelência e a todos os presentes para fazer uma pergunta, em voz alta e audível, uma simples e singela pergunta, ao Senhor Presidente! Vejam lá com o que eu sonhei!

E a primeira pergunta que me surgiu foi: “O que pensa V.Exª da “Geringonça”, ou da “Jiga-Joga” como agora eu lhe chamo?”. Claro que foi só um pensamento retórico porque, nem seria preciso muito, logo descobri que me ia sujeitar ao ridículo e que ele, com a sua subtil habilidade, me iria mandar logo para canto!

Desviei-me imediatamente desse pueril pensamento e raciocinei melhor: eu tinha que lhe fazer uma pergunta, mas uma pergunta com incisão tal, da qual ele não tivesse escapatória.

Uma cuja resposta teria que ser, sem quaisquer sofismas, um “Sim ou Não”, e o melhor que me surgiu foi o seguinte: “ Senhor Presidente, com o devido respeito a V.Exª e a todos os presentes, e tendo por adquirida a anuência de todos e de V.Exª também, eu gostaria muito de lhe fazer uma pergunta! Mas uma coisa assim prosaica, esteja tranquilo. Eu, para ser sincero, pensei primeiramente perguntar-lhe “o que pensa da Geringonça” mas, como de imediato pensei num nome que S. Exª não me chamaria mas pensaria, logo desisti. E como sei que V.Exª é tu cá tu lá com o meu Irmão aí ao seu lado, e não o querendo por nada deste mundo defraudar e dar uma de inocente, resolvi reformular a minha proposta e desafia-lo, não para um cantar ao desafio próprio destas bandas e ao qual certamente não escapará mas, para isso, há aqui muitos especialistas, para uma perguntinha banal, mas à qual o Sr. Presidente, pese a sua notável arte da dialética, e tudo o  que termine em “ética”, não poderá fugir e cuja resposta, lamento informá-lo, só poderá ser “Sim ou Não”! É que nem o “talvez” admite.

Mas, perdoe-me uma leve arrogância, não consigo vislumbrar como possa responder com um “Não”! Como o “Nim” também está fora de opção, V.Exª só poderá responder: “SIM”!

Mas qual é essa sua pergunta, afinal, que o faz ter tanta certeza? Perguntou, muito curioso, S. Exª. Então, com toda a sua condescendência e liberal “fair play”, sua compreensão e afectivo sentimento, a minha pergunta é a seguinte:

“ NÃO ACHA V. EXª QUE A “GERINGONÇA” FOI A SALVAÇÃO DESTE PAÍS E MESMO DA NOSSA DEMOCRACIA?”

Eu sei que não passou de um sonho, um daqueles que, como disse, quando nada nunca fomos ou tivemos sonhamos um dia ter, o nosso momento de glória, isso mesmo, e então dá-nos para sonhar assim com “cenas” destas…

Mas, já agora, ponham-se na pele de Sua Excelência: que responderiam?

O óbvio, não é?


Fonte aqui

“OS LOURENÇOS QUE SÃO CAMILOS”

(Joaquim Vassalo Abreu, 15/04/2017)

camilo lorenço, parvo, lambe botas (1)

Antes que decidissem acusar-me de ser ofensivo e sei lá que mais, eu resolvi alterar o titulo deste texto e, em vez de o destinar a um dromedário apenas, procurei ser mais abrangente e não me ficar apelas pelos “Areias”, como na canção juvenil.

Eu sei que o Lourenço não tem culpa de ser Camilo, tal como os “Areias” não têm culpa, sendo “Areias”, de ser apelidados de “camelos”.

É que na minha terra, Esposende, para além de muita areia, desde as extensas praias da Apúlia ao Ofir e até à foz do Cávado, retomando na de Esposende, Marinhas, Mar, Belinho e São Paio de Antas, vejam só quantos quilómetros de areia, há também muitos “Areias” e não consta que algum seja Camilo! Eu conheço os Areias Miranda, os Ferreira Areias e vice versa, os Areias Amaro e vice versa também, os Rodrigues Areias e vice versa ainda e, Camilos…nada!

Mas conheço uns Camelos! Sim, mas Camelos de verdade. O Sr. António Camelo, o dono dos conhecidos Restaurantes Camelo, em Meadela- Viana do Castelo e Apúlia-Esposende, por exemplo, que fez questão de registar mesmo o nome de Camelo como nome próprio. Mas estes Camelos, Camelos a sério, que conheço e até fiz há uns anos umas férias com o Sr. Camelo em Cabo Verde, são mesmo Camelos e não “Camilos”!

Fique claro, portanto, que não há aqui lugar para quaisquer comparações. Estou a falar de “Camilos” e não de “Camelos”, certo?

Agora, se alguém achar que o Camilo é um “Camelo”, isso é lá com ele. Eu preferiria que dissessem assim como o tipo é burro como um camelo”, como dizia um tio meu, o meu Tio Nel de boa memória, o Homem mais engraçado que conheci e que, tendo uma consideração e admiração incomensuráveis pelos filhos do nosso Pai, de quem era tio mas, dada a reduzida diferença de idades, foram educados como se irmãos fossem, quando algo dizíamos que não sabia ele, um perfeito perito na arte vernacular, arrancava uma palavra desse seu extenso dicionário e desabafava: Eu sou burro como um camelo”! E a gente ria e ria… É que ele nem era uma coisa nem outra: utilizava essa figura linguística para nos valorizar e para exacerbar os nossos conhecimentos e, mais, o seu extremo orgulho em nós!

Aliás, convém também esclarecer bem a inultrapassável diferença entre um “burro” e um BURRO! A menos que “burro” seja alguém que se queira armar em BURRO! Mas, como um dia escrevi, BURRO é mesmo BURRO, e não admite comparações (Já foi escrito há muito tempo, mas podem aqui recordar aqui), e a coisa mais deprimente que pode haver é ver um “burro” querer armar-se em BURRO!

Eu sei que o nosso Tio Nel quando desabafava e dizia” Eu sou burro como um camelo, também poderia dizer “Eu sou camelo como um burro”, e aí, por muito que não vos pareça, as coisas mudavam um pouco de figura porque, enquanto na primeira proposição ele dizia logo que o “camelo” era um “burro”, porque a ele o estava a comparar, aqui a ordem inverte-se e o “burro” é que passa a ser um “camelo”. Confusos? Não estejam pois, afinal, se pensarem bem, é mesmo muito simples e, atentos ao título, onde os “burros” são poupados, ele apenas refere Lourenços que são Camilos! Porquê? Porque há muitos Lourenços que não são Camilos, como também haverá por aí Camilos que não sejam Lourenços! Mas há quem acumule e, sendo Camilo, queira armar-se em “BURRO”, quando de “burro” não passa.

E isto porque ele pensa ser um resistente! Os cépticos, as pitonisas, o da SIC, o da Santa Madre Igreja, o João Jardim, corem, os da Europa, dizem que até as agências de rating, o INE, o Banco de Portugal e o Banco dos Bancos até…todos estão a curvar-se e a admitir que o raio do Costa, do Centeno, do Nuno Santos, da Catarina e do Jerónimo e aquela “jiga-joga” que inventaram afinal funciona…todos! Todos? Todos menos o Camilo, que por acaso também é Lourenço…

Porque tudo continua a ser muito perigoso, diz ele! E é, eu confirmo. Tudo pode, de repente, ir por água abaixo, diz também! E pode, eu também confirmo. E a continuarem estes desequilíbrios, iremos prosseguir em areias movediças! E não é que também concordo? Mas apenas porque anda por aí um “burro”, mas este mesmo “burro” e à solta, que pode fazer explodir com todas as suas e as nossas teorias. Tão só e não é nada despiciendo.

Pois é, eu até concordo com todos os seus receios, mas há uma grande diferença entre o que eu penso e este Governo e esta maioria pensam e o que ele julga: é que, para ele, o mundo deve ser, com todo o devido respeito por esse nobre animal, como o do “burro”! Onde este, por mais estóico que seja, por mais arretar que arrete, por mais que finque os pés, nunca deixará de ser animal de carga!

Mas, para nós, o Mundo pula e avança e só pode retroceder quando já avançou, quando foi empurrado pelos ventos da História, contra a resignação de ser-se “burro” e nunca conseguir ser um BURRO a sério, por muito que pense que o é.

PS- Que quer dizer, depois do que vou dizer, “pense bem”! É que, voltando ao nosso Tio Nel, uma vez numa Feira no Alentejo, um compadre estava desanimado pois o seu animal tinha estacionado e nem para trás nem para a frente! Não havia quem o conseguisse mover um centímetro que fosse. Até que chega o Tio Nel de cigarro na boca e, rindo-se, disse lá para os compadres: sois mesmo uns “trouxas”! Pega na “pirisca” do cigarro e mete-a no ouvido do animal…

Acho que o compadre não mais o apanhou… Percebeu Lourenço?

COM VOTOS DE BOA PÁSCOA PARA TODOS!


Fonte aqui

AS GAMBAS

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 01/04/2017)

Autor

                       Clara Ferreira Alves

Em Portugal quem não se mete num partido está tramado, é só pagar as contas dos outros e as vidas dos parasitas que andam a coçar o rabo por São Bento e ainda lhe aparecem à noite na televisão.


Estava zangado. Danado mesmo. Porra de vida. Esqueceu-se do telemóvel em casa. No carro? Agora não pode procurar. Também para quê? Notícias? Quem quer saber dos políticos? A Síria e o Trump e não sei quê, o que é que isso interessa? O que o faz zangar é o vizinho do lado, o carro de trás, o semáforo da frente, a fila do supermercado, as notas da escola, os dias de chuva, os postais dos impostos, os anos da sogra, as promoções dos colegas, as multas de estacionamento, os crimes do telejornal, as bicadas nas redes, as mortes dos amigos, os sucessos alheios, os fracassos próprios. Onde é Mossul? O Guterres e os jornalistas que tratem disso porque o tacho é deles. Como se já não tivesse problemas que cheguem. A prestação do carro novo. Devia ou não ter comprado a máquina? Sim, porque são horas no trânsito para sair de casa e chegar a casa. Não, porque o emprego anda tremido com os novos patrões e a merda dos computadores para tudo, qualquer dia o computador passa a dormir com a mulher em vez dele. O ordenado nem é dos piores mas o Estado come tudo com os impostos e a casa está por pagar e enquanto se mantiver assim com os juros em baixo a coisa aguenta mas se a Le Pen ganhar e a Europa estoirar não é bom dever aos bancos. Mas se a Le Pen ganhar e a Europa estoirar lá se vai por água abaixo um carro novo e a escudos não vamos lá, são parvoíces daquela do Bloco e dos comunas. Ainda acabam a despedir os funcionários públicos e a mulher é um deles e se a coisa ficar preta é uma garantia de que não deixam de comer. Ao menos o puto come mas a comida não lhe abre a cabeça para a escola e as notas são uma miséria embora a culpa seja dos professores que não ligam nenhuma e querem é folgas e feriados. Os países não vão à falência. Ou vão? Ele não tem emprego no Estado, se isto correr mal vai borda fora, reformam-no. Ainda por cima o chefe não o grama, um palerma que passa o dia no Facebook a fingir que trabalha. O Lopes é que foi esperto pôs-se a andar para Angola e fez uma massas e agora tem a conta recheada. O estúpido do Lopes, conhece-o desde miúdo, nunca teve talento para nada exceto para lamber botas mas arranjou padrinhos e tem as costas quentes. É militante. Em Portugal quem não se mete num partido está tramado, é só pagar as contas dos outros e as vidas dos parasitas que andam a coçar o rabo por São Bento e ainda lhe aparecem à noite na televisão. E as contas dos bancos, essa gatunagem. Agora é o Montepio amanhã é a Santa Casa ou a Casa Pia ou um desses lugares santos. Ainda acabamos a resgatar o Benfica e já agora se o Benfica ganhar temos patuscada, umas cervejas, uma mariscada, sem mulheres porque as mulheres falam de mais. Desde que a sogra enviuvou que a vida lá em casa é uma chatice. O filho fica calado num canto com os auscultadores nos ouvidos, Rodriguinho não comes?, é bife, tu gostas de bife filho, enquanto a mulher e a sogra veem a telenovela. Aquele filho madraço quer ter uma banda e abana muito as ancas. Ainda me dá em maricas, o puto, agora é moda. Até as mulheres são. E fuma às escondidas. Bom… ele faz o mesmo. A mulher não deixa. Se apanha o puto com droga dá-lhe um estalo palavra de honra. O rapaz anda nos festivais e quem paga é a mãe que lhe passa a maquia para o bolso. A mulher e a sogra não podiam ver o menino sofrer por não ir ao Rock in Rio. O nome diz tudo. Tudo que mete Brasil sabe-se no que dá. País de caloteiros. A filha casou-se e abalou para o estrangeiro com o marido, isto aqui não tem futuro, é um país sem futuro, é um atraso de vida, vamos para a Alemanha. E nunca punha os pés em Portugal. Cá era explorada na caixa de um hipermercado. E isto com um curso superior de comunicação e marketing que lhe tinha saído do bolso e que ela dizia que havia de render. Sim, sim. Raio de país, mesmo um atraso de vida. O Costa e o Passos a brincar às escondidas a ver quem saca mais. Com uma mão à frente e outra atrás. Ele não ia votar, estava farto de votos, mais que fazer. Tudo uma cambada de corruptos como o outro que foi para Paris e que puseram à sombra como se fosse o único. O Lopes de vez em quando descaía-se e contava umas coisas de arrepiar, aquilo em Luanda era uma festa, era tudo a meter a mão na massa. E ele especado num emprego sem saída e a aturar o patrão que era vinte anos mais novo que ele e andava sempre agarrado ao telemóvel. Bom, Portugal tinha uma vantagem. Não tinha terroristas. Nem árabes. E tinha o sol, mas o sol quando nasce não é para todos. Ele nunca o via. Nem no escritório. Nem na casa suburbana voltada para a sombra do prédio em frente. No inverno saía de noite e entrava de noite. O sol entrava-lhe pela janela do carro numa curva súbita da autoestrada. Sabia-lhe bem. Lembrava-lhe os tempos em que era novo e andava a acampar com os amigos nas praias. O mar era limpo. O planeta não estava todo lixado. O carro era a casa dele. Fizera bem em trocar de máquina. Antes que a merda do país estoire de vez. A ver se não se esquece de mandar a mulher encomendar as gambas e cozê-las.