Inquietação, inquietação. Três demissões. Remodelação à vista.

(Nicolau Santos, in Expresso Curto, 10/07/2017)

nicolau

Em 2008, José Mário Branco lançava um novo álbum. Um dos temas tinha por título “Inquietação”. O refrão era assim: “Cá dentro inquietação, inquietação / É só inquietação, inquietação / Porquê, não sei / Porquê, não sei / Porquê, não sei ainda / Há sempre qualquer coisa que está prá acontecer / Qualquer coisa que eu devia perceber / Porquê, não sei / Porquê, não sei / Porquê, não sei ainda (…)”

Talvez a música tenha vindo à memória de António Costa quando foi confrontado ontem com a demissão de três secretários de Estado: o da Inovação (João Vasconcelos), o dos Assuntos Fiscais (Fernando Rocha Andrade) e o da Internacionalização (Jorge Costa Oliveira). Motivo: a suspeita de que iriam ser constituídos arguidos no âmbito do inquérito aberto pelo Ministério Público a propósito das viagens que fizeram para assistirem ao Euro 2016 em França a convite da Galp, patrocinador oficial da selecção portuguesa desde 1999 (e que durante todos estes anos convidou muitos e variados políticos, empresários, gestores, jornalistas e pessoas de várias outras profissões para assistirem aos jogos de Ronaldo & Companhia).

Os três governantes, que ontem se reuniram com o primeiro-ministro, que aceitou os pedidos de demissão (“Não podia negar-lhes esse direito”, disse ao Público), divulgaram uma nota na qual afirmam que decidiram “exercer o seu direito de requerer ao Ministério Público a sua constituição como arguidos”, depois de terem tido conhecimento de que “várias pessoas foram ouvidas pelo Ministério Público e constituídas como arguidas no âmbito de um processo inquérito relativo às viagens organizadas pelo patrocinador oficial da seleção portuguesa de futebol, durante o campeonato da Europa de 2016”. (Curiosamente, hoje passa um ano que a selecção portuguesa venceu o Euro 2016, ganhando no final à anfitriã França por 1-0, com um golo no prolongamento do improvável Éder).

Jorge Costa Oliveira, Fernando Rocha Andrade e João Vasconcelos afirmam que foram “sempre transparentes” sobre esta questão e “reafirmam a sua firme convicção de que os seus comportamentos não configuram qualquer ilícito”, o que dizem querer “provar no decorrer do referido inquérito”.

“Todavia, nas atuais circunstâncias, entendem que não poderão continuar a dar o seu melhor contributo ao Governo e pretendem que o executivo não seja prejudicado, na sua ação, por esta circunstância”, justificando assim o seu pedido de exoneração.

Segundo o Observadoros três secretários de Estado são suspeitos de recebimento indevido de vantagem e é este o crime pelo qual serão indiciados.

Entretanto, também o assessor para as questões económicas do primeiro-ministro, Vitor Escária, já foi ouvido pelo Ministério Público e constituído arguido, confirmou o Expresso. E deixou as funções que tinha em S. BentoSaiu cara a ida ao futebol.

Uma coisa é certa: depois de Pedrógão Grande e do roubo de armamento em Tancos, que levaram a oposição a pedir a demissão da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e do ministro da Defesa, Azeredo Lopes, estes pedidos de exoneração, que nada tem a ver com os casos em apreço, eram a última coisa que certamente António Costa desejava – tanto mais que pelo menos dois dos secretários de Estado exonerados lhe são muito próximos, João Vasconcelos e Rocha Andrade.

Temos, pois, remodelação à vista – e desdramatização em curso. “Por definição todos somos precários”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, em entrevista ao Expresso publicada no sábado passado. E acrescentou: as remodelações “fazem parte da vida política”.

Por seu turno, Luís Marques Mendes, no seu habitual comentário dominical televisivo na SIC, afirmou que, para além das três demissões já conhecidas, “é provável que saiam mais alguns secretários de Estado”, sobretudo “por razões pessoais”. “Esta mini-remodelação deverá acontecer daqui a duas semanas, provavelmente depois do debate do Estado da Nação”. Marques Mendes disse ainda que, nesta remodelação, não haverá saída de ministros – o que é confirmado por fonte do gabinete do primeiro-ministro ao Diário de Notícias.

O ex-líder do PSD considera inevitável, a prazo, uma remodelação mais ampla que envolva ministros, mas também entende que António Costa não a fará agora, precisamente por estar a ser pressionado pela oposição. A sua previsão é que tal acontecerá depois das autárquicas e que seria importante criar um cargo de vice-primeiro-ministro no Governo, pois “falta claramente um n.º 2 neste Governo”.

A música de José Mário Branco termina assim: “Há sempre qualquer coisa que eu tenho de fazer / Qualquer coisa que eu devia resolver / Porquê não sei / Mas sei / Que essa coisa é linda”. Veremos se António Costa resolve bem o que tem de resolver. E se a sua decisão é linda.


A canção de José Mário Branco pode ser visualizada aqui

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