Milhazes e a comunidade LGBTK, etc, etc

(Tiago Franco, in Facebook, 21/07/2022)

Um dia vamos discutir como o jornalismo monotemático e de massacre 24/7, promove a rock star algumas figuras absolutamente desinteressantes e também labregos em barda. Até esse dia chegar, temos que ir levando suavemente com personagens como este Milhazes, o Carona da Ucrânia.

O Avante tem um mel muito especial porque atrai todo o tipo de pessoas. Quem gosta, quem não gosta, quem um dia gostou e quem nunca gostará. Todos falam, como diria a Lena D’Água, bem ou mal, mas todos falam.

Curiosamente nunca vi uma referência, deste Milhazes ou de outro boneco qualquer, sobre festivais, universidades de verão ou outro evento realizado por partidos políticos. Isto de sermos todos muito democráticos mas marrarmos diariamente no vermelho com pedidos de cancelamento, é uma definição muito própria da coisa inventada pelos gregos.

O PCP não tem culpa do Avante ser de facto a melhor festa organizada por um partido político em Portugal. Embora o ChegaFest tivesse aparecido com toda uma nova roupagem para a música de elevador e a universidade de verão do PSD também ter uma playlist de Vangelis boa. Ou era a do PS? É difícil distingui-los. Mas o ponto aqui é, o discurso de “não sei como o artista X vai ao Avante, uma festa organizada por um partido que apoia o regime Y”, que já me começa a irritar e a trazer um cheirinho a mofo de Santa Comba.

A primeira vem com essa do apoio aos regimes e tal. Vamos lá a ver se nos entendemos, uma coisa são os regimes que a turba diz que o PCP apoia (a Rússia, por exemplo) outra é a realidade. Não é por se repetir muitas vezes uma mentira que ela passa a verdade. E mesmo que o PCP apoiasse a Rússia…que diferença isso faz para a política nacional ou a vida dos portugueses em geral?

Preocupar-me-ia mais se o PCP apoiasse o fim do SNS, da escola pública ou se estivesse metido nos favores à banca. É que isso é que influencia a vida dos portugueses que pagam impostos, não são os regimes estrangeiros num mundo onde Portugal tem o peso de um grão de areia na política externa.

Anda o PCP a levar há 20 anos com a narrativa da Venezuela e bastou os mercados do petróleo ficarem engatados, para os EUA (na voz do Biden) declararem a Venezuela como uma democracia amiga a quem se deve comprar uns barris. Isto depois de ouvir o Macron a dizer que é preciso substituir os russos pelos sauditas. Farto de hipocrisia sobre democracias ando eu!

Andava o Chega a defender o fim do SNS e da escola pública, o PSD a mandar o pessoal emigrar e a aumentar os impostos, o PS a alimentar as PPPs e os bancos, o CDS a rebentar com o parque habitacional e a comprar submarinos e nunca vi ninguém a insurgir-se contra nada que estes estarolas organizassem.

Eu quero lá saber se o partido comunista da Galiza está no Avante ou se os colombianos têm lá uma barraca. Essa merda muda alguma coisa naquilo que é o baixo salário do português, a carga fiscal gigante e os roubos da banca? Não, pois não? Mas as políticas do centrão já nos colocam aí, certo? Então preocupem-se com os regimes estrangeiros quando o nosso for de primeiro mundo.

E agora aparece esta anedota deste Milhazes, a indignar-se em horário nobre porque a Carminho ou o Paulo Bragança vão à festa. É preciso ter uma paciência para este gajo… Já não há nada para dizer sobre vilas ardidas ou hospitais arrasados? O PCP tem que levar com estes gajos durante o Covid, guerras e primeiros de Maio? Que respeito pela democracia é esse quando, abertamente, se prestam ao frete de tentar boicotar a Festa e os seus participantes?

Já agora, duas notas, ó Milhazes. Essa do “não conheço os outros participantes” deve ser porque o Vitorino já é um caso perdido ou porque, lá em casa, só passa Pussy Riot. Mais Riot. Pelo discurso noite após noite, algo me diz que pussy nem tanto.

Elucidou-nos ainda o ex-camarada Milhazes que, a Bia Ferreira, e cito, “é uma destacada representante da comunidade LGBTK, etc, etc e vem à festa de um partido que apoia regimes que perseguem membros dessa comunidade”.

Desde logo Milhazes, tu que estás tão preocupado com a comunidade, explica-me lá, o “K” antes do etc, etc, é de quê? Kings? Kiwis? Kunanis?

Sobre regimes já falámos, é chover no molhado, mas conta-me, por favor, onde é que alguma vez, em Portugal, o PCP teve um discurso discriminatório contra qualquer comunidade. Fosse pela sua orientação sexual, etnia, origem, etc?

É que há de facto um partido (às vezes dois) em Portugal com esse tipo de discurso mas, que me lembre, não ouvi o Milhazes muito indignado por saber que o Rui Bandeira, com um cabelo tão sedoso como o da Carminho, lá ia cantar.

Desejo que a guerra acabe quanto antes para que os ucranianos deixem de ser utilizados num tabuleiro que não é o deles. Mas mentiria se não dissesse que, depois de fechadas as cortinas, não via com bons olhos o regresso do Milhazes ao buraco onde passou os últimos 40 anos. Quase que tenho saudades do Carona e das lágrimas em direto.


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José Milhazes deu início à Festa do Avante!

(Carmo Afonso, in Público, 22/07/2022)

Atuar na Festa do Avante!, ou ir lá, não implica necessariamente ser comunista. É certo que, quem lá vai, não sentirá pelo PCP o repúdio que José Milhazes sente. Não é caso único.


É a maior festa de sempre.

Em que sentido? No sentido da sua duração. A Festa do Avante! tem duas partes: uma que acontece durante três dias na Quinta da Atalaia, no Seixal, e a da luta no espaço público que a antecede. São as duas boas, mas, sem desfazer da primeira, a da luta que precede a festa propriamente dita é extraordinária.

Este ano foi José Milhazes que, na SIC-Notícias, abriu a pista. Afirmou-se surpreendido por existirem artistas dispostos a atuar nos palcos de um evento que, recordou, é político. Mostrou o cartaz do evento, onde se podem ver nomes como Carminho, Paulo Bragança, Paula Oliveira e Ricardo Ribeiro.

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Recordemos que já atuaram no Avante! Camané, Carlos do Carmo, Bernardo Sassetti, Blind Zero, Capicua, Ana Moura, Carlos Paredes, Zeca Afonso, Da Weasel, GNR, Jorge Palma, Madredeus, Trovante, Sérgio Godinho, Xutos e Pontapés e tantos outros. Difícil é encontrar grandes nomes da música em Portugal que não tenham atuado na festa.

O que mudou agora?

Para Milhazes, e não está isolado nessa posição, a festa de um partido com mais de cem anos deve ser cancelada em razão das posições que tem assumido relativamente à invasão da Ucrânia. Os artistas deveriam, na sua ótica, alinhar neste cancelamento ou boicote.

Milhazes lançou os artistas, que figuram no cartaz deste ano, num escrutínio popular que, sabemos, é feroz e intolerante. Estes artistas viram-se assim envolvidos numa discussão na qual provavelmente nunca participaram nem desejaram fazê-lo. Conseguiu o que queria. Muitas pessoas alinharam nessa crítica e na destilação de ódio ao partido e à Festa do Avante!. Outros, em menor número, escolheram defender a festa e a liberdade de ir ou de participar. É oficial: a festa começou.

Atuar na Festa do Avante!, ou ir lá, não implica necessariamente ser comunista. É certo que, quem lá vai, não sentirá pelo PCP o repúdio que José Milhazes sente. Não é caso único. Mais jornalistas, supostamente isentos porque o fazem no exercício desta profissão, continuam a vir a público premir o gatilho contra o partido ou incitar a que outros o façam.

As posições que o PCP defende relativamente à guerra são diferentes das que lhe são atribuídas. Mas adiante – já não é assunto. Sobretudo, não são merecedoras de um apagamento de cem anos de História e de luta ao lado dos trabalhadores portugueses. Disse um amigo que não é comunista: “Portugal não é grande coisa, mas seria muito pior sem o PCP.”

Não gostaria de viver num país onde os artistas se recusassem atuar no Avante!. Seria sinal de tristes tempos. Tenho a convicção que parte dos artistas que aceitou atuar na festa não o fez por concordar com as posições do partido relativamente à guerra na Ucrânia ou tão pouco para marcar presença em prol do fim da precariedade laboral. Ter-se-ão limitado a reconhecer naquele evento um momento de divertimento, convívio e democracia que faz parte do calendário das festividades dos portugueses.

Retirar consequências políticas da presença no cartaz, e num tema tão polarizador como a guerra, não é sério e não é justo. Milhazes quer rebaixar o PCP à categoria de partido repulsivo e faz campanha pública nesse sentido. Sucede que, se fosse bem sucedido nessa demanda, não era a Rússia ou Putin que ficariam a perder; seriam os trabalhadores portugueses, a esquerda de um modo geral e a própria democracia.

Não se deve levar a mal porque estes episódios já são a festa. Aconteceu também no ano passado, mas com a pandemia. Houve o terrível escândalo de se atreverem a realizar o evento e de terem autorização para o efeito. Muita tinta correu. Recorde-se que fizeram tudo de forma organizada e exemplar. E que não houve notícia de qualquer surto. Recorde-se também que havia pessoas de grupos de risco a participar. Ou seja: recorde-se que, no fim, deram uma lição de como fazer as coisas bem feitas.

Já no mês passado, em Tomar, na apresentação do seu livro, respondendo à provocação de poder vir a enriquecer com a venda, Milhazes anunciou que compraria a Quinta da Atalaia. Já queria festa. Nem o Natal se prepara com tanta antecedência.

Alguém deveria informar Milhazes, e seus congéneres, que esta forma de combater o Partido Comunista Português não resulta. Estão a radicalizar quem tiver uma mera simpatia, a chamar para as trincheiras quem só estava a apanhar sol. Sá Carneiro disse algumas boas frases e não tenho nada o costume de as citar, mas aqui não resisto: “A melhor maneira de combater o comunismo é melhorar as condições dos trabalhadores.” Sá Carneiro ao menos sabia qual era – e é – a empreitada do PCP.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


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A hora das verdades

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/09/2020)

1 Agora, que a segunda vaga ou coisa semelhante já começou a abater-se sobre nós, vem aí o grande teste à capacidade de resistência de todos e, em particular, dos serviços de Saúde. Independentemente de não parecer haver ainda uma estratégia clara e preparada para fazer frente a este de há muito esperado novo assalto do coronavírus — e cujo planeamento cabe ao Ministério e à DGS —, começa também a perceber-se que há hospitais, centros de saúde e lares que se estão a preparar por si e outros que estão sentados à espera de receber instruções. É claro que os primeiros se vão aguentar melhor, pois, como canta o Chico Buarque, está provado que quem espera nunca alcança.

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2 E quem, como eu, contestou a realização da Festa do “Avante!”, embora em versão menor, nas circunstâncias actuais, não pode deixar de se espantar revoltadamente com o desplante com que, pela calada da imprensa e de todos, 50 mil peregrinos rumaram a Fátima em 13 de Setembro. E, se isto foi assim numa data que não tem tradição de multidões em Fátima, é de esperar semelhante ou pior a 13 de Outubro, data com abundante tradição de multidões. Eu sei que entre todos os poderes se cozinhou uma lei de excepção à medida dos interesses do PCP e da Igreja Católica, de forma a deixar de fora as respectivas celebrações litúrgicas. Mas há que ter algum respeito por todos nós, todos os outros que acreditam mais na ciência do que na fé e a quem todos os dias é repetido que depende do comportamento colectivo a salvaguarda de todos. Ouvir a directora-geral da Saúde dizer simplesmente “não creio” e “não é expectável” que, nestas circunstâncias, se voltem a reunir 50 mil pessoas em Fátima só pode ser um acto de fé peregrina. Anda a polícia a dispersar ajuntamentos de 15 jovens e depois vemos uma multidão de dezenas de milhares a acotovelarem-se, abençoados por uma lei de excepção e protegidos pelo temor reverencial dos políticos!

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

3 De visita ao Parlamento, o presidente do Novo Banco logo seguido pelo seu financiador encartado — o presidente do Fundo de Resolução — desembaraçaram-se, sem problemas de maior, das perguntas que uns impreparados deputados lhes quiseram fazer. É sabido, ou devia ser sabido de há muito, que os banqueiros falam uma língua diferente, que requer intérpretes qualificados e isentos e algum conhecimento daquele mundo opaco em que é tão fácil fazer passar o inexplicável pela coisa mais natural do mundo — do mundo deles. Assim, enquanto António Ramalho se limitou a justificar os inabaláveis prejuízos anuais do banco — cuja conta final há-de reverter sobre os contribuintes — com a descoberta de que os activos do “banco bom”, afinal, não valiam nada e por isso é que têm vindo a ser vendidos a preços de estarrecer, já Luís Máximo dos Santos, o supervisor das operações, declarou não ser o Sherlock Holmes para saber a quem são vendidos os activos do NB, nomeadamente, se a partes relacionadas com os seus próprios accionistas — questão esta que, como é fácil de perceber, está longe de ser despicienda. E, ao contrário do que o próprio NB faz com os seus activos, livrando-se deles a qualquer preço, numa estratégia definida como de cut loss ou “limpeza”, já ele recomenda vivamente que o Estado não se atreva a fazer o mesmo com o NB, antes pelo contrário — que continue a pagar tudo até ao fim.

Após dois dias de “esclarecimentos”, eu, que não percebo nada de banca, juntei apenas mais uma perplexidade à minha ignorância: então o NB perde dinheiro porque o património que herdou do defunto BES — casas, terrenos, fábricas — valia, afinal, muito pouco? Mas é essa a actividade principal de um banco — vender património dos clientes falidos? E, quando ele acabar, viverá de quê?

4 É perfeitamente adequada e justa a proposta de Rui Rio de mudar o Tribunal Constitucional (TC) e o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) para Coimbra. Seria um passo concreto no sentido da tão falada descentralização, apoiada da boca para fora por todos. Porém, a fraqueza da proposta está na sua justificação: porque, diz ele, grande parte ou a maior parte dos juízes do TC e do STJ são de Coimbra, a “cidade dos doutores”. Logo, haveria menos um obstáculo a considerar, que seria o incómodo pessoal para os venerandos conselheiros. E, assim o justificando, Rui Rio, sem querer, põe o dedo na ferida: é aqui que reside justamente a grande resistência à descentralização administrativa do país. O que mexe o Estado português raramente são os seus interesses próprios, o interesse público que ele devia servir, mas sim os interesses particulares dos que o servem. No caso concreto, os funcionários do Estado não estão onde interessa ao Estado que eles estejam, mas onde lhes interessa a eles estar. Por isso é que, entre os muitos exemplos que se poderia arrolar, os médicos, com lugar garantido no Estado, não querem ir para o Algarve, ainda que com condições melhores do que na Grande Lisboa ou no Grande Porto e ainda que o Algarve não seja propriamente um lugar desagradável para se viver e trabalhar.

Nunca mais me esqueci de uma frase inspirada de Jorge Sampaio quando era presidente da Câmara de Lisboa e tropeçou numa discussão sobre o “centralismo do Terreiro do Paço”, enfrentando os argumentos habituais: que tudo tinha de passar por Lisboa e pelo Terreiro do Paço, sede omnipresente de todo o poder, de que Lisboa não abria mão nem por nada… E Jorge Sampaio, então a contas com o desespero de não conseguir convencer nenhum ministério a desamparar a praça mais bonita de Lisboa, abriu os braços e respondeu: “Mas querem levar daqui o Terreiro do Paço? Por favor, levem-no!”

Não é só o TC e o STJ que poderiam, sem prejuízo algum do interesse público, ser deslocados de Lisboa ou outros organismos do Estado serem igualmente deslocados do Porto. Já não estamos no tempo da mala-posta ou sequer da “carreira” — embora, de facto, em termos ferroviários, ainda estejamos no dealbar do século XX, graças à grande visão estratégica de sucessivos governos e governantes. Mas temos as tais auto-estradas, a internet, as videoconferências e agora a moda do teletrabalho. Não falando de ministérios, são inúmeros os organismos do Estado que poderiam e deveriam ser deslocados para cidades de média dimensão, cidades universitárias, cidades com pólos industriais e infraestruturas capazes: secretarias de Estado, direcções-gerais, institutos, juntas, laboratórios, oficinas e por aí fora. E porque é que não são? Porque quem lá está não se quer mudar — lembrem-se da humilhantemente falhada tentativa de mudar o Infarmed de Lisboa para… o Porto. Eu sei que os funcionários têm direitos que não podem ser ignorados e que há vidas estabelecidas num local que não podem ser mudadas sem transtorno. Mas esse não é um obstáculo intransponível, há maneiras de o contornar, desde que haja vontade política de o fazer. Desde que haja verdadeira vontade de descentralizar o país — o que eu duvido.

A Administração Pública portuguesa está montada de forma em que a ascensão profissional arrasta os funcionários para onde está o poder — para Lisboa, sobretudo, e, em parte remanescente, para o Porto, com os casos à parte das administrações regionais. Para subir na pirâmide é preciso ir-se aproximando de Lisboa e do Porto — e, uma vez lá chegado, ninguém quer voltar à terrinha, nem que seja como chefe. E, para tornar o sistema inexpugnável, o mesmo esquema é reproduzido dentro da estrutura dos partidos do poder, que gerações de nomeações partidárias tornaram a espinha dorsal dos quadros superiores da Função Pública. Uns e outros confundem-se e não querem arredar o pé de onde estão. É por isso — e apenas por isso, não se iludam — que PS, PSD e PCP (que ocupa o que resta do poder do Estado) congeminaram a tal regionalização, um embuste vendido ao país como a única “descentralização” possível.

Não é verdade, é uma grossa mentira. Descentralizar é, de facto, aquilo que Rio propõe agora, embora em versão minimalista: deslocar centros de poder. E não só: como disse Mao, não basta dar uma cana de pesca a quem tem fome, é preciso também ensiná-lo a pescar. Dar força a uma região, dar-lhe futuro, é transferir para lá centros de poder e centros de criação de riqueza: empresas, universidades, centros de investigação e capital humano qualificado. Mas não é isso que os regionalistas querem fazer. O que eles querem fazer é dar ocupação aos seus quadros partidários que não encontram lugar no Terreiro do Paço ou na Avenida dos Aliados — por isso é que o mesmo Rio e Costa já trataram de escolher entre ambos os presidentes das Comissões de Coordenação Regio­nal (embrião das sonhadas regiões) que supostamente serão depois “eleitos” pelos autarcas. Eles querem dar-lhes uma legitimidade política própria e autónoma que servirá para criar problemas onde eles não existem e, a seguir, despejar-lhes sacos de dinheiro, com o qual não saberão o que fazer. Já vimos este filme no passado: acaba mal.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia