A barbárie rende-se estrategicamente. A civilização vence – por enquanto

(Pepe Escobar, in Resistir, 09/04/2026)


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Isto sempre teve a ver com civilização.

“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais voltar”. A história registará isto com um olhar tão impiedoso como o do Sol. Um espantoso selo bárbaro, cortesia do Presidente dos Estados Unidos, através de uma publicação nas redes sociais.

Em suma, esta era uma “civilização” de mau gosto que deu ao mundo o Big Mac, ameaçando aniquilar uma civilização antiga que deu ao mundo a álgebra; influenciou a arte, a ciência e a governação de formas sem paralelo; produziu estrelas desde Ciro, o Grande, a Avicena, de Omar Khayyam ao poeta supremo Jalaladdin Rumi; desenvolveu jardins sublimes, tapetes, maravilhas arquitetónicas e estruturas filosóficas e éticas

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Trump perdeu a guerra para o Irão

(Thomas de Toledo, in Facebook, 08/04/2026, Revisão Estátua.)


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Pronto, Trumpafetivos. O vosso pedófilo de estimação perdeu a Guerra do Irão. Sim, perdeu! Agora tatuem na testa: Trump perdeu a guerra para o Irão!

Trump e Netanyahu conseguiram matar o Ayatolá Khamenei, mas… Seu filho, muito mais linha dura, assumiu sua posição. A parcela da juventude que antes repudiava o regime e que pendia a cultura ocidental, entendeu do pior jeito porque seu país se posiciona contra o imperialismo e agora repensa seu papel. O Irão está muito machucado em sua infraestrutura, mas nada que a China e a Rússia não possam ajudar a resolver.

O regime genocida e teocrático de Israel também apanhou muito. Teve alvos estratégicos destruídos, principalmente aqueles ligados a seu programa nuclear, serviço de inteligência, indústria bélica e produção estratégica. Agora estão cada vez mais longe de um acordo com as monarquias do golfo, que tomaram outra e agora vão levar anos para restaurarem uma imagem de segurança.

Todas as bases militares estadunidenses na região foram destruídas e o Irão exigirá que não sejam reconstruídas. O Hezbollah mostrou que estava muito menos debilitado do que se imaginava e o Iêmen provou que quando precisar, pode muito bem atingir Israel.

Com o bloqueio do estreito de Ormuz pelo Irão, o petróleo passou de $60 a $120 por barril. A inflação explodiu nos Estados Unidos. Trump precisava a todo custo arrumar um pretexto para sair dessa guerra totalmente desnecessária. Depois de passar o dia postando bravatas de que destruiria o Irão, o que ele conseguiu foi um cessar-fogo de duas semanas em troca do Irão reabrir o estreito de Ormuz. Ou seja, voltou à mesma situação de antes da guerra sem conquistar nenhuma vitória.

Em resumo, quando os Estados Unidos e Israel entraram na guerra, estavam inteiros em capacidade militar. O Irão praticamente inviabilizou a presença militar dos Estados Unidos na região ao destruir as bases. Israel está com sua capacidade operacional fortemente abalada a ponto de o Domo de Ferro ter virado peneira.

O Irão está muito destruído, mas venceu no principal: mostrou que tem poder de fogo para dissuadir qualquer aventura imperialista. Os persas têm mísseis e proxies suficientes para se sentarem como crupiês nas novas rodadas de redefinição do mapa político do Oriente Médio.

Nota: Texto em português do Brasil seguindo o original.

A ressurreição de um piloto

(João Gomes, in Facebook, 05/04/2026)


No princípio era o desaparecimento. E o desaparecimento gerou versões. E as versões geraram certezas – absolutas, incompatíveis, irreconciliáveis. Como em toda a boa liturgia da guerra, a verdade não morreu: foi dividida em narrativas.

Num lado do altar, proclama-se o milagre. O piloto – perdido nas areias hostis, envolto em fogo e silêncio – teria sido resgatado. Elevado, quase, das profundezas do território inimigo por uma força invisível, técnica e moralmente superior. Um corpo ferido, mas salvo. Um homem recuperado, como se a vontade bastasse para dobrar o espaço, o tempo e o adversário.

No outro lado, a negação do prodígio. Não houve ressurreição. Apenas destroços. Metal retorcido. Provas tangíveis de queda, não de ascensão. E talvez – sussurrado com calculada ambiguidade – um corpo ainda por reclamar, ainda por capturar, ainda por exibir.

E assim, neste domingo de Páscoa, celebra-se não a verdade da guerra, mas a sua ausência.

A guerra moderna aperfeiçoou aquilo que as religiões antigas apenas ensaiaram: a multiplicação de realidades paralelas. Cada lado com os seus evangelhos. Cada porta-voz com a sua revelação. Cada fotografia, cuidadosamente escolhida, como um fragmento de escritura. Mas há algo de peculiar nesta narrativa.

Durante décadas, o poder que agora proclama o milagre da recuperação habituou o mundo a outra linguagem – não a da dúvida, mas a da inevitabilidade. Falava-se em supremacia total, em domínio absoluto dos céus, em operações cirúrgicas que não falham, em inimigos reduzidos – sem apelo nem retorno – à “idade da pedra”. E, no entanto, aqui estamos.

Um piloto desaparecido torna-se um problema geopolítico. Um resgate alegado exige fé, não evidência. Um ultimato de 48 horas dissolve-se no tempo como incenso ao vento. A superpotência que prometia precisão milimétrica vê-se agora a gerir a incerteza. E, talvez mais grave, a gerir perceção. Porque esta é a essência dos “conceitos informativos” na guerra: não importa apenas o que aconteceu – importa o que pode ser sustentado, repetido, acreditado.

Ora, a verdade operacional é subordinada à verdade narrativa. Se o piloto foi resgatado, por que não o mostraram? Não existiram meios para mostrar uma foto do resgate com tanta tecnologia que destrói silos nucleares? Porque, no fundo, ambas as partes compreendem o mesmo princípio: na guerra, a verdade demasiado cedo pode ser tão perigosa quanto a mentira demasiado tarde.

Os iranianos mostraram fotos de alguns aviões que foram destruídos nas areias do deserto. Afirmaram ser dos que tentavam encontrar o piloto. Entre os que dizem que sim e os que dizem que não, entre o milagre e o destroço, entre a ressurreição anunciada e o silêncio persistente, fica o domingo de Páscoa declaradamente com esse mistério: Talvez o piloto tenha regressado. Talvez não. Mas uma coisa é certa: nesta Páscoa, não é apenas um homem que paira entre morte e redenção.

É a própria credibilidade de quem prometeu que nunca perderia o controlo da narrativa – e que hoje parece incapaz de controlar sequer o desfecho de um único acontecimento. E isso, mais do que qualquer destroço no deserto, é o verdadeiro sinal dos tempos.

Bom domingo de Páscoa!