Palermas

(In Blog O Jumento, 10/07/2017)
europeu
(A direita passou ao ataque puro e duro já que concluiu que o diabo não vai aparecer. e faz tudo para colocar areia na engrenagem da Geringonça. Agora é a célula da Justiça no ataque ao Governo. É tudo estranho neste caso. Os deputados do PSD, Luís Montenegro, Hugo Soares e Luís Campos Ferreira também foram ao Europeu ver a bola a convite da Olivedesportos (Ver aqui), mas a esses a Justiça nada tem a dizer. 
Estátua de Sal, 10/07/2017)

Não sei se é por causa da nossa vocação marítima mas o certo é que há por estas bandas muita gente a embarcar em viagens oficiais, oficiosas e coisas do género. Quer no sector privado, quer no Estado multiplicam-se as oportunidade ade promover o turismo institucional, assinaturas, seminários, conferências tratados, negociações multilaterais, negociações multilaterais, feiras, exposições, cursos, intercâmbios, conselhos, comissões, geminações, campeonatos, finais, Dia de Camões, não faltam oportunidades.
Os presidentes correm o mundo em aviões a abarrotar de empresários, assessores, fotógrafo pessoal, mordomo, esposa, parentes e conhecidos. Os autarcas inventam geminações com cidades exóticas para passarem a vida no laréu a comemorar o dia do país, o dia nacional e tudo mais, quando não arranjam negócios ou operações às cataratas para andarem num vaivém aéreo que nalguns casos até dá para constituir família.
No Estado são trinta cães a um osso, a disputar reuniões, seminários e mais um sem número de oportunidades de fazer turismo institucional. Há também os que visitam grandes cidades americanas com o argumento de visitarem as sedes das empresas informáticas que nos vendem o software ou os polícias que vão a Londres ou a outras paragens na esperança de encontrarem a tal prova que falta e que ninguém encontra. Tudo serve para andar de cu tremido.
Encontros sindicais patrocinados pelos Espírito Santo com dondocas a passear por conta da generosidade do banqueiro, expedições ao Saará financiadas por grandes empresas que nunca se esquecem de convidar o autarca, chefes que vão a reuniões e levam a amante para uma lua de mel por conta do erário, tudo vale para viajar por conta.
O que eu não entendo é o que leva governantes a viajarem para verem um jogo da bola em Paris, algo que se vê mais confortavelmente no sofá. Se o secretário de Estado fizesse um périplo pelas praias exóticas de todo o mundo, acompanhado de vasta comitiva, para assinar acordos de dupla tributação que, em regra, são assinados pelos representantes diplomáticos, ainda compreenderia. Mas ir ver um par de chutos?
Ainda por cima sabendo que a associação sindical dos juízes no passado tentou derrubar um governo vasculhando nas compras com o Visa oficial e que os nossos magistrados não perdem a oportunidade de prender alguém do PS?
Para tramar um governante não é necessário condená-lo, basta o MP contituí-lo arguido e para isso basta uma suspeita e pouco mais, nada que não se arranje com uma carta anónima bem forjada. Com a perseguição que os magistrados fazem aos governos de esquerda, a quem faz parte deles não basta ser honesto e parecê-lo, quase é preciso um comportamento de frade da Cartuxa, para não dar a mais pequena oportunidade à direita.
Ao aceitar um convite, ainda que esse convite possa ter sido dirigido a dezenas de personalidades da vida política ou do sector privado, mesmo sabendo que se tratava do patrocinador da selecção nacional, os governantes foram uns palermas e acabam por cair como uns patinhos.

 


Fonte aqui

Inquietação, inquietação. Três demissões. Remodelação à vista.

(Nicolau Santos, in Expresso Curto, 10/07/2017)

nicolau

Em 2008, José Mário Branco lançava um novo álbum. Um dos temas tinha por título “Inquietação”. O refrão era assim: “Cá dentro inquietação, inquietação / É só inquietação, inquietação / Porquê, não sei / Porquê, não sei / Porquê, não sei ainda / Há sempre qualquer coisa que está prá acontecer / Qualquer coisa que eu devia perceber / Porquê, não sei / Porquê, não sei / Porquê, não sei ainda (…)”

Talvez a música tenha vindo à memória de António Costa quando foi confrontado ontem com a demissão de três secretários de Estado: o da Inovação (João Vasconcelos), o dos Assuntos Fiscais (Fernando Rocha Andrade) e o da Internacionalização (Jorge Costa Oliveira). Motivo: a suspeita de que iriam ser constituídos arguidos no âmbito do inquérito aberto pelo Ministério Público a propósito das viagens que fizeram para assistirem ao Euro 2016 em França a convite da Galp, patrocinador oficial da selecção portuguesa desde 1999 (e que durante todos estes anos convidou muitos e variados políticos, empresários, gestores, jornalistas e pessoas de várias outras profissões para assistirem aos jogos de Ronaldo & Companhia).

Os três governantes, que ontem se reuniram com o primeiro-ministro, que aceitou os pedidos de demissão (“Não podia negar-lhes esse direito”, disse ao Público), divulgaram uma nota na qual afirmam que decidiram “exercer o seu direito de requerer ao Ministério Público a sua constituição como arguidos”, depois de terem tido conhecimento de que “várias pessoas foram ouvidas pelo Ministério Público e constituídas como arguidas no âmbito de um processo inquérito relativo às viagens organizadas pelo patrocinador oficial da seleção portuguesa de futebol, durante o campeonato da Europa de 2016”. (Curiosamente, hoje passa um ano que a selecção portuguesa venceu o Euro 2016, ganhando no final à anfitriã França por 1-0, com um golo no prolongamento do improvável Éder).

Jorge Costa Oliveira, Fernando Rocha Andrade e João Vasconcelos afirmam que foram “sempre transparentes” sobre esta questão e “reafirmam a sua firme convicção de que os seus comportamentos não configuram qualquer ilícito”, o que dizem querer “provar no decorrer do referido inquérito”.

“Todavia, nas atuais circunstâncias, entendem que não poderão continuar a dar o seu melhor contributo ao Governo e pretendem que o executivo não seja prejudicado, na sua ação, por esta circunstância”, justificando assim o seu pedido de exoneração.

Segundo o Observador, os três secretários de Estado são suspeitos de recebimento indevido de vantagem e é este o crime pelo qual serão indiciados.

Entretanto, também o assessor para as questões económicas do primeiro-ministro, Vitor Escária, já foi ouvido pelo Ministério Público e constituído arguido, confirmou o Expresso. E deixou as funções que tinha em S. Bento. Saiu cara a ida ao futebol.

Uma coisa é certa: depois de Pedrógão Grande e do roubo de armamento em Tancos, que levaram a oposição a pedir a demissão da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e do ministro da Defesa, Azeredo Lopes, estes pedidos de exoneração, que nada tem a ver com os casos em apreço, eram a última coisa que certamente António Costa desejava – tanto mais que pelo menos dois dos secretários de Estado exonerados lhe são muito próximos, João Vasconcelos e Rocha Andrade.

Temos, pois, remodelação à vista – e desdramatização em curso. “Por definição todos somos precários”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, em entrevista ao Expresso publicada no sábado passado. E acrescentou: as remodelações “fazem parte da vida política”.

Por seu turno, Luís Marques Mendes, no seu habitual comentário dominical televisivo na SIC, afirmou que, para além das três demissões já conhecidas, “é provável que saiam mais alguns secretários de Estado”, sobretudo “por razões pessoais”. “Esta mini-remodelação deverá acontecer daqui a duas semanas, provavelmente depois do debate do Estado da Nação”. Marques Mendes disse ainda que, nesta remodelação, não haverá saída de ministros – o que é confirmado por fonte do gabinete do primeiro-ministro ao Diário de Notícias.

O ex-líder do PSD considera inevitável, a prazo, uma remodelação mais ampla que envolva ministros, mas também entende que António Costa não a fará agora, precisamente por estar a ser pressionado pela oposição. A sua previsão é que tal acontecerá depois das autárquicas e que seria importante criar um cargo de vice-primeiro-ministro no Governo, pois “falta claramente um n.º 2 neste Governo”.

A música de José Mário Branco termina assim: “Há sempre qualquer coisa que eu tenho de fazer / Qualquer coisa que eu devia resolver / Porquê não sei / Mas sei / Que essa coisa é linda”. Veremos se António Costa resolve bem o que tem de resolver. E se a sua decisão é linda.


A canção de José Mário Branco pode ser visualizada aqui