O Syriza traiu? Os gregos não acham

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/03/2015)

 Daniel Oliveira

Daniel Oliveira

Decretou-se nos jornais portugueses e europeus que o governo grego tinha cedido em toda a linha. Em Espanha, Rajoy falou da frustração dos gregos. O ministro das Finanças alemão disse que o governo grego teria dificuldade de explicar este acordo ao seu povo. Uma derrota que provava não haver alternativa ao rumo seguido pela Europa nos últimos quatro anos. Já tive oportunidade de mostrar como isso é falso, Seja como for, estava também previsto que os problemas dissensões internas no Syriza iriam ser um uma dor de cabeça para Alexis Tsipras. E que o povo grego se sentiria defraudado nas suas espectativas. De facto, os sectores mais esquerdistas do Syriza reagiram. Stathis Kouvelakis, economista, trotskista membro do Comité Central do Syriza, apelou, em carta aberta aos deputados do “Die Linke” (partido congénere da esquerda alemã) e do resto da Europa que votassem contra o acordo assinado entre o governo grego e o Eurogrupo. Um exercício que retrata na perfeição a infantilidade política de alguma extrema-esquerda e que, felizmente, não terá resposta positiva.

Construir a ideia de que houve uma traição do Syriza aos seus eleitores serviu sobretudo os intentos dos que defendem a ideia de que o caminho da austeridade é inevitável. Já o escrevi. Mas assistimos, como é costume, a uma aliança de vontades, mesmo que involuntária. Também à esquerda, e não apenas entre os trotskistas gregos (no dia que um trotskista conseguir lidar com uma vitória política tocarão sinos a rebate), veio a acusação de capitulação. E a ideia de que a Grécia perdeu no primeiro round também ganhem adeptos entre os que decidiram fazer da saída do euro o elemento de mobilização política para uma mudança na Europa. Já lá irei.

É interessante, antes de avançar mais neste debate, olhar para a realidade. O tal povo grego, a quem seria tão difícil explicar este acordo, não parece concordar com os que decretaram uma derrota negocial da Grécia. Segundo uma sondagem do jornal “Parapolitika”, se as eleições fossem agora, depois deste acordo assinado, o Syriza teria 47,5% dos votos (mais 11% dos que nas eleições) e a Nova Democracia ficaria pelos 20,7% (menos 7%) . E a esquerda que mais violentamente se tem oposto ao acordo para os próximos quatro meses, os comunistas do KKE, desceria para os 4,8% (menos 0,7%). 68% dos gregos estão satisfeitos com o resultado das negociações e apenas 23% se dizem descontentes. 76% fazem uma avaliação positiva do trabalho do governo e apenas 18% negativa. A estratégia alemã, acompanhada por Rajoy e Passos Coelho, não está a resultar.

Mas há mais um dado fundamental para os que acreditam que a política se faz com vanguardismos e que desistem de construir maiorias sociais: 81% querem ficar no Euro e apenas 15% queriam regressar ao Drachma. Um dado que nem os que, como eu, não acreditam no futuro do Euro, podem ignorar.

É bom que todos que se opõem à austeridade compreendam que a construção de uma alternativa, na Europa, depende da existência de vários governos antiausteritários.

Note-se, quando falo de vanguardismo, que não está em causa a avaliação que cada um faça sobre o Euro e a expectativa que cada um tem em relação ao futuro da Europa e dos países periféricos no atual quadro de união monetária. Trata-se de avaliar a correlação de forças europeias e nacionais. Trata-se de perceber que, na política, ao contrário do que sucede no debate académico, a construção de maiorias sociais é um elemento tão real e decisivo como qualquer variável económica. Nas atuais circunstâncias, mesmo um governo que decida ou seja obrigado a sair do Euro só o poderia fazer, tendo em conta as consequências imediatas dessa saída, se tivesse um fortíssimo apoio político para resistir ao poderoso embate dessa decisão. E fazer da saída do Euro uma bandeira política é garantir a diminuição dessa base de apoio. A minha posição sobre o Euro está escrita e não mudou: é, na minha opinião, uma moeda sem futuro que põe em perigo toda a Europa e, em especial, as economias periféricas. E interditar o debate sobre Euro é um erro político.

Mas sei que a política não é um exercício teórico solitário, mas um confronto permanente entre a nossa convicção e as condições políticas em que ela se manifesta. Talvez graças à minha formação marxista, sou muitíssimo sensível à construção de maiorias sociais para transformar a realidade.

Mas a questão não é apenas o Euro. É a avaliação do acordo feito pelo Syriza e a forma como alguma esquerda lida com os limites políticos da atual situação. É bom que todos que se opõem à austeridade compreendam que a construção de uma alternativa, na Europa, depende da existência de vários governos antiausteritários. A contestação na rua, sendo fundamental, não chegou e não vai chegar. Uma derrota do Syriza isola de forma dramática as posições de quem se oponha à austeridade. Quem tem pressa em decretá-la faz um excelente favor ao status quo europeu e nacional.

Para além de todas as diferenças substantivas, há uma, de avaliação da realidade política, que distingue a cultura de seita e a esquerda que, para além de querer ter razão, quer que a sua razão tenha algum efeito na vida concreta das pessoas. A primeira acredita que basta radicalizar o discurso para provocar uma rutura. Tem uma fé inabalável no poder milagroso das suas palavras de ordem. A segunda acredita que só muda a realidade se construir maiorias sociais que sustentem a sua ação. Por isso, de nada serve uma radicalização que viva totalmente divorciada dos sentimentos populares.

As cataratas europeias

(Eduardo Paz Ferreira, Expresso, 28/02/2015)

sinfonia

Professor catedrático diz que a Europa necessita de uma intervenção para afastar a visão enevoada e a dificuldade de ver à distância.

O mês que decorreu após as eleições gregas, tal como o período que as antecedeu constituiu, seguramente, uma experiência pesada para os políticos e os cidadãos gregos mas, também, para todos quantos acreditam e querem uma Europa unida, forte e democrática. Em síntese, tornou-se especialmente evidente que, como assinalei no meu último livro, se tinha passado da Europa de Schuman à não Europa de Merkel.

Mesmo para quem tinha poucas dúvidas quanto ao desejo de Berlim de criar uma Europa alemã em vez de se perspetivar como uma Alemanha europeia (a velha angustia de Thomas Mann), o tipo de chantagem e intromissão nas eleições gregas situou-se umas oitavas acima do esperado, numa banda sonora de ressonância wagneriana, mas com épicos bem menos impressivos.

Sem qualquer pretensão de ser exaustivo — e seria muito difícil consegui-lo — recorde-se apenas algumas recentes declarações de Schäuble: “Sinto muito pelos gregos. Elegeram um Governo que de momento se comporta de maneira bastante irresponsável”, quando se batia contra a hipótese de qualquer acordo ou o desdém sorridente com que após o acordo comentou “o encontro com a realidade é sempre muito duro. Isso também é frequentemente válido para os governos. Governar é um encontro com a realidade e a realidade habitualmente não é tão bonita como os sonhos”. Ah!, e claro que não resistiu ao grosseiro comentário de que Tsipras e o seu extraordinário ministro das Finanças não tinham a mínima ideia do que estavam a fazer.

As suas palavras ecoam no eleitorado alemão e, de modo especial na comunicação social. O “Die Welt” proclamou que “Schäuble sabe a linguagem que Atenas conhece” e o “Bild”, num tom que me lembrou os tempos de Salazar e do “Diário da Manhã” e, seguramente, teve antecedentes no período negro da história alemã, titulou: “A Alemanha diz: ‘Obrigado, Wolfgang Schäuble’”.

Mas a Europa alemã tem raízes poderosas desde logo na Holanda, ali tão perto. O socialista Jeoren Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, foi inúmeras vezes fotografado e filmado olhando com ódio profundo para Varoufakis. Ao mesmo tempo, fez de tudo para inviabilizar o acordo e até conseguiu fazer desaparecer um programa razoável elaborado pela Comissão Junker.

De Junker e do seu papel nesta crise ficarão as fotografias em que segura ternamente na mão de Varoufakis e, sobretudo, a sua inesperada e quase comovente — porque feita num momento em que todos os poderes se erguiam contra a Grécia — declaração: “Pecámos contra a dignidade dos povos, especialmente na Grécia, em Portugal e também na Irlanda. Eu era presidente do Eurogrupo e pareço estúpido em dizer isto, mas há que retirar lições da história e não repetir os erros”

Deploravelmente diferente foi a atitude dos diversos líderes socialistas e sociais-democratas, que tinham tido palavras de simpatia para Tsipras e Varoufakis, como os franceses, italianos e austríacos alinharam na unanimidade da primeira reunião do Eurogrupo tal é o poder da Alemanha. A gravata que Renzi dera ao primeiro-ministro grego para pôr no dia do acordo era afinal um garrote.

Impressiona, especialmente, a cobardia destes partidos que, perdidos há largas décadas num espectro político em que não conseguem encontrar espaço, não compreendem que, ao secundar todas as políticas conservadoras, apenas abrem espaço para seguir o destino do PASOK e para que o eleitorado os ignore.

A batalha de David e Golias irá continuar e está longe de saber-se como irá acabar mas, mesmo que se pretenda valorizar o recuo grego que foi claro, o que parece certo é que para a generalidade dos cidadãos europeus começou o primeiro dia da sua vida, percebendo que é possível ter voz e que quando mais governos se juntarem aos gregos as coisas mudarão.

Para já, é claro que temos uma União que se compraz em esmagar os fracos, que esqueceu os valores da solidariedade e da democracia e que só sabe tirar prazer da distanciação em relação aos povos e às suas necessidades. É esta Europa, obcecada pela Grécia, que é incapaz de lidar com a crise da Ucrânia, com o drama do Médio Oriente e com a morte dos imigrantes desesperados que tentam atravessar o Mediterrâneo. É esta Europa que se apaga na cena internacional.

Esta é uma Europa que necessita de uma urgente intervenção às cataratas, que lhe devolva a visão enevoada e a dificuldade de ver à distância. O meu conselho é não só o de alguém que ama o projeto europeu, mas também de quem esta semana foi operado às cataratas e que, por isso, tenta solidariamente, que também a União se trate.

A mesa, a Schadenfreude e a vigilância

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 28/02/2015)

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Perante um processo negocial, que a Europa devia aproveitar para dar um passo em frente, reemerge o egoísmo e, pior, uma satisfação obscena com a humilhação de povos soberanos.

Com uma candura surpreendente, o ministro Rui Machete dizia há dias que “o Governo português estará sentado no lado oposto do grego na mesa de negociações”. A declaração é reveladora do estado do processo de integração. Uma Europa politicamente bloqueada em torno de uma negociação incapaz de ver para lá de ganhos táticos de curtíssimo prazo dos Estados-membros. Onde existiu, ainda que por um momento fugaz, um interesse comum na busca de um espaço de desenvolvimento e liberdades, surge agora uma mesa em torno da qual os governos vão gerindo as suas conveniências: umas vezes de um lado, outras do lado oposto e, como passou a acontecer com Portugal, a maior parte do tempo escondendo-se debaixo do tampo, esperando que ninguém dê por nós. Não funciona.

Com um cinismo que chega a arrepiar, o ministro Schäuble comentava, à saída da enésima reunião do Eurogrupo, e perante um princípio de acordo, que “os gregos vão ter dificuldades em explicar este acordo aos seus eleitores”. Será, porventura, um acaso, mas só em alemão é que há uma palavra para descrever o prazer que podemos sentir face ao falhanço alheio: Schadenfreude. Perante um processo negocial, que a Europa devia aproveitar como uma oportunidade para dar um passo em frente (afinal foi o que aconteceu em momentos críticos anteriores), reemerge o egoísmo e, pior, uma satisfação obscena com a humilhação de povos soberanos. O filósofo alemão Schopenhauer, numa citação muito glosada, disse “a inveja é um sentimento humano, ter prazer com a Schadenfreude é diabólico”. Não funciona.

Com um realismo chocante, esta semana, a Europa colocou o bom aluno, que ainda há dias acenava docilmente sentado do lado certo da mesa, sob “vigilância apertada”. O bom aluno reagiu com incompreensão. Tinha feito as reformas estruturais que lhe haviam encomendado, prestado vassalagem ao professor e, no fim, os efeitos do ajustamento não tinham sido os anunciados. O estrangulamento orçamental e as miríficas reformas estruturais, que com tanta fé o Governo tinha concretizado, afinal não tinham resolvido os “desequilíbrios económicos excessivos”. Um dia depois, a mesma Comissão Europeia, revelando uma propensão incontrolável para a esquizofrenia, afirmava: “O sistema de proteção social português não foi capaz de lidar com o aumento da pobreza nos últimos anos, salientando que os cortes nos apoios sociais afetaram desproporcionalmente os mais pobres”. A mesma Comissão Europeia que, antes, tinha saudado efusivamente o ímpeto reformista do Governo português, quando este cortava com vigor prestações sociais. Não funciona.

Quando as coisas não funcionam, o razoável é alterar o rumo. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde, o falhanço revelar-se-á em todo o seu esplendor. Se nada mudar, é para lá que caminha, a um ritmo muito próprio, o projeto de integração europeia.