A MINISTRA ” Pirómana”!

(Joaquim Vassalo Abreu, 16/10/2017)

urbano

Ministra reza para que venha chuva

Rogo-te Costa: demite-a, mas demite-a já, antes que algo ainda de mais macabro aconteça! E ordena que a prendam mesmo. Quinhentos incêndios num só dia? A “gaja” deve ter um exército de jagunços ao seu serviço, só pode ser…

Como pode ser ainda Ministra, até o do lacinho do Expresso, o Nicolau, se interroga, para além de toda uma direita em estado de histeria? Ó Costa: de que estás à espera, pá? Baixa lá o polegar e satisfaz a turba! Imola-a e pronto: fica tudo resolvido, até porque dizem que após muitas rezas e procissões vem aí a chuva…

Mostra lá que tens coragem, meu! E abre-me os olhos: ela é franzina e quando fala parece que lhe vai faltar o ar, de tão débil. Parece! Parece, mas não é! Por detrás daquele ar de quem está prestes a desfalecer, esconde no seu âmago um instinto  cruel e horrível, próprio de uma alma esquizofrénica e sem coração.

Como é que uma pessoa só consegue, ao que dizem porque eu não vi, e também porque a apontam como a única responsável, atear ou mandar atear quinhentos fogos num só dia e em lugares tão díspares e distantes? Tem que ter um exército ao seu dispor!

Sim, porque ela é a responsável pela tragédia, como já o foi em Pedrogão Grande, e assim sábiamente o afirmaram e agora reiteraram a bondosa Cristas e o cristão Abreu Amorim. Ai o que eu disse! Te “arranego” grande satã… Ela tem um Nero dentro dela, eles estão convictos…

Pois é Costa, não te resta outra hipótese senão demiti-la, pede a multidão em estado hipnótico. Tem que haver um culpado, diz ela. Pedras também sobre ela, pecadora impura e ente sem alma, exigem também…

Mas sê audaz e não te fiques por aí: liga ao Rajoy e exige também a demissão do Feijó! É que andam pela Ibéria e por essa Europa fora mais uns quantos orquestrados. Não é que, ao mesmo tempo e no mesmo dia, metade da Europa resolveu arder? Eu até vi um mapa e também imagens da Galiza e pensei que aquilo só em Portugal e tudo isso era apenas prorrogativa nossa! Ledo engano! Afinal têm que mandar demitir o Feijó, o “gajo” da Itália, o da Grécia, o da Roménia e desses países todos, esses os do Sul todos…

E já agora, e também, meu caro Costa: Deixa a Judite e o Ministério Público em paz. Para quê investigarem quem ateou ou mandou atear, num só dia, aqueles fogos todos, se toda essa gente já há muito arranjou um culpado? Eles têm mais que fazer, meu! Acabou o romance do teu ex? Depressa arranjam outro enredo e, alvitro eu, já nele devem estar a arduamente trabalhar…Quem incendearia ou mandou incendiar? Isso é um problema da Ministra e do Governo, ora essa…

Pois pensem bem: Quem comanda a Protecção Civil e nomeia os seus responsáveis? O Governo! Quem contrata os meios aéreos, essa pleiade de helis e granaderos que despejam essa água que tão parca está sobre o fumo? O Governo, pois então! Quem ordena ou ordenou a plantação em massa de eucaliptos, esse ouro verde como dizia o Mira e concordou a Cristas? O Governo, claro. O outro e os outros, está bem, mas este é que está agora e devia era tê-los mandado arrancar…

E as previsões meteorológicas? Falharam e falharam todas. Por exemplo: disseram que já choveria a partir de madrugada e eu só agora, pouco depois das seis da tarde, é que ouvi umas pingas a baterem-se no meu telhado! E os meios humanos, que é como quem diz os Bombeiros? Não há Bombeiros para quinhentos fogos? E se fossem mil, como seria? De quem é a culpa? Do Governo e da Ministra que, perante o sucedido e o que irá certamente suceder, a não ser que a Judite e o MP intervenham, não fizeram uma contratação em massa de novos Bombeiros?

Isso ficaria ainda mais caro que um novo SIRESP, dizem alguns especialistas. Mas quanto custam os incêndios, dizem uma catorzada de outros, principalmente nas redes sociais, tão inocentes e ingénuos?

Eu sei que muitos me vão invectivar do modo mais grosso possível, dizendo-me que não se brinca com coisas sérias. Mas eu direi que é o inverso: é que andam a brincar comigo( e connosco) há já muito tempo e sem eu a a gente se rir…

Porque, e para terminar: há muito quem fale sério só dizendo barbaridades! Eu prefiro dizer banalidades falando sério…

A sério…!

Incêndios: claro que se vai repetir. Durante anos 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/10/2017)

Daniel

Daniel Oliveira

Há uma coisa impossível de explicar a um jornalista. Na realidade, ela pode ser explicada a um jornalista e qualquer jornalista a consegue entender. Mas não a consegue usar no seu trabalho, que exige respostas e soluções simples e tão rápidas como as suas notícias. Essa coisa foi a que António Costa disse ontem: não só não pode garantir que o dia de ontem não se vai repetir como é seguro que, de alguma forma, vai acontecer de novo. O que o jornalista não pode compreender é que a resposta a um problema realmente importante é muitíssimo mais lenta do que o seu trabalho. É como pedir a um pugilista que jogue xadrez. Com luvas. Mas isso não pode determinar as decisões tomadas pelos políticos.

Nesta madrugada vi jornalistas exigir auditorias para que tudo fosse resolvido. Na rapidez da sua indignação e, desconfio, com a mesma inconsequência da sua indignação. Só que, não sei se deram por isso, houve um estudo que fez algum trabalho. Não lhe foi dedicada grande atenção, porque ele exige um domínio técnico do tema que ultrapassa as frases bombásticas e as soluções instantâneas. Só que esse estudo não fala apenas do que aconteceu em Pedrógão. Fala dos problemas circunstanciais e dos problemas estruturais, da prevenção e do combate. E apresenta propostas.

Parte das propostas estão em andamento e delas destaco, antes de tudo, a mais relevante: a reforma da floresta que, infelizmente, o PCP deixou coxa e que se espera que os restantes partidos possam vir a completar. Quanto ao combate aos fogos, há um debate difícil a fazer-se sobre um sistema que se baseia sobretudo no voluntariado. Temos milhares de homens e mulheres que merecem toda a formação para que a sua generosidade se traduza em eficácia. E é hoje evidente que a Proteção Civil tem problemas gravíssimos, provavelmente fruto de nomeações demasiado partidárias, e que precisa de uma limpeza urgente. E que dificilmente será esta ministra, tão fragilizada politicamente, a fazê-la. A demissão da ministra não resultará sobretudo das responsabilidades diretas no que tem acontecido. Resultará da necessidade de ter alguém com autoridade política para fazer o que tem de ser feito. E Constança Urbano de Sousa não tem essa autoridade.

Por fim, há o dia de ontem. E quanto a esse, ninguém com juízo negará que as temperaturas que estamos a sentir quase a meio de outubro são absolutamente excecionais. E que uma década sem incêndios e dois anos de seca fazem o resto. Sobretudo quando parece evidente, pela quantidade inacreditável de ignições, incluindo à noite, que há mão criminosa e que o fenómeno está a atingir proporções só compreensíveis se estivermos perante crime organizado.

Nada, a não ser o refrescamento do Ministério e a limpeza da Proteção Civil, produzirá efeitos brevemente. Tudo o resto, que é o que interessa, precisa de tempo e de um compromisso político alargado durante uma década. Comecemos por ler o relatório publicado pela comissão independente e continuemos completando a reforma da floresta que deu os primeiros passos há uns meses. A ministra não pode ficar? Não. Mas a sua demissão não vai resolver coisa alguma. Costa tem razão: cada incêndio que apagamos é apenas um incêndio que é travado. Os problemas estruturais estão lá todos e, lamentavelmente, não se vão resolver ao ritmo das polémicas mediáticas. Esta é a altura em que os vários atores políticos se entendem e olimpicamente ignoram o ruído dos comentadores e jornalistas. O meu incluído.

Todos os fogos, o fogo

(Por Estátua de Sal, 16/10/2017)

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(O título deste artigo é o de um conhecido livro de contos de Julio Cortázar )

O país está a arder. Está a arder e parece que o fogo não queima só vegetação, casas, haveres, infraestruturas e pessoas. No olhar das televisões o fogo queima o mundo inteiro. Já não há notícias, outras, a não ser aquelas que decorrem das labaredas e dos seus efeitos. Hoje de manhã, queria saber o que se teria passado na Catalunha com o ultimato dado por Rajoy ao Governo catalão, e tive que esperar três horas, e começar por ver referência ao tema apenas em nota de rodapé.

Parece-me que estamos na presença de dois tipos de incendiários: os criminosos e/ou os negligentes que ateiam os fogos, e os incendiários informativos que na comunicação social os empolam e os saboreiam para semear todo um cenário de alarme social no espírito daqueles que nem fumo viram. Assim, todo o espaço informativo passou a transmitir uma narrativa única e uniforme. A realidade passou a ser unívoca e o assunto dominante é pisado e repisado até à náusea.

Foi assim com a demissão de Passos, com o regresso de Santana, com a acusação a Sócrates e agora com os incêndios. Em cada dia elegem um alvo, e mordem a presa, até não lhe restar pinta de sangue. Deixam pois de existir notícias do mundo, e a agenda mediática é dominada por um cinzentismo uniforme, um sensacionalismo de tablóide, vampiresco da desgraça alheia: morreu um bebé no fogo, dois idosos desapareceram, o meu carro ardeu, a minha casa ruiu e fiquei sem nada, e mais, e mais, a desgraça na primeira pessoa.

Há depois as lamúrias acusatórias ao Governo, às autoridades e ao dispositivo no terreno. A culpa é do Costa e sobretudo da ministra, de quem se pede a cabeça, sempre que se ouve um crepitar de chamas. Sim, à força de acharmos que a evolução tecnológica é uma panaceia que permite debelar todos os males do mundo, temos tendência a minimizar o potencial destrutivo das catástrofes naturais que, estamos muito longe de poder antever e dominar. Como se a cabeça da ministra, servida em bandeja, aplacasse a ira do fogo, ou invocasse a vinda miraculosa de uma agulheta gigante que num ápice apagasse as chamas.

É evidente que nada disso se iria passar e que os fogos, depois de ateados, não se apagam com demissões, e os acusadores de serviço sabem bem disso, e todos nós sabemos que eles o sabem. É por isso que só nos resta concluir que na senda das desgraças e das catástrofes há sempre o coro dos que da desgraça vivem e das lágrimas das populações querem beneficiar.

A Direita, arredada que está do poder, toda ela se lambe no crepitar das labaredas, toda ela se empolga para apontar falhas ao Governo, toda ela se lambuza a pedir demissões. É a política da terra queimada: preferem um país destruído e a arder, regado pelas lágrimas das populações, do que existir um país a prosperar e sem catástrofes que não seja governado por eles.

A Direita sempre defendeu e apregoou a desgraça como o berço natural dos mais deserdados, os que não fazem parte dos ungidos por divina ou superior ascendência. A defesa da desigualdade está-lhes no sangue e na genética. E é isso que continuam a propalar aos quatro ventos, os tais ventos que indómitos fazem propagar as chamas em ritmo incontrolável.

Passos queria o diabo, que viria em forma de juros altos, sanções europeias, descontrole orçamental. Costa teve agulheta para tudo isso e Passos engoliu em seco, desistiu e está em vias de fazer penitência por ter invocado o nome de satanás em vão. Mas os prosélitos de Passos aí estão a esfregar as mãos de contentamento: parece que o diabo sempre apareceu. E, fazendo jus à sua fama, trouxe consigo as chamas do inferno.