E os vencedores da guerra do Irão são… Wall Street, a indústria das armas, a IA e as renováveis

(Notícias Zap in Zap.aeiou, 18/04/2026)

Manifestação “Liberdade para o Irão” de iranianos exilados em frente às Portas de Brandemburgo, em Berlim

A banca está a resistir bem à incerteza — principalmente porque Trump acaba sempre por se acobardar. A indústria de defesa vive o seu melhor momento em anos, a IA está em alta, e as ameaças ao fornecimento de petróleo derem um empurrão às renováveis. Nem toda a gente saiu a perder com a Guerra do Irão.


A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão e o encerramento do Estreito de Ormuz ensombraram a economia mundial, levando o FMI a reduzir a previsão de crescimento para 2026 de 3,3 para 3,1%.

No pior cenário, o de um conflito prolongado, o FMI avisa que o crescimento poderá cair para 2,5%, com os países em desenvolvimento a suportarem o maior peso da escalada dos preços das matérias-primas e da energia.

Ainda assim, no meio da turbulência, algumas indústrias não estão apenas a sobreviver — estão, na verdade, a prosperar, nota a Al Jazeera.

É o caso dos mercados de Wall Street, que estão a lucrar com o caos. A volatilidade provocada pela guerra e pelas decisões imprevisíveis do presidente norte-americano Donald Trump acabou por provocar na verdade um aumento de atividade nas transações bolsistas.

Recentemente, os operadores de mercado cunharam o termo “TACO trade“, ou “doutrina TACO”, para descrever o efeito chicote dos ultimatos presidenciais seguidos de volte-faces, que explicam por que motivo as bolsas resistiram à incerteza após cada nova ameaça do presidente. A expressão é um acrónimo de “Trump Always Chickens Out”: Trump acaba sempre por se acobardar.

Para os bancos de investimento, esta febre traduz-se em maiores comissões e maiores margens de negociação.

Os resultados do primeiro trimestre de 2026 falam por si: o Morgan Stanley registou lucros de 5,57 mil milhões de dólares, uma subida de 29% em termos homólogos; o Goldman Sachs reportou 5,63 mil milhões, mais 19 %; e o JP Morgan Chase obteve 16,49 mil milhões, um aumento de 13%.

Os três bancos apontaram o elevado volume de transações e o forte envolvimento dos clientes como principais fatores. No entanto, os analistas alertam que a bonança poderá não durar: uma incerteza prolongada poderá acabar por tornar os investidores demasiado cautelosos para continuarem a negociar a este ritmo.

Os mercados de previsões estão em expansão a par de Wall Street. A plataforma Polymarket, assente em criptomoedas, tem vindo a faturar mais de um milhão de dólares por dia desde o início de abril, ao permitir que os utilizadores façam apostas sobre tudo e mais não sei quê — desde eleições à própria guerra do Irão.

Após rever a sua estrutura de comissões a 30 de março, a plataforma arrecadou mais de 21 milhões de dólares só na primeira quinzena de abril, ofuscando os 6,23 milhões de todo o mês de fevereiro. Se a tendência se mantiver, a Polymarket poderá gerar 342 milhões de dólares em comissões este ano.

Os ganhos, contudo, concentram-se no topo: segundo um relatório do analista de criptomercados Andrey Sergeenkov, que analisou 70 milhões de transações, os 1% de utilizadores com melhores resultados ficaram com 84% de todos os lucros.

A indústria de defesa vive o seu melhor momento em anos. Segundo o FMI, com os grandes conflitos em curso na Ucrânia, no Irão, em Gaza, no Sudão e no Líbano, quase metade dos países do mundo aumentaram os orçamentos militares nos últimos cinco anos.

Sem surpresa, a procura de armamento está a disparar, sobretudo na Europa, onde os membros da NATO se comprometeram a elevar a despesa com defesa para 5% do PIB até 2035.

Também a Inteligência Artificial continua a desafiar a conjuntura adversa. O organismo das Nações Unidas para o comércio projetava que o sector da IA crescesse de 189 mil milhões de dólares em 2023 para 4,8 biliões de dólares em 2033, e até agora a guerra pouco alterou essa trajetória.

Taiwan, a potência mundial dos semicondutores, registou exportações recorde de 80,2 mil milhões de dólares em março, uma subida de 61,8% em termos homólogos, lideradas por um salto de 124% nas expedições para os EUA.

TSMC, o principal fabricante de semicondutores da ilha, apresentou um resultado líquido de 18,1 mil milhões de dólares no primeiro trimestre, um aumento de 58%. A confiança no sector mantém-se elevada, com os líderes da IA, Anthropic e OpenAI, a planearem ofertas públicas iniciais ainda este ano.

Finalmente, as energias renováveis poderão ser o beneficiário mais relevante da guerra. O conflito representa o terceiro grande choque energético desta década, depois da pandemia e da invasão russa da Ucrânia, e veio intensificar o impulso global para o abandono dos combustíveis fósseis.

Os países asiáticos que dependem do petróleo do Golfo, que transita obrigatoriamente pelo Estreito de Ormuz, que foi finalmente nesta sexta-feira reaberto ao trânsito internacional, foram obrigados a adotar medidas de emergência — do racionamento de combustível novos projetos de produção de energia a partir de fontes renováveis.

Segundo um relatório recente da Agência Internacional de Energia, 150 países têm atualmente políticas ativas de promoção das renováveis.

Os mercados reagiram em conformidade: o índice S&P Global Clean Energy Transition, que acompanha 100 empresas de energias renováveis em todo o mundo, acumula uma valorização de 70,92% em termos homólogos.

As consequências económicas da guerra estão longe de terminar, mas para estes cinco sectores, a crise significou, pelo menos por agora, uma oportunidade de crescimento. A guerra não está a correr mal para todos.

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Afinal Agostinho Costa está vivo e recomenda-se…

(Por Estátua de Sal, 17/04/2026)

A CNN continua a vender-nos propaganda da mais rasca – a que chama informação -, e já nem faz questão de disfarçar para que a julguemos muito imparcial e prosélita da liberdade de opinião. Nos últimos tempos tem sido um chorrilho de Ferro Gouveia, Soller, Serronho e José Carmo, qual deles o pior.

Assim – tal como aconteceu em tempos ao Major-General Carlos Branco -, cheguei a julgar que o Major-General Agostinho Costa também tivesse sido “cancelado” na CNN, já que a sua última intervenção tinha sido em 4 de abril. Mas, afinal não. O Major-general Agostinho Costa, por razões pessoais esteve duas semanas fora do país, mormente em Angola, tendo dado uma excelente entrevista à TPA (Televisão Pública de Angola), sobre a situação geopolítica.

De forma que, foi com muito agrado e atenção que segui hoje na CNN a intervenção de Agostinho Costa no CNN Meio-dia, analisando a complexidade do atual momento geopolítico. O programa aqui fica e a intervenção do Major-general começa por volta do minuto 20. É seguir o link aqui.

Quanto à entrevista à TPA é ver o vídeo abaixo.


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Já não se pode ser católico

(João Gomes, in Facebook, 16/04/2026, Revisão da Estátua.)


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Há um novo mandamento a circular pelo espaço público global: já não se pode ser católico – ou, pelo menos, já não se pode sê-lo em paz, sem levar com um comentário presidencial, uma farpa geopolítica ou um sermão improvisado vindo da Casa Branca.

O mais recente episódio desta curiosa catequese política envolve Trump e o Papa Leão XIV. De um lado, o presidente norte-americano, sempre pronto a distribuir avisos ao mundo como se estivesse a narrar um reality show de proporções bíblicas; do outro, um líder religioso que responde com a irritante serenidade de quem insiste que, apesar das diferenças, ainda é possível viver em paz. Convenhamos: não é exatamente o tipo de resposta que alimenta noticias inflamadas.

Trump, no entanto, parece ter uma dificuldade estrutural com a existência de figuras que ocupem um espaço de autoridade simbólica sem pedir autorização prévia – sobretudo quando essas figuras não seguem o seu guião do conflito permanente. Há algo competitivo nesta postura: como se o palco global fosse pequeno demais para dois protagonistas, e qualquer mensagem de concórdia fosse, por definição, uma afronta pessoal.

O resultado é este teatro algo absurdo em que um presidente se sente na obrigação de “informar” um Papa sobre os males do mundo, como se o Vaticano fosse uma espécie de call center desatualizado da realidade internacional. E, no entanto, a resposta papal – calma, ponderada, quase desarmante – expõe o contraste: de um lado, o ruído grosseiro; do outro, a tentativa de manter algum sentido de humanidade comum.

Para quem observa de fora – e, neste caso, até para um ateu agnóstico sem grande vocação para missas ou rosários – a situação tem algo de revelador. Não sobre a Igreja, nem sobre a fé, mas sobre a dificuldade de Trump coexistir com qualquer forma de autoridade que não seja a sua própria. É como se a existência de outros “papéis importantes no mundo” fosse, em si mesma, uma provocação.

E não se fica por aqui. A lógica parece expansiva: hoje é o Papa, amanhã poderão ser líderes de outras confissões, depois talvez qualquer voz que ouse falar em moderação, diálogo ou complexidade. Afinal, num mundo simplificado a slogans, a nuance é quase uma forma de dissidência.

Entretanto, cresce à volta de Trump uma espécie de ecossistema religioso-político que mistura fé, espetáculo e populismo numa proporção difícil de digerir. Não é tanto religião quanto performance – uma liturgia de aplausos, certezas absolutas e inimigos bem definidos. Nesse ambiente, a dúvida é fraqueza, a empatia é suspeita e a paz… bem, a paz não dá audiências.

Talvez seja isso que mais incomoda: a ideia de que alguém, em pleno século XXI, ainda insista que pessoas diferentes podem coexistir sem se destruírem mutuamente. É um conceito quase revolucionário, pelo menos à luz de certas práticas políticas contemporâneas.

Num mundo onde tudo parece cada vez mais polarizado, ser católico – ou simplesmente defender a convivência pacífica – tornou-se, de repente, um ato quase subversivo. Quem diria?